31 de outubro de 2015

Vinte e dois

— Então, como foi seu primeiro dia de trabalho?
Deixo-me cair no sofá, lanço os sapatos e sustento os pés sobre a mesa de madeira, esculpida de café. Fecho os olhos, suspirando dramaticamente enquanto digo:
— Na realidade, foi muito mais fácil do que parecia.
Damen riu e se afundou ao meu lado, me acariciando o cabelo quando diz:
— Então, o que com tem a ver a fadiga com a teatralidade?
Encolho os ombros, me afundando ainda mais baixo , me afundando tão profundamente quanto posso, sentindo a espuma e as almofadas amaciadas. Com olhos ainda fechados digo:
— Não sei. Provavelmente tem a ver com o livro que encontrei. Deixou-me um pouco fragmentada. Mas então, poderia ter algo que ver com minha visita de surpresa.
— Você leu um livro? — Seus lábios desceram ao longo do meu pescoço, enchendo meu corpo com um formigamento e calor. — Como, leu na forma tradicional?
Aproximo-me, atirando minha perna por cima dele, encolhendo-me, ansiosa por tocar sua pele.
— Acredite em mim, tentei tomar o caminho fácil e só o senti, mas foi a mais estranha experiência. — Eu o olho, seus olhos dispostos a segui os meus, mas permanecem fechados enquanto afunda o rosto em meus cabelos. — Foi como todo esse conhecimento fosse muito poderoso para ser lido dessa maneira, sabe? E me deu esta terrível descarga elétrica, como um golpe que sacudiu meus ossos. Que só me deixou ainda mais curiosa. Por isso tratei de lê-lo da maneira normal. Só que não cheguei muito longe.
— Fora de prática? — Ele sorri, seus lábios agora em meu ouvido.
— É como se eu não conseguisse entendê-lo. — Encolhi os ombros. — Não e nada mais que um código. E as partes que são inglês, assim como era o velho inglês. Sabe, aquele que o rei usava para falar? — Eu me afastei e o olhei, sorrindo ao ver a aparência de falsa indignação que aparece em seu rosto. — Pra não dizer que a fonte era muito pequena e estava cheia de todos estes estranhos desenhos e símbolos que compõem os feitiços e as invocações, esse tipo de coisas. O que? Por que me olha assim? — Fiz uma pausa, percebendo uma mudança de energia importante enquanto seu corpo se esticava.
— Qual é o nome deste livro? — Pergunta, seu olhar se centrando no meu.
Entortei os olhos, apertando os lábios de um lado, tratando de recordar o que as letras de ouro diziam:
— O livro de algo — sacudo a cabeça, me sentindo mais cansada do que costumo estar, sobretudo depois de ver a preocupação em seu rosto.
— Sombras. — Ele assente, com um cenho franzido. — O Livro das Sombras. É isso?
— Você o conhece? — Eu pergunto, acomodando meu corpo até estar completamente frente a ele, seu olhar sério, fixo, como se estivesse em dúvida de algo que possa ou não possa me dizer.
— Eu o conheço. — Estuda meu rosto. — Mas só sua reputação. Nunca tive a oportunidade de lê-lo eu mesmo. Mas, Ever, se for o mesmo olhe o que estou pensando... — Sacode a cabeça, ocultando seu rosto inquieto. — Bom, isso contém alguma magia muito poderosa que precisa ser abordada com a maior prudência e cuidado. A magia com a qual, definitivamente, não se deve jogar, entende?
— Assim suponho que está dizendo para eu somente trabalhar. — Sorrio, com a esperança de aliviar o ambiente, mas sabendo que falhei quando ele não me devolve o sorriso.
— Não é nada da magia que utilizamos. Pode parecer isso a princípio, e suponho que quando se despe para sua própria essência, isso não equivale à mesma classe de coisas. Mas quando evocamos a energia do universo de forma manifestada, fazemos um chamado só a mais pura e brilhante luz, sem trevas. E embora a maioria dos praticantes de magia ou bruxaria sejam bons, às vezes, quando a gente se envolve com a bruxaria tomamos um caminho muito mais escuro, chamando uma força mais malévola para fazer o trabalho.
Aceno, nunca lhe tinha ouvido sequer reconhecer uma força escura antes.
— Tudo o que fazemos se apóia sempre no bem maior, ou no nosso próprio bem. Nunca fazemos nada para causar nenhum dano.
— Eu não faria isso nunca — murmuro, recordando todas as vezes que golpeei a Stacia em seu próprio jogo, ou ao menos tentei.
— A pequena rixa no pátio do recreio não é ao que quero chegar. — Ele devolveu meus pensamentos. — O que queria dizer é que nós manipulamos sem prejudicar ninguém. Entretanto, recorrer a um feitiço para conseguir o que você quer — sacode a cabeça. — Bom, isso é um jogo totalmente diferente, pergunte a Romy e Rayne.
Olho para ele sem entender.
— Elas são bruxas, já sabe. Bruxas boas, é obvio, quem lhes ensinou, ensinou muito bem, embora para desgraça delas, sua educação se reduziu um pouco. Mas referindo-me a Roman, por exemplo que é o exemplo perfeito do que pode ser mal quando o ego, a cobiça e a insaciável necessidade de poder e vingança os orienta para o lado escuro. Seu uso recente da hipnose é um excelente exemplo disso. — Ele me olha, sacudindo a cabeça. — Por favor, me diga que não encontrou este livro na prateleira, onde qualquer um pode consegui-lo.
Cruzo minhas pernas e sacudo minha cabeça, meus dedos riscando a costura de sua camisa.
— Não é nada disso — digo. — Esta cópia era – velha. E quero dizer, muito, muito velha. Você sabe, muito frágil e semelhante aos que deveriam estar em um museu ou algo assim. Confie em mim, quem quer que seja o dono, não queria que ninguém soubesse, esforçou-se muito para ocultá-lo. Mas você sabe que isso na realidade não pode me parar. — Sorrio, esperando que ele sorria também, mas seu olhar se mantém sem mudanças, seus olhos preocupados olhando diretamente nos meus.
— Quem você acha que o tem utilizado? Lina ou Jude? — Perguntou, utilizando seus nomes de maneira casual que qualquer um pensaria que eram amigos.
— E por acaso importa? — Encolhi os ombros.
Estudou-me por um momento mais, logo desviou seu olhar.
— Estive pensando, o que é isso? Um breve encontro com o Livro das Sombras e você fica com essa fadiga toda? — Diz, voltando-se para mim.
— Fadiga? — Levanto uma sobrancelha e agito a cabeça. Sua estranha escolha de palavras não deixava de me divertir.
— Muito antiquado? — Curva seus lábios em uma careta.
― Um pouco. — Aceno com a cabeça, rindo com ele.
— Você não deveria debochar dos anciões. É bastante grosseiro, não acha? — Disse ele beijando-me logo abaixo do queixo.
— Absolutamente — aceno, silenciada pelo tato dos dedos afastando-se mais da bochecha, por meu pescoço e por todo o caminho até meu peito.
Descansamos a cabeça nas almofadas e nos olhamos. Suas mãos movendo-se com agilidade e destreza, fazendo seu caminho por cima de minha roupa. Nós desejaríamos tanto que isso pudesse conduzir a algo mais, mas decidimos ficar contentes com o que temos.
— Então, o que mais aconteceu no trabalho? — Sussurra, pressionando seus lábios contra minha pele, o véu, sempre presente, flutuando entre nós.
— Fiz certa organização, catalogação, arquivei, oh, e logo Honor entrou na loja! — Ele se afastou com o seu olhar característico. — Relaxe. Não é como se ela estivesse procurando um livro ou algo assim. Ou pelo menos não me parecia que ela o fizesse.
— O que ela queria?
— Jude, suponho. — Levanto meus ombros, avançando lentamente meus dedos por baixo de sua camisa, sentindo sua pele lisa e desejando poder meter-me debaixo dela também. — Entretanto foi estranho vê-la sozinha. Você sabe, sem a Stacia ou Craig. É como se fosse uma pessoa totalmente diferente, toda tímida e torpe, totalmente transformada.
— Acha que ela gosta de Jude? — Seus dedos riscando a linha de minha clavícula, seu toque tão quente, tão perfeito, logo atenuado pelo véu.
Encolho os ombros, enterrando a cara na parte pouco profunda da camisa, aspirando seu aroma almiscarado e quente. Decidida a ignorar a forma com que meu estômago grunhe sozinho enquanto falava.
— Não tenho ideia do que significa ou por que deve se importar se de Honor gosta de Jude, mas prefiro deixá-lo pra lá.
— Por quê? Crê que deveriamos lhe advertir? Sabe, lhe dizer o que ela é na realidade? — Meus lábios pressionando a base de seu pescoço, justo ao lado da corda que sustenta seu amuleto.
Ele se move, reordenando seus membros, afastando-se enquanto diz:
— Se ele for tão talentoso como você diz, então deve ser capaz de ler sua energia e ver por si mesmo. — Ele me olha, a voz cuidada, medida, excessivamente controlada de uma maneira que não estou acostumada. — Além disso, sabemos o que é na realidade? Pelo que sabemos, só a conhecemos sob a influência da Stacia. Ela pode ser muito agradável sozinha.
Entortei os olhos, tratando de imaginar uma agradável versão de Honor, mas não consegui.
— Mas ainda assim — disse. — Jude tem o costume de escolher as meninas erradas e — detenho-me, com seu olhar e sinto que as coisas deram um giro definitivamente, embora não tenho ideia por que. — Sabe o quê? Não importa tudo isso. É aborrecido e estúpido, e não vale a pena perder nosso tempo. Falemos de outra coisa, concorda?
Inclino-me para ele, a fim de que meus lábios toquem sua mandíbula.
— Vamos falar de algo que não tenha nada que ver com meu trabalho, as gêmeas, ou a seu novo carro feio — com a esperança de que fosse mais divertido se terminasse logo com isso. — Algo que não me faça sentir tão antiga e aborrecida.
— Está dizendo que está aborrecida? — Me olha com os olhos muito abertos, horrorizados. Levanto meus ombros, enrugando a cara, desejando poder dizer o contrário, mas também não queria mentir.
— Um pouco. — Aceno com a cabeça. — Quero dizer, sinto dizê-lo, mas este conjunto de carícias no sofá enquanto as meninas dormem no andar de cima — eu sacudo a cabeça. — Uma coisa é você cuidar das meninas, mas é um pouco horripilante quando as meninas são suas. Quero dizer, sei que ainda estamos nos ajustando e tudo, mas, bom, o que estou querendo dizer é, que isso virou meio que uma rotina. — Me dirijo a ele com os lábios apertados, sem saber como reagiria a isso.
— Você sabe como sair da rotina, não? — Fica de pé com tanta rapidez que parece uma brilhante mancha escura.
Movo a cabeça, reconhecendo seu olhar. Aquele olhar do momento em que nos conhecemos. Antes, quando as coisas eram divertidas, emocionantes e imprevisíveis em todos os sentidos.
— A única saída é libertar-se — ri, agarra minha mão e me leva longe.

4 comentários:

  1. Eu amo esse casal! O que vocês acham de Damever?
    Ass: Bina.

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  2. A Ever não tá levando esse ciúme das gêmeas um pouco longe, não?! É mais fácil ela deixar o Damen do que alguém, ou qualquer coisa, o tire dela.

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