18 de outubro de 2015

Trinta e três - O irmão de Sam acorda meio mal-humorado

QUANDO DIGO QUE a serpente abriu os olhos, na verdade quis dizer que ligou faróis verdes do tamanho de camas elásticas. As íris brilhavam com tanta intensidade que tive certeza de que veria tudo tingido da cor de gelatina sabor limão pelo resto da vida.
A boa notícia: minha vida não parecia que duraria muito tempo.
A crista na cabeça e o focinho pontudo do monstro o faziam parecer mais uma enguia do que uma cobra. A pele brilhante tinha tons de verde, marrom e amarelo. (Aqui estou eu, descrevendo-o com toda a calma. Na hora, o único pensamento na minha cabeça era: ECA! COBRA ENORME!)
O monstro abriu a boca e sibilou, e o fedor de cabeça de touro rançosa e veneno era tão forte que minhas roupas começaram a soltar fumaça. Ele podia não usar enxaguante bucal, mas obviamente a Serpente do Mundo passava fio dental. Os dentes brilhavam em fileiras de triângulos brancos perfeitos. A boca rosada era grande o bastante para engolir o barco de Harald e mais uma dezena dos barcos dos amigos dele.
Meu gancho de carne estava preso no fundo da garganta do monstro, bem onde ficaria a úvula em uma boca humana. A serpente não parecia satisfeita.
Ela sacudiu a cabeça de um lado para outro, a linha de aço presa entre os dentes. Minha vara de pescar guinou para o lado. O barco sacudiu de bombordo para estibordo, com as tábuas estalando e gemendo, mas conseguimos ficar na superfície. A linha não se rompeu.
— Sam — chamei em voz baixa. — Por que ele ainda não nos matou?
Ela estava tão perto de mim que consegui senti-la tremendo.
— Acho que está nos estudando, talvez até tentando falar conosco.
— O que está dizendo?
Sam engoliu em seco.
— Meu palpite? Como você ousa?
A serpente sibilou, cuspindo gotas de veneno que fervilharam no convés.
Às nossas costas, Harald choramingou:
— Larguem a vara, seus tolos! Querem nos matar?!
Tentei olhar nos olhos da serpente.
— Ei, Sr. Jörmungand. Posso chamá-lo de Sr. J? Olhe, peço desculpas pelo incômodo. Não é nada pessoal. Só estamos usando você para chamar a atenção de uma pessoa.
O Sr. J não gostou disso. A cabeça dele saiu da água e assomou acima de nós, depois bateu com tudo no mar, gerando um anel de ondas de quase doze metros de altura.
Aparentemente, Sam e eu estávamos sentados na área que molha. Comi água salgada no almoço.
Meus pulmões descobriram que não conseguiam respirar água. Meus olhos passaram por uma lavagem potente. Mas, por incrível que pareça, o barco não virou. Quando as ondas diminuíram, vi que eu ainda estava vivo, ainda segurando a vara de pescar, e a linha ainda estava presa à boca da Serpente do Mundo. O monstro olhava para mim como quem diz: Por que você não está morto?
Pelo canto do olho, vi o tsunami bater no Graves, chegando à base do farol. Eu me perguntei se tinha acabado de inundar Boston.
Então lembrei por que Jörmungand era chamado de Serpente do Mundo. Supostamente, o corpo dele era tão comprido que dava a volta no planeta, esticando-se pelo fundo do mar como um cabo de telecomunicação monstruoso. Na maior parte do tempo, ele ficava com o rabo na boca (ei, eu usei chupeta até os dois anos de idade, não posso julgar ninguém), mas decidiu que nossa isca de cabeça de touro valia a troca.
A questão era: se a Serpente do Mundo estava sacudindo, o mundo todo deveria estar sacudindo junto.
— Então, o que fazemos agora?
— Magnus — disse Sam com um tom estrangulado — tente não entrar em pânico. Mas olhe para a direita.
Eu não conseguia imaginar o que poderia ser mais assustador do que o Sr. J até ver a mulher no redemoinho.
Em comparação à serpente, ela era bem pequena, só tinha uns três metros de altura. Da cintura para cima, usava uma blusa de cota de malha prateada, cheia de pequenos crustáceos. Talvez já tivesse sido bonita, mas a pele perolada estava murcha, os olhos da cor de algas marinhas, leitosos devido à catarata, e o cabelo louro esvoaçante, cheio de fios brancos como plantas secas em um campo de trigo.
Era da cintura para baixo que as coisas ficavam esquisitas. Ao redor dela, como a saia de uma dançarina, uma tromba d’água rodopiava dentro de uma rede de pesca de cem metros de diâmetro. Preso na rede havia uma mistura de pedaços de gelo, peixes mortos, sacos plásticos, pneus de carro, cestinhas de supermercado e outras porcarias variadas. Quando a mulher veio flutuando na nossa direção, a beirada da rede bateu no casco e esbarrou no pescoço da Serpente do Mundo.
Ran falou com voz de barítono:
— Quem ousa interromper minha busca?
Harald, o gigante do gelo, gritou. Ele era ótimo nisso. Correu para a amurada e jogou um punhado de moedas pela lateral. Então se virou para Sam.
— Rápido, garota, o pagamento que você me deve! Dê para Ran!
Sam franziu a testa, mas jogou mais cinco moedas no mar.
Em vez de afundar, o ouro vermelho girou até a rede de Ran e se juntou ao carrossel flutuante de detritos.
— Ah, grandiosa Ran! — choramingou Harald. — Por favor, não me mate! Aqui, pegue minha âncora! Leve esses humanos! Pode até ficar com a minha marmita!
— Silêncio!
A deusa enxotou o gigante do gelo, que fez o que pôde para se encolher, se arrastar e se esconder ao mesmo tempo.
— Vou esperar lá embaixo — disse ele, chorando. — E rezar.
Ran me olhou como se avaliando se eu era grande o bastante para ser cortado em filés.
— Solte Jörmungand, mortal! A última coisa de que preciso hoje é um evento de inundação mundial.
A Serpente do Mundo sibilou, concordando.
Ran se virou para o monstro.
— E você, cale a boca, sua moreia crescida. Todo esse sacolejar está levantando muita areia. Não consigo ver nada aqui embaixo. Quantas vezes já falei para você não pegar nenhuma cabeça rançosa de touro? Cabeças rançosas de touro não são nativas dessas águas!
A serpente rosnou com petulância, puxando o cabo de aço ainda preso à boca.
— Ó, grandiosa Ran — falei. — Sou Magnus Chase. Esta é Sam al-Abbas. Viemos barganhar com você. E, só uma dúvida... por que você não pode cortar a linha de pesca?
Ran soltou uma torrente de xingamentos nórdicos que literalmente fumegaram no ar. Agora que eu estava mais perto, conseguia ver coisas estranhas se mexendo na rede ao redor da deusa: rostos barbados fantasmagóricos, com as bocas abertas e expressões de pavor enquanto tentavam chegar à superfície; as mãos agarrando as cordas.
— Einherji imprestável — disse Ran — você sabe muito bem o que fez.
— Sei? — perguntei.
— Você é uma cria de vanir! Filho de Njord? — Ran farejou o ar. — Não, o cheiro é mais suave. Talvez neto.
Sam arregalou os olhos.
— É verdade! Magnus, você é filho de Frey, que é filho de Njord, deus dos navios, marinheiros e pescadores. Foi por isso que nosso barco não virou. Foi por isso que você conseguiu pescar a serpente! — Sam olhou para Ran. — Hã, e isso, claro, nós já sabíamos.
A deusa rosnou.
— Depois de trazida para a superfície, a Serpente do Mundo não fica só presa pela sua linha de pesca. Fica ligada a você pelo destino! Você precisa decidir agora, e rápido, se vai soltá-la e deixá-la voltar a dormir ou permitir que acorde por completo e destrua este mundo!
Na minha nuca, alguma coisa estalou como uma mola enferrujada, provavelmente o restinho da minha coragem. Olhei para a Serpente do Mundo. Pela primeira vez, reparei que os olhos verdes brilhantes estavam cobertos por uma membrana fina quase transparente, um segundo par de pálpebras.
— Você quer dizer que o monstro está apenas meio acordado?
— Se estivesse realmente acordado — disse a deusa — a Costa Leste inteira já estaria debaixo d’água.
— Ah...
Precisei resistir à vontade de jogar a vara de pescar longe, soltar o arreio de segurança e sair correndo e gritando pelo convés, como um pequeno Harald.
— Eu vou soltá-lo — falei. — Mas primeiro, grandiosa Ran, você tem que prometer que vai negociar conosco de boa-fé. Queremos fazer uma troca.
— Negociar com vocês? — A saia de Ran girou mais rápido. Gelo e plástico estalaram. Cestinhas de compras bateram umas nas outras. — Por direito, Magnus Chase, você deveria pertencer a mim! Você morreu afogado. As almas afogadas são minha propriedade.
— Na verdade — disse Sam — ele morreu em combate, pertence a Odin.
— Detalhes! — interrompeu Ran.
Os rostos na rede da deusa abriam a boca e ofegavam, implorando ajuda. Sam havia me dito: Existem lugares piores do que Valhala para se passar a vida após a morte. Ao me imaginar emaranhado naquela rede prateada, senti uma gratidão repentina pela valquíria.
— Tudo bem. Então vou deixar o Sr. J acordar totalmente. Eu não tinha planos para hoje, mesmo.
— Não! — sibilou Ran. — Você tem ideia de como é difícil revirar o fundo do mar quando Jörmungand fica agitado? Solte-o!
— E você promete negociar de boa-fé?
— Prometo. Tudo bem. Não estou com paciência para o Ragnarök hoje.
— Diga: “Por minha fidelidade...”
— Eu sou uma deusa! Não sou burra a ponto de jurar fidelidade!
Olhei para Sam, que deu de ombros. Ela me entregou o machado, e cortei a linha de pesca.
Jörmungand afundou entre as ondas, olhando para mim por entre uma nuvem verde borbulhante de veneno, como se dissesse: NA PRÓXIMA VEZ VOCÊ NÃO TERÁ TANTA SORTE, MORTALZINHO.
A saia rodopiante de Ran ficou mais lenta, na velocidade de uma tempestade tropical.
— Muito bem, einherji. Eu prometi negociar de boa-fé. O que você quer?
— A Espada do Verão — falei. — Estava comigo quando caí no rio Charles.
Os olhos da deusa brilharam.
— Ah, sim. Posso lhe entregar a espada. Mas, em troca, eu gostaria de uma coisa valiosa. Que tal... a sua alma?

23 comentários:

  1. a alma dele não ....

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  2. Eles sempre querem a alma

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  3. Por quê que sempre pedem a alma?

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  4. Qual o lance desses caras com a alma das pessoas?

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    1. acho q dar pra fazer um bom creme anti rugas ,quando se é imortal se tem prioridades

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    2. Pse ou talvez uma sopa de alma seja bom pra gripe.

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  5. Será que ela não podia pedir algo menos valioso do que a alma? Tipo um dedo ou coisa assim.

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  6. Alma alma sempre alma.. duvida se um desses deuses pedem uma moeda de 5 centavos em troca..

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  7. Ela e a Hera iam se dar bem. Uma pega a memoria e a outra a alma. Essas deusas sao tao fora da casinha. Deuses!!!!

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  8. "Então lembrei por que Jörmungand era chamado de Serpente do Mundo. Supostamente, o corpo dele era tão comprido que dava a volta no planeta"
    Lembrei de Apófis

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    1. Eu lembrei do dragão q fica na base da árvore sei lá o que dá mitologia hindi.

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  9. Por minha fidelidade= eu juro pelo rio estige, muda a serie mas eu contínuo lendo o segundo

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  10. So eu que pensei em SPN nesse negocio de alma ?

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  11. sempre a alma...

    ~coruja

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  12. Os montros tem essa mania de olhar com cara de "por que vc nao morreu?"

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  13. Me olham assim as vezes mas nem sempre tenho certeza se são monstros

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  14. Povo sem criatividade, sempre a alma. Falou em serpente, não tem como não lembrar de Apófis. Neto do deus dos pescadores e tal, mar...deixa quieto, manter a esperança e esperar os próximos livros.

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  15. Deuses não são nem um pouco criativos né?Sempre alma, sempre alma... porque n variam um pouco, pedem um sweater maneiro de natal ou uma peruca da Lady Gaga?

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  16. Saindo do assunto almas, nesses 33 capítulos que li não a um em que Magnus não mim faça rir, isso é só comigo ou esse livro é tipo comedia mesmo.

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  17. São almas,juventude,controlar águas,tempestades,escudos,lavar estábulos,etc...Esses imortais querem tantas coisas!Comandar o mundo e as almas dos outros!
    ~~Unicórnia

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