18 de outubro de 2015

Trinta e um - A mais fedida e não se fala mais nisso

NUNCA TIVE MEDO de andar de barco até ver o de Harald.
Na proa estava pintado: EXCURSÕES AO MAR PROFUNDO E DESEJOS DE MORTE DE HARALD – o que parecia muito texto para um barquinho de seis metros. O deque era uma bagunça de cordas, baldes e caixas de iscas. Redes e boias cobriam as laterais como decorações de Natal. O casco já tinha sido verde, mas estava desbotado, da cor de chiclete de menta muito mastigado.
O próprio Harald estava na doca ali perto, usando um macacão amarelo com respingos de água e uma camiseta tão velha que fazia a minha dos Wiggles parecer última moda. Ele era um cara do tamanho de um lutador de sumô com braços tão grossos quanto os espetos de churrasco grego no Falafel do Fadlan. (Sim, eu ainda estava pensando em comida.)
O mais estranho nele era o cabelo. Os cachos malcuidados, a barba e até os braços peludos brilhavam com um toque branco-azulado, como se ele tivesse passado a noite ao ar livre e estivesse coberto de geada.
Quando nos aproximamos, ele ergueu o rosto da corda que estava enrolando.
— Olhem só. Um anão, um elfo e dois humanos chegam no píer... Parece até o começo de uma piada.
— Espero que não — comentei. — Queremos alugar seu barco para uma expedição de pesca. Vamos precisar da isca especial.
Harald soltou um risinho de deboche.
— Vocês quatro em uma das minhas expedições? Não vai rolar.
— Big Boy nos mandou.
Harald franziu a testa, e um pouquinho de neve caiu de suas bochechas.
— Big Boy, é? O que ele quer com gente como vocês?
Sam deu um passo à frente.
— Não é da sua conta. — Do bolso do casaco, ela tirou uma moeda grande e a jogou para Harald. — Uma moeda de ouro vermelho agora; mais cinco quando terminarmos. Você vai alugar o barco para nós ou não?
Eu me inclinei na direção dela.
— O que é ouro vermelho?
— A moeda de Asgard e Valhala — explicou ela. — Aceita em todos os mundos. Harald cheirou a moeda. A superfície dourada brilhou de forma tão calorosa que a moeda pareceu estar em chamas.
— Você tem sangue de gigante, garota? Vejo nos seus olhos.
— Isso também não é da sua conta.
— Hum. O pagamento é suficiente, mas meu barco é pequeno. Dois passageiros no máximo. Levo você e o garoto humano, mas o anão e o elfo... De jeito nenhum.
Blitzen estalou os dedos nas luvas de couro.
— Escuta aqui, Gelado...
— ARG! Nunca chame um gigante do gelo de Gelado. Odiamos isso. Além do mais, você já parece meio petrificado, anão. Não preciso de outra âncora. Quanto aos elfos, são criaturas de ar e luz, inúteis em um barco. Só dois passageiros. O acordo é esse. É pegar ou largar.
Olhei para os meus amigos.
— Pessoal, uma conversinha, por favor.
Eu os levei pelo píer até um ponto em que Harald não ouviria.
— O cara é um gigante do gelo?
Hearthstone gesticulou: Cabelo gelado. Feio. Grande. Sim.
— Mas... Sabe, ele é grande, mas não gigante.
A expressão de Sam me fez desconfiar de que ela não era a professora de geometria mais paciente do mundo.
— Magnus, gigantes não são necessariamente enormes. Alguns são. Alguns podem crescer muito se quiserem. Mas são seres ainda mais diversificados do que os humanos. Muitos parecem pessoas normais. Alguns podem assumir a forma de águia ou pombo ou praticamente qualquer coisa.
— Mas o que um gigante do gelo está fazendo no porto de Boston? Podemos confiar nele?
— Primeira resposta — disse Blitzen — os gigantes do gelo estão por toda parte, principalmente ao norte de Midgard. Se são confiáveis... de jeito nenhum. Ele pode levá-lo direto para Jötunheim e jogá-lo em um calabouço, ou pode usá-lo como isca. Você tem que insistir em levar Hearth e a mim.
Hearth bateu no ombro de Blitz.
O gigante está certo, gesticulou ele. Eu falei, luz do dia demais. Você está virando pedra. Só é muito teimoso para admitir.
— Não, estou bem.
Hearthstone olhou ao redor. Viu um balde de metal, pegou e bateu com ele na cabeça de Blitzen. O anão não reagiu, já o balde amassou no formato do crânio dele.
— Tudo bem — admitiu Blitz — talvez eu esteja ficando um pouco petrificado, mas...
— Saia da luz por um tempo — sugeri. — Vamos ficar bem. Hearth, você consegue encontrar um bom esconderijo subterrâneo para ele ou alguma coisa assim?
Hearth assentiu. Vamos tentar descobrir mais sobre Fenrir e a corda que o aprisiona. Encontramos você de noite. Na biblioteca?
— Está ótimo — falei. — Sam, vamos pescar.
Voltamos para Harald, que estava prendendo a corda em um nó perfeito.
— Tudo bem, dois passageiros. Precisamos pescar no ponto mais distante possível da baía de Massachusetts, e precisamos da isca especial.
Harald abriu um sorriso torto. Os dentes pareciam ser do mesmo material da corda desgrenhada que ele estava enrolando.
— Mas é claro, pequeno humano. — Apontou para uma porta corrediça na lateral do armazém. — Escolha sua isca... se conseguir carregar.
Quando Sam e eu abrimos a porta, quase desmaiei com o fedor.
Ela teve ânsia de vômito.
— Pelo olho de Odin, já estive em campos de batalha menos fedorentos.
No armazém, pendurados em ganchos de carne, havia uma coleção realmente impressionante de carcaças em decomposição. A menor era a de um camarão de um metro e meio. A maior era a cabeça decepada de um touro do tamanho de um carro.
Tampei o nariz com a manga da jaqueta. Não ajudou. Parecia que alguém tinha enchido uma granada com ovo podre, metal enferrujado e cebola crua e jogado nas minhas narinas.
— Respirar dói — falei. — Qual dessas gostosuras você acha que é a isca especial?
Sam apontou para a cabeça do touro.
— Que tal a maior e não se fala mais nisso?
Eu me obriguei a observar a cabeça do touro, os chifres pretos e curvos, a língua cor-de-rosa para fora da boca como um colchão de ar peludo, o pelo branco fumegante e as crateras brilhosas cheias de gosma das narinas.
— Como é possível um touro tão grande?
— Deve ser de Jötunheim — disse Sam. — O gado deles pode ser enorme.
— Não me diga. Alguma ideia do que devemos tentar pescar?
— Há muitos monstros marinhos nas profundezas. Desde que não seja... — Seu rosto subitamente ficou sombrio. — Deixa pra lá. Deve ser só um monstro marinho.
— Só um monstro marinho. Que alívio.
Fiquei tentado a pegar o camarão gigante e sair dali, mas tinha a sensação de que precisávamos de uma isca maior se queríamos mesmo causar um tumulto capaz de atrair uma deusa do mar.
— Vai ser a cabeça do touro então — concluí.
Sam levantou o machado.
— Não sei nem se vai caber no barco de Harald, mas...
Ela jogou o machado na corrente do gancho de carne, que quebrou com um estalo. A cabeça do touro caiu no chão como uma piñata grande e nojenta. O machado voltou voando para a mão de Sam.
Juntos, pegamos o gancho de carne e arrastamos a cabeça para fora do armazém. Mesmo com ajuda, eu não conseguiria deslocá-la se não fosse minha força de einherji.
Morra dolorosamente. Vá para Valhala. Ganhe a habilidade de arrastar cabeças decepadas rançosas e colossais por um píer. Viva.
Quando chegamos ao barco, puxei a corrente com toda a minha força. A cabeça do touro rolou pelo píer e caiu no convés. O S.S. Harald quase virou, mas de alguma forma se estabilizou. A cabeça ocupava a metade de trás do navio. A língua caía pela popa. O olho esquerdo rolou para dentro, e a cabeça ficou parecendo enjoada.
Harald se levantou do balde de iscas onde estava sentado. Se ficou surpreso ou irritado de eu ter jogado uma cabeça de vaca de duzentos e vinte quilos no barco, não demonstrou.
— Uma escolha ambiciosa de isca. — Harald olhou para o porto. O céu estava escurecendo. Uma leve chuva de granizo perfurava a superfície da água. — Vamos logo, então. É uma bela tarde para pescar.

24 comentários:

  1. eles vão pescar uma deusa... :v

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  2. Acho que vai ser a serpente gigante do Book Trailer

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  3. deixa Poseidon saber dessa bagunça no território dele

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    1. Não vai mudar muita coisa, os deuses nórdicos são muito mais poderosos que os gregos.

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    2. Zeus Matador de Odin21 de janeiro de 2016 09:58

      Sqn eu sou mto melhor q todos os deuses nórdicos

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    3. Bom, se o poder de um deus é avaliado pelo quanto são conhecidos e adorados(já q quando são esquecidos os deuses "morrem") os greco-romanos são os mais poderosos, já q tem influencia deles em todo lugar e Roma foi o maior império q já existiu.

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  4. Ai deuses! algo me diz que vai ser péssimo.

    Os encontros com os deuses são sempre as piores partes.

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    1. concordo... mal presentimento

      ~coruja

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  5. A nao mataram a Hera e usaram de isca kkkkkkkk

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    1. ela mereceu

      ~coruja

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    2. Tbm acho
      mas eu devia guardar minhas opiniões pra mim mesma já que todos os deuses são os mesmos

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  6. espetos de churrasco grego

    Lembrei das vacas de Apolo

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  7. Porque sempre no final dos capítulos tem um lobo cinza com a língua pra fora?

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    1. Ê o logo do Hotel Valhala, não é?

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    2. É??? tava curiosa sobre isso também.

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  8. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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    1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  9. deixa Poseidon saber dessa bagunça em seu território ,mas... Zeus vai ficar mais bravo quando souber que mataram Hera para pescar uma deusa do mar

    ~coruja

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    1. kkkkkkkkkkk mando bem kkkkk

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    2. hahahhahahahahahahahaha!!! mando bem coruja.

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    3. Ou talvez, muito agradecido...

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