18 de outubro de 2015

Vinte e sete - Vamos jogar frisbee com armas afiadas!

NA EXTREMIDADE NORTE do parque, Sam atravessou a rua Beacon e seguiu para a passarela sobre Storrow Drive.
— Para onde ela está indo? — perguntei.
— Para o rio, obviamente — disse Blitz. — Ela verificou seu corpo na capela...
— Podemos não falar desse jeito?
— Ela não encontrou a espada. Agora, está olhando no rio.
Sam subiu a rampa em espiral para a passarela. Olhou na nossa direção, e tivemos que nos esconder atrás de uma pilha de neve suja. Na temporada turística de verão, seria mais fácil segui-la sem chamar atenção. Agora, as calçadas estavam quase vazias.
Blitzen ajeitou os óculos escuros.
— Não estou gostando disso. Na melhor das hipóteses, as valquírias a mandaram, mas...
— Não. Ela foi expulsa.
Contei para eles a história enquanto continuávamos agachados atrás do banco de neve.
Hearth pareceu chocado. O olho inchado tinha ficado da cor de Kermit, o sapo. Filha de Loki?, gesticulou ele. Ela está trabalhando para o pai.
— Não sei — respondi. — Não consigo acreditar nisso.
Só porque ela salvou você?
Eu não sabia dizer. Talvez não quisesse acreditar que ela estivesse no time do mal. Talvez as palavras de Loki tivessem grudado na minha mente: Pode ter certeza de que estou do seu lado!
Apontei para o olho de Hearth e fiz o gesto da letra P de permissão? Toquei na pálpebra dele. Uma fagulha de calor passou pela ponta do meu dedo. O hematoma sumiu.
Blitz riu.
— Você está ficando bom nisso, Magnus.
Hearthstone segurou minha mão. Estudou as pontas dos meus dedos como se procurando magia residual.
— Sei lá. — Puxei a mão, meio constrangido. A última coisa que eu queria era ser Magnus Chase, Paramédico Viking. — Estamos perdendo Sam. Vamos.
A ex-valquíria seguiu rio abaixo pela trilha de corrida da Esplanade. Atravessamos a passarela.
Abaixo de nós, carros seguiam pelos quebra-molas, buzinando sem parar. A julgar por todos os veículos de construção e as luzes piscando na ponte Longfellow, o trânsito devia ser minha culpa. Minha batalha com Surt tinha fechado a passagem.
Perdemos Sam de vista quando pegamos a rampa em espiral para a Esplanade. Passamos pelo parquinho. Achei que a veríamos em algum ponto do caminho, mas ela tinha desaparecido.
— Ah, mas que ótimo — comentei.
Blitz mancou até a sombra da lanchonete fechada. Parecia estar tendo dificuldade para carregar a bolsa de boliche.
— Você está bem? — perguntei.
— Só as pernas que estão um pouco petrificadas. Nada com que se preocupar.
— Não é o que parece.
Hearth andou de um lado para outro. Eu queria ter um arco. Poderia ter atirado nela.
Blitzen balançou a cabeça.
— Fique só na magia, meu amigo.
Os gestos de Hearth estavam bruscos de irritação. Não consigo ler seus lábios. Com a barba já é ruim, com a máscara então... impossível.
Blitz colocou a bolsa de boliche no chão e fez sinais enquanto falava.
— Hearth é muito bom com runas. Sabe mais magia de runas do que qualquer mortal vivo.
— Mortal tipo humano? — perguntei.
Blitz riu com deboche.
— Garoto, os humanos não são a única espécie mortal. Estou falando de humanos, anões elfos. Os gigantes não contam, eles são esquisitos. Nem os deuses, claro. Nem os videntes que moram em Valhala. Nunca entendi o que eles eram. Mas, entre as três espécies mortais, Hearthstone é o melhor mago! Bem, também é o único, até onde sei. É a primeira pessoa em séculos a dedicar a vida à magia.
Estou ficando vermelho, disse Hearthstone, claramente não ficando vermelho.
— O que quero dizer é que você tem talento de verdade. E mesmo assim quer ser arqueiro!
Os elfos eram grandes arqueiros!, protestou Hearth.
— Mil anos atrás! — Blitzen bateu a mão duas vezes entre o polegar e o indicador; o gesto que significava irritado. — Hearth é um romântico. Sente falta de antigamente. É o tipo de elfo que vai a festivais da Renascença.
Hearth grunhiu. Eu fui uma vez.
— Pessoal — falei — a gente tem que encontrar Sam.
Não adianta. Ela vai procurar no rio. Deixe ela perder tempo. Nós já procuramos.
— E se tivermos deixado a espada passar? — perguntou Blitz. — E se ela souber outro jeito de encontrar?
— Não está no rio — afirmei.
Blitz e Hearth olharam para mim.
— Tem certeza? — perguntou Blitz.
— Eu... Pois é. Não me perguntem como, mas agora que estou mais perto da água... — Eu olhei para o Charles, para as linhas cinza ondulantes cheias de gelo. — Senti a mesma coisa quando estava de pé na frente do meu caixão. Tem uma espécie de vazio, é como sacudir uma lata e perceber que não tem nada dentro. Eu apenas sei, a espada não está por aqui.
— Sacudir uma lata... — Blitzen refletiu. — Tudo bem. Imagino que você não possa nos direcionar para as latas que deveríamos sacudir?
— Isso seria bom — disse Samirah al-Abbas.
Ela surgiu por detrás da lanchonete e me chutou no peito, me jogando contra uma árvore. Meus pulmões implodiram como sacos de papel. Quando consegui enxergar direito, Blitz estava caído na parede. O saco de Hearth tinha caído, e as runas, se espalhado no chão, e Sam estava levantando o machado para ele.
— Pare! — Era para ser um grito, mas saiu um sussurro ofegante.
Hearth desviou do machado e tentou derrubá-la. Sam o virou em um golpe de judô, por cima do joelho. Hearth caiu de costas no chão.
Blitzen tentou se levantar. O chapéu estava inclinado para o lado. Os óculos tinham sido derrubados, e a pele ao redor dos olhos estava ficando cinza sob a luz do sol.
Sam virou-se para atingi-lo com o machado. A raiva rugiu dentro de mim. Estiquei a mão para a corrente no cinto. Imediatamente, virou uma espada outra vez. Puxei-a da bainha e a joguei, girando como um frisbee. Bateu no machado de Sam, derrubando a arma da mão dela e quase arrancando seu rosto.
Ela olhou para mim, incrédula.
— Que Helheim é isso?
— Você que começou!
Hearth segurou o tornozelo dela. Sam o chutou.
— E pare de chutar o meu elfo!
Sam tirou o lenço, soltando os cabelos castanhos. Encolheu-se em uma postura de lutadora, pronta para enfrentar todos nós.
— Magnus, se eu estivesse com todos os meus poderes, arrancaria sua alma do corpo por todos os problemas que você me causou.
— Que legal — falei. — Ou então você podia nos contar o que está fazendo aqui, talvez possamos ajudar um ao outro.
Blitzen colocou os óculos.
— Ajudá-la? Por que faríamos isso? Ela bateu em Hearth na capela! Meus olhos parecem pedaços de quartzo!
— Ah, se vocês não estivessem me seguindo — disse Sam.
— Aff! — Blitzen arrumou o chapéu. — Ninguém estava seguindo você, valquíria! Estamos procurando a mesma coisa, a espada!
Ainda deitado no chão, Hearth gesticulou: Alguém mata essa garota, por favor.
— O que ele está fazendo? — perguntou Sam. — Gestos rudes de elfo para mim?
— É linguagem de sinais — respondi.
— Linguagem élfica de sinais — corrigiu Blitz.
— E então — levantei as palmas das mãos — podemos ter uma trégua e conversar? Qualquer coisa é só voltar para a matança depois.
Sam andou de um lado para o outro, murmurando alguma coisa. Pegou o machado dela e a minha espada.
Bom trabalho, Magnus, eu disse a mim mesmo. Agora ela está com todas as armas.
Ela jogou a espada de novo para mim.
— Eu não deveria ter escolhido você para Valhala.
Blitzen deu uma risada debochada.
— Pelo menos nisso concordamos. Se você não tivesse interferido na ponte...
— Interferido? — questionou Sam. — Magnus já estava morto quando o escolhi! Você e o elfo não estavam ajudando em nada com aquela placa de plástico e as flechas de brinquedo!
Blitz se empertigou, o que não o deixou muito mais alto.
— Fique sabendo que meu amigo é um ótimo usuário de runas.
— É mesmo? — perguntou Samirah. — Não o vi usando magia na ponte contra Surt.
Hearthstone pareceu ofendido. Eu ia usar. Fui distraído.
— Exatamente — disse Blitz. — Quanto a mim, tenho muitas habilidades, valquíria.
— Por exemplo?
— Por exemplo, eu poderia melhorar seu estilo. Ninguém usa casaco marrom com lenço verde.
— Um anão de óculos de sol e máscara de esqui querendo me dar conselhos de moda.
— Tenho problemas com a luz do dia!
— Pessoal — chamei — parem, por favor. Obrigado.
Ajudei Hearthstone a se levantar. Ele olhou de cara feia para Sam e começou a recolher as runas.
— Tudo bem — continuei. — Sam, por que você está procurando a espada?
— Porque é minha única chance! Porque... — A voz dela falhou. Toda a raiva pareceu sumir. — Porque honrei sua bravura estúpida. Recompensei você com Valhala. E isso me custou caro. Se eu encontrar a espada, talvez os lordes me devolvam meu trabalho. Posso convencê-los de que... de que não sou...
— Filha de Loki? — perguntou Blitz, mas a voz dele tinha perdido parte da agressividade.
Sam baixou o machado.
— Não posso fazer nada a respeito disso. Mas não estou trabalhando para o meu pai. Sou leal a Odin.
Hearthstone olhou para mim com ceticismo, como se dizendo: Você está acreditando nessa história?
— Eu confio nela — falei.
Blitz grunhiu.
— É outro instinto desses como sacudir a latinha?
— Talvez. Olha só, todos nós queremos encontrar essa espada, certo? Queremos deixá-la longe de Surt.
— Supondo que Surt já não esteja com ela — disse Sam. — Supondo que possamos entender o que está acontecendo. Supondo que a profecia das Nornas para você não seja tão ruim quanto parece...
— Só tem um jeito de descobrir. — Blitz levantou a bolsa de boliche.
Sam deu um passo para trás.
— O que tem aí dentro?
Hearth fez um sinal de garra e bateu duas vezes no ombro, o sinal de chefe.
— Respostas — disse Blitz — quer a gente queira ou não. Vamos consultar o Capo.

23 comentários:

  1. Primeira a comentar.
    Uhul!!!!
    Esse é um dos meus capítulos favoritos!!!!

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  2. nossa que morbido ver o proprio corpo assim zulivre

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  3. Hora de conhecer o chefe só espero que não seja como Hades
    Ia ser péssimo se fosse igual

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    1. Eii não fale do Hades, ele é meu deus grego preferido oura

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    2. Sua semideusa terrível, Hades só foi injustiçado, ele não é ruim por ser frio e distante, é o jeitinho dele! é meu deus grego favorito, poxa!

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    3. caçadora de Artemis6 de janeiro de 2016 22:58

      Prima nessa tô contigo
      tório pode ser osso duro de roer mas só o que foram duros com ele
      meu pai o grande Zeus foi o pior
      não reconheço Júpiter como meu pai
      sou grega não importa o que digam

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    4. Alguns aceitam ser bons com Loki, mas não fazem o mesmo com Hades, embora no fim seja o mesmo: ambos foram escolhidos como inimigos.

      Assim ofendem nosso pai.

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  4. Esse livro ta mt legal, mas... Eu ainda to confusa '-'
    -Tayná

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  5. Ei eu adoro o tio Hades da licenca...rum.

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  6. Sinal d garra me lembra outra turma...

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    1. Também. Sinal de garra não é um sinal grego antigo para livrar o mal ????

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  7. Tô gostando até..nada substitui PJO/HDO mais fazer oque,tou super confusa,é cada nome estranho,Midgard Asgard Ragnarok,é para me deixar louca.

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    1. Pois é, concordo! Esses que vc falou, mais Valhala e Hearthstone foram os únicos nomes estranhos que decorei hauehaue

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    2. Depois de ter lido as crônicas dos Kane Ragnarok, Asgard, Midgard parecem faceis é tão difícil que eu esqueci tudo ;-;

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    3. caçadora de Artemis6 de janeiro de 2016 23:00

      Vc deve ver Cavaleiros do Zodíaco esse anime deixa todos loucose kkkkk

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  8. Esse sinal de garra me lembrou aquele sinal q Grover ensinou a Percy pra espantar p mal

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  9. Eu adimito q lembrei do Dr. Chasa de house '-' acho q só eu mesmo :p

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    1. Tava assistindo agr a pouco.. hahah. Realmente.. o Dr. Chase pode lembrar um pouco o Magnus... nas primeiras temporadas ele um cabelo mais compridinho.. haha

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  10. O que é um Capo? Super confusa. Espero que ele seja não tão mal quanto eu penso

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    1. Capo... cabeça. Mas só lendo pra descobrir quem é. O chefão? Um cabeçudo? Hauehau

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  11. Quem diabos é Capo caramba??? Imagino ele com cara de sapo...

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  12. Hearth segurou o tornozelo dela. Sam o chutou.
    — E pare de chutar o meu elfo!

    hmmmm Magnus Chase, seu elfo né... ( ͡° ͜ʖ ͡°)

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  13. Gente, quem já leu mitologia nórdica vai saber que o único ser mais sábio que Ódin, e cujo nome Capo se emprega perfeitamente, é Mimir, o próprio deus da sabedoria.

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