30 de outubro de 2015

Vinte e três

Eu a sigo no hall pelo caminho mais curto. Minhas sandálias agarrando contra um tapete vermelho enquanto penso: isso nunca funcionará.
Quero dizer, se eu não conseguia acessar o portal com Damen, como é possível acessá-lo com Ava? Porque embora ela parecesse ser uma vidente muito talentosa, suas habilidades são em sua maioria guardada para as partes de cartas. Dizendo fortunas ao longo de uma mesa dobrável, enfeitada na espera de uma generosa gorjeta.
— Isso nunca vai funcionar se você não acreditar — ela disse, fazendo uma pausa antes de abrir uma porta azul. — Precisa ter fé no processo. E então, antes de entrarmos, preciso que limpe sua mente de toda a negatividade. Preciso que se desfaça de qualquer pensamento triste ou infeliz, ou qualquer outra coisa que te arraste pra baixo sirva palavra não pode.
Eu respiro fundo e olho para a porta, lutando contra o impulso de revirar meus olhos enquanto penso: Ótimo. Eu deveria saber. Este é exatamente o tipo de coisa melodramática que você é obrigada a tolerar quando está lidando com Ava.
Mas tudo o que digo é:
— Não se preocupe comigo, estou bem. — Assentindo de um modo que espero que seja convincente, querendo evitar sua mediação habitual de vinte passos, ou qualquer prática terapêutica que ela pudesse ter em mente.
Mas Ava só permanece parada ali, mão nos quadris, olhos nos meus. Recusando-se a deixar-me entrar até que eu esteja de acordo em aliviar minha carga emocional.
Então, quando ela diz:
— Feche os olhos — Eu faço. Mas só para apressar as coisas. — Agora quero que imagine raízes longas e finas brotando das solas de seus pés e mergulhando profundamente na terra, cavando o solo e estendendo seus limites. Indo mais fundo e mais fundo no solo até tenha alcançado o centro da terra e não pudesse ir mais longe. Consegue isso?
Eu confirmo, imaginando o que ela pede, mas só para que possamos conseguir este espetáculo na entrada e não porque não acredito nisso.
— Agora, respire fundo, respire fundo várias vezes, e deixe que seu corpo inteiro relaxe. Sinta seus músculos afrouxarem, enquanto sua tensão desaparece. Permitindo qualquer pensamento negativo persistente ou emoções desapareçam. Basta eliminá-los de seu campo de energia e diga a eles para se libertarem. Pode fazer isso?
Um, como quiser, penso. Simplesmente atravessando os movimentos e sentindo-me bastante surpreendida quando meus músculos realmente começam a relaxar. E quero dizer, realmente relaxar. Como se estivesse em paz depois de uma longa e difícil batalha.
Suponho que não era consciente do quanto eu estava tensa ou quanta negatividade estava carregando até que Ava me fez libertá-la. E embora esteja disposta a fazer qualquer coisa para entrar naquela sala e aproximar-me de Summerland, tenho que admitir que algumas desses rituais sem valor poderiam realmente funcionar.
— Agora, preste muita atenção até que esteja concentrada na coroa de sua cabeça, a área da direita da parte superior. E imagine um feixe contínuo da mais clara luz branca dourada penetrando essa mesma mancha e facilitando seu caminho a todo o pescoço, seus membros, o tronco, todo o caminho até seus pés. Sinta essa cálida e maravilhosa luz curar cada parte de você, cobrindo cada última célula tanto dentro como fora, e permitindo que a ira ou qualquer tristeza persistente seja transformada em energia amorosa por esta poderosa força curativa. Sinta a luz surgindo dentro de você como um feixe estável de luminosidade, amor e perdão sem princípio nem fim. E quando começar a se sentir mais leve, quando começar a se sentir limpa e purificada, abra seus olhos e olhe pra mim, mas só quando estiver pronta.
Então eu faço, passando por todo o ritual de luz branca, decidida a participar ou pelo menos tentar tomar esses passos seriamente, pois é importante para Ava. E tal como imagino um feixe dourado passando através de meu corpo, cobrindo minhas células e tudo isso, também tento calcular quanto tempo deveria demorar para abrir meus olhos para não parecer muito falsa.
Mas então, algo estranho acontece. Sinto-me mais leve, mais feliz, mais forte, apesar do estado de desespero que cheguei a sentir. Quando abro meus olhos, vejo que ela está sorrindo pra mim, seu corpo inteiro rodeado pela mais bela aura violeta que alguma vez eu já tenha visto.
Ela abre a porta e eu a sigo pra dentro. Piscando e piscando enquanto me adapto as paredes de cor púrpura profundo desta pequena casa que, desde a aparência da mesma, parece funcionar com um santuário.
— É aqui que você faz suas leituras? — Pergunto. Recorrendo a grande coleção de cristais e velas e ícones simbólicos que cobrem as paredes. Observando enquanto como ela balança a cabeça e coloca-se em uma almofada de bordado elaborado, dando batidas justo ao lado dela e fazendo-me sinal para que me sente também.
— A maioria das pessoas que vem aqui ocupam um espaço emocional obscuro, e não posso me arriscar a deixá-los entrar. Tenho trabalhado muito duro para manter a energia desta sala pura, limpa e livre de toda a escuridão, e não permito que ninguém entre até que sua energia esteja limpa, inclusive eu. Esse exercício de limpeza pelo que você passou, é a primeira coisa que faço a cada manhã, logo depois de me levantar, e novamente antes de entrar nesta sala. E eu recomendo que você faça isso também. Porque, embora eu saiba que você pensou que era um absurdo, eu também sei que você está surpreendida por se sentir muito melhor.
Pressiono meus lábios e afasto o olhar. Sabendo que ela não tem que ler minha mente para saber o que penso, meu rosto sempre me trai – é incapaz de mentir.
— Consegui essa coisa toda de luz curativa — digo, olhando as persianas de bambu cobrindo a janela e as estátuas de pedras de divindades de todas as partes do mundo. — E tenho que admitir que me fez sentir melhor. Mas, o que era essa coisa de raiz? Parecia um pouco estranho.
— Isso se chama conectar-se com a terra — ela sorri — quando você chegou a minha porta, sua energia estava muito dispersa e isso ajuda a conectar. Sugiro que faça esse exercício diariamente também.
— Mas não vai nos impedir de achar Summerland? Você sabe, por nos aterrar aqui?
Ela ri.
— Não. Se algo, ele te ajudará a permanecer focalizado aonde realmente você quer ir.
Olho ao redor da sala, observando como está tão cheia de coisas, é complicado levar todos pra dentro.
— Então este é como seu espaço sagrado? — Finalmente digo.
Ela sorri, seus dedos escolhendo um fio solto na sua almofada.
— É o lugar aonde venho para rezar e meditar e tentar alcançar as dimensões mais além. E tenho um forte pressentimento que desta vez chegarei lá.
Ela dobra suas pernas em posição de lótus e me faz sinal para fazer o mesmo. E a princípio não posso deixar de pensar que minhas novas pernas longas e magras nunca se dobraram nem entrelaçaram com as dela. Mas um minuto depois estou impressionada pela maneira em que apenas desliza-se direto no lugar, dobrando-se uma com a outra de uma forma tão natural e cômoda, sem a mínima resistência.
— Pronta? — Ela pergunta com seus olhos castanhos sobre os meus.
Encolho-me, olhando para a sola dos meus pés, surpreendida de vê-los tão visíveis enquanto descansam em cima dos meus joelhos, e perguntando-me que tipo de ritual seguinte ela poderia realizar.
— Bom. Porque agora é sua vez de liderar — ela ri — nunca estive lá antes. Então estou contando com você para nos mostrar o caminho.

2 comentários:

  1. poxa vida , quem vai conversa e vive dando os ombros? isto ja esta me irritando ou entao qualquer coisa vira os olhos ??
    5 pag poderiam ser resumidas em uma viu .....
    kkkk mais to amando fora isto :D

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