29 de outubro de 2015

Vinte

Na manhã do dia seguinte, enquanto me arrumo para a escola, Riley (que hoje veio fantasiada de Mulher Maravilha) empoleira-se na cômoda e começa a revelar uma série de segredos das celebridades que ela anda espionando. Cansada de bisbilhotar a vida de nossos velhos amigos e vizinhos, ela agora direcionou sua mira para Hollywood e vem fazendo um trabalho bem melhor que qualquer uma dessas revistas de fofocas que povoam as bancas de jornal.
— Mentira! — Olho surpresa pra ela. — Caramba! Miles vai pirar quando souber!
— Você não faz ideia — diz Riley, balançando a cabeleira preta com uma expressão de tédio, como se já tivesse visto mais, muito mais do que devia. — Nada é o que parece. Sério. Tudo é uma grande ilusão, como os filmes que eles fazem. Pode acreditar, esses assessores de imprensa têm de fazer mágica pra manter tanta sujeira em segredo.
— Quem mais você espiou? — pergunto, já me coçando de curiosidade. Por que não pensei nisso antes? Por que nunca me ocorreu sintonizar a energia das celebridades enquanto estou vendo TV ou folheando uma revista? — E aquela história sobre...
Estou prestes a perguntar sobre os boatos que andam circulando sobre minha atriz predileta quando Sabine coloca a cabeça para dentro do quarto e diz:
— História? Que história?
Olho rapidamente para Riley, que se dobra na cômoda de tanto rir, e solto um pigarro antes de dizer:
— Hmm, nada. Eu não disse nada.
Sabine me olha de um jeito esquisito. Riley balança a cabeça, inconformada, e diz:
— Muito bom, Ever. Bem convincente.
— Você precisa de alguma coisa? — pergunto a Sabine, dando as costas para Riley e me concentrando no verdadeiro motivo para a visitinha de minha tia: ela foi convidada para passar o fim de semana fora e não sabe como me dar a notícia.
Sabine entra no quarto, postura ereta demais, passos firmes ao caminhar, depois respira fundo e senta na beira da cama, nervosamente enroscando um fio solto da colcha azul enquanto procura a melhor maneira de iniciar o assunto.
— Jeff me convidou para passar o fim de semana fora — diz finalmente. Mas achei que devia falar sobre isso com você antes.
— Quem é Jeff? — pergunto, virando o rosto na direção dela enquanto coloco os brincos. Sei muito bem quem é esse Jeff, mas achei prudente perguntar.
— Você o conheceu na festa. Ele veio de Frankenstein. — Sabine levanta os olhos para mim, tomada de culpa, sentindo-se a pior das criaturas, um péssimo exemplo. Sua aura, no entanto, resplandece de tão rosa, de tanta alegria.
Vou colocando vários livros na mochila, ganhando tempo enquanto decido o que falar.
Por um lado, o tal Jeff nem de longe é a pessoa que diz ser. Por outro, a julgar pelo que vejo, ele realmente gosta dela e não representa perigo algum. Poxa, faz tempo que não vejo minha tia tão feliz assim. Não tenho coragem de contar toda a verdade a ela. Além do mais, o que eu poderia dizer?
Olha, esse tal de Jeff.. o banqueiro milionário... não é exatamente quem ele diz ser. Na verdade, ainda mora com a mamãezinha dele! Só não me pergunte como fiquei sabendo disso. Mas confie em mim, eu sei.
Não. Não dá. Além disso, os relacionamentos têm um mecanismo todo próprio, cada passo acaba rolando em seu devido tempo. Eu mesma tenho lá minhas questões para resolver. Tipo assim, agora que meu relacionamento com Damen está começando a se estabilizar, agora que estamos mais próximos um do outro, mais parecidos com um casal de verdade, tenho pensado se já não é hora de parar com o jogo duro e dar o passo seguinte. E com a Sabine fora de casa por dois dias... bem, talvez uma oportunidade como essa custe a pintar outra vez.
— Vá, sim, tia! Divirta-se um pouco! — digo finalmente, convencida de que cedo ou tarde ela mesma vai descobrir toda a verdade e tocar a vida adiante.
Ela abre um sorriso, tanto pela felicidade quanto pelo alívio. Depois, levanta da cama e vai para a porta do quarto, mas para antes de sair.
— Vamos viajar hoje, depois do trabalho — diz. —Jeff tem uma casa em Palm Springs, a menos de duas horas daqui. Portanto, se você precisar de alguma coisa, não estaremos muito longe.
Errata: é a mãe dele quem tem uma casa em Palm Springs.
— Vamos voltar no domingo. Olhe, se você quiser receber seus amigos aqui, tudo bem, a não ser que... será que a gente precisa ter aquela conversinha?
Congelo, pois sei exatamente aonde minha tia quer chegar com essa tal “conversinha”. Parece até que leu meus pensamentos. Mas depois percebo que ela está apenas tentando ser responsável e cumprir com o papel de “mãe”.
— Não, tia, não será necessário — respondo, fazendo que não com a cabeça. — Estou ligada, pode confiar.
Então pego minha mochila e reviro os olhos quando vejo Riley dançando em cima da cômoda, cantando aos berros:
— Fes-ta! Fes-ta! Fes-ta!
Sabine, por sua vez, parece tão aliviada quanto eu por não ter de passar pela “conversinha” do sexo.
— A gente se vê no domingo, então — ela diz.
— A gente se vê no domingo.

— Juro por Deus, ele joga no seu time — digo, entrando no estacionamento e já sentindo o calorzinho do olhar de Damen muito antes de vê-lo.
— Eu sabia! — exclama Miles. — Eu sabia que ele era gay. Estava na cara! Como foi que você ficou sabendo?
Opa. Não posso divulgar minha verdadeira fonte, confessar que minha irmãzinha morta agora é a mais eficaz de todos os paparazzi de Hollywood.
— Nem lembro mais — respondo e desço do carro. — Só sei que é verdade.
— O que é verdade? — Damen pergunta sorrindo, aproximando-se para beijar minha bochecha.
— Jo... — começa Miles.
Mas não deixo que ele termine, não quero mostrar meu lado fútil, aquele que é obcecado pela vida de celebridades, assim tão cedo em nossa história.
— Não é nada. É que... você sabia que o Miles ganhou o papel de Tracy Turnblad em Hairspray? — pergunto e começo a tagarelar um longo discurso sobre o assunto, despejando frases sem nenhum sentido, até que Miles se despede de nós e vai para sua aula.
Assim que ele se afasta, Damen para e diz:
— Escute só, tenho uma ideia melhor. Que tal a gente comer alguma coisa por aí?
Lanço um olhar de “Ficou maluco?” na direção dele e continuo andando, mas não vou muito longe, pois logo ele me alcança e me puxa pela mão.
— Ah, vamos. — Damen dá uma de suas risadas contagiantes, os olhos fixos nos meus.
— Não vai dar — sussurro e olho aflita ao redor, sabendo que se demorarmos mais um segundo vamos chegar atrasados. — Além disso, já tomei meu café.
— Ever, por favor! — Ele fica de joelhos, olha para mim suplicante e junta as mãos como se fosse rezar. — Se você tiver um pingo de consideração pela minha pessoa, por favor, não me faça entrar neste lugar!
Mordo os lábios, tentando não rir. Jamais poderia imaginar que um dia veria meu namorado, sempre tão lindo, elegante e sofisticado, suplicando de joelhos. Apesar disso, faço que não com a cabeça e digo:
— Ande, levante daí porque o sinal já vai... — E o sinal toca antes mesmo de eu terminar a frase.
Sorrindo, Damen fica de pé, limpa as calças e, me abraçando pela cintura, afirma:
— É como dizem: “melhor faltar à aula que chegar atrasado.”
— Quem diz? Isso parece você falando.
— Pode ser. — Ele dá de ombros. — Mas tenho uma certeza: há um milhão de coisas mais interessantes que a gente pode fazer numa manhã como esta. Poxa, Ever — ele aperta minha mão —, você sabe que a gente não precisa ir à aula hoje. E você não precisa vestir nada disto. — Damen retira meus óculos e baixa o capuz do moletom. — Porque o fim de semana começa agora!
Apesar de todos os motivos que tenho para não faltar à aula, por que o fim de semana precisa esperar até depois das três da tarde, como em todas as sextas-feiras, quando se tem o olhar de Damen, tão profundo e convidativo? Não penso duas vezes, imediatamente entro na onda dele.
E mal reconheço minha própria voz ao dizer:
— Depressa, antes que tranquem o portão.
Vamos em carros separados. Embora não tenhamos combinado nada, é óbvio que não temos hora para voltar. Seguindo Damen pelo sem-fim de curvas do litoral, não posso deixar de ficar maravilhada com a paisagem à volta: o branco ofuscante das praias, o azul profundo do mar. Meu coração se dilata de gratidão, e me sinto sortuda por morar aqui, por ter este lugar maravilhoso como lar. Mas quando me lembro do porquê de vir parar aqui... tudo muda de figura.
A certa altura Damen entra num pequeno estacionamento à direita e eu paro na vaga ao lado da dele, sorrindo ao vê-lo descer para abrir minha porta.
— Já esteve aqui antes? — ele pergunta.
Olho para um casebre de ripas brancas, à nossa frente, e faço que não com a cabeça.
— Sei que você não está com fome, mas os shakes deste lugar são os melhores do mundo. Você não pode deixar de experimentar o de tâmara com malte, ou o de chocolate com pasta de amendoim, ou os dois, se quiser. É por minha conta.
— Milk-shake de tâmara? Sei não. Me parece ruim...
Damen ri e me puxa rumo ao balcão. Pede um de cada sabor e, quando eles chegam, sentamos num banco de madeira azul e ficamos ali, admirando o mar.
— Então, de qual você gostou mais? — ele pergunta.
Novamente experimento um e outro; ambos são tão cremosos que retiro a tampa dos copos para comer de colher.
— Os dois são ótimos. Mas, pra minha surpresa, acho que o de tâmara é melhor. — Passo os copos para Damen experimentar também, mas ele faz que não com a cabeça e os devolve sem dar um único gole. Mais uma de suas esquisitices para cima de mim.
Quer dizer, não são apenas os truques de mágica, nem os sumiços ocasionais. Além de tudo, o garoto nunca come.
No entanto, tão logo isso me passa pela cabeça, Damen pega um canudinho e dá um longo gole num dos shakes. Depois beija meu rosto com os lábios gelados.
— Que tal se a gente descer para a praia? — sugere.
Ele me pega pela mão e seguimos por uma trilha no mato, ombro a ombro, trocando os shakes de vez em quando, muito embora seja eu quem beba na maior parte do tempo.
Chegando à areia, tiramos os sapatos, dobramos a bainha das calças e caminhamos à beira-mar, sentindo a água gélida nos pés e nos tornozelos.
— Você surfa? — pergunta Damen a certa altura, depois recolhe meu copo vazio e o guarda dentro do outro.
— Não, não surfo — respondo, escalando um monte de pedras.
— Quer uma aula? — E sorri.
— Nesta água fria? Não, muito obrigada.
Chegamos a uma pequena enseada de areia seca e quentinha, um alívio para meus pés já dormentes e azuis de tanto frio.
— Tenho roupas de neoprene — insiste Damen.
— São forradas de pele? — brinco, alisando a areia com os pés, deixando uma área plana para que a gente possa sentar.
Mas Damen novamente me puxa pela mão e me leva para o outro lado, das piscinas naturais, até que chegamos a uma caverna natural, escondida.
— Nunca soube da existência deste lugar — digo, admirando as paredes de rocha lisinha, a areia recentemente varrida, as toalhas e pranchas de surfe empilhadas num dos cantos.
— Ninguém sabe — ele diz, sorrindo. — Por isso minhas coisas ainda estão aqui. Elas se confundem com as pedras, a maioria das pessoas passa direto e nada vê. Se bem que a maioria das pessoas passa direto pela vida sem enxergar um palmo diante do nariz.
— E você, como foi que encontrou este lugar? — pergunto, sentando-me no cobertor verde que Damen abriu no meio da caverna.
— Sei lá. — Ele dá de ombros. —Acho que não sou como a maioria das pessoas.
Ele se deita a meu lado e insiste para que eu me deite também. Em seguida, com a cabeça apoiada na palma da mão, fica me olhando por tanto tempo que me deixa sem graça.
— Por que você se esconde nesses jeans largões e nesses moletons com capuz? — sussurra, acariciando meu rosto, colocando meus cabelos pra trás de minhas orelhas. — Você não faz ideia de como é linda, faz?
Franzo os lábios e desvio o olhar, gostando do que sinto ao ouvir essas palavras. Mas não quero prosseguir no assunto, não estou nem um pouco disposta a me explicar, a expor as razões que tenho para ser do jeito que sou. Claro que Damen preferiria mil vezes a Ever que fui um dia, mas agora é tarde. Essa Ever morreu, e me deixou no lugar dela.
Uma lágrima brota em meus olhos, e eu tento virar para escondê-la de Damen. Mas ele me segura firme, sem me deixar mexer, e seca minha tristeza com os próprios lábios, depois me beija.
— Ever... — sussurra, a voz grave, os olhos brilhantes. Em seguida se reacomoda no cobertor e deixa o corpo pesar sobre o meu, esquentando-me confortavelmente, logo me deixando com calor.
Corro os lábios pela face dele, pelas linhas retas do queixo, ofegando quando nossos quadris começam a se buscar, deixando vir à tona todos os desejos e sentimentos que tanto lutei para reprimir. Mas estou cansada de lutar, de me conter. Quero apenas ser normal outra vez. E o que haveria de mais normal do que isto?
Damen tira meu moletom, e eu fecho os olhos, cedendo, entregando-me, permitindo que ele desabotoe meus jeans e os tire também. Assentindo no toque firme de suas mãos, na pressão dos dedos, dizendo a mim mesma que esse maravilhoso turbilhão de sensações em meu peito só pode ser um sentimento: Amor.
Mas quando sinto o polegar dele sob o elástico de minha calcinha, prestes a baixá-la, levanto-me rapidamente e o afasto de mim. Meio a contragosto, porque na verdade quero ir adiante e dar mais esse passo em nossa relação. Mas não aqui, não agora e não desta maneira.
— Ever... — sussurra Damen, os olhos buscando os meus. Apenas faço que não com a cabeça e viro para o lado, sentindo o calorzinho gostoso desse corpo perfeito que se enrosca ao meu, os lábios em meu ouvido, dizendo: — Tudo bem. Não tem problema. Juro. Agora, durma um pouquinho.

— Damen? — Acordo assustada, espremendo as pálpebras para enxergar melhor na penumbra, tateando o espaço vazio a meu lado várias vezes, até me convencer de que realmente estou sozinha. — Damen? — chamo de novo, os olhos correndo pela caverna, mas a única resposta que recebo é o barulhinho distante das ondas que quebram.
Visto o moletom e saio cambaleando para a praia. Sob a luz rosada do crepúsculo, procuro por Damen de uma ponta a outra. Mas não o encontro. Voltando à caverna, deparo com o bilhete que ele deixou sobre minha mochila:

Fui surfar. Volto logo. — D

Ainda com o papel na mão, corro de volta à praia e esquadrinho o mar em busca de surfistas, sobretudo do meu surfista. Mas vejo apenas dois vultos distantes, tão louros e pálidos que jamais poderiam ser Damen.

10 comentários:

  1. Quase...Quase Ever! Kk numa caverninha na praia, bom seria legal, pq é na praia kk, Ever...Vcs são paixões de outras vidas

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  2. "— Ever, por favor! — Ele fica de joelhos, olha para mim suplicante e junta as mãos como se fosse rezar. — Se você tiver um pingo de consideração pela minha pessoa, por favor, não me faça entrar neste lugar!" awn fofos

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  3. Pq serah q ele detesta tanto a escola?

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  4. Kkkkk eu tinha deixado ele continuar com certeza kkkk se eles se amam vá em frente quirida nem liga se for vampiro,lobisomem,zumbi,demonio, kkkk *------*

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  5. Será que ele tem o poder de controlar mente? Por isso consegue tudo que quer?
    Estou louca pra saber agora...

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  6. damen.... danadinhoo, rsrs
    acho que a autora meio que se inspirou em damon de TVD, HAHAHAHA

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