18 de outubro de 2015

Vinte e quatro - Vocês só tinham um trabalho

O CASO É que Valhala vinha mandando o lixo para reciclagem na base do rebatedor no estádio de beisebol Fenway, o que podia explicar qualquer problema que o Red Sox estivesse tendo com o ataque.
Hearthstone já estava quase de pé quando caí em cima dele, derrubando-o de novo. Blitzen, por sua vez, caiu em cima de mim antes que eu pudesse me levantar também. Eu o empurrei e rolei para o lado, caso mais alguém decidisse cair do céu.
Eu me levantei.
— Por que estamos no parque Fenway?
— Não me pergunte. — Blitzen suspirou, lamentoso. O belo terno de lã parecia ter passado pelo trato digestivo de uma lesma. — As portas de entrada e saída de Valhala são famosas por funcionarem mal. Pelo menos, estamos em Midgard.
Ao redor, havia fileiras de arquibancadas vermelhas vazias e silenciosas, desconfortavelmente parecidas com o Salão de Banquete dos Mortos antes de os einherjar entrarem. O chão do campo estava coberto por pedaços de lona congelados que estalavam sob meus pés.
Deviam ser umas seis da manhã. O céu ao leste estava começando a ficar cinza. Minha respiração soltava fumaça.
— Do que estávamos fugindo? — perguntei. — Que tipo de esquilo mutante...
— Ratatosk — disse Blitz. — A praga da Árvore do Mundo. Qualquer pessoa que ousa subir nos galhos da Yggdrasill mais cedo ou mais tarde precisa encarar o monstro. Considere-se com sorte por termos escapado.
Hearthstone apontou para o amanhecer. Gesticulou: SolRuim para Blitzen.
Blitz apertou os olhos.
— Você está certo. Depois daquela história na ponte, não consigo mais suportar exposição direta.
— Como assim? — Olhei com mais atenção para o rosto dele. — Você está ficando cinza?
Blitzen desviou o olhar, mas não havia dúvida. As bochechas tinham clareado, estavam cor de argila molhada.
— Garoto, talvez tenha reparado que nunca ando muito com você durante o dia.
— Eu... É. Parecia que Hearth pegava o turno do dia. E você, o da noite.
— Exatamente. Anões são criaturas subterrâneas. A luz do sol é mortal para nós. Mas saiba que não tanto quanto é para os trolls. Consigo aguentar um pouco, mas, se ficar ao ar livre por muito tempo, eu começo a... hã, petrificar.
Lembrei da luta na ponte Longfellow. Blitzen estava usando chapéu de aba larga, sobretudo, luvas e óculos de sol, uma combinação estranha, principalmente com a placa de ABRA CAMINHO PARA OS PATOS.
— Então se você estiver coberto, não tem problema?
— Ajuda um pouco. Roupas grossas, protetor solar, essas coisas. Mas, no momento — apontou para as próprias roupas — não estou preparado. Deixei meu suprimento em algum lugar da Árvore do Mundo.
Hearthstone gesticulou: Depois da ponte, as pernas dele viraram pedra. Só voltou a andar à noite.
Um caroço se formou na minha garganta. A tentativa de Blitz e Hearth de me proteger na ponte Longfellow tinha sido bem ridícula, mas eles tentaram. Blitzen arriscou a vida só de estar na rua de dia.
Por mais que eu tivesse perguntas a fazer, por mais confusa que minha vida (morte?) estivesse no momento, saber que Blitzen estava em perigo de novo por minha causa redefiniu minhas prioridades.
— Vamos levar você para algum lugar escuro — falei.
A opção mais simples era o Monstro Verde, o famoso muro da altura de quatro andares para bloquear a passagem de bolas à esquerda do campo. Eu já tinha ficado atrás dele uma vez em um passeio da escola; se não me engano, no primeiro ano. Lembrava que havia portas de serviço debaixo do placar.
Quando encontrei uma destrancada, nós entramos.
Não havia muita coisa, só andaimes de metal, cartões verdes com números pendurados nas paredes e as costelas de concreto do estádio tatuadas com cem anos de pichações. Mas o lugar tinha uma característica importante: era escuro.
Blitzen se sentou em uma pilha de esteiras e tirou as botas. As meias dele tinham estampa cinza e combinavam com o colete. Isso me impressionou tanto quanto qualquer outra coisa que encontrei em Valhala.
— Blitz, que roupa é essa? Você parece tão... elegante.
Ele estufou o peito.
— Obrigado, Magnus. Não foi fácil me vestir de mendigo por dois anos. Sem querer ofender, claro.
— Claro.
— É assim que costumo me vestir. Eu me preocupo muito com minha aparência. Admito que sou meio aficionado por moda.
Hearth fez um barulho estranho, algo entre um espirro e um ronco, e gesticulou: Meio?
— Ah, cala a boca — resmungou Blitz. — Quem comprou esse cachecol para você, hein? — Ele se virou para mim em busca de apoio. — Falei para Hearth que ele precisava de um toque de cor. Aquelas roupas pretas. O cabelo louro platinado. O cachecol vermelho listrado dá um toque de ousadia, você não acha?
— Hã... claro. Desde que eu não precise usar. Nem as meias estampadas.
— Não seja bobo. Tecido estampado não cairia bem em você. — Blitz franziu a testa para a bota. — Do que estávamos falando mesmo?
— Que tal falarmos sobre vocês estarem me vigiando por dois anos?
Hearth disse: Já falamos. O chefe.
— Não é Loki — concluí. — Então é Odin?
Blitz riu.
— Não. O Capo é ainda mais inteligente que Odin. Gosta de ficar nos bastidores, anônimo. Ele nos mandou vigiar e, hã — pigarreou — manter você vivo.
— Ah.
— É. Nós tínhamos um trabalho para fazer. E falhamos. “Mantenham-no vivo”, disse o Capo. “Fiquem de olho nele. Protejam-no, se necessário, mas não interfiram em suas escolhas. Ele é importante para o plano.”
— O plano.
— O Capo sabe das coisas. Do futuro, por exemplo. Ele faz o máximo possível para guiar os eventos na direção certa, para impedir que os nove mundos virem um caos e explodam.
— Parece um bom plano.
— Ele nos disse que você era filho de Frey. Não entrou em detalhes, mas foi enfático: você era importante, tinha que ser protegido. Quando você morreu... bem, que bom que o encontramos em Valhala. Talvez nem tudo esteja perdido. Agora, precisamos nos reportar ao Capo e receber novas instruções.
Hearthstone disse: E torcer para ele não nos matar.
— Isso também. — Blitzen não pareceu muito otimista. — A questão, Magnus, é que, até falarmos com o chefe, não posso dar muitos detalhes.
— Apesar de eu ser importante para o plano.
É por isso que não podemos, gesticulou Hearth.
— E o que aconteceu depois que eu caí da ponte? Isso vocês podem me contar?
Blitz tirou uma folha da barba.
— Ah, Surt desapareceu na água com você.
— Era Surt.
— Era, sim. E tenho que dizer, você fez um bom trabalho. Um mortal derrotando o lorde dos gigantes do fogo? Mesmo que você tenha morrido fazendo isso, foi impressionante.
— Então... eu o matei?
Não deu tanta sorte, gesticulou Hearth.
— É — concordou Blitz. — Mas gigantes do fogo na verdade não se dão muito bem com água gelada. Imagino que o impacto o tenha jogado de volta para Muspellheim. E cortar o nariz dele... foi brilhante. Ele vai demorar até recuperar força suficiente para viajar entre mundos.
Alguns dias, supôs Hearth.
— Talvez mais — retrucou Blitz.
Fiquei olhando para eles, dois não humanos discutindo a mecânica de viajar entre mundos como se discutissem o tempo necessário para se consertar um carburador.
— Vocês obviamente escaparam — comentei. — E Randolph?
Hearthstone franziu o nariz. Seu tio. Irritante, mas está bem.
— Garoto, você salvou muitas vidas — disse Blitzen. — Algumas pessoas ficaram feridas, houve muito estrago, mas ninguém morreu... hã, só você. Na última vez que Surt visitou Midgard, as coisas não foram tão bem.
Grande incêndio de Chicago, disse Hearth.
— É — continuou Blitz. — De qualquer modo, as explosões de Boston foram parar no noticiário. Os humanos ainda estão investigando. Especulam que os danos tenham sido causados por meteoros.
Lembro que também me perguntei isso a princípio. E, depois, se aquilo tudo havia sido obra de Surt.
— Mas dezenas de pessoas viram Surt na ponte! Pelo menos um cara conseguiu filmá-lo.
Blitz deu de ombros.
— Você ficaria impressionado com o que os mortais não veem. Não só os humanos. Anões e elfos também deixam passar muita coisa. Além do mais, gigantes são especialistas em glamour.
— Glamour. Imagino que você não esteja falando de moda.
— Não. Gigantes tem um péssimo gosto para roupas. Estou falando no sentido de ilusões. Gigantes são seres mágicos por natureza. Conseguem manipular os seus sentidos sem esforço nenhum. Uma vez, um gigante fez Hearthstone pensar que eu era um javali, e Hearth quase me matou.
Chega da história do javali!, pediu Hearthstone.
— Enfim — disse Blitz — você caiu no rio e morreu. Os serviços de emergência acharam seu corpo, mas...
— Meu corpo...
Hearthstone tirou um recorte de jornal do bolso da jaqueta e me entregou.
Li meu próprio obituário. Havia minha foto do quinto ano na escola, o cabelo caído nos olhos, meu sorriso desconfortável no estilo o que estou fazendo aqui, minha camisa velha dos DROPKICK MURPHYS. O obituário não dizia muito. Nada sobre os dois anos que passei desaparecido, minha vida nas ruas, a morte da minha mãe. Só: Falecimento prematuro. Deixou dois tios e uma prima. Haverá velório particular.
— Mas meu corpo está aqui — falei, tocando o peito. — Eu tenho um corpo.
— Um corpo novo e melhorado — concordou Blitz, apertando meu bíceps com admiração. — Retiraram seu velho corpo do rio. Hearth e eu fizemos nossa própria busca. Não havia sinal de Surt. Pior... não havia sinal da espada. Se não tiver voltado para o fundo do rio...
— Randolph pode ter encontrado?
Hearthstone balançou a cabeça. Nós o vigiamos. Não está com ele.
— Então Surt está com a espada — deduzi.
Blitz tremeu.
— Não vamos supor o pior. Ainda há chance de que esteja com seu velho corpo.
— Por que estaria?
Blitz apontou para Hearth.
— Pergunte a ele, o especialista em magia.
É difícil explicar por sinais, gesticulou Hearth. Uma espada mágica fica com seu dono. Você a reivindicou.
— Mas... não reivindiquei.
Você a invocou, disse Hearth. Segurou-a primeiro, antes de Surt. Espero que isso signifique que Surt não a tenha pegado. Não sei por que ela não foi para Valhala.
— Eu não estava segurando a espada quando caí no rio. Ela escorregou da minha mão.
— Ah. — Blitz assentiu. — Pode ser por isso então. Mesmo assim, ela iria tradicionalmente para o seu túmulo, ou seria queimada na sua pira. Então, há uma boa chance de se materializar ao lado do seu corpo. Precisamos olhar no seu caixão.
Fiquei arrepiado.
— Vocês querem que eu vá ao meu próprio enterro?
Hearth sinalizou: Não. Vamos antes.
— De acordo com seu obituário — informou Blitz —, seu corpo está sendo velado hoje em uma capela. O funeral só acontece à noite. Se você for agora, deve encontrar o lugar vazio. O prédio ainda não está aberto, e não vai ter uma fila de gente de luto na porta.
— Muito obrigado.
Blitzen colocou as botas.
— Vou falar com o chefe. No caminho, passo em Svartalfaheim para pegar suprimentos antiluz do sol.
— Você vai passar no mundo dos elfos negros?
— Vou. Não é tão difícil quanto parece. Tenho prática, e Boston fica no centro da Yggdrasill. Viajar entre os mundos é fácil por aqui. Uma vez, Hearth e eu descemos de um meio-fio na praça Kendall e caímos em Niflheim por acidente.
Estava frio, sinalizou Hearth.
— Enquanto eu estiver lá — disse Blitz — Hearthstone vai levar você até a capela. Encontro vocês... onde?
Na Arlington, na estação de trem, gesticulou Hearth.
— Ótimo. — Blitzen se levantou. — Pegue aquela espada, garoto... e tome cuidado. Fora de Valhala, você pode morrer como qualquer pessoa. A última coisa que queremos ter que explicar para o chefe são dois cadáveres de Magnus Chase.

27 comentários:

  1. eu queria que ele encontrasse a Annabeth ._.

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    1. Tipo ele podia se juntar o o Percy ou o Jason hehe

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  2. se ele não curte baseball como ele sabe que o Sox anda mal das pernas

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    1. O sox anda melhor que os yankees, obrigado pela atenção!

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  3. mas o grande incêndio de chicago não foi culpa de um semideus filho de hermes?
    glamur= nevoa
    tomara que ele encontre a annabeth

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    1. vai saber!!!!! kkkkkk

      ezequiel

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    2. e se eles brigaram pq o filho de hefesto pensou que ele era um monstro? (o que ele é, tecnicamente)

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    3. Eu também pensei nisso mas acho que o incêndio, que na verdade foi causado por um filho de Hefesto que tinha o msm poder do Leo, foi em Londres ou algo assim

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    4. talvez a nevoa atinja as mitologias diferentes pra q n se misturem

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    5. Pedro o de Hefesto foi o de Londres em 1800 e la vai alguns numeros

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    6. Não. Glamour=Charme. Como com os filhos de Afrodite.

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  4. "— Ratatosk — disse Blitz. — A praga da Árvore do Mundo."
    Só eu que quando bati o olho li Ratatouille?

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    1. também...

      ~coruja

      P.s.:rindo de mim mesma

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    2. caçadora de Artermis5 de janeiro de 2016 21:35

      tbm
      eu sou filha de Jupiter e meu ´pai e um dos maiores idiotas do universo (desculpe pai mano Mercurio me ajude se nao te ferro tbm)

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  5. Kkkk Ja tem ate a Nevoa nesse livro ?? kkkkkk

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  6. Isso acontece durante a Batalha do labirinto,ou seja, Annabeth esta no Labirinto,não tem como eles se encontrarem (supondo que ela já esteja no labirinto) mais ele vai encontrar Jason. (Eu nunca li o livro antes é um super palpite)

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    1. Lareeh vc está entendo tudo errado, Magnus Chase n tem nenhuma ligação com a Saga Percy Jackson, provavelmente essa história se passa após Os Hérois Do Olimpo.

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    2. caçadora de Artermis5 de janeiro de 2016 21:36

      tanto e q a Annie tem a mesma idade q o Magnus

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    3. Ñ, a Annabeth é um ano mais velha que o Magnus.. Ela tem 17 e ele 16.

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    4. quantas tecnicalidades, a única coisa que é importante é que é depois de HdO

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  7. Fiquei arrepiado.
    — Vocês querem que eu vá ao meu próprio enterro?
    kkkkkkkk
    se eu morresse eu iria querer me ver...
    :p Mas isso eh muitoo esquisito.

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    1. caçadora de Artermis5 de janeiro de 2016 21:37

      Michael Jakcson foi no dele com um nome falso

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    2. Também iria, apesar de isso dar muito medo. Mas como explicar para o policial dois corpos de Magnus Chase? Um irmão gêmeo talvez? Kkkk

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  8. "
    — Você ficaria impressionado com o que os mortais não veem. Não só os humanos. Anões e elfos também deixam passar muita coisa. Além do mais, gigantes são especialistas em glamour.
    — Glamour. Imagino que você não esteja falando de moda.
    — Não. Gigantes tem um péssimo gosto para roupas. " KKKKKKKKKKKKKK

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