29 de outubro de 2015

Trinta e três

Antes mesmo de estacionar, vejo que ela já espera por mim à porta.
Ou a mulher é realmente vidente, ou está aí desde que a gente desligou o telefone.
— Olá, Ever, seja bem-vinda — ela diz sorrindo e conduz-me até uma sala muito bem decorada.
Correndo os olhos pelo lugar, os porta-retratos, os livros de arte sobre mesas de centro, o conjunto de sofás e cadeiras, fico espantada com a normalidade de todo o cenário.
— Você esperava o quê? Paredes roxas e bolas de cristal? — Ela ri e acena para que eu a siga até uma cozinha bastante arejada, de piso claro e eletrodomésticos de inox, iluminada por uma claraboia. — Vou fazer um chazinho pra gente — diz, e coloca a água para ferver. Depois me oferece uma cadeira à mesa.
Observo Ava preparando a infusão, colocando biscoitos em um prato e acomodando-se à minha frente. Só então digo:
— Hmm, desculpe por ter sido tão... grossa com você... e tudo mais. — E dou de ombros, envergonhada da minha própria falta de jeito.
Mas Ava apenas sorri e coloca a mão sobre a minha. No momento em que estabelecemos contato, imediatamente me sinto melhor.
— Fico feliz que tenha vindo — ela diz. — Eu estava muito preocupada com você.
Com os olhos voltados para baixo, para a toalhinha verde sobre a mesa, fico sem saber por onde começar. Mas é Ava quem está no comando, portanto é ela quem começa:
— Tem visto Riley? — pergunta, os olhos fixos em mim. Poxa, precisava começar logo por aí?
— Tenho — digo, finalmente. — E pra sua informação ela está com um aspecto bem estranho. — Franzo os lábios e desvio o olhar, convencida de que Ava é a responsável pelo estado de minha irmã, de alguma forma.
Mas ela apenas ri. Ela ri!
— Confie em mim. — Ela assente com a cabeça, tomando um gole do chá. — Não há nada de errado com Riley.
— Confiar em você? — devolvo, e balanço a cabeça enquanto ela bebe do chá e mordisca um biscoito, naquela serenidade que tanto me irrita. — Por que eu deveria? Foi você que fez uma lavagem cerebral em minha irmã! Foi você que convenceu Riley a se afastar de mim! — berro, já arrependida de ter vindo. Poxa, que erro colossal.
— Ever, sei que você está chateada e que adora sua irmã, mas por acaso você tem noção do que ela sacrificou para ficar a seu lado?
Volto os olhos para a janela, admirando as plantas do jardim, a fonte, a estatueta de Buda, preparando-me para a resposta estúpida que estou prestes a ouvir.
— A eternidade.
Reviro os olhos.
— Ora, tempo é o que não falta à minha irmã!
— Estou falando de algo maior.
— Ah, é? Como o que, por exemplo? — pergunto, já achando que o melhor a fazer é largar este biscoito e me mandar logo daqui. Essa Ava é uma doida varrida, uma picareta, que fala as coisas mais absurdas como se fosse autoridade no assunto.
— Se Riley continuar aqui com você, não poderá ficar com eles.
— Eles?
— Seus pais e Buttercup — ela explica, correndo o indicador pela borda da xícara enquanto olha para mim.
— Mas como você sabe sobre...
— Por favor, Ever, achei que já tivéssemos virado essa página. — Ela olha firme em meus olhos.
— Isso é ridículo — resmungo, mais uma vez desviando o olhar, perguntando-me o que Riley pode ter visto nesta pessoa.
— Será? — Ela afasta os cabelos castanhos do rosto, revelando uma testa lisinha, livre de qualquer preocupação.
— Tudo bem, vou fingir que acredito. Mas já que você sabe tanto, então me diga: pra onde Riley vai quando não está comigo? — pergunto, encarando-a de volta e pensando: Agora eu quero ver.
— Fica vagando por aí. — Ela levanta a xícara e bebe mais um gole do chá.
— Vagando? Ah, tá bom. — Eu rio. — Até parece que você sabe.
— Ela não tem opção, uma vez que escolheu ficar com você.
Novamente olho para a janela, morta de raiva, dizendo a mim mesma que não tem como isso ser verdade.
— Sua irmã não atravessou a ponte.
— Mentira. Eu vi quando ela atravessou. Acenou pra mim e tudo mais. Todos eles acenaram. Sei disso porque estava lá.
— Ever, não tenho dúvidas de que você estava lá e viu tudo isso, mas o que estou dizendo é que Riley não chegou ao outro lado. Parou a meio caminho e voltou para encontrá-la.
— Sinto muito, mas você está enganada — digo. — Não foi nada disso que aconteceu. — Meu coração começa a bater mais forte quando relembro aquele último momento, os sorrisos, os acenos, e depois... depois nada, eles sumiram, enquanto eu implorava e lutava para que voltassem. Mas foram levados, e eu fiquei para trás. Por culpa exclusivamente minha. Era eu quem devia ter ido no lugar deles. Tudo que sai errado tem a ver comigo.
— Riley voltou no último segundo — continua Ava. — Quando ninguém estava olhando e seus pais já tinham atravessado com Buttercup. Foi sua própria irmã quem me contou, Ever, já falamos sobre isso um milhão de vezes. Seus pais seguiram em frente, você voltou à vida e ela ficou esquecida para trás. Agora passa a maior parte do tempo visitando você, a mim, velhos amigos e vizinhos... E algumas celebridades sórdidas. — Ela sorri.
— Você sabe sobre isso também? — digo, arregalando os olhos.
Ava faz que sim com a cabeça e diz:
— Tudo isso é muito natural. Mas a maioria das entidades acaba se cansando logo.
— Entidades?
— Entidades, espíritos, fantasmas... Tudo isso dá no mesmo. Mas os que já fizeram a travessia são um tanto diferentes.
— Então quer dizer que Riley ainda não fez?
Ava faz que sim com a cabeça.
— Você precisa convencê-la a partir.
Balanço a cabeça, pensando que essa decisão não é minha.
— Mas ela já partiu! Quase não vem me ver mais! — resmungo, fulminando-a com o olhar como se ela fosse responsável por tudo isso. E é.
— Você precisa dar sua bênção. Dizer a ela que vai ficar bem.
— Olhe só — digo, já cansada desta conversa, desta mulher intrometida, dizendo o que devo e o que não devo fazer da minha própria vida. — Vim aqui em busca de ajuda, não pra ficar ouvindo essas histórias. Se a Riley quer ficar por aqui, problema dela. Só porque tem doze anos, isso não significa que vá me obedecer. A garota é muito teimosa, sabia?
— É mesmo? Será que ela puxou a quem, hem? — diz Ava, que dá mais um gole no chá, mas sem tirar os olhos de mim.
No entanto, mesmo sabendo que sua intenção era fazer uma brincadeira, fico de pé, pronta para ir embora se preciso for, lembrando-me do que o papai costumava dizer sobre as negociações: “O segredo é estarmos sempre dispostos a abandonar a mesa.” Com os olhos úmidos e a cabeça latejando, digo:
— Olhe, se você desistiu de me ajudar, é só falar.
Ela me encara por alguns instantes e faz sinal para que eu me sente de novo.
— Como quiser. — E então respira fundo. — O que você precisa fazer é o seguinte.

Quando Ava me acompanha até a porta, fico surpresa ao constatar que já está escuro.
Acho que o tempo passou sem que eu percebesse, enquanto ela me ensinava o passo a passo da meditação, a me controlar, a criar meu próprio escudo para a mediunidade.
Embora tenhamos começado com o pé esquerdo, sobretudo ao falarmos de Riley, estou feliz por ter vindo. É a primeira vez desde muito tempo que me sinto assim, completamente normal. Sem o apoio do álcool ou de Damen.
Agradeço novamente e vou para o carro, mas ela me chama antes que eu possa entrar.
— Ever?
E quando levanto o rosto vejo seu corpo emoldurado apenas pela luz suave da varanda, sua aura já não está mais visível.
— Queria muito que você me deixasse mostrar como se desfazer do escudo — ela diz. — Você verá: vai acabar sentindo falta de sua mediunidade.
Mas o assunto já foi discutido, mais de uma vez. Além disso, já tomei minha decisão e não pretendo voltar atrás. Agora é: olá vida normal, adeus mediunidade, imortalidade, Damen, Summerland e tudo quanto é esquisitice. Desde o acidente, só tive um desejo: ser normal outra vez. E agora que consegui, não vou titubear.
Faço que não com a cabeça e entro no carro, novamente olhando quando ela diz:
— Ever, pense no que falei, por favor. Você entendeu tudo errado. Despediu-se da pessoa errada.
— Do que você está falando? — pergunto, já ansiosa para chegar em casa e começar a curtir minha nova vida.
Mas Ava apenas sorri e diz:
— Você sabe do que estou falando.

10 comentários:

  1. Mas q merda Mano garota burra tem tudo para ser feliz a eternidade um boy gato e fica querendo desfazer tudo
    Ass>Amanda

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    1. Concordo Amanda... E o pior, acho que ela deveria deixar Riley ir e viver na eternidade com Damen, afinal a irmã dela já se foi, e ela não pode negar quem eh (Foi spoiler? )

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  2. Puts qual e Ever? ? Afff desistio do Bay magia dela pra isso? Entao tabom ne?

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  3. Às vezes vc me irrita, garota (Ever)
    -Camila

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  4. EVER 4 EVER
    kk meio sem sentido mas tá né, garota tola essa Ever, tem um bad boy a disposição, ou melhor um bad boy pra eternidade, poderes pra ler mentes, auras e etc., e ainda prende a irmã na terra, sendo que ela não tem oque fazer aqui, mas se nos colocarmos no lugar dela...bom eu poderia ter todos os boy magia do mundo, que iria sofrer por minha irmã, msm ela sendo uma criaturinha insuportável como é, mas ela pelo menos podia ouvir o Damen e a Ava, ela n tem mente aberta!

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  5. te uns personagens q os autores colcacam "burrinhos" só pra acabar com a paciência do leitor kkkkkk

    Raih

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  6. Acho que a Ava estava se referindo ao Damen, quando disse que a Ever se despediu da pessoa errada. Ever só faz escolhas erradas, por mais que ela pense que são melhores pra ela. Ela tem que aceitar sua mediunidade e aceitar que em algum momento, precisará deixar Riley partir.

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  7. o.k.a.y
    vou largar meu celular e respirar um pouco por que agora sim eu to confusa e com raiva

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  8. A burrice e egoísmo dela me deixam indignada.

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