18 de outubro de 2015

Trinta e sete - Sou insultado por um esquilo

EU SEMPRE GOSTEI de escalar árvores.
Minha mãe aceitava bem esse meu lado. Só ficava nervosa se eu subisse mais de seis metros. Nesse caso, um pouco de tensão surgia na voz dela. “Docinho, esse galho pode não aguentar você. Pode descer um pouco?”
Na Árvore do Mundo, todos os galhos me aguentariam. Os maiores eram mais largos do que uma avenida. Os menores, da largura do tronco de uma sequoia. O tronco da Yggdrasill era imensurável. Cada ranhura na superfície parecia levar a um mundo novo, como se alguém tivesse enrolado casca de árvore em uma coluna de monitores de televisão passando um milhão de filmes diferentes.
O vento soprava e sacudia minha jaqueta nova. Acima da copa da árvore, não vi nada além de um brilho branco difuso. Abaixo não havia chão, só mais galhos atravessando o vazio. A árvore tinha que estar com as raízes presas em algum lugar, mas me senti tonto e desequilibrado, como se Yggdrasill e tudo que ela continha, inclusive meu mundo, estivessem flutuando livremente na Névoa, o Ginnungagap.
Se eu caísse ali, no melhor cenário, bateria em outro galho e quebraria o pescoço. No pior, continuaria caindo para sempre no Grande Vazio Branco.
Eu devia estar me inclinando para a frente, porque Blitzen segurou meu braço.
— Cuidado, garoto. A primeira vez na árvore deixa a gente meio tonto.
— É, eu reparei.
Hearthstone ainda estava se apoiando em mim e na Sam. Ele tentou ficar de pé sozinho, mas as pernas continuavam cedendo sob seu peso.
Sam cambaleou. O escudo quebrado escorregou da mão dela e tombou para o abismo. Ela se agachou, a expressão tomada pelo pânico reprimido.
— Eu gostava bem mais da Yggdrasill quando podia voar.
— E Gunilla e os outros? — perguntei. — Vão conseguir nos seguir?
— Dificilmente — disse Sam. — Eles podem abrir outro portal, mas não necessariamente vai levar ao mesmo galho da árvore. Mesmo assim, devíamos seguir em frente. Ficar na Yggdrasill não é bom para a sanidade.
Hearthstone conseguiu ficar de pé sozinho. Ele sinalizou: Estou bem. Vamos. Se bem que as mãos dele estavam tão trêmulas que parecia mais: Você é um túnel de coelho.
Seguimos adiante no galho.
A Espada do Verão zumbia na minha mão, me puxando como se soubesse para onde estávamos indo. Eu esperava que soubesse, pelo menos.
Ventos fortes nos empurravam de um lado para outro. Galhos oscilavam, criando áreas de sombra e círculos brilhantes de luz pelo caminho. Uma folha do tamanho de uma canoa passou voando por nós.
— Fique concentrado — aconselhou Blitzen. — Sabe aquela sensação que você teve quando abriu o portal? Procure-a de novo. Encontre uma saída.
Depois de andar uns quatrocentos metros, encontramos um galho mais fino atravessado bem abaixo do nosso. Minha espada zumbiu mais alto e me puxou para a direita.
Olhei para os meus amigos.
— Acho que precisamos pegar essa saída.
Mudar de galho podia parecer fácil, mas envolvia escorregar três metros de uma superfície curva para outra, com o vento uivando e os galhos oscilando. Por sorte, conseguimos fazer isso sem ninguém ser esmagado e nem cair no abismo.
Percorrer o galho mais estreito foi pior. Ele balançava com mais violência sob nossos pés. Em determinado ponto, fui soterrado por uma folha, como uma lona verde surgindo do nada e caindo em cima de mim. Em outro momento, olhei para baixo e percebi que estava sobre uma rachadura no tronco. Oitocentos quilômetros abaixo, dentro do galho, eu conseguia ver uma cadeia montanhosa com picos cobertos de neve, como se estivesse de pé em um avião com piso de vidro.
Seguimos pelo labirinto de amontoados de líquen que pareciam colinas de marshmallow derretido.
Cometi o erro de tocar em um deles. Minha mão afundou até o pulso e eu quase não consegui soltá-la. Finalmente, o líquen se espalhou em amontoados menores, como pufes de marshmallow derretido.
Seguimos nosso galho até ele se dividir em seis galhos finos impossíveis de escalar. A Espada do Verão parecia ter adormecido na minha mão.
— E agora? — perguntou Sam.
Espiei pela lateral. Uns dez metros abaixo de nós, um galho maior oscilou. No meio dele, um nó do tamanho de um ofurô brilhava com uma luz suave e calorosa.
— É ali — falei. — É nossa saída.
Blitzen fez uma careta.
— Tem certeza? Nídavellir não é quente e brilhante.
— Estou dizendo, a espada parece pensar que devemos ir para lá.
Sam assobiou baixinho.
— É uma queda e tanto. Se errarmos o buraco...
Hearthstone soletrou: P-L-O-F-T.
Uma rajada de vento nos atingiu, e Hearth cambaleou. Antes que eu conseguisse segurá-lo, ele caiu para trás em um amontoado de líquen. As pernas foram engolidas na mesma hora pela gosma parecida com marshmallow.
— Hearth!
Blitzen correu para o lado dele. Puxou os braços do elfo, mas o líquen grudento segurava suas pernas como um bebê carente.
— Vamos precisar cortar — disse Sam. — Sua espada, meu machado. Mas vai levar tempo. E vamos ter que tomar cuidado com as pernas dele. Mas poderia ser pior.
É claro que as coisas ficaram piores. De algum ponto acima de nós veio um AU! muito alto.
Blitzen se encolheu debaixo do chapéu.
— Ratatosk! Aquele maldito esquilo sempre aparece na pior hora. Andem logo com isso!
Sam cortou o líquen com o machado, mas a lâmina ficou presa.
— É como cortar pneus derretidos! Vai demorar.
VÃO!, sinalizou Hearth. Fujam.
— Isso não é uma opção — respondi.
AAAAUUU! O som foi bem mais alto desta vez. Uns dez galhos acima, uma sombra grande passou em meio às folhas.
Levantei a espada.
— Vamos lutar com o esquilo. Podemos fazer isso, não é?
Sam olhou para mim como se eu fosse louco.
— Ratatosk é invulnerável. Não dá para lutar com ele. Nossas opções são correr, nos esconder ou morrer.
— Não podemos fugir. E já morri duas vezes só essa semana.
— Então vamos nos esconder — Sam desenrolou o hijab. — Pelo menos, Hearth e eu. Só consigo cobrir duas pessoas. Você e Blitz fujam, vão procurar os anões. Nos encontramos mais tarde.
— O quê? — Eu me perguntei se Utgard-Loki tinha mexido com o cérebro dela de alguma forma. — Sam, não dá para se esconder debaixo de um pedaço de seda verde! O esquilo não pode ser burro a esse ponto...
Ela balançou o tecido. Ficou do tamanho de um lençol de casal, as cores tremeluzindo até o hijab ficar do mesmo tom de marrom, amarelo e branco do líquen.
Ela está certa, sinalizou Hearth. VÃO.
Sam se agachou ao lado dele e puxou o lenço sobre os dois. Eles desapareceram, perfeitamente camuflados no líquen.
— Magnus — Blitz puxou meu braço. — É agora ou nunca.
Ele apontou para o galho abaixo. O nó estava se fechando.
Naquele momento, Ratatosk surgiu na folhagem acima. Se você conseguir imaginar um tanque coberto de pelo avermelhado, descendo pela lateral de uma árvore... bom, o esquilo era bem mais apavorante do que isso. Os dentes da frente eram lâminas gêmeas de terror branco esmaltado. As garras pareciam cimitarras. Os olhos eram amarelos, sulfúricos, queimando de fúria.
AU! O grito de guerra do esquilo perfurou meus tímpanos. Mil insultos estavam inseridos naquele único som, todos invadindo meu cérebro e impedindo qualquer pensamento racional.
Você fracassou.
Ninguém gosta de você.
Você está morto.
O chapéu do anão é ridículo.
Você não foi capaz de salvar sua mãe.
Eu caí de joelhos. Um soluço ficou engasgado na minha garganta. Eu teria morrido bem ali se Blitz não tivesse me puxado com toda a sua força de anão e me dado um tapa na cara.
Não consegui ouvi-lo, mas li os lábios dele:
— RÁPIDO, GAROTO!
Segurando minha mão com dedos ásperos e calejados, ele pulou do galho e me carregou junto para o vento.

14 comentários:

  1. Enquanto Jason desmaia o Magnus se encolhe de medo.

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    1. Por isso prefiro meu Leo msm :3

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    2. Que morre depois toma uma poção para reviver kkkk

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    3. Entendo o Magnus e gosto de Jason!

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  2. Acho q esse esquilo pod ser q nem os dementadores q fazem vc reviver suas memorias dolorozas..

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    1. Quem precisa de um Patrono quando tem um amigo pra dar um tapa.

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  3. O chapéu do anão é ridiculo kkkkkkkk tanto insulto pra usar e ele escolhe esse kkkkkk ri mt

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  4. na Névoa, o Ginnungagap
    NEVOA !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    desculpa melhorei

    ~coruja

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  5. Magnus com medo típico

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  6. esse Esquilo não faz bem pra auto-estima

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  7. Acho que Névoa e Gnnungagap são quase a mesma coisa, a primeira camada do Duat certo?

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  8. O esquilo diz que o chapéu do anão é feio e ele começa a chorar...

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  9. Acho q a cabeça do Rick bugou e ele escreveu névoa, inocentemente, ñ de propósito, só bugou msm

    ~Malu~ mas eh outra outra Malu

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