31 de outubro de 2015

Trinta

― Que bom que o conservou.
Eu sorrio, me sentando em seu BMW, feliz de que o tenha conservado em lugar do Grande Feio. Ele me olha, seus olhos ainda sérios, mas sua voz ligeira quando diz:
― Tinha razão. Excedi-me um pouco com o assunto da segurança. Isso sem mencionar que este é um automóvel muito melhor.
Eu olho para fora da janela, me perguntando que tipo de aventura tem planejada, mas segura de que como de costume quer me surpreender. Olhando-o enquanto nos dirige para a rua e navega no tráfico até que estamos livres de automóveis e ele realmente acelera. Pressionando a embreagem e acelerando tão rapidamente, que não tenho ideia do lugar aonde nos dirigimos, até que estamos ali.
― O que é isto? — Olho ao redor, assombrada por sua capacidade de fazer sempre as coisas mais inesperadas.
― Imaginei que nunca tivesse estado aqui. — Abre minha porta e toma minha mão. ― Tinha razão?
Eu aceno, absorta com a paisagem desértica, interrompido tão somente pelo ocasional arbusto, e um fundo montanhoso, e milhares de moinhos de vento. Milhares de verdade. Todos eles altos. Todos eles brancos. Todos eles girando.
― É uma fazenda de moinhos de vento. — Ele explica, apoiando-se sobre o capô de seu automóvel e limpando um espaço para que eu me sente também. ― Produzem eletricidade, aproveitando o vento. Em somente uma hora, produzem energia suficiente para uma casa média durante um mês.
Eu olho ao redor, observando as pás que giram e me perguntando qual pode ser seu significado.
― Então, por que viemos aqui? Estou um pouco confusa.
Ele respira profundamente, olhando ao longe, sua expressão melancólica quando diz:
― Me sinto atraído por este lugar. Suponho que é porque fui testemunha de muitas mudanças durante os últimos seiscentos anos, e aproveitar o vento é uma ideia muito velha.
Eu pisco, ainda sem entender sua importância, mas sentindo que definitivamente a tem.
― Apesar de todas as mudanças tecnológicas e avanços que vi, algumas coisas permanecem basicamente iguais.
Eu aceno, silenciosamente respirando, sentindo algo muito mais profundo em suas palavras, mas sabendo que o está decidido a fazê-lo lentamente.
― A tecnología avança tão rápido, fazendo o familiar obsoleto a uma velocidade incrível. E enquanto coisas como a moda parecem avançar e mudar. Se você viver o suficiente, dará conta de que simplesmente é cíclico o reajustamento de velhas ideias para fazê-las parecer novas. Mas enquanto tudo ao nosso redor parece estar em um constante estado de fluxo, as pessoas em seu interior permanece exatamente iguais. Todos nós seguimos procurando as coisas que desejamos desde o começo: refúgio, comida, amor, significado. — Sacode sua cabeça. ― Uma busca que é imune à evolução.
Ele me olha com seus olhos tão profundos e escuros, não posso imaginar como se sente por ter presenciado tanto, saber tanto, fazer tanto e ainda assim não está nem um pouco desanimado, pelo contrário, ainda está cheio de sonhos.
― E uma vez que o básico está assegurado, uma vez que asseguramos a comida e o refúgio, passamos o resto de nosso tempo simplesmente procurando ser amados.
Ele se inclina para mim, seus lábios frios e suaves – fugazes, efêmeros enquanto acariciam minha pele, como uma doce brisa do deserto. Afastando-se para observar os moinhos de vento de novo quando diz:
― Holanda é conhecida por seus moinhos. E já que uma de suas vidas se passou lá, pensei que talvez quisesse conhecê-la.
Eu pisquei, segura de havê-lo interpretado mal. Não temos tempo para uma viagem ou sim? Vendo-o sorrir, seu olhar aliviando-se enquanto diz:
― Feche seus olhos e venha comigo.

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