31 de outubro de 2015

Trinta e três

Toda a semana evitei Sabine. Não acreditava que fosse possível, mas entre a escola, meu novo trabalho, e o final de Miles em sua última temporada no Hairspray, estava bastante ocupada até o momento em que estou a ponto de atirar meu café da manhã na pia.
— Então. — Ela sorri, deslizando-se a meu lado, vestida com roupa de treinamento, brilhando de forma saudável e suada. — Não temos que conversar? Uma conversa que você tem tentado atrasar? — Procuro meu copo e encolho os ombros, sem saber o que dizer. — Como vai em seu novo trabalho? Tudo bem?
Aceno com a cabeça, fácil, sem compromisso, como se estivesse muito interessada no suco para responder.
— Ainda pode deixá-lo se não for o que desejar.
Sacudo a cabeça e bebo o suco. Esvazio meu copo e o introduzo na máquina de lavar pratos, enquanto digo:
— Não é necessário. — Capto a expressão de seu rosto e acrescento — De verdade. Está tudo bem.
Ela me estuda, olhando intensamente, e depois retoma a conversa.
— Ever, por que não mencionou que Paul era seu professor?
Congelo, mas só por um momento antes de dirigir minha atenção a uma tigela de cereais a qual não tenho nenhum interesse em comer. Agarro uma colher e giro o conteúdo enquanto digo:
— Porque Paul com seus geniais sapatos e calças jeans desenhadas não é meu professor. O Sr. Muñoz com óculos e calça cáqui ajustada é. — Levanto a colher à boca, evitando seu olhar.
— Simplesmente não posso acreditar que não disse nada. — Sacode a cabeça franzido o cenho. Encolho os ombros, fingindo que não quero falar com a boca cheia, quando a verdade simplesmente é que não quero falar. — Te incomoda? Que eu esteja saindo com seu professor? — Me olha de esguelha, deslizando a toalha do seu pescoço e sua fronte.
Revolvo o cereal dando voltas e voltas, sabendo que não há maneira de que possa comer mais, não depois que comecei tudo isto.
— Enquanto não fala de mim. — A estudo de perto, lendo sua aura, sua linguagem corporal, levando em conta a forma como se moveu incomodada. — Quero dizer, não fala de mim, não é verdade? — Acrescentei, com o olhar fixo nela.
Mas ela ri, desviando o olhar enquanto suas bochechas tomam cor.
— Acontece que temos muito mais que você em comum.
— Ah é? O que? — Bato com a colher contra a tigela de cereais, deslocando minha frustração sobre meu café-da-manhã e transformando-os em um empapado da cor do arco íris. Perguntava-me se deveria dar-lhe a notícia agora ou guardá-la para mais tarde. A surpreendente revelação de que esta relação amorosa não vai durar, não de acordo com a visão que tive de um casal sendo o rapaz um menino bonito, anônimo que trabalha em seu edifício.
— Bom, para começar nós dois somos fascinados pelo Renascimento italiano.
Olha-a, lutando contra o impulso de revirar meus olhos. Como é que nunca a tinha ouvido falar disso e vivi com ela durante quase um ano.
— Ambos adoramos comida italiana.
Oh, sim, definitivamente companheiros de alma. As duas únicas pessoas que realmente gostam de pizza, massa e coisas banhadas com molho vermelho e queijo...
— E a partir da sexta-feira, vai passar um tempo em meu edifício! — Detenho-me, parando tudo, inclusive a respiração e as piscadas, assim posso estar boquiaberta.
— Está trabalhando como testemunha perita em um caso que…
Seus lábios se mantiveram em movimento, com as mãos fazendo gestos, mas deixei de escutar algumas frases. Suas palavras afogadas pelo som de meu próprio coração, acompanhado pelo grito silencioso que não deixa lugar a nada.
Não!
Não pode ser. Não. Pode. Ser.
Pode ser?
Recordando a visão da noite no restaurante. Sabine unindo-se a um homem bonito que trabalha em seu edifício, um homem, que, não tinha óculos que nem sequer reconheci como sendo Muñoz! Reconhecendo imediatamente o que isso significa, isso é o seu destino – Muñoz é único!
— Está bem? — Sua mão chega à minha com uma nuvem de preocupação em seu rosto. Mas me afasto rapidamente, evitando seu contato. Engulo em seco enquanto ponho um sorriso em minha cara, sabendo que ela merece ser feliz, diabos, até ele merece ser feliz.
Mas ainda assim, por que têm que ser felizes juntos? Sério, com todos os homens com os quais poderia sair, por que tem que ser com meu professor, ele que… sabe meu segredo.
Olho-a, me obrigando a um movimento de cabeça enquanto meu copo cai na pia, fugindo pela porta, enquanto digo:
— Sim, tudo está bem, sério. Só que não quero chegar tarde.

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