18 de outubro de 2015

Vinte e seis - Oi, sei que você está morto, mas, se der, me liga

MESMO SE EU não a tivesse visto no parque dois dias antes, ainda assim teria reconhecido Annabeth.
O cabelo louro ondulado continuava o mesmo desde quando ela era pequena. Os olhos cinzentos tinham a mesma determinação, como se ela tivesse escolhido um alvo distante e estivesse disposta a ir até ele para destruí-lo. Estava mais bem-vestida do que eu: usava uma jaqueta de esqui, calça preta e botas de cadarço. Mas, se as pessoas nos vissem juntos, poderiam achar que éramos irmãos.
Ela olhou para mim e depois para o caixão. Lentamente, seu choque virou uma frieza calculista.
— Eu sabia. Sabia que você não estava morto.
Ela me deu um abraço apertado. Talvez eu já tenha mencionado que não sou muito fã de contato físico, mas, depois de tudo que passei, um abraço da minha prima foi o bastante para me fazer desmoronar.
— É... hã... — Minha voz ficou engasgada. Tentei me soltar da forma mais delicada possível e pisquei para afastar as lágrimas. — É muito bom ver você.
Ela franziu o nariz para o cadáver.
— Vou ter que perguntar? Achei que você estivesse morto, seu bundão.
Não consegui evitar um sorriso. Fazia dez anos que ela não me chamava de bundão. Já estava mais do que na hora.
— É difícil explicar.
— Imaginei. O corpo é falso? Você estava tentando convencer todo mundo?
— Hum... não exatamente. Mas é melhor as pessoas acharem que estou morto. Porque...
Porque estou morto, pensei. Porque fui para Valhala, e agora voltei com um anão e um elfo! Como eu poderia contar isso?
Olhei para a porta da capela.
— Espere... Quando entrou aqui você passou por um elf... por um cara? Era para o meu amigo estar montando guarda.
— Não. Não tinha ninguém lá fora. A porta estava destrancada.
Meu equilíbrio oscilou.
— Eu devia checar...
— Opa. Não antes de me dar algumas explicações.
— Eu... Sinceramente, não sei nem por onde começar. Estou em uma situação meio perigosa. Não quero envolver você.
— Tarde demais. — Ela cruzou os braços. — E entendo bem de situações perigosas.
Por algum motivo, acreditei nela. Ali estava eu, renascido como superguerreiro de Valhala, e Annabeth ainda me intimidava. A postura, a confiança inabalável... eu conseguia perceber que ela tinha passado por poucas e boas da mesma forma que conseguia identificar quais caras nos abrigos eram os mais perigosos. Não dava para enrolar Annabeth. Mas também não queria arrastá-la para aquela confusão.
— Randolph quase morreu naquela ponte — falei. — Não quero que aconteça nada com você.
Ela riu mas não estava achando graça.
— Randolph... eu juro, vou enfiar aquela bengala dele... Deixa pra lá. Ele não quis explicar por que levou você para a ponte. Ficou falando que você estava em perigo por causa do seu aniversário. Disse que estava tentando ajudar. Alguma coisa sobre a história da nossa família...
— Ele me contou sobre meu pai.
Os olhos de Annabeth ficaram sombrios.
— Você não conhece seu pai.
— É. Mas, aparentemente... — Balancei a cabeça. — Olha, pareceria loucura. Mas... há uma ligação entre o que aconteceu naquela ponte e a morte da minha mãe e... meu pai.
A expressão de Annabeth se transformou: era como se ela tivesse aberto uma janela esperando ver uma piscina mas tivesse encontrado o oceano Pacífico.
— Magnus... ai, deuses.
Ela disse deuses. No plural.
Annabeth caminhou de um lado para outro na frente do meu caixão, as mãos unidas como se estivesse rezando.
— Eu devia ter pensado nisso. Randolph não parava de falar que nossa família era especial, que chamávamos atenção. Mas eu não fazia ideia de que você... — Ela parou e segurou meus ombros. — Me desculpe por não ter percebido antes. Eu poderia ter ajudado você.
— Hum, não sei do que...
— Meu pai vai voltar para a Califórnia hoje, depois do enterro — continuou ela. — Eu ia pegar o trem para Nova York, mas a escola pode esperar. Agora, eu entendo. Posso ajudar você, Magnus. Conheço um lugar onde você estará seguro.
Eu me afastei.
Não fazia ideia do que Annabeth sabia, ou do que achava que sabia. Talvez ela tivesse se metido com os nove mundos de alguma forma. Talvez estivesse falando de algo totalmente diferente. Mas cada nervo no meu corpo formigava de desespero quando eu pensava em contar a ela toda a verdade.
Agradeci a preocupação. Dava pra ver que era sincera. Mesmo assim... aquelas palavras: Conheço um lugar onde você estará seguro. Nada ativava os instintos de fuga de um menino de rua mais rápido do que ouvir aquilo.
Eu estava tentando pensar em como explicar tudo quando Hearthstone apareceu cambaleando na porta da capela. O olho esquerdo estava inchado e fechado. Ele gesticulou de forma tão frenética que mal consegui entender os sinais: RÁPIDO. PERIGO.
Annabeth se virou, seguindo meu olhar.
— Quem...
— É o meu amigo — expliquei. — Tenho mesmo que ir. Olha só, Annabeth... — Segurei as mãos dela. — Tenho que fazer isso sozinho. É como... como uma coisa pessoal...
— Uma missão?
— Eu ia dizer pé no... é, missão está bom. Se você quer mesmo me ajudar, apenas finja que não me viu. Mais tarde, quando tudo estiver resolvido, vou procurar você. Vou explicar tudo. Prometo. Agora, tenho que ir.
Ela deu um suspiro trêmulo.
— Magnus, acho mesmo que eu poderia ajudar. Mas... — Ela enfiou a mão no bolso do casaco e pegou um pedaço de papel dobrado. — Aprendi do jeito mais difícil que às vezes é preciso recuar e deixar que as pessoas cumpram suas próprias missões, mesmo que sejam pessoas muito queridas. Pelo menos pegue isto.
Desdobrei o papel. Era um dos panfletos com minha foto e a palavra DESAPARECIDO que ela e tio Frederick estavam distribuindo.
— O segundo número é o meu celular. Me ligue. Me avise quando estiver tudo bem, ou se mudar de ideia e...
— Vou ligar. — Dei um beijo na bochecha dela. — Você é demais.
Ela suspirou.
— Você continua um bundão.
— Eu sei. Obrigado. Tchau.
Corri até Hearthstone, que não conseguia nem ficar parado de tão impaciente.
— O que aconteceu? — perguntei. — Onde você estava?
Ele já estava correndo. Segui Hearth para fora da capela, subindo a rua Arlington. Mesmo esbanjando velocidade com minhas pernas novas versão einherji, eu mal conseguia acompanhar.
Descobri que os elfos conseguiam correr rápido se quisessem.
Chegamos na escada da estação quando Blitzen estava se aproximando. Reconheci o chapéu de aba larga e o sobretudo da ponte Longfellow. Ele tinha colocado óculos de sol maiores, máscara de esqui, luvas de couro e um cachecol. Carregava uma bolsa preta de lona. O visual era meio homem invisível indo jogar boliche.
— Opa, opa, opa! — Blitz segurou Hearth para impedi-lo de cair nos trilhos. — O que aconteceu com seu olho? Vocês encontraram a espada?
— Nem sinal dela — falei, ofegando. — O olho de Hearth... não sei... alguma coisa sobre perigo.
Hearth bateu palmas para chamar nossa atenção.
Nocauteado, disse ele. Uma garota pulou do segundo andar da capela. Caiu em mim. Acordei no beco.
— Uma garota na capela? — Fiz cara feia. — Você não está falando de Annabeth? Ela é minha prima.
Ele fez que não com a cabeça. Não ela. Outra garota. Estava... As mãos dele congelaram quando ele reparou na bolsa de Blitz.
Hearth deu um passo para trás, balançando a cabeça, incrédulo. Você veio com ele? Ele soletrou E-L-E, então eu sabia que não tinha entendido errado.
Blitz levantou a bolsa. O rosto estava ilegível, por causa de toda a proteção contra o sol, mas a voz estava tensa.
— É. Ordens do Capo. Mas vamos por partes. Magnus, sua prima estava na capela?
— Está tudo bem. — Resisti à vontade de perguntar por que havia um ele na bolsa de boliche. — Annabeth não vai contar nada.
— Mas... havia outra garota lá?
— Eu não vi mais ninguém. Acho que ela deve ter me ouvido entrar e subiu.
O anão se virou para Hearth.
— E foi nessa hora que ela pulou da janela do segundo andar, nocauteou você e fugiu?
Hearth assentiu. Ela só podia estar procurando a espada.
— Você acha que ela encontrou? — perguntou Blitz.
Hearth fez que não.
— Como pode ter certeza? — perguntei.
Porque ela está bem ali.
Hearth apontou para Boylston. A quatrocentos metros na rua Arlington, andando depressa, havia uma garota de casaco marrom e lenço verde na cabeça. Reconheci o lenço.
O olho inchado de Hearth foi presente de Samirah al-Abbas, minha ex-valquíria.

47 comentários:

  1. estou sinceramente esperando que no epílogo ele converse com a Annabeth

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    1. Acho que eu nao foi o unico a pensar, que quando o ragnarok chegar, os semi-deuses gregos vão ajudar os nórdicos e talvez até os magos da casa da vida, não paro de pensar que essa série pode ser um grande cross-over entre todas as 4 mitologias que o tio rick ja trouxe.

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  2. Ela acha q ele é um filho de Deus grego pobre Anne mal sabe ela q tem agora mais um renca de Deuses pra ela estudar

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    1. Os egípcios ela já conhece, afinal já teve uma missão só com a Sadie e outra que envolvia o Percy, a Sadie e o Carter.

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  3. Arre égua!! Doido!! Pq tão rápido Annie? Sabia que a Sam não ia desaparecer assim.

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  4. Será que a Annabeth sabe sobre a mitologia nórdica?Será que o Olimpo estará presente no Ragnarok?Tantas perguntas...

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    1. Eu acho que não, nos outros livros do tio Rick já teve o começo do fim do mundo e nenhum deus de outra mitologia interferiu, no caso do Percy e das crônicas dos kanes eles tiveram que se virar sozinho

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    2. Na verdade, a única que ela realmente conhece é a Grega/Romana e a Egípcia. E quando as guerras são entre eles do mesmo mito, os outros devem não se meter, só se essa guerra afetar outro mito (como houve em HDO com os Gregos e os Romanos. E quando o Percy e a Annabeth se encontraram com o Carter e a Sadie (não lembro o nome mas foi depois de HDO)), ou até mesmo todos os mitos.

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  5. Annabeth sabe sobre gregos, romanos e egípcios, mais uma miologia não deve ser tão difícil de imaginar!!

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  6. Estou tensa,cara. MTS perguntas, MT emoção, MT tudo!!!!

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    1. e eu assino em concordansia

      MUITO TUDO NESSE LIVRO

      ~coruja

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  7. meus deuses eu quero dormir mas o livro n deixaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

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  8. Kkkkkk sinto pena da anabeth metida num circulo de mitos kkkkkkk

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    1. caçadora de Artemis6 de janeiro de 2016 22:44

      Acabei de começar a ler as brumas de Avalon enquanto leio esse então acho que tem mitologia demais na minha cabeça

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  9. Annabeth tem 14 ai neh? Se isso acontece durante a batalha do labirinto...Para tudo..será que vão unir as 4 mitologias para enfrentar o Ragnarok? (Nao neste livro,mais pra frente,tipo no último livro..)

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    1. Hum, pq vc acha que ela tem 14 aqui? Tem alguma indicação nos capítulos anteriores?

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    2. Acho que ela tem mais que isso pq ela já ta se relacionando de boas com o pai, e o Magnus parece ter a mesma idade que ela, eu chuto algo entre 16 e 17

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    3. 14? Acho que não. Annabeth deve ter 17 ou 18 anos. Tipo, ela fugiu de casa com sete certo? E faz dez anos que Magnus não vê a prima - vide primeiro capítulo - então, acho que foi logo depois de HDO, que têm duração de um ano e meio mais ou menos.

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    4. Hmmm... Acho que essa saga se passa pouco depois de HDO, porque em O Sangue do Olimpo a Annie diz ter um primo e um tio em Boston com quem n tinha nenhum contato. Então não faria sentido ela encontrar Magnusantes de HDO e depois nunca mais falar com ele.

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    5. Se passa depois de Os Heróis do Olimpo, ela deve ter 18 ou quase 18.

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    6. Eu acho que esse livro se passa ao mesmo tempo que o filho de sobek. Se eu não me engano o percy disse alguma coisa sobre a annabeth ter ido visitar um primo em Boston. Só não lembro em qual livro.

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  10. Anny pensou que ele era um semideus grego

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  11. Eu fico pensando q, em certo momento, haverá um juízo final para todas as mitologias, fazendo com que todos se juntem. Não agora pq cada mitologia tem seu próprio livro e seu próprio fim do mundo, mas posteriormente.
    E não paro de pensar no "Colapso dos 9 mundos. Tem o "mundo" humano, grego, romano, egípcio, nórdico... Mais 4 e já ta tudo certo kkkk
    Ou continuar a ler pq minha lista de leitura é grande! Quero saber como vai ser qnd todos personagens dos livros de Rick se juntarem!!!
    Vlw, flws

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    1. descupa se não acreditar em deus ,mas para mim o arrebatamento será o colapso o juízo final de todo as as mitologias

      ~coruja

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  12. Não tio Rick...foi rápido demais,se a annabeth não aparecer de novo ole ole olá 🎵

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  13. Ainda há a mitologia celta se Rick Riordan resolver escrever mais livros um dia

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  14. Magnus Chase passa antes ou depois de Os heróis do Olimpo ?

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    1. Boa pergunta! Se fosse pra eu responder, eu diria que depois. Mas vai saber, essa foi só minha impressão, pode ser outra coisa. Melhor dar uma pesquisada

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    2. Se passa depois de Os Heróis do Olimpo. É visível no começo desse livro que Annabeth está se dando bem com o pai, e a primeira vez que ela menciona estar se dando bem com o pai é em A Marca de Atena, entre A Marca de Atena e O Sangue do Olimpo ela estava no Argo II resolvendo as questões da Guerra de Gaia, não tinha como ela encontrar Magnus. Além do mais Magnus menciona que não vê ela faz 10 anos, e na última vez que se viram ela disse que ia fugir de casa (ela fugiu de casa com 7 anos). A Espada do Verão com certeza se passa no começo do ano seguinte a Guerra de Gaia, Annabeth deve estar com 17 anos, 18 incompletos. Então sim, se passa depois de Os Heróis do Olimpo!

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    3. Exatamente. Além do que a Júlia disse, a Annie fala que aprendeu do jeito mais difícil a deixar os outros fazerem sua missões, referência à morte do titã Jápeto (o Bob) e o gigante Damásen em seu sacrifício no Tártaro. Ela mesma diz isso enquanto sobe no elevador das portas da morte no final de A Casa de Hades.

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    4. Se passa depois já quem As provações de Apolo Percy fala q ela tá em Boston por problemas familiares

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  15. Creio que se passa depois de HDO. Pois annie e o mag tem mais ou menos a mesma idade, ai ele tem 16. Ela deve ter de 16 à 18. E tb ai ela está se dando bem com o pai. N entendo de onde tiraram que esse livro passa junto ao Labirinto. Nd a ver.

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  16. até a Annie acha que ele é grego kkk

    ~coruja

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  17. "Aprendi do jeito mais difícil que às vezes é preciso recuar e deixar que as pessoas cumpram suas próprias missões, mesmo que sejam pessoas muito queridas." eu acho q ela fala sobre o leo e tudo mais alem dos calculos da idade entao acho sim q e depois do HDO.
    ~Badboysupreme

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    1. Si ela ta falando do Léo então ele não voltou ?????

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  18. Pobre Annie, pensando que Magnus é semideus grego... Mal sabe ela que além de romanos e egípcios, existem os nórdicos tb pra complicar mais o mundo. Além disso, como poderia Magnus ser grego se os deuses juraram pelo Estige que iriam reivindicar seus filhos aos 13 anos? Magnus estaria três anos atrasado então... Mas tudo bem, minha carta de Hogwarts tb ta 3 anos atrasada, mas eu não desisto, um dia ela chega...

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    1. Ah, vai saber, se Piper, Jason e Leo apareceram do nada, Magnus também poderia ser um hauehaueha
      Mas gent, coitada da Annabeth, quantas mitologias batendo com o mundo dela!

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    2. sasuahsuaa, ta faltando a asteca tambem!!

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  19. qual o livro ou serie relacionado aos egipsios?

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  20. eu sempre pensei q todos os "fim do mundo" de cada serie se passava ao mesmo tempo tipo a luta contra a gaia dos gregos e romanos, a luta contra o apófis dos egipicios e ai o ragnarok pq em tds as batalhas finais teve muita destruição e em lugares diferentes então como eles não perceberiam a não ser se eles interligar com o fato q poderia ser obras d seus inimigos antes d serem derrotados mas... agora q dizem q se passou depois do HDO então não sei mais nada :(

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  21. Karina mana quando vx vai postar o próximo livro da serie??
    ainda nao terminei de ler este mais ja quero que tenha outro quando terminar

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    1. Oi! Então, estou terminando de postar Acampamento Shadow Falls. Assim que publicar o quinto e último livro, coloco esse :)

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  22. É impressão minha,ou a família Chase adora um Deus? KKKKKKK

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