29 de outubro de 2015

Vinte e dois

Haven se recusava a atender nossas ligações, mas conseguimos falar com Miles.
Depois que o convencemos a nos encontrar após o ensaio, ele apareceu com Eric, e passamos uma noite deliciosa, nós quatro, comendo, nadando e vendo filmes trash de terror. Foi ótimo estar na companhia de amigos de uma forma tão relaxante. Quase me esqueci de Riley, Haven, Evangeline, Drina e da praia.
Quase não percebi a expressão distante no rosto de Damen sempre que ele achava estar sozinho.
Quase ignorei a tensão que ele tão habilmente tentava esconder.
Quase, mas não totalmente.
E embora eu tenha deixado bastante claro que Sabine estava fora da cidade e que ele poderia passar a noite aqui se quisesse, Damen se mandou sorrateiramente assim que peguei no sono.
Então, quando ele apareceu à minha porta hoje de manhã com café, muffins e um sorriso no rosto, confesso que fiquei um tanto aliviada.
Ligamos de novo para o celular da Haven, deixamos mais de um recado, mas ninguém precisa de poderes mediúnicos para saber que ela não quer falar com a gente.
Então ligamos para a casa dela e falamos com Austin, que diz não ter a menor ideia de por onde anda a irmã mais velha. Não tenho motivo algum para duvidar dele.
Passamos o dia quase todo na piscina, e já estou discando para pedir mais uma pizza quando Damen toma o celular de minha mão e diz:
— Sou eu quem vai fazer o jantar.
— Você sabe cozinhar? — pergunto. Nem sei por que estou surpresa, pois até agora não vi nada que Damen não fosse capaz de fazer, e bem.
— É você quem vai dizer — ele responde sorrindo.
— Precisa de ajuda? — ofereço, muito embora meus dotes culinários se resumam a ferver água e despejar leite no cereal.
Ele faz que não e vai para o fogão. Subo para tomar banho e trocar de roupa. Assim que ele me chama para dizer que o jantar está pronto, eu desço. Fico impressionada quando chego à sala e deparo com a mesa toda posta com a melhor toalha, a melhor louça e os melhores talheres da Sabine, além de velas e um vaso de cristal repleto de... tulipas vermelhas, quem diria?
— Mademoiselle — ele diz, com entonação e sotaque perfeitos, e puxa uma cadeira para mim, sorrindo.
— Não acredito no que estou vendo! — exclamo, admirada com a quantidade de pratos alinhados, com tanta comida à frente, o que me fez pensar que estaríamos esperando mais gente.
— Só para você — ele sorri, respondendo à pergunta que sequer tive tempo de fazer.
— Só pra mim? E você, não vai comer?
Damen serve meu prato com legumes perfeitamente cozidos, carne grelhada e um molho tão diferente que nem sei o que é.
— Claro que vou — responde sorrindo. — Mas fiz pensando sobretudo em você. Uma garota não pode viver só de pizza, não é?
— Não tenha tanta certeza disso — digo rindo, dando uma garfada na carne suculenta.
Ao longo do jantar, noto mais uma vez que Damen mal toca na comida. Aproveito a oportunidade para fazer as perguntas que sempre tive vontade de fazer, mas das quais sempre acabo me esquecendo no momento em que ele olha para mim. Questões sobre a família, a infância, as inúmeras mudanças de cidade, a emancipação. Em parte porque tenho curiosidade de saber, mas em especial porque acho estranho namorar alguém sobre quem sei tão pouco. E quanto mais falamos, mais fico surpresa com a quantidade de semelhanças entre nossas vidas. Por exemplo, ambos somos órfãos, embora Damen tenha perdido os pais bem mais cedo que eu. Ele não dá muitos detalhes sobre nada, mas também não sou lá das mais falantes quando o assunto é o passado. Portanto, não insisto.
— Então, entre todas essas cidades, de qual você mais gostou? — pergunto, o prato já vazio à minha frente, nem uma migalha para contar a história. Sinto aquela preguicinha gostosa de quem está de barriga cheia.
— Desta aqui — ele responde sorrindo. Damen não comeu praticamente nada, mas se saiu muito bem revirando a comida.
Aperto os olhos, sem acreditar mesmo nele. Tudo bem, Orange County até que é legal, mas nem de longe se compara com as grandes cidades europeias, certo?
Percebendo minha cara de espanto, Damen diz:
— Juro, sou muito feliz aqui!
— Por acaso você não era feliz em Roma, Paris, Nova Délhi ou Nova York?
Ele sacode os ombros, novamente estampando no olhar aquela tristeza misteriosa, dando mais um gole em sua estranha bebida vermelha.
— Isso aí que você está bebendo, o que é? — pergunto.
— Isto aqui? — Ele sorri, levantando a garrafa para que eu veja melhor. — Segredo de família. — Ele rodopia o recipiente duas ou três vezes, e o líquido parece cintilar ou faiscar à medida que bate no vidro, parecendo uma estranha mistura de vinho, sangue e pó de diamante.
— Posso provar? — Nem sei se quero mesmo colocar isso na boca, mas estou curiosa.
Damen faz que não com a cabeça.
— Você não vai gostar. Parece remédio. Talvez porque seja mesmo remédio.
Meu estômago embrulha enquanto olho para ele, e começo a pensar numa série de doenças terríveis e graves, dessas que não curam nunca. Eu sabia que ele era bom demais para ser verdade, penso.
— Mas não precisa se preocupar — ele diz rindo, e toma minha mão. — É que às vezes fico meio sem energia, e isto aqui ajuda.
— Mas você compra onde? Na farmácia? — Procuro por um rótulo na garrafa, qualquer informação que me dê uma pista, mas não encontro nada.
— Já disse, receita de família. — Damen sorri, dá seu último gole na bebida e se levanta da mesa, seu prato ainda cheio. — Que tal um mergulho agora? — sugere.
— Mas a gente não tem de esperar uma hora depois de comer? — Ele ri e me puxa pela mão.
— Não se preocupe. Não vou deixar você se afogar.
Já que havíamos passado a tarde inteira na piscina, decidimos tomar um banho de jacuzzi, em vez de nadar. Mas quando nossos dedos começam a enrugar feito ameixas secas, saímos da água e, embrulhados em toalhas enormes, subimos para meu quarto.
Damen me segue até o banheiro. Assim que jogo a toalha molhada no chão, ele se aproxima por trás e me abraça, com tanta força, que nossos corpos por pouco não se fundem. E quando sinto os lábios dele em minha nuca, sei que é preciso esclarecer alguns pontos enquanto meu cérebro ainda está funcionando.
— Hmm, você pode ficar se quiser — falo baixinho, afastando-me e sentindo as bochechas queimarem de vergonha quando ele me encara com um olhar de quem está se divertindo com a situação. — Eu quero que você fique. Só que... sei lá, acho que a gente não devia... você sabe, né?
Caramba, onde será que eu estou com a cabeça? Alô-ou! É claro que ele sabe!
Quantas vezes amarelei na última hora e tirei o time de campo, como aconteceu na caverna? Se liga, garota! O que você está fazendo? Qualquer pessoa da sua idade mataria por uma oportunidade dessas, um fim de semana inteiro sem nada para fazer, só de bobeira, sem pai nem mãe por perto, nem ninguém para segurar vela! E no entanto lá vem você, estabelecendo um monte de regras bobas, sem nenhum motivo pra...
Damen coloca um dedo sob meu queixo e ergue meu rosto em direção ao seu.
— Ever, por favor. A gente já conversou sobre isso — sussurra, colocando meus cabelos por trás de minhas orelhas, logo encostando os lábios em meu pescoço. — Não estava brincando quando disse que sei esperar. Já esperei tanto tempo para encontrar você... Posso esperar mais ainda.
Com o corpo quentinho de Damen enroscado ao meu, com o sopro da respiração dele em minha nuca, em dois minutos pego no sono. De início achei que fosse ficar incomodada em dormir na presença dele; bobagem, saber que ele está por perto é justamente o que me faz relaxar.
Mas quando acordo às três e quarenta e cinco e vejo que ele não está na cama, jogo as cobertas para o lado e corro até a janela, relembrando cada minuto do episódio na caverna enquanto procuro pelo carro dele na rua, ficando surpresa ao perceber que ainda está no mesmo lugar.
— Procurando por mim?
Viro para trás e deparo com Damen à porta do quarto. Meu coração dispara, o rosto enrubesce feito um pimentão.
— Ah, você está aí... É que... bem, rolei na cama e você não estava ao meu lado, então... — balbucio, sentindo-me ridícula, vergonhosamente encabulada pela carência.
— Desci para beber um copo d'água — ele explica sorrindo e me puxa de volta para a cama.
Mas quando me deito, acidentalmente passo a mão pelo lado em que ele estava dormindo e sinto o lençol frio, abandonado, como se há muito tempo não houvesse alguém ali.
Quando acordo pela segunda vez, vejo que estou novamente sozinha. Mas, ao ouvir barulhos na cozinha, visto meu roupão e desço para averiguar.
— Faz tempo que você se levantou? — pergunto, admirada com a cozinha imaculadamente limpa, a bagunça de ontem substituída por uma infinidade de pãezinhos e roscas diferentes que com certeza não brotaram por geração espontânea nos armários.
— Sou madrugador — responde Damen. —Achei melhor limpar a cozinha antes de passar no supermercado. Talvez tenha exagerado um pouco, mas não sabia o que você iria querer. — Ele sorri, contorna a bancada e vem me dar um beijo no rosto.
Dou um gole no suco de laranja que ele colocou à minha frente.
— Quer um pouco? — pergunto. — Ou você ainda está de jejum?
— Jejum, eu? — Ele arqueia as sobrancelhas e me encara.
Eu reviro os olhos.
— Poxa, Damen, você come como um passarinho. Só bebe esse seu... remédio e fica empurrando a comida no prato, pra lá e pra cá. Perto de você eu me sinto uma porca.
— Ah, é? Então olhe só para isto. — Sorrindo, ele pega um donut, crava os dentes no glacê e arranca um bom pedaço, mas demora uma eternidade para mastigá-lo.
Dou de ombros e olho pela janela, ainda desacostumada com o clima da Califórnia, uma sucessão aparentemente interminável de dias lindos, muito embora o inverno já esteja para começar.
— Então, o que a gente vai fazer hoje? — pergunto, virando-me para ele.
Damen confere as horas no relógio e depois olha para mim.
— Preciso ir daqui a pouco — diz.
— Mas a Sabine só vai voltar mais tarde! — resmungo, odiando a forma como minha voz parece a de uma menina mimada e carente e o frio no estômago que sinto quando vejo Damen tirar do bolso as chaves do carro.
— Tenho umas coisas para fazer em casa. Sobretudo se você quiser me ver na escola amanhã — ele diz, e se aproxima para afagar com os lábios minha nuca, minha orelha, meu rosto...
— Ah, sim, a escola... A gente ainda frequenta? — brinco. Por sorte não entro na pilha de ficar pensando nas consequências que virão depois de tantas aulas matadas.
— Você é a única pessoa que acha importante essa parada de escola. Por mim, todo dia seria sábado.
— Mas aí o sábado viraria um dia como outro qualquer, sem nada de especial — argumento e dou uma mordida no donut. — E a vida seria uma chatice, sem nada pra fazer, nenhum objetivo pra alcançar, só um ócio maçante e interminável. Depois de um tempo, não seria tão bom assim.
— Não tenha tanta certeza disso.
— Mas e aí? Que “coisas” misteriosas são essas que você tanto precisa fazer em casa? — pergunto, curiosa para saber um pouco mais da rotina dele, daquilo que ele normalmente faz quando não está comigo.
— Hmm... coisas — ele responde rindo, sem conseguir esconder certa pressa para sair.
— Bem, talvez eu possa... — Mas antes que eu consiga terminar a frase ele faz que não com a cabeça.
— Esqueça — ele logo diz. —Você não vai lavar minhas roupas. — Damen muda o peso do corpo de uma perna para a outra como se estivesse se aquecendo para uma corrida.
— Mas quero ver onde você mora. Nunca estive na casa de um emancipado antes, estou curiosa. — Apesar de minha tentativa de soar despreocupada, mais uma vez dou uma de criancinha carente.
Damen faz que não com a cabeça e olha para a porta como se precisasse dela para viver.
Tudo bem, sei que já é hora de jogar a toalha, mas não resisto a uma última tentativa:
— Mas por quê? — pergunto, ansiosa por uma explicação qualquer. Damen olha para mim, tenso, e diz:
— Porque minha casa está uma bagunça. Um pandemônio. Não quero que você veja e faça uma ideia errada de minha pessoa. Além disso, não vou ter cabeça para arrumar nada com você por perto, né? Você só me distrai. — Ele sorri, mas obviamente está falando da boca para fora, pois os olhos, impacientes, estão dizendo outra coisa. —A gente se fala hoje à noite. — Ele dá as costas e sai rumo à porta da cozinha.
— E se eu quiser segui-lo, você vai fazer o quê?
Meu risinho nervoso evapora tão logo ele se vira para dizer:
— Não me siga, Ever.
Assim que Damen vai embora, pego o celular e ligo para Haven, que mais uma vez não atende. Desta vez nem me dou o trabalho de deixar um recado. Já deixei um milhão deles; ela que me ligue se quiser. Portanto, depois de tomar um banho, vou para a escrivaninha, determinada a colocar os estudos em dia. Mas não vou muito longe, pois meus pensamentos voltam para Damen e suas misteriosas esquisitices, as quais não posso mais ignorar.
Tipo: como é que ele sempre sabe o que estou pensando, sendo que eu, com toda a minha mediunidade, não consigo captar absolutamente nada da cabeça dele? Como, em apenas dezessete anos de vida, ele teve tempo de morar em tantos lugares diferentes e aprender tanta coisa, como arte, futebol, surfe, culinária, literatura, história e o diabo a quatro? E a rapidez com que ele se move, literalmente formando um borrão no ar? E as rosas, as tulipas, a caneta mágica? Sem falar no fato de em uma hora ele falar como um garoto de sua idade, mas depois se transformar num Darcy, ou num Heathcliff ou qualquer outro personagem das irmãs Brontë. E aquele dia em que ele se desviou de Riley como se a tivesse visto? E a aura dele, cadê? E essa Drina, que também não tem aura? E, por falar nela, tenho certeza de que Damen está me escondendo algo sobre a relação que os dois têm. E agora, para completar, não quer que eu vá até a casa dele.
Mesmo depois que a gente dormiu junto.
Tudo bem, a gente só dormiu, mas ainda assim acho que mereço resposta para algumas de minhas perguntas, senão todas. Não vou chegar ao ponto de invadir a escola para bisbilhotar o registro dele, mas... conheço alguém que faria isso por mim.
Só não sei se devo envolver Riley nesta história. Além disso, não faço a menor ideia de como invocá-la, já que nunca precisei fazer isso antes. Será que devo, assim, chamar por ela? Acender uma vela? Fechar os olhos e fazer um pedido?
Acender vela, não, seria sinistro demais. Portanto, vou para o centro do quarto, aperto os olhos com bastante força e digo:
— Riley? Riley, se você estiver ouvindo... preciso muito falar com você. Na verdade, preciso de um pequeno favor. Mas se você não quiser ajudar, tudo bem, vou entender. Não vou ficar bolada com você, porque sei que é meio estranho. Olha, estou me sentindo meio pateta aqui, falando comigo mesma, então, se você estiver ouvindo, será que pode mandar algum tipo de sinal?
E quando Kelly Clarkson começa a berrar em meu aparelho de som, cantando a música que Riley sempre costumava cantar, abro os olhos e dou de cara com minha irmã, bem à minha frente, rindo histericamente.
— Poxa, Ever, você estava a um segundo de fechar a cortina, acender uma vela e buscar o tabuleiro Ouija!
— Ai, estou me sentindo uma idiota — digo, roxa de vergonha.
— Era o que você parecia, mesmo — ela diz às gargalhadas. — Então, deixe eu ver se entendi direito: você quer que sua irmãzinha aqui espione seu namorado, é isso?
— Como você sabe? — pergunto assustada.
— Ah, me poupe. — Riley revira os olhos e se esborracha na cama. — Por acaso você acha que é a única aqui que consegue ler pensamentos?
— E como você sabe disso? — digo, já um tanto nervosa. Que mais será que ela sabe?
— Foi a Ava que contou. Mas não fique brava, tá? Porque isso explica muito do estilo equivocado que você tem vestido ultimamente.
— E esse seu estilo equivocado aí? — pergunto, apontando para o modelito Guerra nas Estrelas com que ela apareceu hoje.
Mas Riley simplesmente dá de ombros e diz:
— Então, você quer ou não quer saber onde seu namorado mora?
Vou para a cama e me sento ao lado dela.
— Honestamente? Estou meio na dúvida. Quer dizer, claro que eu quero saber onde ele mora, mas não sei se é certo meter você nesta história.
— Mas... e se eu já soubesse? — ela diz, movendo as sobrancelhas.
— Não me diga que você andou bisbilhotando a escola? — pergunto, pensando no que mais ela teria feito no tempo em que ficamos sem nos ver. Mas ela apenas ri.
— Fiz muito melhor. Segui o cara até a casa dele.
— Quando? Como?
Ela balança a cabeça, impaciente.
— Até parece que eu preciso de um carro pra ir aonde me dá na telha, né, Ever? Além do mais, sei que você está toda apaixonadinha aí. Até entendo, porque o cara, vamos combinar, não é de jogar fora. Mas... lembra aquele dia em que ele deu a impressão de ter me visto?
Faço que sim com a cabeça. Afinal, como poderia me esquecer de um fato desses?
— Então, também achei muito estranho. Portanto, resolvi fazer uma pequena investigação.
— E aí? — pergunto, morta de curiosidade.
— E... bem, não sei direito como dizer, espero que você não me interprete mal. Mas esse tal de Damen... sei lá, ele é um tanto estranho. Quer dizer, o cara mora numa mansão enorme em Newport Coast, o que já é bastante esquisito pra alguém da idade dele. Porque, bem, como foi que ele conseguiu tanta grana? O cara nem trabalha!
Imediatamente me lembro daquele dia no hipódromo. Mas acho melhor não tocar no assunto.
— Mas isso nem é o mais estranho — continua Riley. — O mais esquisito de tudo é que a casa está completamente vazia! Não tem nenhuma cadeira, nenhuma mesa, nada.
— Coisa de homem, né? — digo, apesar de não ver motivo algum para defender Damen.
— Sim, mas não deixa de ser muito estranho. A única mobília que ele tem consiste em uma televisão de tela plana e um daqueles suportes de parede pra colocar o iPod. Sério.
Mais nada. E, acredite, andei pela casa inteira. Quer dizer, menos num quarto lá, que estava trancado.
— E desde quando você precisa destrancar a porta pra entrar em algum lugar? — Afinal, até paredes a garota pode atravessar quando quer.
— Acredite, não foi a porta trancada que me impediu de entrar. Eu mesma me travei. Caramba, Ever, não é porque estou morta que não posso sentir medo.
— Mas... não tem tanto tempo assim que ele se mudou pra cá — digo, mais uma vez fabricando desculpas feito uma boboca codependente da pior espécie. — Talvez não tenha tido tempo pra comprar móveis e tudo mais. Talvez por isso não quisesse que eu fosse lá, que visse a casa do jeito que está. — Repassando mentalmente o que havia acabado de dizer, não tive como não pensar: Caramba, meu caso é mais grave do que eu pensava.
Riley balança a cabeça, impaciente, e olha para mim como se estivesse prestes a revelar, de uma tacada só, toda a verdade sobre Papai Noel, o Coelhinho da Páscoa e a Fada dos Dentes. Mas desiste e diz:
— Talvez você devesse ir lá pra ver com os próprios olhos.
— Como assim? — pergunto, certa de que ela está escondendo algo.
Mas Riley nada diz: apenas se levanta da cama, vai para o espelho e, com muitas caras e bocas, ajeita a fantasia.
— Riley? — digo, determinada a descobrir o porquê de tanto mistério.
— Olhe — ela diz finalmente, virando-se para mim. — Talvez eu esteja enganada. Sei lá, sou apenas uma pré-adolescente, não tenho muita experiência. E provavelmente não é nada, mas...
— Mas...
Ela respira fundo.
— Ainda acho que você devia ver com os próprios olhos.
— E como é que a gente chega lá? — pergunto, já pegando as chaves do carro.
— A gente, vírgula. Tire essa ideia da cabeça. Tenho certeza de que ele pode me ver.
— Pode me ver também, Riley, esqueceu-se disso?
Mas ela finca o pé e diz:
— Nem pensar. Posso desenhar um mapa se você quiser.
Riley não é lá a melhor das cartógrafas; então, em vez de desenhar um mapa, faz uma lista das ruas pelas quais devo seguir e indica onde devo virar à direita ou à esquerda, pois sempre me confundo com essa história de Norte, Sul, Leste e Oeste.
— Tem certeza de que não quer vir comigo? — insisto, pegando a bolsa e saindo rumo ao corredor.
Ela faz que sim com a cabeça e desce as escadas atrás de mim.
— Ei, Ever.
Eu me viro.
— Você bem que podia ter me contado sobre sua mediunidade. Se eu soubesse, não teria zoado você tanto por causa de suas roupas.
— E você, pode mesmo ler minha mente? — pergunto, já à porta do hall.
— Só quando você tenta se comunicar comigo — ela responde, sorrindo. E explica: — Deduzi que cedo ou tarde você iria querer que eu espionasse seu namorado. Mas Ever...
De repente, ela fica séria, aparentemente preocupada. Viro-me novamente em sua direção.
— Olhe, Ever... Se eu sumir por uns tempos... não é porque estou chateada com você, tentando puni-la nem nada assim, tá? Prometo que vou continuar dando uns pulinhos aqui, só pra saber se está tudo bem e tal. Mas devo ficar um tempinho sem aparecer. Acho que vou andar meio ocupada.
Sinto um frio na barriga, o pânico ameaçando chegar.
— Mas vai aparecer de novo, não vai?
— Claro que vou. Só que... bem, prometo voltar, só não posso dizer quando — ela diz, e abre um sorriso visivelmente forçado.
— Você não está pensando em me abandonar, está? — Prendo a respiração, aflita, e só solto o ar quando vejo Riley negar com a cabeça. — Ótimo. Então... boa sorte!
Minha vontade é abraçar minha irmã e convencê-la a ficar, mas, sabendo que não posso, sigo adiante e entro no carro.

9 comentários:

  1. Fernanda Boaventura2 de novembro de 2015 18:20

    Finalmente! Acho que ela vai descobri algo no próximo capitulo.
    Infelizmente não posso ir direto para o próximo capitulo. E a agora meu ritmo de leitura vai ficar mais lenta.

    ResponderExcluir
  2. Sabe Tulipa e uma coisa tão linda, quando você termina de limpar sua casa, chega uma pessoa e diz: Nosso! Tu limpa tudo isso! kkkkkkkkkk Vi essa piada na internet e me lembre do Damen! Graças a Deus esse mistério todo vai acabar!
    Ass: Bina.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. kkkkkk ai que piada beste Bina! kkkkk

      Excluir
    2. Bina adorei a piada kkkkk e ainda bem que ela correu atrás.... Acho que a É ver se deixa se envolver demais pelo Damen e esquece que ele esconde coisas demais, sorte pra ela :)

      Excluir
  3. Olha nao curto isso de comparar um lovro com outro! Mas esse ta parecido pra caramba com house of night e hush hush... Alguns vao discordar mas... Isso de ler pensamentos, uma cara misterioso que surge do nada mudando tudo parece com hush hush. Hpuse of night nem tanto, mas ha traços que me fazem lembrar a serie. Karina gosto do seu blog... Obrigada pelos livros maravilhosos aki presentes

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. esse livro tbm parece com Academia de vampiros, onde a Rose podia ler a mente da Lissa, e usavam compulção, que acho q esse Damen deve ter kk, sendo de livros diferentes, são parecidos

      Excluir
  4. pretendo ler ainda esses livros que vcs estão falando esse Hush Hush e House of night

    ResponderExcluir
  5. meninas tenho uma teoria, eu acho que ele é um vampiro e foi ele quem salvou ela do acidente, ele sabe que a drina tambem é e por isso seguiu ela na festa de Halloween, ele lê pensamentos e aquele liquido que ele bebe é sangue, ele de algum modo, sabia que ele ia encontrar a Ever e teve q esperar, e ele usa compunsão nela, por isso que ele convence ela em tudo!!! é o que eu acho.

    ResponderExcluir
  6. Ele fez o jantar, café da manhã e limpou a casa dela... ONDE ARRANJA UM DESSES? QUERO
    Agora sim, espero que seja revelado logo não aguento maisss

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!