18 de outubro de 2015

Vinte e cinco - Meu agente funerário me veste de um jeito engraçado

UMA COISA BOA em ser mendigo: eu sabia onde conseguir roupas de graça.
Hearth e eu passamos por um bazar beneficente em Charlesgate, para eu não ter que andar pela cidade só de pijama. Então lá estava eu usando uma calça jeans desbotada, uma jaqueta camuflada e uma camisa cheia de buracos. Fiquei lindo. Parecia mais do que nunca com Kurt Cobain, mas duvido que ele usasse uma camisa com os dizeres: TOUR PRÉ-ESCOLAR DE ROCK & ROLL DOS WIGGLES! O mais perturbador era fazerem camisas daquele tipo no meu tamanho.
Mostrei a espada do hotel.
— Hearth, o que eu faço com isso? Duvido que a polícia goste de me ver andando por aí com uma espada de noventa centímetros.
Glamour, sinalizou Hearth. Prenda no seu cinto.
Assim que o fiz, a arma encolheu e derreteu até virar uma corrente, que estava só um pouco menos na moda do que a camisa dos Wiggles.
— Ótimo — falei. — Agora minha humilhação está completa.
Ainda é uma espada, sinalizou Hearth. Os mortais não veem coisas mágicas muito bem. Entre o Gelo e o Fogo há a Névoa, G-i-n-n-u-n-g-a-g-a-p. Obscurece as aparências. Difícil explicar por sinais.
— Tudo bem.
Eu me lembrei do que Gunilla me contou sobre os mundos se formando entre gelo e fogo e que Frey representava a zona intermediária entre os dois. Mas, aparentemente, os filhos de Frey não herdavam uma compreensão inata do que diabo isso queria dizer.
Li meu obituário de novo para pegar o endereço da capela.
— Vamos prestar nossas homenagens a mim.
Foi uma caminhada longa e fria. A temperatura não me incomodou, mas Hearth tremia dentro da jaqueta de couro. Os lábios estavam rachados e descascando. O nariz escorria. De todos os livros e filmes de fantasia que devorei quando era mais novo, eu tinha a impressão de que os elfos eram criaturas nobres e de beleza sobrenatural. Hearthstone parecia mais um universitário anêmico que não comia havia algumas semanas.
Mesmo assim... comecei a reparar em detalhes inumanos nele. As pupilas eram estranhamente reflexivas, como as de um gato. Por baixo da pele pálida, as veias eram mais esverdeadas do que azuladas. E, apesar da aparência desgrenhada, ele não fedia como um sem-teto normal, nem a cecê, nem a álcool, nem a sujeira. Ele tinha cheiro de pinheiro e madeira queimada. Como eu não havia percebido isso antes?
Eu queria perguntar sobre os elfos, mas andar e fazer sinais não funcionava muito bem. E Hearth não conseguia ler lábios em movimento. Eu meio que gostava disso, na verdade. Não dava para ser multitarefa quando se falava com ele. O diálogo exigia cem por cento de concentração. Se todas as conversas fossem assim, eu imaginava que as pessoas não diriam tanto lixo.
Estávamos passando pela praça Copley quando ele me puxou para a entrada de um prédio comercial.
Gómez, sinalizou ele. Espere.
Gómez era um policial de patrulha que nos conhecia de longe. Ele não sabia meu nome real, mas, se tivesse visto uma foto recente minha no noticiário, eu teria dificuldade para explicar por que não estava morto. Além do mais, Gómez não era um cara muito simpático.
Bati no ombro de Hearth para chamar a atenção dele.
— Como é... o lugar onde você nasceu?
A expressão de Hearth ficou séria. Álfaheim não é tão diferente daqui. É mais iluminado. Não tem noite.
— Não tem noite, tipo, nunca?
Não tem noite. A primeira vez que vi um pôr do sol...
Ele hesitou, mas posicionou as mãos na frente do peito como se estivesse tendo um ataque cardíaco: o sinal de medo.
Tentei imaginar como era viver em um mundo em que sempre era dia, e então ver o sol desaparecer em meio a luzes tons de sangue no horizonte.
— Isso seria assustador — concluí. — Mas os elfos não têm coisas das quais os humanos teriam medo? Tipo... álfar seidr?
Uma luz surgiu nos olhos de Hearth. Como você conhece esse termo?
— Hã... ontem, no campo de batalha, alguém falou. — Contei para ele a explosão que derrubou as armas de todo mundo. — Quando curei o braço de Blitz, e quando entrei naquela parede de chamas na ponte Longfellow... eu me perguntei se era tudo o mesmo tipo de magia.
Hearth pareceu demorar mais do que o habitual para processar minhas palavras.
Não sei. Os gestos dele estavam menores, mais cuidadosos. Álfar seidr pode ser muitas coisas, normalmente magia pacífica. Cura. Crescimento. Impedir violência. Não pode ser aprendida. Não é como a magia das runas. Ou se tem álfar seidr no sangue ou não. Você é filho de Frey. Talvez tenha herdado algumas das habilidades.
— Frey é um elfo?
Hearth balançou a cabeça. Frey é o lorde de Álfaheim, nosso deus patrono. Os vanires são próximos dos elfos. Eram a fonte de todo álfar seidr.
— Eram? Os elfos não falam mais com árvores, pássaros e tal?
Hearth grunhiu de irritação. Espiou pela esquina para verificar onde estava o policial.
Álfaheim não é assim, sinalizou ele. Quase ninguém mais nasce com álfar seidr. Ninguém pratica magia. A maioria dos elfos acha que Midgard é um mito. Que humanos vivem em castelos e usam armaduras e calças justas.
— Talvez uns mil anos atrás.
Hearth assentiu.
Naquela época, nossos mundos interagiam mais. Agora, os dois mundos mudaram muito. Os elfos passam a maior parte do tempo olhando telas, vendo vídeos engraçados de duendes quando deviam estar trabalhando.
Eu não sabia se tinha interpretado os sinais direito (vídeos de duendes?), mas Álfaheim parecia tão deprimente quanto Midgard.
— Então você sabe tanto sobre magia quanto eu — afirmei.
Não sei como era antigamente. Mas estou tentando aprender. Abri mão de tudo para tentar.
— O que isso quer dizer?
Ele olhou para a esquina de novo.
Gómez já passou. Vamos.
Eu não sabia se ele não entendera minha pergunta ou se escolhera ignorá-la.
A capela era perto das ruas Washington e Charles, no meio de uma fileira de casinhas que pareciam perdidas entre os novos arranha-céus de concreto e vidro. Um texto no toldo dizia: TWINING & FILHOS SERVIÇOS FUNERÁRIOS.
Um cartaz perto da porta listava os eventos por vir. O primeiro informava: MAGNUS CHASE. A data era hoje, às dez da manhã. A porta estava trancada. As luzes, apagadas.
— Cheguei cedo no meu próprio velório — comentei. — Típico.
Minhas mãos tremiam. A ideia de ver meu cadáver era mais perturbadora do que morrer.
— E aí, invadimos?
Deixe-me tentar uma coisa, sinalizou Hearth.
Do casaco, ele tirou uma bolsinha de couro. O conteúdo tilintou com um barulho familiar.
— Runas — imaginei. — Você sabe usá-las?
Ele deu de ombros, como quem diz: Vamos descobrir. Pegou uma pedra e bateu na maçaneta da porta. A tranca estalou. A porta se abriu.
— Legal. Isso funcionaria em qualquer porta?
Hearth guardou a bolsinha. Eu não conseguia decifrar a expressão dele, uma mistura de tristeza e cautela.
Ainda estou aprendendo, sinalizou ele. Só tentei isso uma vez, quando conheci Blitz.
— Como vocês dois...?
Hearth me interrompeu com um gesto. Blitz salvou minha vida. É uma longa história. Vá logo. Vou montar guarda aqui fora. Cadáveres de humanos... Ele estremeceu e balançou a cabeça.
Era o fim do meu apoio élfico.
Lá dentro, a capela tinha cheiro de flores podres. O tapete vermelho gasto e o revestimento de madeira escura das paredes deixavam o lugar parecendo o interior de um caixão gigantesco. Segui pelo corredor e espiei a primeira sala.
Havia três janelas com vitrais na parede do fundo, fileiras de cadeiras dobráveis viradas para um caixão aberto em uma plataforma. Eu já estava odiando isso. Fui criado sem religião. Sempre me considerei ateu.
Então, é claro que minha punição era descobrir que eu era filho de uma deidade nórdica, ir para uma pós-vida viking e ter um velório de caixão aberto em uma capela brega. Se havia mesmo um Deus Todo-Poderoso lá em cima, um chefão do universo, Ele estava rindo de mim agora.
Na entrada da sala, havia um retrato meu do tamanho de um pôster, cercado de papel crepom preto. Tinham escolhido a mesma foto engraçadinha do anuário da escola de quando estava no quinto ano. Ao lado, em uma mesinha, havia um livro de assinaturas.
Fiquei tentado a pegar a caneta e escrever na primeira linha: Obrigado por virem ao meu velório! – Magnus
Quem viria, afinal? Tio Randolph? Talvez tio Frederick e Annabeth, se eles ainda estiverem na cidade. Meus antigos colegas de escola de dois anos antes? Até parece. Se a funerária oferecesse comida, talvez alguns dos meus colegas sem-teto aparecessem, mas os únicos de quem eu gostava mesmo eram Blitzen e Hearthstone.
Percebi que estava enrolando. Não sabia quanto tempo ficara de pé na porta da sala. Eu me obriguei a entrar.
Quando vi meu rosto no caixão, quase vomitei.
Não por eu ser tão feio assim, mas porque... bem, sabem como é estranho ouvir sua voz gravada? E como pode ser irritante se ver em uma foto em que você acha que não ficou bem? Agora imagine ver seu próprio corpo deitado na sua frente. Era tão real e, ao mesmo tempo, tão não eu.
Meu cabelo estava penteado com gel. Meu rosto estava cheio de maquiagem, provavelmente para cobrir os cortes e hematomas. Minha boca estava posicionada em um sorrisinho esquisito que eu jamais daria na vida real. Eu estava usando um terno de aparência barata azul com uma gravata também azul. Eu odiava azul. Minhas mãos estavam unidas sobre a barriga, escondendo o ponto em que fui perfurado por uma bola de asfalto derretido.
— Não, não, não.
Eu me apoiei na lateral do caixão.
A sensação de que aquilo estava errado fez parecer que minhas entranhas estavam queimando de novo.
Sempre tive uma imagem do que aconteceria com meu corpo depois que eu morresse. Não era aquilo. Minha mãe e eu tínhamos um pacto, que pode parecer bizarro, mas não era. Ela me fez prometer que, quando morresse, eu mandaria cremá-la. Eu espalharia as cinzas dela no bosque de Blue Hills. Se eu morresse primeiro, ela prometeu que faria o mesmo por mim. Nenhum de nós gostava da ideia de ser embalsamado, transformado em uma exposição e enterrado em uma caixa.
Nós queríamos estar sob o sol e o ar fresco e apenas desaparecer.
Não pude cumprir minha promessa para minha mãe. Agora, estava tendo exatamente o tipo de velório que eu não queria.
Meus olhos lacrimejaram.
— Sinto muito, mãe.
Tive vontade de derrubar o caixão. Tive vontade de botar fogo na capela. Mas eu tinha um trabalho a fazer. A espada.
Se estava no caixão, não estava visível. Prendi a respiração e enfiei a mão no forro lateral, como se estivesse procurando umas moedas. Nada.
Achando que a espada poderia estar escondida por glamour, estiquei o braço para tentar sentir a presença dela no caixão como fiz na ponte Longfellow. Nenhum calor. Nenhum zumbido. A única outra opção era verificar debaixo do corpo.
Olhei para o Magnus 1.0.
— Desculpa aí, cara.
Tentei dizer para mim mesmo que o cadáver era um objeto inanimado, como um espantalho. Não uma pessoa real. E, certamente, não era eu.
Eu o rolei para o lado. O corpo era mais pesado do que eu imaginava.
Nada além de alfinetes prendendo o paletó. Uma etiqueta no forro dizia 50% CETIM, 50% POLIÉSTER, PRODUZIDO EM TAIWAN.
Coloquei meu corpo no lugar. O cabelo do Magnus morto estava bagunçado agora. O lado esquerdo ficou parecendo uma flor desabrochando. Minhas mãos se soltaram uma da outra, então eu parecia estar mostrando o dedo do meio para todo mundo.
— Bem melhor — concluí. — Agora está mais parecido comigo.
Às minhas costas, uma voz falhada chamou:
— Magnus?
Eu quase pulei para fora da camisa do Wiggles.
De pé na entrada estava minha prima Annabeth.

23 comentários:

  1. Eu estava usando um terno de aparência barata azul com uma gravata também azul. Eu odiava azul.

    Percy não curtiu.

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  2. Até que enfim!!!! Annabeth!

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  3. Só eu reparei que esse tal de Ginnungagap parece a névoa do PJO?

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    1. Nope. relacionei isso também!

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    2. A Annie já tinha relacionado a névoa com a primeira camada do Duat uma vez

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  4. É sério é a segunda vez que Annabeth vai no velório e a pessoa reaparece na frente dela

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  5. Oeeee Aaaaaaaaniiiieeeeeee 💜💜💜

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  6. Os elfos passam a maior parte do tempo olhando telas, vendo vídeos engraçados de duendes quando deviam estar trabalhando.





    Os humanos também

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    1. caçadora de Artermis5 de janeiro de 2016 21:49

      minha "sobrinha" favorita faz os ,mortos aparecerem vivos
      gente eu nao faço ideia do grau de parentesco q eu tenho com ela pq eu sou filha de Jupiter

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  7. Névoa, Duat, Ginnungagap
    Por quê não chama simplismente de Mágica?

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  8. Ae fosse uma mortal comum teria pegado um porrete para matar o "imposator"

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  9. Annabeth! Aeeeeeeeeeeeeeeoooooooloooooooo

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  10. De pé na entrada estava minha prima Annabeth.

    aleluia !!!!!!!! aleluia !!!!!!!!!!

    ~coruja

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  11. Eu estava usando um terno de aparência barata azul com uma gravata também azul. Eu odiava azul.

    Percy não curtiu

    ~coruja

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    1. olha que plágio é feio

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  12. Se eu morrer e continuar viva eu vou fazer isso com meu corpo. N pera...

    ANNEEEEEE FINALMENTE GURIA!!!

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  13. "Coloquei meu corpo no lugar. O cabelo do Magnus morto estava bagunçado agora. O lado esquerdo ficou parecendo uma flor desabrochando. Minhas mãos se soltaram uma da outra, então eu parecia estar mostrando o dedo do meio para todo mundo.
    — Bem melhor — concluí. — Agora está mais parecido comigo." SE ALGUÉM N FIZER ISSO E IR VESTIDO DE MORTE NO MEU ENTERRO ~The Sims~ NEM QUERO

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