29 de outubro de 2015

Vinte e quatro

Quando acordo, vejo que estou em meu quarto, deitada ao lado de Sabine. Em seu rosto, uma expressão de alívio; nos pensamentos, só preocupação.
— Bom-dia! — ela diz sorrindo. —Você deve ter tido um fim de semana daqueles, hem?
Ainda sonolenta, olho antes para ela e, depois, para as horas no despertador. Salto da cama, apressada.
— Tudo bem com você? — Sabine vem atrás de mim. — Ontem à noite, quando cheguei, você já estava dormindo. Não está doente, está?
Vou para o chuveiro, sem saber o que responder. Sei que não estou doente, mas nem imagino como pude dormir tanto.
— Quer me contar algo? — pergunta Sabine, à porta do banheiro. — Algo que eu deva saber?
Fecho os olhos e relembro o fim de semana: a praia, Evangeline, Damen preparando o jantar e dormindo aqui em casa, o café da manhã no domingo.
— Não... não aconteceu nada — respondo finalmente.
— Então é melhor você se apressar, senão vai se atrasar para a escola. Tem certeza de que está bem?
— Tenho — digo, num tom firme de voz, com o máximo de segurança que consigo produzir. Abro as torneiras e, sem ter certeza se menti ou falei verdade para Sabine, entro na ducha.
Durante todo o caminho até a escola, Miles não fala de outro assunto que não seja Eric. Sem deixar de fora detalhe algum, conta toda a história do término deles na noite de domingo, via torpedos, e tenta me convencer de que não está nem aí, de que nem se lembra mais do garoto, o que prova justamente o contrário.
— Você nem está me ouvindo, né? — esbraveja.
— Claro que estou — respondo entredentes, parando num sinal vermelho a um quarteirão da escola e pela enésima vez relembrando todos os acontecimentos de meu fim de semana, que mais uma vez termina no café da manhã. Por mais que eu tente, não consigo me lembrar de nada que tenha acontecido depois.
— Não é o que parece — devolve Miles, e vira o rosto para a janela. — Quer dizer, se eu estiver amolando, é só falar. Porque uma coisa é certa: pra mim, esse Eric nem existe mais. Já lhe contei daquela vez em que ele...
— Miles, você falou com a Haven nesse fim de semana? — pergunto, rapidamente olhando para ele antes de o sinal abrir, estranhando o pavor que senti só de mencionar o nome dela.
Miles faz que não com a cabeça.
— E você? — pergunta ele.
— Acho que não — digo, e arranco com o carro.
— Você acha? — Ele arregala os olhos, mexendo-se no banco.
— Não desde sexta-feira, pelo menos.
Entro no estacionamento, e meu coração dá um salto triplo quando vejo Damen no mesmo lugar de sempre, recostado no BMW, esperando por mim.
— Bem, pelo menos um de nós ainda tem uma chance de viver feliz para todo o sempre — diz Miles, que acena para Damen, que vem para meu lado com uma tulipa vermelha nas mãos.
— Bom-dia! — ele diz sorrindo, entrega-me a flor e beija meu rosto.
Resmungo qualquer frase sem sentido e sigo para o portão. O sinal toca a meio caminho: Miles sai correndo para sua sala e Damen me puxa pela mão até a aula de inglês.
— O Sr. Robins já está a caminho — ele sussurra em meu ouvido, segurando meus dedos ao me levar para nosso lugar da sala. Quando passamos por Stacia, ela faz uma cara horrível para mim, esticando a perna para que eu tropece, mas muda de ideia no último segundo e a puxa de volta. — Ele parou de beber, cismou que quer conquistar a mulher de novo.
Apertando o passo para me afastar dele, que continua falando em meu ouvido, chego à carteira e tiro os livros da mochila, sem entender por que me sinto assim, tão esquisita e nervosa com a presença de meu próprio namorado. Levo a mão ao capuz para ligar o iPod e entro em pânico quando vejo que ele ficou em casa.
— Você não precisa mais desse iPod — diz Damen, e pousa a mão na minha para acariciar os dedos. — Agora tem a mim.
Fecho os olhos, sabendo que o Sr. Robins vai chegar em apenas três, dois, um...
— Ever — sussurra Damen, correndo o indicador sobre as veias de meu pulso —, você está bem?
Crispo os lábios e faço que sim com a cabeça.
— Ótimo. — Ele se cala por alguns segundos e depois diz: — Adorei nosso fim de semana, espero que você tenha gostado também.
Abro os olhos assim que o Sr. Robins entra na sala, percebendo que ele não está mais com a cara inchada e vermelha, apesar de suas mãos continuarem um pouco trêmulas.
— Ontem foi muito divertido, você não acha? — Damen continua.
Olhando diretamente nos olhos dele, minha pele formigando só pela mão dele estar sobre a minha, faço que sim com a cabeça, pois sei que essa é a resposta que ele quer ouvir. Mesmo não tendo certeza de ter falado a verdade.
As horas seguintes se reduzem a um grande borrão de aulas e confusão mental, e só quando chego à mesa de almoço é que fico sabendo o que de fato aconteceu ontem.
— Nem acredito que vocês entraram naquela água gelada! — diz Miles, mexendo seu iogurte e olhando para mim.
— Ela usou uma roupa de neoprene — diz Damen. — Aliás, você a esqueceu lá em casa.
Desembrulho meu sanduíche sem me lembrar de nada disso. Eu nem tenho uma roupa de neoprene. Ou será que tenho?
— Hmm... isso não foi na sexta? — pergunto, corando de vergonha quando me lembro de tudo o que aconteceu naquele dia. Damen faz que não com a cabeça.
— Não, você não surfou na sexta — responde Damen. — Fui eu que surfei. Mas ontem você teve uma aula comigo.
Retiro a casca do pão de forma e tento me lembrar de algo mais, no entanto nada me vem à cabeça.
— E ela mandou bem? — pergunta Miles, lambendo a colher e olhando de Damen para mim.
— O mar estava meio flat, não tinha muito que fazer. Passamos a maior parte do tempo deitados na areia, debaixo de um cobertor. Nisso ela mandou muito bem, sim — brinca Damen.
Olho para ele, cogitando se estava com ou sem roupa de neoprene debaixo do tal cobertor, se algo aconteceu entre a gente. Será possível que tentei compensar pelo que rolou, ou não rolou, na sexta, e depois apaguei da memória?
Miles vira para mim com uma interrogação no olhar, mas dou de ombros e cravo os dentes no sanduíche.
— A que praia vocês foram? — ele pergunta.
Como não me lembro de nada, viro para Damen.
— Crystal Cove — ele responde, dando um gole em sua bebida.
Miles balança a cabeça e revira os olhos.
— Não me digam que vocês se transformaram num desses casais em que só o cara pode falar. Digo, é ele quem pede sua comida no restaurante também?
Olho para Damen, mas antes que ele possa responder Miles continua:
— Foi pra você que eu perguntei, Ever.
Busco na memória as duas últimas vezes em que comemos num restaurante: uma vez na Disney, naquele dia maravilhoso, mas que terminou de modo tão estranho, e outra no hipódromo, quando ganhamos todo aquele dinheiro.
— Não, Miles, sou eu quem pede minha comida — respondo. E depois: — Me empresta aí o Sidekick, vai.
Miles tira o Sidekick do bolso e o empurra em minha direção.
— Esqueceu seu telefone em casa, foi?
— Esqueci, e quero mandar um torpedo pra Haven, saber onde ela está. Estou com uma sensação estranha com relação a ela. — Não consigo parar de pensar nela. Mal consigo explicar direito o que é para mim mesma, que dirá para eles.
Já estou digitando os números no minúsculo teclado quando Miles diz:
— Haven está em casa, doente. Uma gripe, sei lá. Além disso, está arrasada por causa da Evangeline. Mas jurou pra mim que não está mais com raiva da gente.
— Mas você não disse que não havia falado com ela? — Largo o telefone e olho para Miles, absolutamente segura do que ouvi no carro.
— Mandei um torpedo durante a aula de história.
— Então ela está bem? — pergunto, os nervos inexplicavelmente à flor da pele.
— Botando as tripas pra fora de tanto vomitar, debulhando-se em lágrimas por causa da amiga que morreu... tirando isso, está bem, sim.
Ora, não faz sentido incomodar minha amiga se ela não está legal; portanto, devolvo o Sidekick para Miles, que no mesmo instante retoma a ladainha sobre Eric, e Damen coloca sua mão sobre minha perna. Vou ouvindo o que ele diz, ora mordiscando meu sanduíche, ora sacudindo a cabeça feito um robô, mas incapaz de me desligar.
Vá entender: Damen resolve assistir a todas as aulas justamente no dia em que eu daria tudo para não vê-lo. Ao fim de cada aula, saio da sala e deparo com ele à porta, esperando aflito por mim, perguntando se estou bem. E isso já está me dando nos nervos.
Portanto, depois da aula de artes, no último tempo, quando nos encontramos no estacionamento, ele se oferece para me acompanhar até minha casa.
— Se você não se importar, preciso de um tempinho só pra mim — respondo.
— Está tudo bem com você? — ele pergunta pela milionésima vez.
Faço que sim com a cabeça e entro no carro, louca para fechar a porta e ir embora.
— Preciso resolver alguns assuntos, mas a gente se vê amanhã, O.K.?
Sem esperar a resposta engato a ré e vou embora.
Já em casa, sinto-me tão exausta que subo direto para o quarto, planejando tirar uma soneca antes de Sabine chegar e ficar se preocupando comigo também. Mas quando acordo no meio da noite, com o coração a mil e as roupas ensopadas de suor, tenho a inefável sensação de que não estou sozinha no quarto.
Aperto o travesseiro contra o peito, como se as penas de ganso pudessem oferecer algum tipo de proteção, e passeio os olhos pelo breu do quarto.
— Riley? — sussurro, mesmo tendo certeza de que não é ela quem está aqui.
Controlo a respiração e ouço um ruído próximo à porta da varanda, um barulhinho discreto e abafado, como o de chinelos sendo arrastados no carpete.
— Damen? — sussurro, e me surpreendo comigo mesma. Não tenho motivo para achar que é ele quem está aqui. Então aperto as pálpebras para enxergar melhor, mas só vejo escuridão.
E dali a pouco escuto outro ruído, algo como um suave sussurro.
Tateando a parede, encontro o interruptor e acendo a luz. Assim que me acostumo à claridade repentina, procuro pelo invasor, e quase fico desapontada quando não encontro ninguém. Tinha certeza absoluta de que não estava sozinha.
Ainda com o travesseiro entre os braços, levanto da cama e tranco a porta da varanda.
Dou uma olhada no closet e debaixo da cama, tal como fazia o papai anos atrás, quando procurava o bicho-papão para mim. Sem nada encontrar, volto para a cama, perguntando a mim mesma se meu sonho pode ter desencadeado todo esse medo.
Um sonho semelhante ao que tive antes, em que estava correndo contra a ventania de um cânion escuro, embrulhada em um vestido branco muito fininho, inútil contra o frio.
Fustigados pelo vento, parecia que meus ossos iam congelar. Mas quase não me importei; com os pés descalços chapinhando na lama, segui correndo na direção de um refúgio que nem mesmo conseguia ver. Sei apenas que estava correndo para uma luz que brilhava suavemente. E fugindo de Damen.

14 comentários:

  1. Ele a pagou a mente dela? Foi isso que eu entendi!? Isso está ficando estranho!
    Ass: Bina.

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  2. No começo eu amava o damen mais agora tô começando a ficar com medo das atitudes dele seila
    Ass>amanda

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  3. ta parecido com partes de um monte de livros que eu li aqui no site mesmo e algumas series

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  4. Realmente, a maior parte parece com crepúsculo, mas tem aqueles fleshes de hush hush, the vampire diares e outras

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    1. kkkk vdd tbm achei parecido com crepusculo, o gatinho gosta da esquisitona, só q se invertem, ela n consegue ler a mente dele e por isso gosta dele kk

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  5. Damen! seu (desculpem os palavroes) filho da puta, retardado, arrombado do krl, lindo, sexy, gatinho, perfeitamente lindo e idiota!
    odeio vc! amo vc!
    apago a memoria dela seu vampiro, sexy e perverso!

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    1. sempre desço pra ver seus comentários. são os melhores. :D

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    2. Ela é d+ msm adoro você garota

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  6. O que há de errado com Damen? Ele fez lavagem crebral nela?!

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  7. Pelo anjo ! Nao sei pq mas lembrei de Sebastian

    Fabby Santtos

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  8. Parece com Hush Hush... pelo menos esse capítulo, COM CERTEZA.
    Estou meio que ficando com um pouquinho de medo do Damen.

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    1. n precisa ficar com medo dele, pelo q eu entendi ele tava tentando ajudar a haven,apagou a memoria da ever, consegue ler pençamentos,fazer as pesoas fazer oq ele que e tbm acho q ele tava com a haven pq ela foi mordida ou algo assim pela drina

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  9. Ih virou Lysandre e ta sem memoria KKKKKKKKKKK desculpa, isso não é coisa pra rir
    Mesmo achando que foi ele, não consigo odiar não sz Ele me lembra o meu amor vulgo Jace só que numa versão mais educada rsrs

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