18 de outubro de 2015

Vinte e dois - Meus amigos caem de uma árvore

FELIZMENTE, UM BERSERKER simpático me encontrou andando pelo spa no centésimo décimo segundo andar. Ele tinha acabado de fazer as unhas do pé (“Não é porque você mata pessoas que seus pés também devem matar!”) e ficou feliz em me guiar até os elevadores.
Quando cheguei ao Salão de Banquete, o jantar já tinha começado. Naveguei na direção de X, que era fácil de encontrar mesmo no meio da multidão, e me juntei aos meus colegas do andar dezenove.
Trocamos histórias sobre a batalha da manhã.
— Eu soube que você usou álfar seidr! — disse Mestiço. — Impressionante!
Eu quase tinha esquecido a explosão de energia que derrubou as armas de todo mundo.
— É, hã... o que exatamente é álfar seidr?
— Magia de elfos — contou Mallory. — Magia sorrateira dos vanires, truques indignos a um verdadeiro guerreiro. — Ela me deu um soco no braço. — Já estou gostando mais de você.
Tentei dar um sorriso, mas não sabia bem como tinha conseguido fazer magia élfica. Até onde sabia, eu não era um elfo. Pensei na minha resistência a temperaturas extremas e como curei Gunilla no elevador... aquilo também era álfar seidr? Talvez fosse por eu ser filho de Frey, embora não entendesse qual era a relação dos poderes.
T.J. me elogiou por tomar o cume da colina. X me elogiou por ficar vivo por mais de cinco minutos.
Era bom me sentir parte do grupo, mas não prestei muita atenção à conversa. Minha cabeça ainda estava zumbindo por causa da visita guiada com Gunilla e do sonho com Loki no trono de Odin.
Na mesa principal, Gunilla de vez em quando murmurava alguma coisa para Helgi, e o gerente olhava de cara feia para mim. Fiquei esperando que me chamasse e me mandasse descascar uvas com Hunding, mas acho que ele estava pensando em alguma punição melhor.
Amanhã de manhã, avisara Gunilla, vamos ter que tomar certas precauções.
Ao fim do jantar, dois novatos foram receber as boas-vindas a Valhala. Os vídeos deles eram apropriadamente heroicos. Nenhuma Norna apareceu. Nenhuma valquíria foi banida em desgraça. Nenhuma bunda foi atingida por flechas de plástico.
Conforme a multidão foi saindo do Salão de Banquete, T.J. me deu um tapa no ombro.
— Descanse um pouco. Amanhã teremos outra morte gloriosa!
— Viva... — falei.
No quarto, não consegui dormir. Passei horas andando de um lado para outro como um animal enjaulado. Estava ansioso para o julgamento dos lordes de manhã. Já tinha visto o quanto eram justos quando exilaram Sam.
Mas que escolha eu tinha? Sair me esgueirando pelo hotel, abrindo portas aleatoriamente, torcendo para encontrar uma que me levasse de volta a Boston? Mesmo que conseguisse, não havia garantia de que eu teria permissão de voltar para minha vida luxuosa de mendigo. Gunilla ou Surt ou algum outro monstro nórdico poderia me encontrar de novo.
Temos que saber de que lado você está, dissera Gunilla.
Eu estava do meu lado. Não queria me meter nessa história de Juízo Final viking, mas alguma coisa me dizia que já era tarde demais. Minha mãe tinha morrido dois anos antes, por volta da mesma época em que um bando de outras coisas ruins estava acontecendo nos nove mundos. Com a minha sorte, devia haver uma ligação. Se eu queria justiça para minha mãe – se queria descobrir o que aconteceu com ela – não podia voltar a me esconder debaixo de uma ponte.
Mas também não podia ficar em Valhala, tendo aulas de sueco e vendo apresentações de PowerPoint sobre como matar trolls.
Por volta das cinco da manhã, desisti de tentar dormir. Fui até o banheiro lavar o rosto. Havia toalhas limpas penduradas no suporte. O buraco na parede tinha sumido. Eu me perguntei se foi consertado por magia ou se os lordes deram como punição para algum pobre coitado a tarefa de fazer isso. Talvez amanhã fosse eu quem estivesse consertando buracos na parede.
Andei até o átrio e olhei para as estrelas em meio aos galhos das árvores. Eu me perguntei para que céu estava olhando, para que mundo, que constelações.
Os galhos balançaram. Uma forma escura humanoide despencou da árvore. Caiu aos meus pés com um baque horrível.
— AI! — gritou ele. — Gravidade idiota!
Meu velho amigo Blitz estava caído de costas, gemendo e segurando o braço esquerdo. Uma segunda pessoa pousou de leve na grama: Hearth, vestido com as roupas pretas de couro e o cachecol listrado de sempre. Ele fez um sinal: Oi.
Eu olhei para eles.
— O que vocês...? Como vocês...?
Então sorri. Nunca fiquei tão feliz em ver alguém.
— Braço! — gritou Blitz. — Quebrado!
— Certo. — Eu me ajoelhei e tentei me concentrar. — Talvez eu consiga curar isso.
— Talvez?
— Espere... o que aconteceu com você e suas roupas?
— Você está perguntando sobre minhas roupas?
— É, tipo isso.
Eu nunca tinha visto Blitz tão arrumado. O cabelo caótico estava lavado e penteado para trás. A barba fora aparada. A monocelha tinha sido depilada. Só o nariz em zigue-zague não tinha sido cosmeticamente corrigido.
Quanto às roupas, ele aparentemente havia roubado várias butiques chiques da rua Newbury. As botas eram de couro de crocodilo. O terno preto de lã era cortado de forma a se ajustar ao corpo robusto de um metro e sessenta de altura e combinava bem com sua pele escura. Por baixo do paletó, ele usava um colete estampado grafite com um relógio de bolso dourado, uma camisa turquesa e uma gravata de cordão. Blitz parecia um caubói caçador de recompensas afro-americano baixinho e muito elegante.
Hearth bateu palmas para chamar minha atenção. Ele sinalizou: Braço. Conserta?
— Certo. Desculpe.
Toquei o antebraço de Blitz com delicadeza. Consegui sentir a fratura por baixo da pele. Desejei que se consertasse. Clique. Ele deu um berro quando o osso voltou para o lugar.
— Experimente agora.
Blitz moveu o braço. A expressão dele mudou de dor para surpresa.
— Deu certo mesmo!
Hearth parecia ainda mais chocado. Ele sinalizou: Magia? Como?
— Também gostaria de saber — falei. — Rapazes, não me entendam mal, estou muito feliz em ver vocês, mas por que estão caindo das minhas árvores?
— Garoto — falou Blitz — nas últimas vinte e quatro horas, andamos por toda a Árvore do Mundo procurando por você. Achamos que tínhamos encontrado o quarto certo ontem à noite, mas...
— Acho que talvez tenham encontrado mesmo — interrompi. — Antes do amanhecer, ouvi alguém andando pelos galhos.
Blitz se virou para Hearth.
— Eu falei que era o quarto certo!
Hearth revirou os olhos e fez sinais rápidos demais para eu conseguir ler.
— Ah, por favor — respondeu Blitz. — Sua ideia, minha ideia, não importa. A questão é que estamos aqui e que Magnus está vivo! Bem... tecnicamente, está morto. Mas está vivo. O que quer dizer que o chefe talvez não mate a gente!
— O chefe? — perguntei.
Blitz ficou com um tique nos olhos.
— É. Temos uma confissão a fazer.
— Vocês não são mendigos de verdade. Ontem à noite, um dos lordes viu vocês em um vídeo e...
Vídeo?, disse Hearth em linguagem de sinais.
— É. Visão das Valquírias. Enfim, esse lorde chamou vocês de anão e elfo. Imagino que — apontei para Blitz — você seja o anão?
— Típico — resmungou ele. — Você supõe que eu seja o anão porque sou baixo.
— Então você não é o anão?
Ele suspirou.
— É. Eu sou o anão.
— E você é...
Olhei para Hearth, mas não consegui falar em voz alta. Andei com aquele cara durante dois anos. Ele me ensinou palavrões em linguagem de sinais. Nós comemos burritos tirados de latas de lixo. Que tipo de elfo faz isso?
E-L-F-O. Hearth fez um sinal para cada letra. Às vezes, é escrito Á-L-F-A-R.
— Mas... vocês não são tão diferentes dos humanos.
— Na verdade — disse Blitz — são os humanos que não são tão diferentes de nós.
— Não consigo acreditar que estou tendo essa conversa, mas você não é tão pequeno. Tipo, para um anão. Dá para se passar por um humano baixinho.
— E é o que tenho feito por dois anos. Existem anões de tamanhos diferentes, assim como os humanos. Por acaso, sou um svartalfar.
— Um smartphone elfo?
— Ah! Limpe os ouvidos, garoto. Um svartalfar. Quer dizer elfo negro. Sou de Svartalfaheim.
— Hã, pensei que você tivesse acabado de dizer que é um anão.
— Elfos negros não são elfos. É... Como se chama? Um termo impróprio. Somos um subgrupo dos anões.
— Ah, isso esclarece muita coisa.
Hearth abriu um leve sorriso, o que, para ele, era o equivalente a rolar no chão de tanto rir. Ele sinalizou: smartphone elfo.
Blitz o ignorou.
— Svartalfar costumam ser mais altos do que a média dos anões de Nídavellir. Além do mais, somos bem mais bonitos. Mas isso não é importante agora. Hearthstone e eu estamos aqui para ajudar você.
— Hearthstone?
Hearth assentiu. Meu nome completo. O dele é B-L-I-T-Z-E-N.
— Garoto, não temos muito tempo. Passamos os últimos dois anos de olho em você para mantê-lo em segurança.
— Para o seu chefe.
— Exato.
— E quem é ele?
— Isso é... confidencial. Mas é um dos mocinhos. É o chefe de uma organização dedicada a atrasar o Ragnarök o máximo possível. E você, meu amigo, é seu projeto mais importante.
— Então, é só um palpite, mas... vocês estão trabalhando para Loki?
Blitzen ficou ultrajado. Hearth sinalizou um dos palavrões que tinha me ensinado.
— Isso foi desnecessário, garoto. — Blitzen parecia mesmo magoado. — Eu me vesti como um mendigo todos os dias por dois anos por você. Deixei minha higiene pessoal ir para Helheim. Sabe quanto tempo eu tinha que ficar na banheira de espuma todas as manhãs para tirar o cheiro?
— Desculpe. Então... vocês estão trabalhando com Samirah, a valquíria?
Hearthstone fez outro sinal de palavrão. A que levou você? Não. Ela tornou as coisas mais difíceis para nós.
Na verdade, os sinais estavam mais para: ELA. LEVOU. VOCÊ. TORNOU. DIFÍCIL. NÓS. Mas eu já estava ótimo em interpretação.
— Você não devia ter morrido, garoto — disse Blitzen. — Nosso trabalho era proteger você. Mas agora... bem, você é um einherji. Talvez ainda possamos fazer isso dar certo. Temos que tirar você daqui. Temos que encontrar a espada.
— Tudo bem.
— Não discuta comigo — disse Blitzen. — Sei que você está gostando do paraíso dos guerreiros e que tudo é muito novo e empolgante...
— Blitz, vamos logo.
O anão olhou para mim sem entender.
— Mas eu tinha o discurso todo preparado.
— Não precisa. Eu confio em vocês.
Sabem o que era estranho? Eu estava falando a verdade.
Talvez Blitzen e Hearthstone fossem stalkers profissionais que estavam de olho em mim para uma organização secreta anti-Ragnarök. Talvez a ideia deles de me proteger envolvesse atacar o lorde dos gigantes do fogo com brinquedos de plástico baratos. Talvez os dois nem fossem da mesma espécie que eu.
Mas eles ficaram comigo quando eu estava na rua. Eram meus melhores amigos. Sim... minha vida era esquisita assim.
— Muito bem, então. — Blitzen limpou a grama do colete. — Vamos voltar pela Árvore do Mundo antes que...
De algum ponto lá em cima, um au! explosivo reverberou pelo quarto. Parecia um boston terrier raivoso de mais de dois mil e quinhentos quilos se engasgando com um osso de mamute.
Hearthstone arregalou os olhos. O som foi tão alto que ele devia ter sentido as vibrações pelos sapatos.
— Pelos deuses! — Blitzen agarrou meu braço. Junto com Hearthstone, ele me puxou para longe do átrio. — Garoto, me diga que sabe outro caminho para sairmos do hotel. Porque nós não vamos pela árvore.
Outro au! sacudiu o quarto. Galhos partidos caíram no chão.
— O q-que tem lá em cima? — perguntei, com os joelhos bambos. Pensei na profecia das Nornas, que me chamou de arauto do mal. — É... o Lobo?
— Ah, muito pior — respondeu Blitzen. — É o Esquilo.

24 comentários:

  1. Respostas
    1. o esquilo é a criatura que se move pelos galhos de IggDrazil para levar as mensagens do gradão nidhogg para a serpente (esqueci o nome)
      Digamos assim o esquilos é comparavel a um deus

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    2. a serpente da midgard?

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    3. o nome é ratotsk ele é o fofoqueiro da iggdrasil

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    4. Mi lembra Nárnia .
      Mi juguem ;)

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    5. caçadora de Artermis5 de janeiro de 2016 21:13

      Minha mãe tinha morrido dois anos antes, por volta da mesma época em que um bando de outras coisas ruins estava acontecendo nos nove mundos. Com a minha sorte, devia haver uma ligação. Se eu queria justiça para minha mãe – se queria descobrir o que aconteceu com ela – não podia voltar a me esconder debaixo de uma ponte.
      lembrando do Percy meu "primo" irritante

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  2. Hearthstone?Não e um nome de um jogo ?

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  3. Típico — resmungou ele. — Você supõe que eu seja o anão porque sou baixo.
    — Então você não é o anão?
    Ele suspirou.
    — É. Eu sou o anão.
    — E você é...
    Kkkkk morri mds

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  4. afinal quem é que esta por trás de tudo isso porcaria!

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  5. Fiquei confusa ak... Na vdd, eu ja tava mt confusa, mas agr eu fiquei mais ainda
    -Tayná

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  6. Esquilo ��������������estou rindo pq nn sei o que ele é no livro,sla alguma criatura que foi p o lado do mal pq eles tem jujubas,ou alguma coisa horrível; mas p mim até agr ele é apenas uma criatura inofensiva que ... Late?

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  7. OH NAO FUJAM PARA AS MONTANHAS O PODEROSO ESQUILO ESTA LA KKKKK Continuo meio confusa com esses dois mais veremos..

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  8. oi ? esquilo ? sou a única confusa ?

    ~coruja

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  9. Parecia um boston terrier raivoso de mais de dois mil e quinhentos quilos se engasgando com um osso de mamute.
    Uau.Melhor descrição,muito obrigada pela linda imagem que veio na minha mente.

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  10. 1.AHHHHH PELOS DEUSES O ESQUILO NÃO .2 odeio começo dos livros ,sempre fico tãoooo confusa O.o

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  11. Lembrei da Coca diet de Dionísio kkkk

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  12. mds esse livro é mt massa kkkkk o rick é um genio mesmo

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  13. Acabei de perceber que sou menor que o anão. Ele se veste melhor do que eu. Ok, parei de ler aqui.

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  14. desde quando esquilo e pior que lobo to mais confuso do que ESQUILO no alasca

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  15. "— É. Visão das Valquírias. Enfim, esse lorde chamou vocês de anão e elfo. Imagino que — apontei para Blitz — você seja o anão?

    — Típico — resmungou ele. — Você supõe que eu seja o anão porque sou baixo.

    — Então você não é o anão?

    Ele suspirou.

    — É. Eu sou o anão.

    — E você é...

    Olhei para Hearth, mas não consegui falar em voz alta. Andei com aquele cara durante dois anos. Ele me ensinou palavrões em linguagem de sinais. Nós comemos burritos tirados de latas de lixo. Que tipo de elfo faz isso?

    E-L-F-O. Hearth fez um sinal para cada letra. Às vezes, é escrito Á-L-F-A-R."

    Eu sou idiota por rir do "Tipíco" e do "Palavrões em linguagem de sinais"?

    "Hearth abriu um leve sorriso, o que, para ele, era o equivalente a rolar no chão de tanto rir. Ele sinalizou: smartphone elfo." Eu amo tanto esse surdo cara ♡

    "— Tudo bem.

    — Não discuta comigo — disse Blitzen. — Sei que você está gostando do paraíso dos guerreiros e que tudo é muito novo e empolgante...

    — Blitz, vamos logo.

    O anão olhou para mim sem entender.

    — Mas eu tinha o discurso todo preparado."

    Não é atoa que o Magnus chama ele de "Pai" huafvvv

    Amando e ficando super confusa com esse livro ❤

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