31 de outubro de 2015

Vinte e três

Sigo-lhe pela cozinha até sair na garagem, me perguntando onde me levaria e, se é possível que uma agradável viagem a Summerland possa ser realizada da poltrona.
― E as gêmeas? — sussurro. ― O que vai acontecer se elas despertarem e se derem conta de que não estamos aqui?
Damen encolhe os ombros, me levando para seu automóvel, lançando-me um olhar sobre seu ombro enquanto me diz:
― Não se preocupe, elas estão dormindo profundamente. Além disso, tenho a sensação de que permanecerão assim durante um bom tempo.
― E você teve algo a ver com isso? — Pergunto, recordando quando pôs toda a escola para dormir, incluindo os administradores e docentes, e continuo em dúvida de como o fez.
Ele ri e abre minha porta, me fazendo gestos para que entre. Mas eu nego com a cabeça e me mantenho em meu lugar. De maneira nenhuma vou subir no seu carro, a encarnação da rotina que estamos seguindo.
Ele me olha por um momento, logo sacode sua cabeça e fecha seus olhos, com suas sobrancelhas juntando-se enquanto faz parecer, em troca, um Lamborghini de cor vermelha brilhante. Tal como o que dirigi no outro dia.
Mas eu nego com a cabeça novamente por não ver a necessidade de uma nova marca para a diversão quando a antiga o faria. Assim fecho meus olhos e desejo que se vá, substituindo-o por uma réplica exata da BMW de cor negra brilhante que ele estava acostumado a conduzir.
― Concordo com seu ponto de vista. — Ele assente, me fazendo gestos para que entre com um sorriso pícaro.
E a próxima coisa que sei é que corremos pelo caminho de entrada e logo pela rua, afrouxando a velocidade só o necessário para que a grade se abra, antes de tomar a Estrada da Costa, passando tão rapidamente que as coisas se apagavam.
Olho-o fixamente, tratando de espiar em sua mente e ver exatamente para aonde vamos, mas ele só ri, levantando seu escudo psíquico de propósito, decidido a me surpreender.
Ele pega a auto-estrada e liga o rádio, rindo de surpresa quando os Beatles começam a cantar.
― The White Album.
Ele me olha fixamente enquanto conduz pelo caminho a uma velocidade recorde.
― Deve admitir que fiz uma boa escolha com este automóvel — Sorrio, pensando nas muitas ocasiões em que escutei a história do tempo que passou na Índia aprendendo a forma correta de meditar junto a eles, na época em que John e Paul escreveram a maioria destas canções. ― De fato, fiz a música aparecer corretamente, assim a rádio nunca tocará nada que não seja dos Beatles de agora em diante.
― Como poderei me adaptar alguma vez ao século vinte e um se você está decidida a me manter enraizado ao passado? — Ele ri.
― Estava meio esperando que não se adaptasse — resmunguei, olhando fixamente através da janela a mistura imprecisa de luz e escuridão. — As mudanças estão subestimadas, ou pelo menos as mais recentes o estão. Assim o que diz? Fica? Podemos desenterrar a feia e grande mini van?
Volto-me para ele, lhe observando enquanto sai da auto-estrada e realiza uma série de bruscos giros antes de subir por uma elevada colina, parando frente a uma escultura que está diante de um grande edifício de pedra calcária.
― O que é isto? Dou-lhe uma olhada, sabendo que estamos em algum lugar de Los Angeles pela aparência e a sensação da cidade, mas não tenho a segurança de saber exatamente em que lugar.
― O museu Getty — Ele sorri, pondo o freio de mão saltando para abrir minha porta. — já esteve aqui?
Nego com a cabeça. Um museu de arte era o último lugar que esperava e queria ir.
― Mas… por acaso não está fechado? — Olho ao redor, sentindo que somos as duas únicas pessoas ali, além dos guardas armados que provavelmente estão dentro.
― Fechado? — Ele me olha e sacode sua cabeça. ― Crê que vou deixar que algo tão simples e mundano como uma fechadura nos detenha? — Damen me rodeia com seus braços e me leva para os degraus de pedra, com seus lábios perto de meu ouvido quando acrescenta ― sei que um museu não é sua primeira opção, mas acredite, estou a ponto de provar algo que precisa saber.
― Do que se trata? O que sabe você de arte que eu não sei?
Ele se detém, com a cara séria quando diz:
— Vou te provar que o mundo realmente é nosso. Nossa zona de recreação. Será o que queiramos que seja. Não há necessidade alguma de sentir-se aborrecida ou estancar-se em uma rotina uma vez que entende que as regras normais não se aplicam. Pelo menos, não para nós. Podemos fazer o que quisermos, Ever, absolutamente tudo. Aberto, fechado, com chave, sem chave, bem-vindo, não bem vindo… nada disso importa, nós podemos ter ou fazer o que quisermos quando quisermos. Não há nada nem ninguém que possa nos deter.
Não é completamente certo, penso, refletindo sobre a única coisa que nunca pudemos fazer nos últimos quatrocentos anos, o que, obviamente, é a única coisa que realmente quero que façamos.
Mas ele só sorri, me beijando a fronte antes de agarrar minha mão, me levando para a porta enquanto diz:
― Além disso, há uma exibição que morro de vontade de ver, e aproveitando que não há uma multidão com que preocupar-se, não devemos levar muito tempo. E, prometo, depois podemos ir onde você quiser.
Olho fixamente as portas imponentes fechadas e armadas com os alarmes de alta tecnologia que provavelmente estão aparelhadas com outros alarmes, que certamente estão aparelhadas com uma máquina de disparos (guardas maníacos com seus dedos morrendo para apertar o gatilho). Caramba, provavelmente há uma câmera escondida apontando para nós agora, e um guarda concentrado metido em algum lugar, preparado para apertar o gatilho debaixo de sua mesa.
― Sério, tentará entrar? — Engulo em seco, com as palmas de minhas mãos suadas, com meu coração acelerado em meu peito, desejando que esteja brincando, embora seja evidente que não.
― Não — sussurra ele, fechando seus olhos e insistindo que eu também feche. — Não,tentarei… vou ter êxito. E se não se importa, poderia realmente ajudar fechando os olhos e seguindo meu exemplo — inclina-se para mim, seus lábios roçando meu ouvido e acrescenta ― E prometo que ninguém será capturado, ferido, ou metido na prisão. De verdade, juro por minha vida.
Olho-o atentamente, assegurando a mim mesma que alguém que viveu seiscentos anos sobreviveu a sua cota de problemas. Logo pauso profundamente e me inundo copiando a série de passos que ele imagina até que as comportas se abrem de repente, os sensores se apagam, e os guardas se inundam em um sono profundo. Ou pelo menos espero que seja comprido e profundo. Comprido e profundo estaria bem.
― Viu? — ele me olha, com seus lábios curvando-se em um sorriso.
Eu vacilo, com minhas mãos tremendo, desviando o olhar, pensando que a rotina em que estávamos está começando a me parecer bastante boa. Logo, engulo em seco e dou um passo para dentro, morrendo de vergonha quando minha sola de borracha se encontra com o chão de pedra polida, causando o som mais agudo e vergonhoso do mundo.
― O que me achou? — diz, com cara de ansiedade, excitado, esperando que eu esteja me divertindo tanto como ele. ― Considerei te levar a Summerland, mas logo me dei conta de que isso seria exatamente o que você esperaria. Assim decidi, em troca, lhe demonstrar quão mágico é permanecer aqui no planeta Terra.
Aceno com a cabeça, ainda tão longe de estar extasiada como me é possível, mas tentando ocultá-lo. Estudo a enorme sala com seus altos tetos, janelas de vidro, e seus abundantes corredores e vestíbulos que provavelmente o fazem incrivelmente luminoso e acolhedor de dia, mas um pouco horripilante de noite.
― Este lugar é gigantesco. Já esteve aqui antes?
Ele assente, dirigindo-se à mesa redonda de informação que está no centro.
― Uma vez, justo antes que fosse oficialmente aberto. E embora saiba que há um montão de obras importantes para ver, há uma exibição em particular na qual estou extremamente interessado.
Damen rouba um folheto do stand, pressionando sua palma contra a tampa até que a localização desejada apareça em sua mente. Logo, devolvendo-o ao seu lugar. Ele me guia através de uma série de cômodos, subindo por algumas escadas, com nosso caminho iluminado só por umas luzes de segurança e com o brilho da lua que entra pelas janelas.
― Isso é tudo? — pergunto, observando Damen enquanto ele se detém frente a uma luminosa pintura titulada “Madonna Enthroned with St. Matthew”, com seu corpo ainda estremecido, expressão que se transforma em uma de pura sorte.
Ele assente, incapaz de falar, lutando para acalmar-se e girando-se para mim.
― Viajei muito, vivi em tantos lugares… Mas quando finalmente sai da Itália faz só quatro séculos, jurei que nunca voltaria. O Renascimento tinha acabado, e minha vida… bom, digamos que estava mais que preparado para me mudar. Mas então escutei falar desta nova escola de pintores, a família Carracci em Bolonha, que tinha aprendido dos professores, incluindo meu querido amigo Rafael. Eles começaram uma nova forma de pintar, influenciando a geração seguinte de artistas. — Ele assinala o quadro frente a nós, com seu rosto cheio de admiração enquanto sacode brandamente sua cabeça. — Olhe a suavidade, as texturas! A intensidade da cor e a luz! É simplesmente… — Ele sacode sua cabeça. ― É simplesmente brilhante! — Diz, com a voz cheia de respeito.
Dei uma olhada para ele e a pintura, desejando poder ver da mesma forma que ele a vê. Não como uma velha, desvalorizada, e superestimada imagem pendurada de frente para mim, mas sim como uma coisa realmente bela, um objeto de glória, um milagre dentro de sua classificação.
Ele me guia ao quadro seguinte, com nossas mãos entrelaçadas, enquanto nos maravilhamos com uma pintura de São Sebastian, com seu pobre e pálido corpo atravessado por flechas. Todo isso parecia tão real que de fato estremeci.
E aí é que o entendo. Pela primeira vez, posso ver o que Damen vê. Finalmente entendendo que a verdadeira viagem de todas as grandes obras é para a adoção de uma experiência isolada e não só para sua preservação, ou sua interpretação, a não ser para compartilhá-la para sempre.
― Deve te sentir tão… — Sacudo minha cabeça e pressiono meus lábios, procurando a palavra exata  ―Não sei… poderoso, suponho. Ser capaz de criar algo tão formoso como isto.
Olho-o atentamente, sabendo que ele pode criar com facilidade uma obra repleta de tanta beleza e significado como as que estão penduradas ali.
Mas ele só se encolhe os ombros, movendo-se para o quadro seguinte enquanto diz:
— Além da que pintei em nossa classe de arte na escola, não pinto há anos. Acredito que sou mais um apreciador do que um criador neste momento.
― Mas por quê? Por que dá as costas a um dom como esse? Quero dizer, é um dom certo? Não há forma de que seja uma coisa dos imortais já que todos viram quando eu tentei pintar.
Ele sorri, me guiando através da sala e parando frente a uma interpretação chamada “José e a esposa do Potifar”. Seu olhar inspeciona cada centímetro quadrado do tecido quando diz:
― Honestamente? Capitalista, nem sequer sei descrever como me sinto com um pincel em minha mão, um tecido frente a mim, e uma paleta cheia de pintura a meu lado. Durante seis séculos, fui invencível, herdeiro do elixir procurado por todos os homens! — ele sacode sua cabeça. ― E todavia não há nada que possa competir com a incrível sensação que traz consigo ao criar algo, de elaborar algo que simplesmente sabe que está destinado a ser genial para sempre.
Ele se volta para mim, com sua mão na minha bochecha.
― Ou pelo menos isso era o que acreditava até que te vi. Porque ver-te pela primeira vez… Ele sacode sua cabeça, com seus olhos fixos nos meus. ― Nada nunca poderá ser comparado com nosso primeiro encontro.
― Você não deixou de pintar por mim, certo? — Contenho a respiração, esperando não ter sido a causadora de seu desaparecimento no terreno artístico.
Ele nega com a cabeça, e seu olhar volta para a pintura, enquanto seus pensamentos viajam uma grande distancia.
― Não tem nada a ver contigo. É só que, bom… em certa maneira, dava-me conta da realidade de minha situação.
Eu entrecerro os olhos, sem compreender a que se refere, ou o que poderia obter disso.
― Uma crua realidade que provavelmente devo ter compartilhado contigo anteriormente. — Damen suspira, me olhando.
Eu o olho, fixamente, com meu estômago enchendo-se de temor, insegura se desejo escutar a resposta quando pergunto:
― A que se refere? — sentindo a angústia em seus olhos e o quanto ele está lutando com isto.
― A realidade de viver para sempre — diz ele, com seus tristes e escuros olhos centrados em mim. ― Uma realidade que parece incrivelmente vasta, infinita e poderosa, sem limites à vista. Até que se dá conta da verdade que espreita atrás dela, a realidade de ver seus amigos atrofiarem-se e morrerem enquanto você segue sendo o mesmo. Está forçado a vê-lo só a distância, porque uma vez que a injustiça é óbvia, não tem outra opção a não ser mudar-se, ir a um lugar novo e começar tudo novamente. E outra vez. E outra vez… — Ele sacode sua cabeça. ― Tudo isso faz que seja impossível estabelecer qualquer tipo de laços verdadeiros. E o irônico de tudo isto é que, além de nosso acesso ilimitado aos poderes e à magia, a tentação de exercer um grande impacto ou efetuar alguma grande mudança, é algo que deve ser evitado a todo custo. É a única forma de permanecermos escondidos, com nossos segredos intactos.
― Por que… — trato de me acalmar, desejando que deixe de ser tão crítico e tão somente vá ao ponto. Ele me deixa tão nervosa quando começa a falar dessa forma.
― Porque atrair esse tipo de atenção garante que seu nome e seu passado sejam gravados na história. Algo que devemos tentar de evitar a todo custo. Porque enquanto todos a seu redor envelhecerão e morrerão, Haven, Miles, Sabine, e sim, inclusive Stacia, Honor e Craig… — me olha, causando pena — você e eu seguiremos sendo exatamente os mesmos, sem nenhum tipo de mudança. E, acredite, não demora muito tempo para que as pessoas comecem a notar que você não mudou nada desde que te conheceram. Não podemos correr o risco de ser reconhecidos em cinquenta anos por uma Haven próxima dos setenta anos. Não podemos nos arriscar a termos o nosso segredo revelado.
Ele agarra minhas bochechas, me olhando fixamente com tanta intensidade que realmente posso sentir o peso de seus seiscentos anos. E, como sempre, quando ele está assim de confuso, meu único desejo é poder afastar esses problemas.
― Pode sequer imaginar o que aconteceria se Sabine, ou Haven, ou Miles descobrissem a verdade? — Pode sequer imaginar o que pensariam, o que diriam, o que fariam? É por isso que gente como Roman e Drina são tão perigosos. Eles andam alardeando o que são, ignorando completamente a ordem natural das coisas. Não se engane, Ever, o ciclo da vida tem uma razão de ser. E por mais que eu tenha ignorado isso em minha juventude, me sentindo bastante orgulhoso por estar por cima de tudo, já não o faço. Além disso, no final das contas não há uma luta nisso. Não importa se você desencarna como nossos amigos, ou se segue sendo o mesmo todo o tempo como nós. Seu carma sempre te alcança. E agora que presenciou Shadowland, estou ainda mais convencido de que a vida, como a natureza a planejou, é única e tem um único sentido.
― Mas… se isso é o que você pensa, onde nos deixa isso? — pergunto, com o frio cobrindo minha pele, apesar do calor de suas mãos. ― Quero dizer, ao te escutar dizer isso, deveríamos passar desapercebidos, e tão somente viver para nós mesmos, antes de usar nossos incríveis poderes para alguma mudança real. E como isso poderia ajudar seu carma se você não usar seus dons para ajudar o resto, sobre tudo se o faz anonimamente? — finalizei, pensando em Haven e em meus desejos de ajudá-la.
Mas antes de poder terminar, Damen já está negando com a cabeça, me olhando quando diz:
― Onde nos deixa? Exatamente onde estamos. — Ele encolhe os ombros. ― Juntos. Para sempre. Enquanto formos muito, muito cuidadosos e sigamos levando nossos amuletos, isso é tudo. E o de usar nossos poderes? Bom, temo que seja mais complicado do que reparar os danos. Enquanto que nós podemos julgar as coisas como boas ou más, o carma não pode. É um simples exemplo de como fica, o último balanço, nada mais nem nada menos.
“E se você está determinado a arrumar cada ação que você julga como má, ou difícil, ou desagradável de alguma forma, então você rouba dessa pessoa sua opção de emendá-lo, de aprender disso, ou inclusive amadurecer a partir disso. Certas coisas, não importa quão dolorosas sejam, passam por algo. Uma razão que nem você nem eu somos capazes de compreender a primeira vista, não sem saber a vida inteira dessa pessoa, seu passado acumulado. E tão somente interferir, sem importar as boas intenções, seria como lhes roubar seu percurso. Algo que é melhor não fazer.
― Deixe-me entender isto — digo, enquanto um fio arrepiante que não tento ocultar toma posse de minha voz. — Vem Haven e diz, meu gato está morrendo. E embora esteja bastante certa de que posso ajudá-lo-lo, não o faço porque surgiriam muitas perguntas que nunca poderia responder sem atrair excessivas suspeitas. Está bem, entendo-o. Não me agrada, mas o aceito. Mas quando ela me diz, é provável que meus pais se divorciem, provavelmente terei que me mudar, e sinto como se meu mundo inteiro estivesse caindo, me dizendo isto sem absolutamente nenhum indício de que estou na situação perfeita para ajudá-la, ou inclusive reverter algumas coisas com apenas… não sei — encolho os ombros, me sentindo completamente frustrada neste momento. ― De qualquer forma, meu ponto de vista é que algo ocorre com nossa querida amiga e você me diz que não podemos ajudá-la porque podemos arruinar seu percurso, ou seu carma, ou o que seja que disse? Quero dizer, me explique como isso ajuda a meu carma quando guardo todas as coisas boas para mim mesma.
― Aconselho-te que não se envolva — diz ele, virando-se para a pintura e afastando-se de mim. ― Os pais de Haven seguirão brigando sem importar o que fizer, e inclusive se você milagrosamente pagasse sua casa, pensando que dessa forma poderia conservá-la — ele me observa por cima de seu ombro, me lançando um olhar mordaz, detectando que isso é exatamente o que planejava fazer — bom, provavelmente eles terminariam vendendo-a e assim poderiam dividir os lucros e terminariam mudando-se da mesma forma. — Ele suspira, suavizando sua voz quando me olha e acrescenta — Sinto muito Ever. Não pretendo parecer algum velho sem entusiasmo, mas possivelmente o sou. Vi muito e cometi muitos enganos. Não sabe o tempo que levei para aprender todas estas coisas. Mas na verdade há uma época para tudo, tal como eles dizem. E como nossa vida durará eternamente, nunca o devemos dizer.
― Quantos artistas famosos pintaram seu retrato? Quantos presentes recebeu de Maria Antonieta? — Sacudo minha cabeça ― Estou certa de que esses retratos seguem existindo! Estou certade que alguém levava um jornal de sua vida e pôs seu nome nele! E os seus dias de modelo em Nova York? O que aconteceu com tudo isso?
― Não nego nenhuma dessas coisas. — Ele encolhe os ombros. — Eu era vaidoso, orgulhoso de mim mesmo, um livro narcisista, e sim, tive diversão. — Ele ri, seu rosto transformando-se naquele que conheço e amo, o Damen sexy, o Damen divertido, todo o oposto deste antecessor da fatalidade. — Mas você dever compreender que todos esses retratos foram feitos pessoalmente, inclusive nesse momento sabia que não devia permitir que se fizessem públicos. E as fotos do meu tempo de modelo eram só umas poucas fotos para uma campanha de pouco tempo. Desisti no dia seguinte.
― Então por que deixou de pintar? Quero dizer, parece ser uma forma espetacular de registrar uma vida anormalmente longa. — Minha cabeça começa a girar por causa de tudo isto.
Ele assente.
― O problema era que meu trabalho estava começando a ser bem conhecido. Eu estava exaltado, e acredite em mim, exaltei-me por minha própria exaltação. — Ele ri e sacode sua cabeça. — Estava pintando como um louco, completamente obcecado, sem interesse em nenhuma outra coisa. Acumulando uma coleção muito grande que me atraiu muita atenção antes que eu pudesse compreender o risco, e então…
Eu o olho, com meu coração retumbando quando vejo a imagem desdobrar-se em sua mente.
― E então houve um incêndio — sussurro, vendo violentas e laranjas chamas elevar-se em um escuro céu.
― Tudo foi destruído. — Ele assente. ― Incluindo a mim, tudo para afastar a atenção de mim. — Pausa profundamente, me encontrando com seus olhos, inseguro do que dizer. ― E antes de que eles pudessem inclusive apagar as chamas, eu já havia ido. Viajando por toda a Europa, fugindo de um lugar para o outro, como um nômade, um cigano, um vagabundo, inclusive trocando meu nome um par de vezes, até que passasse o tempo suficiente e a todos começassem a esquecer. Finalmente me estabeleci em Paris, onde, como já sabe, te vi pela primeira vez – e bom, já sabe o resto. Mas Ever… — Ele me olha nos olhos, desejando não ter que dizê-lo, mas sabendo que é necessário expressá-lo em palavras, embora eu já saiba o que vem. ― Tudo isto é para dizer que em certo ponto, não muito longe do agora… você e eu teremos que nos mudar.
E imediatamente digo que não posso acreditar que não tenha pensado nisso anteriormente. Quero dizer… é tão óbvio, nos escondendo na frente de todos... E ainda, de alguma forma, eu era capaz de ignorá-lo, olhando-o de outra forma, fingindo que seria diferente para mim.
O que demonstra o que a negação pode fazer.
― Provavelmente não envelhecerá muito depois disto. — Continua, acariciando meu rosto com sua mão. — E acredite em mim, não demorará muito tempo antes de que nossos amigos comecem a dar-se conta.
― Por favor — sorrio, desesperada por lhe acrescentar um pouco de luz neste espaço escuro e pesado. ― Devo te recordar que estamos no Condado de Orange? Um lugar onde a cirurgia plástica é virtualmente a norma! Ninguém envelhece aqui. Sério. Ninguém. Podemos continuar como estamos pelos próximos cem anos! — Rio-me, mas quando olho Damen, quando vejo a forma com que seus olhos olham atentamente os meus, é evidente que a gravidade da situação triunfa sobre minha pequena brincadeira.
Dirijo-me ao banco situado no centro da sala, deixando-me cair nele enquanto enterro o rosto em minhas mãos.
— O que direi à Sabine? — Sussurro, enquanto Damen se senta ao meu lado, deslizando um braço a redor de mim, desfazendo meus medos. ― Quero dizer, é como se pudesse fingir minha própria morte. E a investigação de crimes está um pouco mais avançada do que na sua época.
― Nos encarregaremos disso no seu devido tempo — diz ele. ― Sinto muito, tinha que ter mencionado isto com antecedência.
Mas quando o olho, dou-me conta de que não teria importado. Não teria havido nem mais mínima diferença. Recordando o dia em que pela primeira vez me apresentou a ideia da imortalidade. O tão cuidadoso tinha sido em me explicar que nunca cruzaria a ponte, que nunca voltaria a estar com minha família de novo… Mas o tentei de todas as formas. Tirei essa ideia da minha cabeça, imaginando que fosse uma espécie de escapatória. Descobriria uma forma de evitar tudo isso, estando disposta a me convencer de estar com ele por toda eternidade. E não é tão diferente agora.
E embora não tenha ideia do que direi a Sabine, ou sequer como explicarei a nossos amigos nossa repentina ausência, no final das contas meu único desejo é estar com ele. É a única forma de vida ser plena.
― Desfrutaremos de uma boa vida, Ever, isso eu te prometo. Nunca terá nenhuma carência, e nunca mais voltará a se aborrecer. Não depois que compreenda as gloriosas possibilidades de tudo o que existe. Embora que além de você e eu todos nossos contatos exteriores gozarão de uma vida extremamente curta. Simplesmente não há forma de evitá-lo, não há uma escapatória como você acreditava. É uma necessidade, pura e simples.
Respiro profundamente e aceno, recordando a primeira vez que o conheci e como disse algo a respeito de ser mau para as despedidas. Mas ele só sorri, respondendo a meus pensamentos quando diz:
— Sei. Pensou que com o tempo seria mais fácil, Certo? Mas na realidade nunca é. Normalmente, penso que é mais fácil desaparecer e afastar a todos de uma só vez.
―É mais fácil pra você, provavelmente, embora não estou certa a respeito daqueles que deixou para trás.
Ele assente, levantando do banco e me puxando para ele.
― Sou um homem vaidoso e egoísta. Que mais posso dizer?
― Não me referia a isso… — Sacudo minha cabeça ― Eu só…
― Por favor — Damen me olha. — Não há necessidade de que me defenda. Sei o que sou… ou pelo menos, o que estava acostumado a ser. — Damen fica de pé, me levando para longe das pinturas que devemos ver. Só que não estou preparada para ir. Não ainda. Qualquer que tenha perdido sua maior paixão, que simplesmente se foi como ele o tem feito, merece uma segunda oportunidade.
Me solto de sua mão e fecho meus olhos fortemente, fazendo aparecer um grande tecido, uma ampla seção de pincéis, uma extensa paleta com pinturas, e qualquer outra coisa que poderia necessitar, antes que possa me deter.
― O que é tudo isto? — Damen olha o cavalete e a mim.
― Sei que já se passou muito tempo, mas será que nem sequer pode reconhecer as ferramentas do ofício? — Sorrio.
Ele me olha atentamente, com o olhar intenso, decidido, e eu lhe devolvo o olhar com a mesma força.
― Pensei que te agradaria pintar ao lado de seus amigos. — Encolho os ombros, observando enquanto ele toma um pincel da mesa, lhe dando voltas na palma de sua mão. ― Disse que podíamos fazer algo que quiséssemos, certo? O que as regras normais não se aplicam? Não era esse o objetivo desta viagem?
Ele me olha, com uma expressão cautelosa, mas contida.
― E se esse for o caso, então acredito que você deveria pintar algo aqui. Criar algo formoso, magnífico, eterno, o que queira. E logo que termine, colocaremos ao lado do de seus amigos. Deixando-o sem assinar, obviamente.
― Faz tempo que passei por isso de necessitar que meu trabalho seja reconhecido — diz, me olhando com os olhos cheios de luz.
― Genial. — Aceno, assinalando o tecido branco. ― Então espero ver um trabalho, fruto da pura inspiração de um gênio, sem ego envolvido. — Passo minha mão sobre seu ombro, e dou-lhe uma ligeira cotovelada quando acrescento, — provavelmente deveras começar. Diferente de nós, a noite não é infinita.

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