31 de outubro de 2015

Vinte e quatro

Olho a pintura e logo Damen. Minha mão pressionada contra meu peito, sem poder encontrar palavras. Sabendo que o que eu disser nunca poderá descrever o que está diante de mim. Absolutamente nenhuma palavra o fará.
— É tão... — Faço uma pausa, me sentindo pequena, não merecida, sem dúvida não digna de uma imagem tão majestosa. — É tão bonito e transcendental — sacudo a cabeça — e de maneira nenhuma poderia ser eu!
Damen ri, seus olhos reunindo-se com meus, quando diz:
— Oh, definitivamente é você. De fato, é a encarnação de todas suas encarnações. Uma espécie de copilação dos seus últimos quatrocentos anos. Seu cabelo de fogo e sua pele cor de nata vindos diretamente de sua vida em Amsterdã, a confiança e convicção de seus dias de puritana, sua humildade e força interior tiradas de sua difícil vida parisiense, você elaboradamente vestida a coquete olhar de seu dia de sociedade em Londres, mas com os mesmos olhos. — Ele encolhe os ombros, voltando-se para mim. — Eles seguem sendo os mesmos, imutáveis e eternos, não importa que aparência você tenha.
— E agora? — Sussurro, meu olhar centrado no tecido, admirando o mais radiante, luminoso e glorioso ser alado, uma verdadeira deusa que descende dos céus, desejosa de embelezar a Terra com seus dons. Sabendo que é muito possivelmente a imagem mais formosa que vi, mas ainda assim sem conseguir o que realmente poderia ser eu. — Que outra parte de mim agora tomou? Além dos olhos, quero dizer.
Ele sorri.
— Suas asas de anjo, é óbvio.
Viro-me, assumindo que é uma brincadeira até que vejo a expressão séria marcando seu rosto.
— Não é muito consciente delas, sei. — Ele assente. — Mas confie em mim, estão aí. Ter você em minha vida é como um presente do céu, um presente que certamente não mereço, mas agradeço todos os dias.
— Por favor. Eu não sou tão boa, amável ou gloriosa, nem remotamente angelical como você pensa. ― Sacudo a cabeça. — Sobretudo ultimamente, você sabe — adiciono, desejando poder pendurá-lo em meu quarto para poder vê-lo todos os dias, mas sabendo que é muito mais importante deixá-lo aqui.
— Está certa disto? — Ele desliza seu olhar entre sua formosa pintura sem assinar e as de seus amigos.
— Absolutamente. — Assenti. — Imagine todo o caos que vai causar quando o encontrarem profissionalmente emoldurado e pendurado nesta parede. E me refiro ao bom tipo de caos, na dúvida. Além disso, pense em todas as pessoas serão chamadas para estudar e determinar exatamente de onde veio, como chegou aqui, e quem o poderia ter criado.
Ele assente com a cabeça, olhando uma última vez antes de afastar-se. Mas tomo-a de sua mão dizendo:
— Ouça, não tão rápido. Não acha que deveríamos lhe por um nome? Sabe, acrescentar uma placa de bronze como os outros?
Olha seu relógio, um pouco mais distraído agora.
— Nunca fui muito bom em dar títulos aos meus trabalhos, sempre acabo com o óbvio. Você sabe: tigela de fruta, ou Tulipas vermelhas em um floreiro azul.
— Bom, provavelmente é melhor não nomeá-lo Ever com asas, Angelical Ever, ou algo remotamente parecido com isso. Já sabe, só em caso de que alguém chegue a me reconhecer. Mas, que tal algo um pouco mais figurativo, menos literal? — Inclino a cabeça e o olho, decidida a fazer que isto funcione.
— Alguma sugestão? — Me olha brevemente, antes de que seu olhar comece a divagar. — Que tal encantamento ou encantada não sei, algo assim? — Apuro os lábios com força.
— Encantamento? — Ele volta-se para mim.
— Bom, obviamente está sob algum tipo de feitiço se crê que se parece comigo. — Eu rio, vendo como seus olhos se iluminam quando ri comigo.
— Encantamento será. — Ele assente com a cabeça, voltando para o quadro de novo. — Mas temos que fazer esta placa rápido. Temo que...
Aceno com a cabeça, fecho os olhos e imagino a placa em minha cabeça, murmurando:
— O que devo usar para o artista-anônimo ou desconhecido?
— Qualquer coisa - diz sua voz apressada, ansiosa, desejosa de passar o tema, e termino escolhendo desconhecido porque eu gosto do som. Inclino-me para diante para inspecionar meu trabalho, perguntando:
— O que te parece?
— Acredito que é melhor correr!
Agarra minha mão, movendo-se tão rápido que nenhuma só vez meus pés tocam o chão. Correndo pela ampla série de salas, subimos as escadas, embora eles não estivessem ainda ali. A porta de entrada ainda estava à vista quando todo o prédio fica brilhante e o alarme começa a soar.
— Oh meu Deus! — Eu choro, o pânico fecha minha garganta enquanto volto a aumentar o ritmo.
Sua voz está rouca e desigual quando diz:
— Eu não planejava permanecer tanto tempo. Eu... eu não sabia...
Paramos quando chegamos à porta de entrada ao mesmo tempo em que a porta de aço desce. Viro-me para ele, meu coração a ponto de estalar, manchando minha pele com suor, consciente dos passos atrás de nós, dos incontáveis gritos soando. De pé junto a ele em silêncio, incapaz de me mover, incapaz de gritar, seus olhos fechados em profunda concentração, insistindo ao complexo sistema de alarme a apagar-se de novo.
Mas é muito tarde. Eles já estão aqui. Assim levanto meus braços em sinal de rendição, disposta a aceitar meu destino, enquanto a porta de aço sobe e saio pela porta para os campos em flor de Summerland. Ou pelo menos imagino que é Summerland.
Damen imagina que estamos a salvo instalados em seu carro, em direção à casa. E assim nos encontramos no meio de uma estrada muito congestionada, dentro de um automóvel. Uma buzina começa a soar e lutamos para nos pôr de pé e nos afastar apressadamente para o lado, olhando a nosso redor e recuperando o fôlego à medida que tratamos de determinar onde estamos.
— Não acredito que isto seja Summerland — digo-lhe, olhando para Damen enquanto ele estala em uma risada tão contagiosa, que não posso evitar segui-lo. Nós dois nos encolhemos de um lado da estrada, cheio de lixo, em algum lugar não determinado, caindo sobre nós mesmos.
— Que te pareceu sair da rotina? — Ofega, seus ombros tremendo enquanto seguimos rindo.
— Quase me deu um ataque do coração. Pensei que certamente nós... — recuperei meu fôlego e agitei a cabeça.
— E agora? — Ele se aproxima de mim. — Não te prometi que sempre cuidaria de você e te protegeria?
Aceno com a cabeça, recordando as palavras, mas infelizmente os últimos minutos seguem gravados em meu cérebro.
— Que tal um carro então? Um carro seria bom agora, não te parece?
Ele fecha os olhos, manifestando um BMW aqui e lá, ou talvez manifestando um novo em seu lugar. É impossível saber, já que ambos têm o mesmo aspecto.
— Pode imaginar o que os guardas pensaram quando primeiro nós e logo depois o automóvel desaparecemos?
Ele mantém a porta aberta para eu entrar, acrescentando:
— As câmeras de segurança! — Antes de fechar os olhos e encarregar-se das mesmas.
Mistura-se ao tráfico, com um sorriso feliz ampliando-se através de sua cara. Dando-se conta que na realidade está desfrutando disto. Que os últimos minutos de perigo lhe entusiasmaram mais até do que a pintura o fez.
— Já faz um tempo que não me acontecia algo assim. — Me olha. — Mas para que saiba, considero que você é em parte responsável, já que me convenceu para nos demorar.
Olho-o deslizando meus olhos sobre seu rosto, arrastando-o comigo. E embora os batimentos do meu coração provavelmente nunca voltem à normalidade, há muito tempo não o via tão feliz, despreocupado e tão perigoso, o que o torna mais atraente para mim.
— Então, o que foi? — Dirige através do tráfego, sua mão em meu joelho.
— Vamos para casa? — Olho-o, me perguntando o que poderia derivar de uma saída como essa.
Damen me olha, claramente elevando a aposta.
— Está certa disso? Porque podemos ficar fora o tempo que quiser, eu não quero que se aborreça de novo.
— Acredito que superestime o meu aborrecimento. — Eu rio. — Estou começando a ver que você tem razão.
Damen assente com a cabeça inclinada para mim e apura seus lábios contra minha bochecha, quase chocando a parte traseira do automóvel no segundo que tira os olhos da estrada.
Eu rio, empurrando-o para seu assento.
— Seriamente... Acredito que já testamos nossa sorte o suficiente por uma noite.
— Como desejar. — Ele sorri, apertando meu joelho enquanto se vira para a estrada, concentrando-se na estrada.

3 comentários:

  1. Gente, eu estou a mil por horas nesse capitulo! Que showwwwwwwwww!
    ass: Bina.

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