31 de outubro de 2015

Vinte e cinco

Embora tivesse a esperança de estar muito longe no momento em que Muñoz chegasse para buscar Sabine, no segundo em que saia do carro, olho pelo espelho retrovisor e o encontro justo atrás de mim.
Cedo.
Dez minutos antes, de fato.
Os mesmos dez minutos que eu tinha destinado para vir a toda velocidade do trabalho e me concentrar, antes de fugir de cena e me dirigir para a frente do jardim de Haven onde o funeral de Charm seria realizado.
― Ever? — Ele sai do seu carro brilhante e prateado, fazendo soar suas chaves e concentrando seus olhos em mim.
― O que está fazendo aqui?
Inclina a cabeça enquanto se aproxima, me envolvendo em uma nuvem de spray desodorante Axe. Arrumo a mochila por cima do meu ombro, fechando a porta de meu carro mais forte do que planejado.
― Eu moro aqui!
Ele me olha fixamente, sua cara está tão quieta que não estou certa de que tenha me escutado até que sacode sua cabeça e repete.
― Você mora aqui?
Eu aceno com a cabeça, me negando a dizer algo mais.
― Mas... — Olha ao redor, assimilando a fachada de pedra, os degraus da entrada, a grama recém cortada, o leito de flores que começam a florescer. ― Mas esta é a casa de Sabine, não é?
Faço uma pausa, tentada a lhe dizer que não, que esta é uma imitação de uma mansão em Laguna Beach, que esta não é a casa de Sabine, absolutamente. Que é óbvio que cometeu algum tipo de engano e por isso acabou em minha casa.
Mas justo quando estava a ponto de fazê-lo, Sabine para ao nosso lado.
Saindo de seu carro de uma maneira muito entusiasmada, diz:
― Oh! Paul! Sinto muito chegar tarde, o escritório estava me deixando louca e cada vez que tentava sair algo acontecia. — Ela sacode a cabeça, olhando de uma maneira muito íntima para um primeiro encontro. ― Se você me der um minuto para me trocar prometo que não demorarei. Paul?
Olho para eles, notando sua felicidade, a maneira de falar, o tom cantante e eu não gosto do que ouço, não gosto de nada. É muito íntimo. Muito atrevido. Ela deveria chamá-lo de Senhor Muñoz como nós o fazíamos na escola. Ao menos até o final desta noite, depois da qual, é obvio, eles mutuamente decidiriam ir por caminhos separados…
Ele sorri, passando a mão através de seu cabelo um pouco comprido, castanho e ondulado, como o pior tipo de fanfarrão. Quero dizer, só porque tem um cabelo realmente excepcional para um professor, não significa que deve presumir dessa maneira.
― Cheguei cedo — diz, com seu olhar fixo nela. ― Então, por favor, demore o tempo que necessitar. Eu estou muito bem falando com Ever.
― Já se conheciam? — Sabine descansa sua pasta bastante cheia sobre seu quadril, olhando entre nós.
Sacudo a cabeça, e digo abruptamente:
― Não! — Antes que o senhor Muñoz possa responder. Não estou certa do que estou dizendo ou de toda esta situação. Mas mesmo assim, aí esta, um equívoco, e não tenho planos de dissolvê-lo. ― Quero dizer, conhecemo-nos neste momento. — Faço uma pausa, seus olhos estão entrecerrados, tão confusos como eu quanto à direção que tudo isto esta tomando. ― O que quero dizer é que não é como se nos tivéssemos conhecido antes nem nada parecido. — Eu o olho fixamente, sabendo que só o confundi até mais. ― De toda maneira tem razão, você deveria ir se arrumar. — Levanto meu polegar para Muñoz, já que de nenhuma maneira o chamaria de Paul, assim como tampouco o chamaria de nenhuma outra forma. ― E ficaremos aqui enquanto se arruma. — Sorrio, esperando manter Muñoz aqui fora, na calçada, longe de minha casa.
Mas infelizmente os modos de Sabine são melhores que os meus. Logo que eu termino a frase ela diz:
― Não seja tolo. Entre e fique à vontade. E Ever, por que não pede uma pizza para você, já que não tive tempo de ir a ao supermercado?
Sigo-os, ficando atrás tanto quanto posso sem arrastar literalmente meus pés, em parte como protesto, e em parte por que não podia me arriscar a tropeçar em nenhum deles.
Sabine abre a porta da entrada, olhando por cima de seu ombro quando diz:
― Ever? Está bem? Você vai querer a pizza?
Encolho os ombros, recordando das duas fatias de pizza vegetariana que Jude me deixou, as quais atirei no lixo no momento em que ele deu as costas. ― Estou bem. Comi algo no trabalho. Encontro-me com seu olhar, pensando que este poderia ser o momento perfeito para dizer-lhe sabendo que ela não perderia o controle com Muñoz (Paul!) estando tão perto.
― Tem um trabalho? — Ela abre a boca, com os olhos bem abertos e sua mandíbula um pouco frouxa.
― Sim. — Coço o braço, apesar do mesmo não estar coçando. ― Creio que lhe havia isso dito, não?
― Não! — Ela me lança um olhar nada bom. ― Definitivamente não mencionou.
Encolho os ombros, tentando parecer despreocupada.
― Oh, bom, então acabo de contar. Estou oficialmente empregada. — Dou-lhe um sorriso que, inclusive a meus ouvidos, soava completamente falso.
― E onde conseguiu este trabalho? — Ela pergunta baixando a voz, seu olhar seguindo Muñoz enquanto se dirige para dentro da casa.
― No centro da cidade. Em um lugar onde se vendem livros e outras coisas.
Ela me olhar de esguelha.
― Escuta — digo. ― Por que não discutimos isto mais tarde? Eu não gostaria que se atrasassem.
Olho para a sala onde Muñoz estava sentavo no sofá.
Sabine também lhe dá uma olhada. Sua expressão é sombria, sua voz é baixa e urgente quando ela diz:
― Alegra-me muito que tenha encontrado um trabalho, Ever, não me interprete mal. Só desejava que tivesse me contado tudo isso. — Ela sacode a cabeça. ― Bom, falaremos sobre isto mais tarde. Esta noite. Quando eu retornar.
E embora me sinta um pouco contente em saber que seus planos com o Muñoz não se estenderão até o outro dia, a olho e digo:
― Acontece que a gata de Haven morreu e ela está um pouco abalada emocionalmente, o que significa que poderei chegar tarde, assim... — encolho os ombros, sem me incomodar em terminar minhas palavras, lhe permitindo encher o espaço que tinha deixado.
― Então, falaremos amanhã. — Ela dá a volta. ― Agora, vá conversar com o Paul enquanto me troco.
Sabine sobe as escadas, sapateando e balançando sua pasta enquanto eu entro na sala e paro atrás de uma robusta poltrona quase sem acreditar que tinha chegado a este ponto.
― Sá para que saiba, não te chamarei de Paul. — Digo, olhando seus jeans de desenhista, sua camisa de dobras, seu relógio e os sapatos que são bastante geniais para que qualquer professor os use.
― Isso é um alívio — ele sorri, seu olhar descansando no meu rosto. ― Poderia ser um incômodo na escola.
Engulo em seco, brincando com o respaldo da poltrona, sem saber exatamente o que fazer. Porque, embora toda minha vida seja, sem dúvida, muito estranha, ser forçada a fazer brincadeiras divertidas com meu professor de história, o qual conhece um de meus maiores segredos, leva toda esta situação a um nível completamente novo.
Mas ao parece, sou a única que se sente incomodada aqui. Muñoz está completamente à vontade, sentado sobre o encosto do sofá, com um de seus pés descansando em seu joelho, uma imagem que demonstra tranquilidade.
― Qual é, exatamente, sua relação com Sabine? — Ele me pergunta, com seus braços estendidos através das almofadas.
― Ela é minha tia. — Observo-o, procurando sinais de incredulidade, confusão ou surpresa, mas tudo o que obtenho é um olhar interessado. ― Ela tornou-se minha tutora legal quando meus pais morreram. — Levanto meus ombros e o olho fixamente.
― Não tinha nem ideia. Sinto muito. — Enrruga a cara, e sua voz se desvanece quando a tristeza enche o lugar.
― Minha irmã também morreu. — Inclino a cabeça. ― Como o fez Buttercup. Ela era nossa cadela.
― Ever — Ele sacode a cabeça na forma em que a gente o faz quando não pode nem imaginar como deve ser. ― Eu...
― Eu morri também — acrescentei, antes que ele pudesse terminar de falar. Não esperei para ouvir suas incômodas condolências, lutando para encontrar as palavras corretas quando na verdade essas palavras não existem. ― Morri junto com eles – mas só por uns poucos segundos, e logo retornei, ressuscitei, o elixir me deu a vida eterna. — Sacudi minha cabeça. ― Bom, logo despertei. Encolho os ombros, me perguntando porque acabava de lhe confessar tudo isso.
― Foi assim que se tornou psíquica? — Seu olhar é firme e está cravado no meu.
Olho para as escadas, me assegurando de que Sabine não está perto, logo me viro para Muñoz e só aceno com a cabeça.
― Isso acontece. — Diz, sem estar surpreso e sem fazer julgamentos sobre a situação. ― Tenho lido um pouco sobre isso. É muito mais comum do que parece. Muitas pessoas retornam mudadas ou alteradas de alguma maneira.
Inclino meu olhar para a cadeira, meus dedos riscam uma linha ao longo da parte superior da almofada, agradecida pela informação, mas me dei conta que não tinha nem ideia de como responder.
― E pela maneira inquieta em que está olhando as escadas a cada cinco segundos, suponho que Sabine não saiba de nada?
Olho-o tratando de melhorar o clima quando digo:
― Então, agora, quem é o vidente? Você ou eu?
Mas ele sozinho sorri. Procurando meu rosto com uma nova compreensão que, felizmente, substitui o olhar de pena que antes havia em seus olhos.
Ficamos assim, ele me olhando fixamente e eu estudando cada parte da poltrona. O silêncio se prolonga por tanto tempo que finalmente sacudo minha cabeça e digo:
― Acredite em mim, Sabine não entenderia. Ela... — afundo a ponta da sapatilha na apertada malha do tapete, sem saber exatamente onde quero chegar, mas sabendo que tenho que lhe dar uma explicação. ― Quero dizer, não me interprete mal, ela é uma grande pessoa, muito inteligente e também é uma super bem-sucedida advogada, mas é como... — Sacudo minha cabeça. ― Bom, digamos que ela só acredita no que vê. — Pressiono meus lábios e olho para o outro lado, sabendo que havia dito mais que suficiente, mas precisava deixar só uma última coisa clara. ― Mas, por favor, não lhe diga nada, ok? Quero dizer, não o fará, não é?
Olho-o fixamente, contendo a respiração enquanto Sabine começa a descer as escadas. E justamente quando estou certa de que não tinha mais tempo ele diz:
― Vamos fazer um trato. Você deixa de faltar às aulas e eu não direi nenhuma palavra. Que tal?
— O que eu acho? Está brincando? Está me chantageando! Quero dizer, sei que não estou na melhor posição, especialmente desde que sou a única que tem algo a perder.
Olho por cima de meu ombro, vendo Sabine fazer uma pausa frente ao espelho, revisando de novo seus dentes para tirar as manchas de lápis labial. Dou meia volta e sussurro:
― Que importa? Só falta uma semana para terminarem as aulas! E nós dois sabemos que vou receber uma A.
Ele concorda, levantando-se de seu assento, com um sorriso cada vez mais amplo enquanto olha Sabine, embora suas palavras se dirijam para mim.
― Por isso que não tem uma boa razão para não estar lá, não é verdade?
― Não estar aonde? — Pergunta Sabine, luzindo de uma maneira muito formosa com sua maquiagem de olhos defumados, seu cabelo suave e loiro e um vestido pelo que Stacia Miller provavelmente venderia um rim para comprá-lo, se fosse vinte anos mais velha.
Começo a falar, sem confiar em que Muñoz guardaria meu segredo, mas nesse mesmo instante sua voz se sobrepõe à minha quando diz:
― Só estava dizendo a Ever que continue com seus planos. Não há necessidade de que fique aqui e me entretenha.
Sabine olha entre nós até que seu olhar obviamente descansa em Paul. E embora seja agradável vê-la tão relaxada, feliz e ansiosa por seu encontro, no segundo em que ele põe sua mão na parte baixa de suas costas e a dirige para a porta da entrada, tudo o que posso fazer é me conter de derrubá-lo violentamente.

4 comentários:

  1. Gostei desse professor, agora!
    kkkkkkkkkkk
    Ass: Bina.

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  2. Acho o professor estranho , e a Ever uma garotinha bem egoísta.

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  3. Ever CHATAAA !!! deixa a tia ser feliz, cara !!

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  4. #EverComCiumeDaTiaSabine.

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