30 de outubro de 2015

Vinte e quatro

Não tinha ideia que seria tão fácil. Não pensei que seriamos capazes de chegar lá. Mas depois de levar-nos através do ritual de fechar os olhos e imaginar um portal brilhante com luz resplandecente, ambas justando nossas mãos e atravessamos, aterrissando juntas nessa estranha e flutuante grama.
Ava me olha com seus olhos e sua boca bem abertos, mas incapaz de poder articular qualquer palavra.
E eu só confirmo e olho ao redor, sabendo exatamente como ela se sente porque, embora já tenha estado aqui antes, isso não torna menos surreal.
— Ei, Ava — digo levantando-me e sacudindo o meu jeans, disposta a servir de guia turística e mostrar-lhe quão mágico pode ser este lugar. — Imagine algo. Qualquer coisa, como um objeto, um animal, até mesmo uma pessoa. Só feche seus olhos e veja tão claro quanto possível e depois...
Eu observo como ela fecha seus olhos e minha emoção cresce enquanto ela franze o cenho e se concentra no objeto que escolheu.
E quando ela abre outra vez seus olhos, leva as mãos ao seu peito e olha diretamente para frente, gritando:
— Oh! Não pode ser... Mas olhe... Se parece tanto com ele e é tão real!
Ela se ajoelha na grama, batendo as mãos e rindo com emoção enquanto um lindo Golden Retriever salta para seus braços e acaricia sua bochecha e lambendo. Abraçando-o firmemente contra seu peito, murmurando seu nome uma e outra vez, e eu sei que é meu dever adverti-la que ele não é real.
— Ava, hum, desculpe, mas eu temo que ele não... — Mas antes que eu possa terminar, o cachorro se desfaz de seu abraço. Borrando-se como um padrão de vibrantes pixels que logo desaparecerá por completo e quando vejo a decepção em seu rosto, meu estômago revira-se me sentindo culpada por ter iniciado este jogo.
— Devia ter explicado — lhe digo, desejando não ter sido impulsiva. — Eu sinto muito.
Mas ela só assente, piscando em lágrimas enquanto sacode a grama de seus joelhos.
— Está tudo bem. De verdade. Sabia que era muito bom para ser verdade. Mas só por vê-lo assim outra vez, ter tido só esse momento... — ela dá de ombros. — Bem, mesmo que não tenha sido real, não me arrependo nem por um segundo. Então você também não, certo? — Ela pega minha mão e aperta. — Eu sentia muita falta dele e só tê-lo por esses breves segundos foi como um presente muito valioso. Um presente que experimentei graças a você.
Eu acendo com a cabeça, engolindo com força e desejando que suas palavras fossem sinceras. E embora pudéssemos passar as próximas horas manifestando tudo o que nossos corações quisessem, a verdade é que meu coração só desejava uma coisa. Além do mais, depois de ver a reunião de Ava e seu amado animal de estimação, os prazeres dos bens materiais já não pareciam valer a pena.
— Então isso é Summerland — ela disse, olhando tudo ao seu redor.
— Isto é — eu confirmo. — Mas o único que já vi é este campo, esse ar e algumas outras coisas que não existiam até que eu as manifestasse. Ah, e vê aquela ponte? Aquele caminho lá, ao longe, onde está a neblina?
Ela gira, assentindo quando vê.
— Não se aproxime de lá. Leva até o outro lado. Essa é a ponte que Riley te contou, a ponte que finalmente a convenci a cruzar, depois que você a persuadiu um pouco.
Ava ficou olhando e seus olhos se entrecerraram um pouco quando disse:
— Me pergunto o que aconteceria se tentasse cruzá-la. Você sabe, sem morrer, sem esse tipo de convite.
Mas eu só dou de ombros, não tenho a mínima curiosidade de tentar descobrir.
— Eu não a recomendaria — lhe digo, vendo o olhar em seus olhos e percebendo que ela na verdade estava considerando isso. Se perguntando se ela deveria tentar atravessá-la só por simples curiosidade. — Você poderia não voltar — acrescento, tentando transmitir a potencial seriedade ao assunto, já que ela não parecia entendê-lo. Mas suponho que Summerland tem esse efeito.
É tão bonito e mágico, que provoca a se arriscar a fazer coisa que normalmente não faria.
Ela me olha, ainda não completamente convencida, mas ansiosa para ver mais do que ficar aqui sentada. Então enlaça seu braço com o meu e diz:
— Por onde começamos?
Como nenhuma das duas tem ideia de por onde começar, começamos a andar. Dirigindo-nos até o caminho de flores dançantes, abrindo o nosso caminho entre a floresta de árvores pulsantes, cruzando o rio cuja água é de todas as cores com um arco-íris e está habitado por todo tipo de peixes, até que encontrarmos um caminho que, depois de vagar por muitas curvas e curvas, nos conduzimos até uma longa estrada vazia.
Mas não é uma estrada de tijolos amarelos, ou pavimento dourado. Está é uma estrada regular, feita com asfalto que vejo todos os dias, como o tipo que você vê em sua casa.
Embora deva admitir que é melhor que os caminhos de casa porque este está limpo e como novo, sem buracos nem marcas de derrapagem. Na verdade, todas as coisas aqui são tão resplandecentes e novas, que pensaria que nunca antes foi usado, quando a verdade é – ou pelo menos a verdade segundo Ava – que Summerland é mais antigo que o tempo.
— Então, o que exatamente você sabe sobre estes templos, ou Grandes Salões de
Aprendizagem, como você chama? — Lhe pergunto, levantando a vista para observar um impressionante edifício de mármore branco com todos os tipos de anjos e criaturas místicas esculpidas em suas colunas e me pergunto se esse poderia ser o lugar que nós procuramos.
— Quero dizer, parece elaborado, sério e impressionante, mas não é exatamente formidável como eu imaginei que seria um salão de aprendizagem superior.
Mas Ava apenas dá de ombros, como se já não estivesse interessada. No qual me parece mais descomprometida do que eu gostaria.
Ela estava tão certa de que as respostas estavam aqui, foi tão insistente em juntar nossas energias e viajar juntas, mas agora que nós fizemos, está muito presa com o poder da manifestação instantânea para concentrar-se em mais alguma coisa.
— Só sei que existem — ela disse com suas mãos estendidas na frente e girando-se de um lado pra outro. — Tenho lido sobre eles várias vezes em meus estudos.
E, no entanto, tudo o que parece está estudando são esses anéis enormes com joias incrustadas que manifestou em seus dedos! Sem dizer as palavras, mas sabendo que, se ela está interessada o suficiente para observar, veria o desagrado estampado em meu rosto.
Mas ela apenas sorri e manifesta seu braço cheio de pulseiras que combinam com seus novos anéis e quando começa a olhar seus pés, pensando em manifestar novos sapatos, sei que é hora de trazê-la de volta.
— O que devemos fazer agora que chegamos aqui? — Lhe pergunto, determinada a fazer com que ela se concentre na verdadeira razão pela qual estamos aqui. Ou seja, eu fiz minha parte, então o mínimo que ela podia fazer era ser recíproca e me ajudar a encontrar o caminho. — E o que é que devemos investigar uma vez que encontrarmos? Dores de cabeça repentinas? Repentinos incontroláveis suores? Para não mencionar, ainda vão nos deixaram entrar?
Eu me viro, esperando um sermão sobre minha persistente negatividade, meu pessimismo que desaparece por um tempo, mas nunca desaparece por completo... Apenas para descobrir que ela já não está mais ali.
E me refiro a que ela está completamente, inconfundivelmente, 100% desaparecida!
— Ava! — Lhe chamo, dando voltas e voltas, tentando ver entre a brilhante neblina, o resplendor eterno que emana de nenhum lugar específico, mas consegue cobrir tudo aqui. — Ava, onde você está? — Grito, correndo até o meio da longa e vazia estrada e parando para observar as janelas e portas e perguntando-me porque existem tantas lojas, restaurantes, galerias de arte e salões, quando não existe ninguém ao redor para usá-las.
— Você não vai encontrá-la.
Dou a volta e encontro com uma garota pequena de cabelos escuros, parada diante de mim. Seu cabelo macio chega até os ombros e seus olhos quase negros estão marcados por uma franja tão severa que parece ter sido cortado com uma navalha.
— As pessoas se perdem aqui. Acontece o tempo todo.
— Quem... Quem é você? — Lhe pergunto, reparando em sua blusa branca engomada, saia xadrez, blazer azul, e meias até o joelho. O uniforme de uma típica garota de escola particular, mas sei que está não é uma estudante qualquer. Não se está aqui.
— Sou Romy — ela disse. Mas seus lábios não se movem e a voz que escutei vem de trás de mim.
E quando me viro, me encontro exatamente com a mesma garota rindo enquanto diz:
— E ela é Rayne.
Eu me viro outra vez e vejo que Rayne ainda atrás de mim, enquanto Romy se une a ela. Duas garotas idênticas diante de mim. Tudo nelas – o cabelo, a roupa, o rosto, os olhos – são exatamente iguais.
Tudo, exceto pelas meias nos joelhos. As de Romy estão caídas, enquanto que as de Rayne estão ajustadas e bem colocadas.
— Bem-Vinda a Summerland — Romy sorri, enquanto Rayne me olha com suspeita. — Sentimos por sua amiga. — Ela golpeou sua irmã, e como esta não respondeu, disse, — Sim, inclusive Rayne sente. Só que não vai admitir.
— Você sabe onde posso encontrá-la? — Pergunto olhando pra ambas e perguntando-me de onde tinham vindo.
Romy dá de ombros.
— Ela não quer ser encontrada, então no lugar disso decidimos encontrar você.
— Do que está falando? De onde vieram? — Lhes pergunto sem nunca ter visto outra pessoa em minhas visitas anteriores.
— Isso é porque você não queria ver outra pessoa — disse Romy, contestando o pensamento em minha cabeça. — Nunca desejou até agora.
Eu a olho com meu rosto inexpressivo e minha mente dá voltas. Ela pode ler meus pensamentos?
— Os pensamentos são energias — ela dá de ombros. — E Summerland consiste em energia rápida, intensa, ampliada. Tão intensa que podemos lê-la.
Quando ela diz isso, recordo da minha visita com Damen e como éramos capazes de nos comunicar telepaticamente. Mas pensei que nós éramos os únicos.
— Mas se isso é verdade, então por que eu não pude ler a mente de Ava? Como ela foi capaz de desaparecer assim?
Rayne revira os olhos, enquanto Romy se inclina pra frente, sua voz suave e baixa, como se estivesse falando com uma criança pequena, mesmo elas parecendo mais jovens do que eu.
— Porque você tem que desejar para poder fazer. — Então, ao ver a expressão em meu rosto ela explica, — Em Summerland tudo é possível. Todas as coisas. Mas primeiro tem que desejá-lo para trazer a experiência. Do contrário será só uma possibilidade – uma de tantas possibilidades – sem manifestação e incompletas.
Eu a olho tentando compreender suas palavras.
— A razão pela qual não viu pessoas antes é porque você não quis. Mas agora, olhe ao redor e me diga o que vê.
E quando olho ao redor, vejo que ela tem razão. As lojas e restaurantes agora estão cheias de pessoas, uma nova exposição de arte posta na galeria e uma multidão reunindo-se nas escadas do museu. E enquanto me concentro nas energias deles e em seus pensamentos, me dou conta da diversidade que é este lugar. Há nacionalidades e religiões de todos os tipos, e todas coexistem em paz.
Uau, Penso, enquanto meus olhos verificam todas as partes, tentando captar tudo.
Romy assente com a cabeça.
— E no momento que desejou encontrar o caminho para o templo, viemos para ajudá-la enquanto Ava desaparecia.
— Então eu a fiz desaparecer? — Pergunto, começando a compreender a verdade em tudo isso.
Romy ri, enquanto Rayne balança a cabeça e revira os olhos, olhando-me como se eu fosse a pessoa mais idiota que já conheceu.
— Dificilmente.
— Então todas essas pessoas... — eu sinalo para a multidão. — Todos eles estão mortos? — dirijo a pergunta a Romy, porque já desisti de Rayne.
E observo como ela se inclina e sussurra no ouvido de sua irmã, fazendo com que Romy se afaste e diga:
— Minha irmã diz que você faz muitas perguntas.
Rayne faz uma careta, golpeando-a com força no braço com o seu punho, mas Romy apenas sorri.
E enquanto eu observo as duas, reparando o brilho constante de Rayne e o Romy insistente no discurso em enigmas, me dou conta que com todo o entretenimento que há, estão começando a me cansar. Tenho coisas para fazer, templos para encontrar e envolver-me com esse tipo de piadas confusas está se transformando em uma enorme perda de tempo.
E recordo muito tarde que elas duas podem ler meus pensamentos quando Romy assente com a cabeça e diz:
— Como quiser. Te mostraremos o caminho.

2 comentários:

  1. caramba!!! pela primeira vez encontrei uma chará em um livro Raíne, É estranho...

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  2. caramba!! eu nunca tinha encontrado meu nome em em personagem de um livro é estranho.... mas é legal!

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