31 de outubro de 2015

Vinte e nove

― Seu namorado parece agradável. — Jude me olha, recostado na borda do mostrador com uma xícara de café na mão.
― Porque ele é. — Viro-me, olhando o livro de consultas e vendo que estou reservada para às duas, seguido por outra às três, quatro e cinco, e aliviada ao ver que os nomes não me são nem um pouco familiares.
― Então… ele é seu namorado. — Toma um gole de sua bebida, me olhando por cima do copo. ― Não estava certo. Parece velho, sabe?
Fecho o livro e alcanço meu copo d água, embora preferisse uma garrafa de suco imortal no lugar disso. Entretanto, desde que Roman se apresentou, jurei reduzir meu consumo em público.
― Estamos na mesma classe. — Encolho os ombros, voltando para seu olhar. ― O que significa que somos da mesma idade, não? — Digo com a esperança de evitar um interrogatório.
Mas Jude mantém o olhar, um olhar profundo enquanto diz:
― Não sei… — Pausa profunda e olho ao longe, o coração me pulsando irregularmente enquanto penso: Ele também sente algo? Está conosco?
― Poderia significar que se repetiu… — sorri, com esses olhos verde marinho brilhando, cheios de luz. ― umas quantas décadas, ao menos?
Levanto meus ombros, decidida a ignorar o insulto, se é que o era, me recordando que Jude não só é meu chefe, me dando um nas costas de Sabine, como também é o guardião do Livro das Sombras, um livro ao qual preciso pegar de novo desesperadamente.
― Então, como conheceu Honor? — Pergunto, me inclinando para arrumar a joalheria, reorganizando as correntes de prata com seus pingentes de pedras preciosas, tirando as etiquetas de preço… Tudo com a esperança de parecer despreocupada, displicente, como se estivesse enchendo o silêncio e não porque me importasse.
Ele deixa o copo no mostrador e desaparece na parte traseira, brincando com a coleção de música até que a habitação se enche com o som de grilos e chuvas, o mesmo CD que põe todos os dias.
― Estava pendurando um folheto por lá — retorna ao mostrador e assinala o nome na xícara.
― Estava sozinha ou com alguém? — Estremeço-me pensando em Stacia incitando-se, aproveitando-se dele, como algum tipo de desafio. Ele me observa, seus olhos procurando meu rosto por tanto tempo que desvio o olhar e me ocupo dos anéis, organizando-os por cor e tipo, enquanto ele continua me estudando.
― Não notei — encolhe os ombros. ― Ela só perguntou pela aula, assim que lhe dei um folheto para que levasse.
― Falou? Te disse por que estava interessada? — Perco minha oportunidade de ser só uma pessoa ligeiramente curiosa e as palavras me escapam. Olha, desconfiado profundamente, enquanto diz:
― Disse que está tendo problemas com seu namorado e queria saber se tinha algum feitiço que pudesse usar.
Contemplo-lhe boquiaberta, insegura se está brincando até que ele ri.
― Por que tem tanto interesse? Ela quer te roubar o namorado ou algo assim?
Sacudo a cabeça, fechando a caixa de joalheria e encontrando seu olhar enquanto digo:
― Não, sua melhor amiga o fez.
Jude me olha, e diz com voz cuidadosa:
― E teve êxito?
― Não, é obvio que não! — Minhas bochechas se sufocam, tenho palpitações, sei que respondo muito rápido para me fazer acreditar. ― Mas isso não a detém de seguir tentando-o. — Adiciono, sabendo que isso não ficou melhor.
― Não a detém ou não a deteve? Continua com o mesmo objetivo? — Levanta seu copo e tomada um longo gole. Seu olhar não me deixa nenhuma só vez.
Encolho os ombros, ainda tratando de me recuperar desse último arranque, sabendo que fui eu quem começou tudo isto.
― Então, você tem algum feitiço? Algum que mantenha as garotas longe de Damen? — As sobrancelhas levantam, sua voz sem um pingo de brincadeira.
Movo-me no banco, nervosa pelo peso de seu olhar, e não gosto do nome de Damen em seus lábios. ― Suponho que isso explica seu repentino interesse pelo Livro das Sombras — diz Jude, negando-se a deixá-lo assim.
Viro os olhos e me movo longe do mostrador, sem me importar se for um ato de insubordinação. Esta conversa acabou. Deixo claro.
― Isto será um problema? — Pergunta, sua voz carregada de um tom que não posso compreender.
Detenho-me debaixo da estante, insegura a que se refere, me virando para ler sua ensolarada aura e, ainda, sem ter uma ideia.
― Sei que não quer que a gente saiba de você, e agora há uma garota de sua escola se aproximado — encolhe os ombros, me deixando concuir o resto.
Encolho os ombros também, me dando conta de que o número de pessoa que conhecem minhas habilidades psíquicas está crescendo.
Primeiro Muñoz, depois Jude e, logo, Honor, o que significa que Stacia será a seguinte (embora ela já suspeite) e logo, é obvio, está Haven, que proclama estar conosco também. E a pior parte é… que tudo isto pode voltar-se contra mim.
Limpo a garganta, sabendo que tenho que dizer algo embora não tenha nem ideia do que.
― Honor não é… agradável, simpática, amável, decente e tudo o que parece, mas a verdade é que isso descreve mais a Stacia. Honor é muito mais que um enigma para mim.
Jude me olha, esperando o final.
Mas eu só dou meia volta, a cara obscurecida por uma mecha de cabelo loiro quando digo:
― Honor não é alguém a quem conheço muito bem.
― Suponho que isso nos faz dois. — Ele sorri, tomando de novo o último gole de café, jogando o copo na lata de lixo onde cai com um som surdo.
Seu olhar procura o meu quando diz:
― Embora ela pareça um pouco perdida e insegura e essa é exatamente o tipo de pessoa que procuramos ajudar aqui.
Por volta das seis, meu quinto e último cliente do dia se vai. Tiro o escuro cabelo da peruca que decidi usar.
― Melhor. — Jude se vira, olhando para cima por um momento antes de retornar a seu trabalho. ― O loiro te cai melhor. O negro é algo severo. — Murmura, tocando o teclado e movendo a cabeça.
― Eu sei. Vejo-me como a anêmica Branca de neve — digo, olhando para Jude enquanto rimos.
― Então, como foi? — Pergunta, de novo frente à tela do computador.
― Eu gostei. — Dou a volta, me afastando do espelho e me aproximando do escritório, onde sento-me. ― Foi bom. Quer dizer, alguma coisa foi deprimente, mas é agradαvel poder ajudar outras pessoas para variar, sabe? — Observo seus dedos movendo-se no teclado tão rápido que quase não posso segui-los com o olhar. ― Porque, honestamente, não estava tão segura, mas acredito que estive bem. Quer dizer, não recebeu nenhuma queixa… ou sim?
Ele sacode a cabeça, entrecerrando os olhos enquanto se baralha entre a pilha de papéis a seu lado.
― Lembrou-se de se proteger? — Toma um momento para me olhar.
Levanto os ombros, sem ter ideia do que significa. O único amparo que tenho feito é do tipo que apago a energia de todos, o que faria virtualmente impossível realizar uma leitura.
― Precisa se proteger. — Diz, afastando seu laptop para me olhar melhor. ― Antes e depois da leitura. Ninguém te mostrou como se manter aberta ao mesmo tempo em que se protege das energias indesejadas?
Sacudo a cabeça, perguntando se isso é necessário para uma imortal como eu. Sem poder imaginar que a energia de alguém seja o suficientemente forte para me arrastar, mas não posso compartilhar isto com ele.
― Você gostaria de aprender como?
Encolho os ombros, arranhando o meu braço, enquanto olho o relógio, me perguntando quanto tempo isso vai levar.
― Não demorará muito. — Diz, lendo minha expressão e movendo-me do escritório. ― E é realmente importante. Pense nisso como lavar as mãos, liberar todas as coisas negativas que seus clientes trazem com eles, te assegurando de que não podem poluir você.
Aproxima-se para mim para tomar um dos bancos e senta-se ao meu lado, dirigindo-se para mim enquanto diz:
― Te guiarei através de uma meditação que ajudará a fortalecer sua aura, mas, como não posso vê-la, não tenho nem ideia do que precisa fortalecer-se.
Pressiono meus lábios e cruzo a perna direita sobre a esquerda, me movendo incomodamente em meu lugar e sem saber como responder.
― Algum dia terá que me dizer como a oculta dessa forma. Eu adoraria aprender com você esta técnica.
Engulo em seco e aceno levemente, como se pudesse fazê-lo algum dia, mas não agora. Em voz baixa e suave, quase um sussurro, diz:
― Feche os olhos e relaxe, respire lenta e profundamente enquanto imagina um fio de energia de ouro puro com cada inspiração, seguido de um redemoinho de névoa escura com cada expiração. Respirando o bom, liberando do mau. Continue este ciclo uma e outra vez, permite que só a energia boa se abra passe por suas células até que se sinta nova, inteira, e pronta para continuar.
Faço o que diz, recordando a meditação sob a que uma vez me pôs Ava, me centrando na respiração, mantendo-a lenta, constante e aprazível. No princípio, sendo consciente do peso de seu olhar, sabendo que ele está me estudando de mais perto que é o eu faria se meus olhos estivessem abertos. Mas, logo, diminuo o ritmo, o pulso acalmando-se, a mente clareando-se, me concentrando em nada mais que minha respiração.
― Depois, quando estiver preparada, imagine um cone da mais brilhante luz dourada que desce do céu e descende sobre ti, crescendo e expandindo-se até que te banhe por completo, rodeando todo seu ser e sem permitir a afluência de energia baixa ou campos de força negativa, mantendo seu positivismo intacto, seguro daqueles que pudessem te prejudicar.
Abro um olho temerosa de que ele possa estar me espionando a alma.
― Confie em mim. — Diz, agitando a mão, fazendo gestos para que feche os olhos e retome a meditação. ― Agora imagine essa mesma luz como uma poderosa fortaleza, recortando toda a escuridão enquanto te mantém a salvo.
Assim o faço, vendo a mim mesma em minha mente, sentada nessa cadeira, com um cone de energia estendendo-se por cima e movendo-se por meu cabelo, por cima de minha camiseta e por todo meu jeans, me envolvendo por completo, mantendo o bom, afastando o mau… Justo como ele disse.
― Como se sente? — Pergunta, sua voz mais perto do que esperava.
― Bem. — Giro-me, sustentando o cone de luz em minha mente, mantendo-o estável e brilhante. ― Sinto-o cálido e… acolhedor… e… bem. — Encolho os ombros, mais interessada em desfrutar da experiência que em farejar por aí em busca da palavra perfeita.
― Precisa repetir isto todos os dias, mas este é todo o tempo que deve levar. Uma vez que tocar o cone de luz, tudo o que tem que fazer para mantê-lo é algumas dessas respirações de limpeza profunda, seguido de uma imagem de você selada pela luz e está preparada. Embora não é má ideia renová-la agora e, especialmente agora que está a ponto de se converter em uma garota muito popular por aqui.
Pousa sua mão sobre meu ombro, com a palma aberta, com os dedos abertos pelo algodão de minha camiseta e a sensação é tão impactante, as imagens tão reveladoras que salto sobre meus pés.
― Damen! — Choro, com a voz rouca e áspera, enquanto dou a volta para vê-lo na porta me observando, nos observando.
Ele dá a volta, seu olhar encontra o meu em algo que, a princípio, foge de sua usual forma amorosa, enchendo-me com uma completa e total reverência. Mas quanto mais rápido volta-se, sinto que há algo atrás dele. Algo escuro. Preocupo-me. Algo que ele está decidido a guardar.
Movo-me para ele, buscando sua mão enquanto ele alcança a minha, consciente do escudo protetor de energia que oscila entre nós, uma energia que estava segura que ninguém podia ver até que me dou conta de que Jude entrecerra seus olhos.
Aproximo-me de Damen, incapaz de determinar a grande coisa escondida atrás de seu olhar, me perguntando o que está fazendo ele aqui, se de alguma forma ele sente isso.
Seu abraço me aperta, me empurrando para perto dele quando diz:
― Perdão pela interrupção, mas Ever e eu temos que ir.
Levanto o olhar, decifrando, os suaves planos de seu rosto, a curva de seus lábios, o formigamento e o calor de seu corpo contra o meu.
Jude se levanta e nos segue até o vestiário, dizendo:
― Lamento. Nem quis atrasá-la tanto tempo. — Sua mão estirando-se para mim, olhando meu ombro para logo cair quando ele acrescenta: ― Oh, esqueci, o livro! Por que não o leva? Não preciso dele aqui.
Volta-se para seu escritório, a ponto de tirá-lo da gaveta e, embora esteja tentada a pegá-lo e correr, a forma como Damen se endurece e o brilho da aura de Jude me faz sentir tudo isso como uma prova. E é tudo o que posso fazer para forçar as palavras a sair de meus lábios quando digo:
― Obrigado, mas esta noite não. Damen e eu temos planos.
A energia de Damen relaxa, voltando para a normalidade enquanto o olhar do Jude pousa entre nós.
― Não há problema — diz. ― Em outra ocasião — diz sustentando o olhar por tanto tempo que sou a primeira a evitá-lo. Levando Damen pela porta até a rua, decidida a me desfazer da energia de Jude, junto com os pensamentos e imagens que, sem nos dar conta, compartilhávamos.

3 comentários:

  1. Triangulo amoroso de novo não! Poxa!
    Ass: Bina.

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  2. Ai, meu Deus, o negócio está ficando intenso...

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  3. OMG!Estou sentindo uma treta!🤔😱

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