29 de outubro de 2015

Vinte e cinco

Quando chego à escola no dia seguinte, paro na vaga de sempre, salto do carro e passo direto por Damen para ir ao encontro da Haven, que espera por mim junto ao portão.
E apesar de toda a minha aversão ao contato físico, planto as mãos sobre os ombros de minha amiga e a puxo para um grande abraço.
— O.K., O.K., eu também amo você. — Ela ri e me empurra para trás. — Caramba, Ever, até parece que eu ia ficar bolada com vocês pro resto da vida!
Os cabelos pintados de vermelho estão lambidos e sem vida, o esmalte preto das unhas está lascado, as olheiras estão mais escuras que de costume e o rosto está indiscutivelmente pálido. Embora ela afirme que está bem, não me contenho e avanço para mais um abraço.
— Como você está se sentindo? — pergunto, examinando-a com atenção, tentando ler alguma informação nela. No entanto, exceto pela aura cinzenta, fraca e translúcida, não consigo ver quase nada.
— O que foi que deu em você, mulher? — ela pergunta, afastando-me dela.— Por que está pegajosa desse jeito? Logo você, que vive se escondendo debaixo de um capuz, ouvindo iPod?
— Fiquei sabendo que você estava doente, e como você não deu as caras ontem... — De repente me sinto ridícula por agir desta forma com a Haven.
— Já sei o que aconteceu — diz Haven, rindo e assentindo com a cabeça. — A culpa é toda sua, não é? — Ela aponta para Damen. — Foi você que derreteu o coração gelado de minha amiga e a transformou numa boboca sentimental, numa manteiga derretida, não foi?
Damen ri, mas não com os olhos.
— Foi só uma gripe — ela diz. Miles lhe dá o braço, e atravessamos juntos o portão. — Mas fiquei muito triste com essa parada da Evangeline, acho que isso me fez piorar muito. Quer dizer, tive tanta febre que até desmaiei algumas vezes.
— Sério? — digo, afastando-me do Damen para caminhar ao lado dela.
— Sério. Foi muito bizarro. À noite eu ia pra cama usando uma roupa, depois acordava usando outra, totalmente diferente. E quando procurava pela roupa que tinha usado antes, não encontrava. Era como se ela tivesse sumido no ar ou algo do tipo, entende?
— Mas aquele seu quarto é uma zona, né, Haven? — Miles ri. — Ou talvez você estivesse alucinando. Isso acontece quando se está com muita febre.
— Pode ser. Mas todos os meus lenços pretos sumiram. Tive de pegar este aqui emprestado de meu irmão. — Haven pega a ponta do lenço azul que está usando e o rodopia.
— E ninguém estava em casa para cuidar de você? — pergunta Damen, surgindo atrás de mim. Ele toma minha mão e entrelaça os dedos nos meus, despachando uma onda de calor pelo meu corpo inteiro.
Haven sacode a cabeça, impaciente, e revira os olhos.
— Pra cuidar de mim? É ruim, hem! Sou praticamente emancipada, que nem você.
Além disso, minha porta ficou trancada o tempo todo. Eu podia ter morrido ali dentro que ninguém ficaria sabendo.
— E Drina? — pergunto, sentindo um frio na espinha só de dizer o nome dela.
Haven olha para mim de um jeito estranho e diz:
— Drina está em Nova York. Viajou na sexta à noite. Bem, espero que vocês não peguem essa gripe. Ainda que eu tenha tido uns sonhos muito legais, sei que vocês não vão curtir. — Ela para a poucos metros de sua sala e recosta-se na parede.
— Por acaso você sonhou com um cânion? — pergunto, largando a mão do Damen e aproximando-me da Haven, tão perto que ficamos cara a cara.
Ela ri e me empurra para trás.
— Peraí, amiga, você ultrapassou seu limite. Não, não sonhei com cânion nenhum. Só com umas coisas bem góticas, difíceis de explicar. Só sei que tinha muito sangue.
E tão logo ela fala, assim que ouço a palavra “sangue” vejo tudo escuro e sinto o corpo amolecer, caindo para trás.
— Ever! — exclama Damen, amparando-me segundos antes de eu me esborrachar no chão. — Ever... — ele sussurra, sua voz carregada de preocupação.
E quando abro os olhos, que encontram os dele, percebo algo estranho, uma expressão intensa que me parece bastante familiar. Mas se alguma lembrança viria à tona, ela é prontamente apagada pela voz de Haven:
— É assim que começa. Quer dizer, só fui desmaiar um tempo depois, mas tudo começou, definitivamente, com uma vertiginosa tonteira.
— De repente ela está grávida — diz Miles, para quem quiser ouvir.
— Ah, não estou mesmo — digo, surpresa com minha súbita melhora, agora que estou apoiada nos braços fortes e quentes de Damen. — Não foi nada, juro. — Com certo esforço, fico de pé e me afasto dele.
— Você devia levar essa garota pra casa — Miles diz a Damen. — Ela não está nada bem.
— Também acho — Haven concorda com a cabeça. — Sério, amiga, você deveria descansar um pouco. Não vai querer passar pelo que eu passei.
Bato o pé e digo que quero ficar, mas ninguém me dá ouvidos. E quando dou por mim, Damen está com o braço em minha cintura, levando-me para o carro dele.
— Isso é ridículo — digo assim que saímos do estacionamento. — Sério, estou bem. Sem falar na encrenca que a gente vai arrumar se matar aula outra vez.
— Não vamos arrumar encrenca alguma, Ever. — Damen me espia de relance, logo voltando os olhos para o trânsito. — Só para refrescar sua memória: você desmaiou naquele corredor. Teve sorte de eu estar lá para ampará-la.
— Mas aí é que está! Você estava lá pra me amparar! E agora estou bem. Juro. Quer dizer, se você estivesse mesmo tão preocupado comigo, deveria ter me levado pra enfermaria da escola. Não precisava me sequestrar.
— Não estou sequestrando ninguém — ele diz, claramente irritado. — Só quero cuidar de você, Ever, ter certeza de que está bem.
— Ah, então agora você é médico! — Balanço a cabeça, descrente, e reviro os olhos.
Mas Damen nada diz. Apenas segue adiante pela Coast Highway, passando direto pela rua que leva à minha casa, por fim parando diante de um imponente portão.
— Onde você está me levando? — pergunto, vendo-o cumprimentar a moça da portaria, familiar a mim. Ela sorri e nos deixa passar.
— Minha casa — ele resmunga.
Subimos por uma colina, virando aqui e acolá, até que chegamos a uma rua sem saída e paramos o carro numa ampla garagem vazia.
Puxando-me pela mão, Damen me conduz através de uma cozinha perfeitamente equipada até uma sala íntima, chiquérrima, muito diferente do que se poderia esperar da casa de um estudante que mora sozinho. Mãos na cintura, corro os olhos pela requintada decoração: o aconchegante sofá de chenile, os abajures lindos, os tapetes persas, a coleção de quadros abstratos nas paredes...
— Tudo isto é seu? — pergunto. Na mesinha de centro, de madeira escura, vejo diversos livros de arte, velas e uma fotografia minha, emoldurada. — Quando foi que você tirou esta foto aqui? — Examino a foto de perto. Não tenho a menor lembrança de ter sido fotografada por ele.
— Você fala como se nunca tivesse vindo aqui antes — ele diz, acenando para que eu me sente.
— E nunca vim mesmo. — Dou de ombros.
— Veio, Ever — insiste Damen. — No domingo. Depois da praia. Aliás, sua roupa de neoprene ficou aqui, está pendurada lá em cima. Agora, sente-se. — Ele dá tapinhas no sofá. — Quero que você descanse.
Deixo o corpo cair nas macias almofadas do sofá, ainda com o porta-retratos nas mãos, tentando lembrar quando a tal foto tinha sido tirada. Nela, meus cabelos estão soltos, meu rosto está ligeiramente corado e estou usando um moletom pêssego, que eu nem sequer me lembrava de ter. E, embora esteja sorrindo, meus olhos estão sérios e tristes.
— Tirei naquele dia na escola. Quando você não estava olhando. Prefiro fotos assim, espontâneas. É a única maneira de capturar a verdadeira essência de uma pessoa — ele diz, tomando de volta o porta-retratos e colocando-o sobre a mesa. — Agora feche os olhos e procure descansar enquanto preparo um chá para você.
Dali a pouco ele volta à sala, deposita uma xícara quentinha em minhas mãos e cobre minhas pernas com uma pesada manta de lã.
— Tudo isso é muito bom, mas não é necessário — digo, colocando a xícara sobre a mesa e conferindo as horas no relógio. Se sair agora mesmo, ainda posso chegar à escola para o segundo tempo. — Sério, estou ótima. Acho melhor a gente voltar.
— Ever, você desmaiou — ele diz, sentando-se a meu lado, apreciando meu rosto enquanto me faz um carinho nos cabelos.
— Essas coisas acontecem — retruco, envergonhada pelo trabalho que estou dando, sobretudo quando sei que estou bem.
— Não sob minha supervisão — ele sussurra, deslizando os dedos para a cicatriz em minha testa.
— Não! — exclamo e bruscamente afasto a cabeça antes que ele possa me tocar.
— Qual o problema? — ele pergunta assustado.
— Não quero que você fique gripado também — minto, nem um pouco disposta a admitir a verdade: essa cicatriz é para mim, e só para mim. Um lembrete constante, assegurando que eu nunca esqueça. Por isso não deixei que fizessem uma cirurgia plástica, que “consertassem” minha testa. Não há conserto para tudo o que aconteceu.
Essa culpa é só minha. Essa dor é só minha. Por isso escondo minha cicatriz debaixo da franja.
Mas Damen ri e diz:
— Eu nunca fico doente.
Fecho os olhos e balanço a cabeça, impaciente.
— Só faltava isso. Você nunca fica doente.
Ele pega a xícara na mesa e insiste para que eu beba. Dou um pequeno gole, mas interrompo para dizer:
— Vejamos. Você não fica doente, mata não sei quantas aulas mas só tira dez em todas as provas, pega um pincel e, voilà, reproduz um Picasso melhor que o próprio pintor, cozinha tão bem quanto um chef cinco estrelas, já foi modelo em Nova York antes de se mudar pra Santa Fé, mas depois de ter morado em Londres, na Romênia, em Paris, no Egito... Não trabalha, é emancipado e mora nesta casa deslumbrante que só pode ter custado muitos milhões de dólares. Tem um carro caríssimo e...
— Roma — ele diz, sério.
— O quê?
— Morei em Roma, não na Romênia, como você disse.
Reviro os olhos.
— Tanto faz. Só estou dizendo que... — As palavras param na ponta da língua.
— Sim? — Damen se inclina em minha direção. —Você está dizendo que...
Engulo em seco e desvio o olhar, subitamente aturdida com uma dúvida que há muito vem me remoendo. Algo sobre Damen, sobre essa qualidade quase sobrenatural que ele tem. Será que é um fantasma, como a Riley? Não, impossível, todo mundo vê o cara, penso.
— Ever — ele diz, e toma meu rosto entre as mãos, virando-me para ele. — Ever, eu...
Mas antes que ele possa dizer qualquer palavra, pulo do sofá, jogo a manta no chão e vou para a porta da sala, nem me dando o trabalho de virar o rosto para dizer:
— Me leve pra casa.

13 comentários:

  1. Fernanda Boaventura4 de novembro de 2015 10:16

    Tá. Não gostei dele deletar a mente dela assim... Porque não contou logo a verdade? Oh, sim, certo. Ela não deixou.
    Até que gosto da Ever.... Mas... ELA DEVIA FAZER MAIS PERGUNTAS!

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  2. Fernanda Boaventura4 de novembro de 2015 10:16

    Tá. Não gostei dele deletar a mente dela assim... Porque não contou logo a verdade? Oh, sim, certo. Ela não deixou.
    Até que gosto da Ever.... Mas... ELA DEVIA FAZER MAIS PERGUNTAS!

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  3. Estou boiando! Estou boiando! Estou boiannnnnnnnnnndo!
    Ass: Bina.

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  4. Ela devia parar de ser tão retardada e ligar os pontos , coisa que eu to fazendo DESDE O CAPÍTULO 2.

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    1. pois e to fazendo o mesmo e estou certa da minha conclusao

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  5. Que raiva,odiei que ele tenha deletado a memória dela assim, e mudado a casa inteira dele!

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  6. filho da mãe, "Quer dizer, tive tanta febre que até desmaiei algumas vezes.
    — Sério. Foi muito bizarro. À noite eu ia pra cama usando uma roupa, depois acordava usando outra, totalmente diferente. E quando procurava pela roupa que tinha usado antes, não encontrava. Era como se ela tivesse sumido no ar ou algo do tipo, entende?
    — Pode ser. Mas todos os meus lenços pretos sumiram. Tive de pegar este aqui emprestado de meu irmão. — Haven pega a ponta do lenço azul que está usando e o rodopia.
    Ainda que eu tenha tido uns sonhos muito legais, sei que vocês não vão curtir.
    Só sei que tinha muito sangue.
    E tão logo ela fala, assim que ouço a palavra “sangue” vejo tudo escuro e sinto o corpo amolecer, caindo para trás." tudo que envolve o ACONTECIMENTO da noite, filho da mãe, fica se fazendo de santinho, eu gosto dele, só pra vcs saberem, ele deve ta inseguro de conta q é um vampiro, cagão, lindo, mas pq ele fez ela desmaia? eu sei pq, ele fez isso pq ela podia lembrar essa parte do começo "Quer dizer, tive tanta febre que até desmaiei algumas vezes.
    — Sério. Foi muito bizarro. À noite eu ia pra cama usando uma roupa, depois acordava usando outra, totalmente diferente. E quando procurava pela roupa que tinha usado antes, não encontrava. Era como se ela tivesse sumido no ar ou algo do tipo, entende?
    — Pode ser. Mas todos os meus lenços pretos sumiram. Tive de pegar este aqui emprestado de meu irmão. — Haven pega a ponta do lenço azul que está usando e o rodopia.
    Ainda que eu tenha tido uns sonhos muito legais, sei que vocês não vão curtir.
    Só sei que tinha muito sangue.
    E tão logo ela fala, assim que ouço a palavra “sangue” vejo tudo escuro e sinto o corpo amolecer, caindo para trás." viram? ela ia acabar lembrando

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  7. Damen tá me deixando nervosa! Por que ele não conta logo a verdade pra ela?? Seja lá qual for a verdade!!!

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  8. estou amandoooooo esse livro nossa...
    Pelo que entendi haven estava ficando mal por causa da tatoo ai damen "sugou" o sangue dela e ela ficou boazinha de novo.
    Mas ai Ever ve tudo e sem entender nada nem deixa o coitado explicar e ele é obrigado a apagar a mente dela.

    showw

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  9. CARACA! Esse Damen é louquinho
    depois dessa nunca mais voltava com ele,se, porventura ele fosse um vampiro do bem.
    Só eu achei relacionado com TVD? Damon_Elena,Damen? vampiro? família morrendo em acidente de carro??
    *ele supostamente na cena.
    varias outras ideias referenciais a outros livros
    to pensando se vou continuar a leitura :/ odeio essa coisa clichê de vampiro obesessivo por sangue, garotinhas burras indefesas(não que ela seja totalmente burra,mas lenta),etc. Estilo Drácula...DETESTO

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  10. Não estou endendo nada estou mais perdida do que cego em tiroteio 😕😕😕

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  11. MANO EU ACHO QUE ELE SALVOU ELA DO ACIDENTE, NAQUELA PARTE QUE ELA DIZ QUE A EXPRESSÃO É FAMILIAR E TAL
    Obviamente ele que ajudou a Haven
    To amando esse livro scrr

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