31 de outubro de 2015

Um

— Tudo é energia.
Os escuros olhos de Damen fixam-se nos meus, insistindo em me escutar, escutar de verdade esta vez.
— Tudo está ao redor de nós. — Seu braço varre diante dele, riscando um horizonte de cores que logo toca o negro. — Tudo o que neste universo, aparentemente é sólido, não o é, é energia pura, energia que vibra. E enquanto nossa percepção pode nos convencer de que as coisas são sólidas, líquidos ou gasosos, no nível quântico, tudo são apenas partículas dentro de partículas, que é toda a energia.
Aperto os lábios e faço um gesto com a cabeça; a voz em minha cabeça não deixa de me repetir: diga-lhe! Diga-lhe agora! Saia da imobilidade, acabe de uma vez! Apresse-se, antes que ele comece a falar de novo!
Mas não o faço. Não digo uma só palavra. Somente espero que termine, para continuar, embora saiba que pode demorar-se ainda mais.
— Levante a mão. — Ele assente com a cabeça, com a palma de sua mão para fora, movendo-se para a minha. Levantando o braço lentamente, com cautela, decidido a evitar qualquer contato físico, quando diz: — Agora me diga, o que vê?
Olho, sem saber o que procurar, encolhendo os ombros lhe digo:
— Bom, vejo a pele pálida, dedos largos, e a urgente necessidade de uma manicure...
― Exatamente. Sorri, como se acabasse de passar a prova mais fácil do mundo. ― Mas se pudesse vê-lo, como é realmente, não veria nada absolutamente. Em lugar disso veria um enxame de moléculas que contêm prótons, nêutrons, elétrons e quarks. E dentro dos diminutos quarks, até o ponto mais minúsculo, veria-se nada mais que energia pura, vibrando e deslocando-se a uma velocidade o suficientemente lenta, que parece densa, mas com a suficiente rapidez, que não pode ser observada como verdadeiramente é.
Entreabro meus olhos, não muito segura de que acredito. Não importa o fato de que ele esteve estudando estas coisas durante umas centenas de anos.
— Sério, Ever. Nada é independente. — Inclina-se para mim, concentrando-se totalmente no tema. — Tudo é um. As coisas que aparecem em matéria densa, como você e eu, e esta areia em que estamos sentados, na realidade só são uma massa de energia vibrando o suficientemente lento para parecer sólida, enquanto que coisas como fantasmas e as bebidas espirituais vibram tão rapidamente que são quase impossíveis de se ver para a maioria dos seres humanos.
— Vejo Riley — eu digo, ansiosa de lhe contar todo o tempo que passei com minha irmã fantasma. — Ou ao menos a via antes, como você já sabe, antes que ela cruzasse a ponte e seguisse adiante.
— E isso é exatamente porque não poderá vê-la nunca mais. — Ele assente. — Sua vibração é muito rápida. Embora haja quem pode ver além de tudo isso. Agora levante a mão outra vez e a ponha perto da minha, até me tocar.
Duvido, enchendo a palma de minha mão com a areia, indisposta a fazê-lo. Diferente dele, sei o preço, quer dizer, as horríveis consequências que o contato mais mínimo da nossa pele pode trazer.
É por isso que estive evitando tocá-lo desde sexta-feira passada. Mas quando o olho, atentamente, outra vez, sua palma esperando a minha, suspiro e levanto minha mão também. Fico sem fôlego ao ver que ele está tão perto de mim... a distância que nos separa é extremamente pequena.
― Sente? ― Ele sorri. ― Esse comichão e o calor? Essa é nossa energia de conexão.
Move a mão para trás e adiante, manipulando a inserção e extração do campo de força da energia que há entre nós.
― Mas se todos estamos conectados, como você diz, então por que todas as pessoas não podem sentir o mesmo? — Sussurro, sentindo o fluxo magnético inegável que nos une, fazendo que o calor mais maravilhoso, siga seu curso através de meu corpo.
― Todos estamos conectados, todos nós somos feitos da mesma fonte vibrante. Mas enquanto algumas energias são frias e outras mornas, a que está destinada para você e eu é quente.
Fecho meus olhos e viro o rosto, permitindo às lágrimas derramar-se sobre minhas bochechas, já não era capaz de seguir ocultando-as. Saber que não posso sentir sua pele, o roçar de seus lábios nos meus, a comodidade quente e sólida de seu corpo sobre o meu. Este campo de energia elétrica que treme entre nós é o mais próximo que terei, graças à horrível decisão que tomei.
— A ciência; é hora de ficar ao dia com o que os metafísicos e os grandes professores espirituais souberam durante séculos. Tudo é energia. Tudo é um.
Posso ouvir o sorriso em sua voz quando se aproxima, desejoso de entrelaçar seus dedos com os meus. Mas me afasto rapidamente, monopolizando sua atenção a tempo de ver a expressão de dor que expressa seu rosto, o mesmo olhar que tinha quando o fiz beber o antídoto que o devolveu à vida. Pergunta-se por que estou tão tranquila, tão distante, porque me nego a tocá-lo quando só há umas poucas semanas atrás eu não podia ficar longe dele.
Incorretamente, assume que é por causa da sua paquera com Stacia, sua crueldade para mim, quando na verdade não tem nada a ver com isso. Estava sob o feitiço do Roman, toda a escola estava. Não foi sua culpa. O que ele não sabe é que enquanto o antídoto o devolveu à vida, o meu sangue que eu acrescentei à mistura foi o que assegurou que nós nunca pudéssemos voltar a estar juntos. Nunca.
Jamais.
Para toda a eternidade.
― Ever? ― ele sussurra, com sua voz profunda e sincera. Mas não posso olhá-lo. Não posso tocá-lo. E certamente não posso pronunciar as palavras que ele merece ouvir:
Estraguei tudo, lamento. Roman me enganou, e eu estava desesperada e fui o suficientemente estúpida para cair em sua armadilha – e agora não há nenhuma esperança para nós porque se você me beijar, se trocarmos nosso DNA – Você morrerá!
Não posso fazê-lo. Sou muito covarde. Sou patética e débil. E simplesmente não há jeito de encontrar valor dentro de mim.
― Ever, por favor! O que está acontecendo? ― ele pergunta, alarmado por minhas lágrimas. — Você esteve assim por vários dias. É por mim? É algo que fiz? Porque você sabe que eu não recordo muito do que aconteceu, e as lembranças estão começando a aparecer. Você deve saber que não era eu na realidade. Eu nunca te faria mal intencionalmente.
Abraço-me muito forte, afundando meus ombros e inclinando a cabeça. Eu desejava me fazer menor; tão pequena que ele não pudesse me ver. O que ele diz é verdade, que ele é incapaz de me fazer mal. Só eu poderia fazer algo tão horrível, tão imprudente, tão ridículo e impulsivo. Só eu poderia ser bastante estúpida para cair na armadilha de Roman. Tão impaciente em provar que o amor que sentia por Damen era totalmente verdadeiro. Acreditava que era a única que poderia salvá-lo, e agora olhe o desastre que fiz.
Ele se move para mim, deslizando seu braço ao redor de mim, me agarrando a cintura e me aproximando dele. Mas não posso nos arriscar a tanta intimidade, minhas lágrimas são mortais agora, e devem estar afastadas de sua pele.
Ponho-me de pé e olho o oceano, colocando meus dedos do pé na beirada da água e permitindo à branca e fria espuma, meter-se entre meus dedos. Sentindo o desejo de poder mergulhar sob sua imensidão e ser arrastada pela maré. Algo para evitar dizer as palavras, algo para evitar dizer a meu único e verdadeiro amor, meu companheiro eterno, minha alma gêmea nos últimos quatrocentos anos e que me deu a eternidade que eu sou responsável por nosso fim.
Permaneço assim, quieta e em silêncio. À espera de que o sol fique, até que finalmente me volto para olhá-lo. Apesar da picada que sinto na garganta, murmuro:
— Damen... querido... há algo que devo te dizer.

6 comentários:

  1. Se ela n~]ao contar vai ser pior! Conte logo!

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  2. Cada vez que eu leio mais, cada vez fico mais confusa com esse livro. Sou apenas eu?

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  3. Sinto dizer isso, Ever querida... Mas É TUDO CULPA SUA!!!!!

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