31 de outubro de 2015

Vinte e um

Eu olho para o monitor, certificando-se de que Jude saiu antes de tomar o assento atrás da mesa e olhar para a pilha de cristais. Conhecer o livro apenas não era suficiente, os cristais precisam ser manipulados para serem compreendidos. Mas quando eu pego uma grande rocha vermelha marcada por listras amarelas, meu joelho bate contra o lado da mesa, e meu corpo inteiro estremece e fica quente, um sinal claro de que há algo que necessita de minha atenção.
Empurro a cadeira para trás e me inclino para frente, olhando por debaixo da mesa, notando como cresce essa sensação ficando mais forte enquanto me inclino mais para baixo. Seguindo o sentimento até que escorrego de minha cadeira e caio ao chão, procurando provas da fonte da sensação. As pontas de meus dedos adquirem um calor insuportável no segundo em que toco a parte inferior da gaveta esquerda.
Apoio em meus braços, fixando os olhos na fechadura de bronze antiga, o tipo de elemento dissuasivo, destinado a manter gente honrada e honesta, protegida e dissuadir os que como eu sabem dirigir a energia. Fecho meus olhos para poder abrir a gaveta e só encontro um monte de arquivos entulhando-a, uma velha calculadora e uma pilha de velhos e amarelados recibos. Justo quando ia fechá-la sinto o fundo falso debaixo dela.
Tiro os papéis e os coloco a de lado antes de levantar a escotilha e deixar exposto um livro velho e gasto, encadernado com couro. Suas páginas enroscadas e desgastadas como um pergaminho antigo perdido e as palavras “Livro das Sombras” impressas na frente.
Coloco-o na mesa de frente pra mim. Depois me sento e o olho. Me perguntando por que alguém se preocuparia em manter este livro oculto – e de quem?
Lina o esconde de Jude? Ou é o contrário?
E como só há uma forma de descobrir, fecho meus olhos e pressiono minha palma na frente, planejando lê-lo até que sou golpeada por uma onda de energia tão frenética, tão caótica... meus ossos praticamente estalam e rangem.
Sou lançada para trás, minha cadeira se choca contra a parede com tal força que deixa um oco enorme. Restos de imagens aleatórias tremendo diante de mim, e sei muito bem por que estava oculto. É um livro de bruxaria e feitiços, adivinhações e encantamentos, contendo potentes poderes que seriam totalmente catastróficos em mãos equivocadas.
Contenho o fôlego e olho a capa, me acalmando antes de folheá-lo. Meus dedos contraídos, tocando as bordas, enquanto olho com atenção a letra em itálico que, de tão pequena torna-se quase impossível de decifrar. A maior parte das páginas são inscrições com todo tipo de símbolos, que me recordam as notas alquímicas do pai de Damen, cuidadosamente escritas em código, para proteger os segredos de seu interior.
Folhei-o até a metade, vendo um bom e detalhado desenho de um grupo de gente dançando sob a lua cheia, seguidos por pessoas dedicadas a rituais. Meus dedos voam por cima do velho papel áspero e de repente até os meus ossos sabiam que não se tratava de nenhuma coincidência. Eu estava destinada a encontrar este livro.
Exatamente como Roman hipnotizou meus colegas de classe e os pôs sob seu feitiço, tudo o que eu tinha que fazer era descobrir o encantamento para convencê-lo a me dar a informação que necessito!
Mudo de página, desejosa de encontrar a resposta, então o sino da porta da loja soa e olho o monitor para conferir. Disposta a deixar o freguês lá esperando até desistir. Vendo como a pequena figura, magra e branca anda pela loja, olhando nervosamente por cima do ombro, como se esperasse encontrar alguém ali. E assim como espero que ela vá embora, ela vai direto para o balcão, coloca as mãos no copo e espera pacientemente.
Genial. Me levanto da mesa. Exatamente o que eu precisava... um cliente. Digo: “Posso lhe ajudar?” antes de ter a oportunidade de me aproximar e ver que é Honor.
No segundo que me vê ela ofega, seu queixo cai, os olhos muito abertos, parecendo quase assustada? Nós duas olhando-nos boquiabertas, nos perguntando o que devemos fazer.
― Hum, você precisa de alguma coisa? — Digo, a voz soando com mais confiança do que sinto, enquanto penso que na realidade estou no comando aqui. Vejo que seu cabelo comprido e escuro, recebeu adição de luzes cor cobre brilhante, me dando conta que nunca a havia visto sozinha. Nenhuma só vez a tinha enfrentado, só nós duas, sem a Stacia ou Craig.
Minha mente ocupada com o livro que deixei sobre a mesa do escritório, ao qual preciso retornar imediatamente, esperando que seja o que ela queira pedir, peça rápido.
― Talvez tenha entrado em um lugar errado. — Endireita os ombros, girando um anel de prata de um lado a outro enquanto suas bochechas ficam coradas. ― Penso que, eu... — gagueja e olha para a porta, enquanto diz, ― Creio que cometi um engano, tenho que ir.
Vejo como ela se vira, sua aura resplandece trêmula e cinza enquanto se dirige para a porta. E embora não queira fazê-lo, embora saiba que tenho uma vida pela frente com problemas por resolver, um livro ler, digo:
― Não está enganada. — Ela se detém, seus ombros cansados, sentindo-se pequena e diminuta sem a ajuda de sua amiga. ― Sério. — adiciono. Você quis vir aqui. E quem sabe? Talvez eu possa ajudar.
Ela respira fundo, detendo-se por muito tempo e quando estou a ponto de voltar a falar ela se vira.
― Há um rapaz. — Agarra-se a prega de sua bermuda e me olha.
―Jude. — Percebendo sua resposta sem necessidade de ler seus pensamentos ou tocar sua pele, só sabendo-o quando meus olhos se encontram com os seus.
― Sim, hum, suponho. De qualquer forma, eu... — sacode sua cabeça e começa de novo. ― Bom, só me perguntava se ele estaria aqui. Ele me deu isto. — Ela tira um pedaço de papel enrugado de seu bolso e o estica no vidro, alisando as dobras enquanto se concentra em mim.
― Ele não está aqui — murmuro, meus olhos observando o folheto de publicidade de sua turma de desenvolvimento psíquico nível 1, pensando que não ele não perdia tempo. ― Quer deixar um recado? Ou se matricular? — Estudo-a cuidadosamente, nunca antes tinha visto-a tão envergonhada e incomodada, girando o anel. Seus olhos movendo-se rapidamente, os joelhos tremendo e sei que é por minha culpa.
Ela encolhe os ombros, seu olhar fixo no balcão como se tivesse fascinada pelas joias.
― Não, não lhe diga nada. Retornarei em outro momento. — Ela respira fundo e endireita seus ombros, tentando retornar a sua repulsão usual reservada para mim, mas falhando miseravelmente.
E embora pense que uma parte de mim quer acalmá-la, tranquilizá-la, convencê-la de que não há realmente nenhuma razão para agir assim, não faço isso. Acabo por deixá-la ir, me assegurando de que a porta se feche atrás dela antes de voltar ao livro.

2 comentários:

  1. Honor é aquele tipo de personagem que tem um nome mas nenhuma participação importante no livro, tipo uma semi-figurante.

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  2. Além de ser egoísta, burra e ciumenta, só falta ela se tornar obcecada por um livro.

    Que bonito.

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Boa leitura! E SEM SPOILER!