29 de outubro de 2015

Vinte e um

Quando entro em minha rua, fico surpresa ao avistar alguém nos degraus da porta de entrada; quando chego mais perto de casa, porém, fico mais surpresa ainda ao constatar que esse alguém é Riley.
— E aí? — digo, pegando a mochila e batendo a porta do carro um pouquinho mais forte do que o necessário.
— Calma! — ela diz, encarando-me. — Achei que você fosse me atropelar!
— Desculpa, achei que fosse o Damen — explico, já entrando no hall.
— Xiii... O que foi que ele aprontou desta vez? — ela brinca.
Não me dou o trabalho de responder e destranco a porta. Não vou entregar o ouro tão fácil assim.
— O que houve? — pergunto, levando Riley para dentro. — Você se trancou do lado de fora?
— Engraçadinha... — Riley revira os olhos, vai para a cozinha e se acomoda em um dos bancos altos da bancada.
Jogo minha mochila sobre a mesa e, vasculhando a geladeira, pergunto:
— Que bicho mordeu você hoje? — Olho para Riley, imaginando um motivo para ela estar tão quieta, pensando que talvez meu mau humor seja contagioso.
— Bicho nenhum — ela responde, olhando fixamente para mim, o queixo plantado entre as mãos.
— Não é o que parece. — Em vez do pote de sorvete que realmente quero, pego uma garrafa de água e me recosto na bancada de granito. Só então reparo no estado em que Riley se encontra: a fantasia de Mulher Maravilha toda amarrotada, a cabeleira preta toda embaraçada.
— Então, o que você pretende fazer? — Riley muda de assunto. Está de tal modo inclinada no banco que ameaça cair e se machucar a qualquer instante. Não que isso possa acontecer, claro. — Quer dizer, esse é o sonho de qualquer adolescente, não é? A casa só pra você, ninguém pra vigiar... — Em seguida mexe as sobrancelhas de um jeito malicioso, mas ao mesmo tempo forçado, como se quisesse disfarçar seu real estado de espírito.
Dou um gole na água, sem saber ao certo o que dizer. Chego a pensar em me abrir com ela e tirar dos ombros o peso de todos os meus segredos: os bons, os ruins e os absolutamente revoltantes. Seria ótimo se eu pudesse me aliviar um pouco, dividir com alguém esse fardo que até agora venho carregando sozinha. Mas olhando para Riley lembro que ela passou boa parte da vida esperando para completar treze anos, vendo cada ano que passava como um a menos para chegar à importante adolescência. Talvez por isso ainda esteja aqui. Não teve a chance de realizar seu sonho em vida, por minha culpa, e agora só lhe resta uma alternativa: fazê-lo através de mim.
— Bem, sinto muito desapontá-la — respondo afinal. — Mas a essa altura você já sabe o fracasso que sou no quesito sonhos de adolescência. — Olho para Riley timidamente e fico vermelha quando ela sacode a cabeça, concordando. — Quando a gente morava no Oregon eu mandava bem à beça, não mandava? Tinha um monte de amigos... Um namorado... Era chefe de torcida! Pois é. Tudo isso ficou pra trás. Acabou. J-Á E-R-A. Agora, os dois amigos que consegui fazer em Bay View estão brigados, o que significa que raramente falam comigo. E mesmo que, por razões totalmente inexplicáveis, por obra de um verdadeiro milagre, eu tenha tido a sorte de descolar um namorado lindo, gostoso e tudo mais... bem, na verdade nem tudo está como deveria ser. Tipo assim, quando ele não age estranhamente ou quando não some sem dar explicação, evaporando no ar, ele tenta me sequestrar da aula e me levar pra algum lugar. Para apostar em cavalos de corrida, passeios absurdos assim. Sei não, acho que ele é má influência. — De repente percebo, tarde demais, que falei muito mais do que devia.
Mas quando olho para Riley novamente, vejo que ela nem mesmo está ouvindo: apenas encara a bancada enquanto passeia o indicador pelos desenhos do granito, a cabeça claramente em outro lugar.
— Olha, promete que não vai ficar brava comigo? — diz, afinal, com olhos tão arregalados e sombrios que me dão arrepios. — Passei o dia todo com a Ava.
Ah, não quero ouvir. Definitivamente, não quero ouvir isso!, penso, os lábios apertados. Apoio-me na bancada e me preparo para o que está por vir.
— Sei que você não gosta dela, mas... Sei lá, acho que algumas opiniões da Ava são boas, ela até me fez pensar nelas. Sabe, nas escolhas que fiz. E quer saber? Quanto mais eu penso, mais acho que ela tem razão.
— Tem razão em quê? — pergunto, apesar do nó que sinto na garganta. Hoje o dia começou mal, depois só piorou. E infelizmente ainda está longe de acabar. Riley levanta o rosto, mas desvia o olhar logo em seguida, ainda passando os dedos pelo granito, quando diz:
— A Ava falou que eu não devia estar aqui. Que meu lugar não é aqui.
— E você, acha o quê? — Mal consigo respirar, desejando não ter de ouvir nada disso. Não quero perder minha irmã, não posso perdê-la, não agora. Nem nunca. Riley é tudo o que me restou.
— Bem, eu... — Ela para de mexer os dedos e olha para mim. — Acontece que eu gosto de estar aqui. Nunca vou ser adolescente, claro, mas pelo menos posso viver sua adolescência. Um pouco como pegar uma carona nela, entende?
Ouvindo isso, fico arrasada, culpada; eu estava certa em minhas suspeitas. Mas tento brincar para levantar um pouco a bola.
— Poxa, Riley, com tanta carona melhor por aí...
Minha irmã revira os olhos e suspira:
— Não é? — Mas logo baixa os olhos e diz: — Mas... e se a Ava estiver com razão? E se for mesmo errado eu ficar aqui o tempo todo?
Antes que eu possa responder, no entanto, a campainha toca na porta da frente, distraindo-me por alguns segundos. E quando dou por mim Riley não está mais lá.
— Riley! Riley! — grito, olhando por toda a cozinha. — Cadê você? — Continuo gritando, rezando para que ela reapareça, pois nossa conversa não pode parar onde parou. — Riley, volte aqui! Por favor! — Porém, quanto mais eu tento, mais percebo que estou gritando com as paredes.
A campainha toca de novo, uma vez, depois duas. É o toque de Haven. Preciso atender.
— O porteiro me deixou entrar — ela vai logo dizendo, irrompendo no hall, os olhos borrados de rímel por causa das lágrimas, os cabelos agora ruivos totalmente despenteados. — Encontraram a Evangeline. Ela está morta.
— O quê? Tem certeza? — Estou prestes a fechar a porta quando Damen estaciona o carro lá fora e vem correndo em nossa direção. — A Evangeline... — começo a dizer, tão chocada com a notícia que acabo me esquecendo de que decidi odiá-lo.
— Eu sei, eu sei — ele diz. E vendo o estado de Haven, pergunta: — Tudo bem com você?
Ela faz que não com a cabeça e seca os olhos com a manga da blusa.
— Quer dizer, eu nem conhecia a garota direito, a gente saiu algumas vezes juntas, só isso. Mesmo assim... É horrível demais! Só de pensar que talvez eu tenha sido a última pessoa a vê-la viva...
— Com certeza, você não foi a última pessoa a ver a Evangeline viva.
Olho boquiaberta para Damen, inicialmente achando que se trata de uma piada de péssimo gosto. Mas ele nem de longe parece estar brincando: está muito sério, com o olhar perdido, distante.
— Mas é que... eu me sinto muito responsável, sabe? — balbucia Haven, novamente aos prantos. — Meu Deus, meu Deus, meu Deus... — ela repete não sei quantas vezes, e deixa o rosto cair entre as mãos.
Estou prestes a abraçá-la, para confortá-la de alguma forma, quando ela novamente levanta a cabeça e seca os olhos.
— Olhe, passei aqui só pra dar a notícia, achei que você deveria saber — diz, e ergue o braço para sacudir as chaves do carro. — Mas agora preciso ir. Ainda não falei com a Drina.
Sem saber, Haven põe o dedo bem no centro da minha ferida. Olho torto para Damen, fulminando-o. Embora a amizade de Haven com Drina pareça obra do acaso, tenho certeza de que não é. Não consigo deixar de achar que Damen, de algum modo, está metido nesta história.
Mas ele nem sequer repara em minhas reações: subitamente toma o braço de Haven e examina a tatuagem inflamada no pulso.
— O que é isto aqui? — pergunta sério, controlando a voz, mas sem conseguir esconder certa preocupação.
Haven, no entanto, recolhe o braço com um gesto brusco e cobre a tatuagem com a mão.
— Não é nada — diz, visivelmente irritada. — A Drina já me deu um negócio aí pra usar, uma espécie de pomada. Falou que demora uns três dias pra ficar bom.
— Essa pomada... estaria aí com você? — pergunta Damen, agora nitidamente preocupado.
— Não. — Haven faz que não com a cabeça, já à porta. — Deixei em casa. Caramba, que foi que deu em vocês, afinal? Mais alguma pergunta? — Ela olha alternadamente para nós dois, a aura flamejando em tons fortes de vermelho. — Detesto ser interrogada desta maneira! Só passei aqui porque achei que vocês iam querer saber da Evangeline, mas, pelo visto, estão mais preocupados com minha tatuagem e em fazer comentários estúpidos que com a morte dela! Querem saber? Fui. — Haven sai pisando firme de volta ao carro, ignorando meus chamados.
O que será que aconteceu com minha amiga? Faz dias que anda assim, irritadiça, distante. Desde que conheceu essa tal de Drina nem a reconheço mais.
Ela entra no carro, bate a porta e sai de ré.
— Perfeito! — digo a Damen. — Evangeline morreu, Haven está com ódio de mim... e você me deixou sozinha numa caverna! Espero que pelo menos tenha pegado umas ondas iradas! — Cruzo os braços e balanço minha cabeça negativamente.
— Pra falar a verdade, fiz isso, sim — ele responde sem titubear. — E quando voltei à caverna você não estava mais lá. Vim correndo pra cá.
Olho pra ele desconfiada, comprimo os lábios. Mal acredito no que acabo de ouvir.
— Sinto muito, mas essa eu não vou engolir. Catei você por toda parte, mas só vi dois surfistas na água. Dois surfistas louros! Portanto, nenhum deles era você.
— Ever, olhe para mim. Preste bastante atenção no meu estado. Como você acha que fiquei assim?
Dou uma olhada nele e percebo os cabelos molhados, a roupa de neoprene ainda pingando água no chão.
— Mas eu olhei! Andei pra todo lado naquela praia, procurei de uma ponta à outra! — exclamo, certa do que vi. Ou, neste caso, do que não vi.
Damen nem se abala.
— Ever... Nem sei o que dizer, mas não abandonei você. Estava surfando. Juro. Agora, será que dá pra você me buscar uma toalha? E um pano de chão?
Vamos para o quintal, de modo que ele possa lavar sua roupa de surfar. Enquanto ele faz isso, deito numa das espreguiçadeiras, observando-o. Apesar de todas as minhas certezas, não é impossível que eu tenha bobeado em algum momento. Tipo, a tal enseada era bem grande. E eu estava muito, muito irritada.
— Então, como foi que você ficou sabendo da morte da Evangeline? — pergunto, observando-o esticar a roupa no bar da piscina. Não pretendo deixar barato. — E que história é essa com a Drina, a Haven e aquela tatuagem medonha? E, só pra constar: ainda não engoli essa história de que você estava surfando. Sério. Porque, acredite, procurei por toda parte, mas você não estava em lugar nenhum.
Damen se vira para mim, mas não responde. Encarando-me por trás dos cílios fartos e compridos, com seu corpo perfeito embrulhado apenas em uma toalha, caminha em minha direção com passos tão graciosos e firmes quanto os de um gato selvagem.
— A culpa é toda minha — diz afinal, assentindo com a cabeça ao se sentar a meu lado, tomando minha mão nas dele, largando-a pouco depois. — Não sei até que ponto estou... — Só então levanta os olhos, mostrando neles uma tristeza que eu jamais julgaria possível. — Talvez fosse melhor a gente...
— Você está... terminando comigo, é isso? — pergunto sussurrando, quase sem ar nos pulmões, um balão subitamente esvaziado. Todas as minhas suspeitas agora se confirmam: Drina, a praia... tudo.
— Não, não é isso. É que... — Virando o rosto, ele deixa tanto a frase quanto a mim em suspenso.
E quando fica claro que Damen não tem a menor intenção de continuar, digo:
— Olha, seria ótimo se você parasse de falar em código e concluísse pelo menos uma frase, explicando que diabos está acontecendo. Até agora só sei que a Evangeline morreu, que o pulso da Haven está quase apodrecendo de tão inflamado, que você me abandonou numa caverna porque não conseguiu o que queria e que agora está me dando um fora. — Olhando para ele, fico esperando que a qualquer momento Damen vá dar uma explicação razoável para todos esses fatos e mostrar que não há nenhuma relação entre eles. Ao contrário do que sugere minha intuição.
Ele fica mudo por um tempo, olhando para a piscina, mas finalmente levanta o rosto e diz:
— Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Demorou tanto para responder que fico na dúvida se devo acreditar ou não. Ele respira fundo e continua:
— Encontraram a Evangeline no cânion de Malibu. — Agora ele está aparentemente mais seguro do que está dizendo, visivelmente relaxado e controlado. — Eu estava vindo pra cá quando ouvi no rádio. Quanto ao pulso da Haven, está inflamado, sim, mas isso costuma acontecer com tatuagens. — Neste instante ele desvia o olhar, e eu sinto um frio na espinha só de pensar no que está por vir, na parte que me caberá. Antes de prosseguir, no entanto, ele toma minha mão e, com a pontinha do indicador, vai redesenhando as linhas da palma. — A Drina pode ser uma pessoa carismática, envolvente; talvez por isso a Haven, que é meio perdida na vida, tenha se encantado tanto por ela. Achei que você fosse ficar feliz, pois sua amiga largou do meu pé pra pegar no da Drina. — Ele aperta meus dedos e abre um sorriso. — Agora não há ninguém entre nós.
— Mas talvez haja algo entre nós — retruco, quase sussurrando. Sei que deveria estar mais preocupada com a morte da Evangeline e com o pulso da Haven, mas a esta altura não consigo pensar em nada além deste rosto bronzeado à minha frente, deste olhar profundo, destes lábios que me puxam feito um par de ímãs. Meu sangue ferve nas veias.
— Ever, não abandonei você naquela caverna. Jamais forçaria você a fazer algo contra a própria vontade. Acredite em mim. — Ele toma meu rosto entre as mãos e, roçando a boca na minha, diz: — Sei esperar.

14 comentários:

  1. Fernanda Boaventura2 de novembro de 2015 17:57

    Tá bom! esse segredo todo tá começado a me irritar... Se ela não descobri nada sobre ele nos próximos 5 capítulos....

    ResponderExcluir
  2. Briga de casal! Meu Deus, porque os dois não contam um pro outro seus secretos e acaba logo com isso!
    Ass: Bina.

    ResponderExcluir
  3. Sabe o que me inteira ele sumir quase todo tempo e muito chato ela e boba demais isso só pode ser luxuria pelo amor neh
    Ass>amanda

    ResponderExcluir
  4. Isso ta começando a me irritar , pq Ever simplesmente não aceita ajuda da Vidente ? Pq ela simplismente não se abre com a irmã dela e rena ajudá-la ? Pq ela não liga os pontinhos e começa a raciocinar como Damen consegue fazer todas essas coisas ?

    ResponderExcluir
  5. tá confesso cansei de boiar e procurei por spoilers fui fraca pronto falei agora consigo entender pelo menos kkkkkk

    ResponderExcluir
  6. eu infelizmente ganhei um spoiler, a um tempo atras eu pedi um livro lgl pra ler, me mandaram o 2° livro LUA AZUL e eu só li o começo, a parte da laranja kkk e um pouquinho da historia, meio ruim kk, eu sei q eles vão...bom vou deixar vcs na duvida, e migas leitoras, sejam fortes e n procurem spoilers, é mt ruim saber oque vai acontecer!

    ResponderExcluir
  7. Se parece com Hush Hush eu n sei..
    Mas realmente lembra um pouco House Of Night .. E Crepúsculo tbm , tipo quando a Bella começou a gostar do Edward , e "teve um sonho" cm ele no quarto dela ... E o fato de o Damen praticamente nunca comer.. E pelo o que parece ele tbm não dorme , e ainda é muito rápido...

    ResponderExcluir
  8. Eu normalmente sempre leio a última palavra do livro (Me ferrei em Legend, mas AINDA ASSIM foi surpreendente). Mas não sei que consequências pode haver nesse livri então... segura a curiosidade.

    ResponderExcluir
  9. PELO ANJO, TA ME DANDO AGONIAAAAAAAA
    Que raios de segredos são esses???????

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!