31 de outubro de 2015

Trinta e seis

Já que mantive minha promessa a Muñoz de assistir às aulas de História (que era mais difícil para mim que para ele) e não fiz nenhuma promessa a meus outros professores, matei as outras aulas e me dirigi à loja.
Com meus pensamentos em Damen, cruzo Coast Highway, visualizando o o tão claramente ele manifesta-se no banco ao meu lado. Olhando para mim com aqueles olhos escuros e ardentes, lábios entreabertos, sedutor, enquanto ele coloca um ramalhete de tulipas vermelhos em meu colo que causam uma dor tão evidente que o elimino antes que ele desapareça sozinho. Um Damen manifestado nunca será o bastante. Não quando o real está por aí, em algum lugar esperando três meses para terminar.
Mas não posso esperar, nego-me a fazê-lo. A única maneira de me liberar desta sensação de vazio oco é conseguir que Damen volte. E a única forma de fazê-lo é decifrando o código de Roman. Uma vez que tenha em minhas mãos esse antídoto de uma vez por todas, todos meus problemas se resolverão.
Mas, exceto que eu vá para sua casa, não tenho nenhuma pista de onde encontrá-lo. Assim como Damen, Roman tem faltado os últimos dias de escola.
Entro no beco, reclamando do pequeno espaço, invadindo a porta com tanta velocidade e força que Jude me olha confuso enquanto me dirijo ao balcão e alcanço a agenda de consultas.
― Acredite em mim, se eu soubesse que iria matar aula, teria programado algumas consultas, mas como não sabia, não tenho nada.
― Não estou matando aula. — Murmuro, embora nós dois saibamos que estou. ― Bom, talvez… — Encolho meus ombros, olhando-o. ― Mas é a última semana de escola, o que, na realidade, não faz diferença. Você não dirá isso a ninguém, não é?
Ele descarta a ideia com um gesto de sua mão, dando de ombros diz:
― Só queria que soubesse que eu poderia ter feito o seu pagamento hoje, se soubesse que viria.
― Todavia pode fazê-lo. — Dirijo-me às prateleiras e começo a reorganizar alguns livros. Querendo pôr distância entre nós, podendo assim evitar a onda de tentação que sua proximidade me traz. ― Sério. — Adiciono quando vejo que não se move. ― Vou estar à disposição.
Me olha firmemente, centrando-se em meus olhos.
― Ever… — Começa a dizer.
Eu olho para ele, sentindo onde quer chegar e desejosa por dissipar os temores antes de que possa chegar.
― Você não tem que me pagar. —Eu digo com os braços carregados de livros. ― Não estou aqui pelas horas extras. De fato, nem sequer me importo se não me pagar.
Estreita o olhar inclinando a cabeça para um lado e diz:
― Realmente, não se importa, não é verdade?
Encolho os ombros e devolvo todos os livros, tomando um momento para alinhá-los perfeitamente antes de responder:
― Não, não me importa. — Me sentindo bem em aliviar outra ilusão, não importa quão pequena ela seja.
― Exatamente para que você está aqui? — Pergunta, sua voz soando de uma maneira que não pude deixar de notar. ― O livro?
Girei-me, sentindo tudo nervoso e inquieto quando meu olhar pousa sobre ele.
― É tão óbvio? — Levanto meus ombros com um sorriso forçado.
Aliviado, ele sorri e com o polegar por cima de seu ombro diz:
― Vá em frente, divirta-se. Não vou dizer ao Damen o que está fazendo.
Disparo-lhe um olhar para que fique claro que as brincadeiras com Damen estão demais, até que vejo que ele fala sério.
― Sinto muito. — Ele encolhe os ombros. ― Mas está bastante claro que ele não está mais contigo.
Encolho meus ombros, sem confirmar nem negar. Não há como discutir Damen com ele. Dirigindo-me para a sala dos fundos e me sentando na mesa, prestes a abrir a gaveta com a minha mente quando vejo que ele me segue.
― Oh, não… me esqueci de que está trancada. — Murmuro, me sentindo falsa e ridícula enquanto me movo para a gaveta, sabendo que sou a pior atriz existente.
Ele se inclina na porta, lançando-me um olhar que deixa claro que ele não está convencido.
― Isso não te deteve da última vez. — Diz, a voz baixa e profunda. ― Ou, mesmo, a primeira vez que te encontrei na loja.
Engulo a seco sem saber o que dizer. Admitindo que minhas habilidades estão rompendo a regra mais importante de Damen. Sinto o peso do olhar de Jude em mim enquanto digo:
― Não posso… eu…
Ele levanta uma sobrancelha, sabendo que sim posso.
― Não posso fazê-lo diante de você. — Termino, sabendo que é absurdo manter esta desculpa.
― Isto ajuda? — Ele coloca uma mão sobre cada olho e sorri.
Olho um momento, esperando que não espie pelos dedos dele, então eu respiro fundo e fecho meus olhos também, vendo a mola de fechadura aberta, antes de recuperar o livro. Colocá-lo sobre a mesa como ele toma um assento, cabeça inclinada para o lado, o pé equilibrado em seu joelho quando ele diz:
― Sabe? Você é muito especial, Ever.
Congelo com os dedos sobrevoando o antigo livro, meu coração pulsando rapidamente.
― Eu quero dizer, seu dom é especial. — Me olha, levantando os ombros, a cor de suas bochechas se aprofunda enquanto diz: ― Nunca conheci alguém com habilidades como as suas. A forma como absorve as informações de um livro, de uma pessoa e, entretanto…
Olho-o com a garganta apertada, sentindo o começo de algo que prefiro evitar.
― E, entretanto, não tem nem ideia do que está a seu lado. Justo a seu lado, de fato.
Eu suspiro, me perguntando se este é o momento, mas ele só faz gestos, rindo e cabeceando como se houvesse alguém bem ali. Mas quando me viro para olhar, tudo o que tenho é espaço vazio.
― No começo eu pensei que você tinha chegado nesta loja para me ensinar. ― Ele sorri, lendo minha expressão quando ele acrescenta. ― Sabe que não existem as coincidências. O universo é muito preciso para eventos ao acaso. Você veio aqui por uma razão, se você percebe ou não, e...
― Fui trazida até aqui pela Ava. — Digo, incomodada com tudo isto e desejando que ele se detenha. ― E voltei para ver a Lina, não você.
Mas ele apenas assente, completamente imperturbável.
― E, entretanto, veio em um momento em que Lina não estava aqui, por isso é possível que você devesse me encontrar.
Eu mudo em meu assento e focalizo no livro desde que eu não posso olhar para ele. Não depois do que ele acabou de dizer. Não depois da minha viagem para Amsterdã com Damen.
― Já ouviu a frase quando o aluno está pronto, o professor aparece?
Eu encolho os ombros, olhando para ele brevemente antes de olhar para baixo novamente.
― Nós conhecemos as pessoas que devemos no momento certo. E mesmo que eu tenha certeza de que tenho muito o que aprender com você, eu realmente gostaria de lhe ensinar algo se você me permitir, se estiver disposta a aprender.
Eu posso sentir seu olhar, forte e intenso, e, sabendo que minhas opções são poucas, só encolho os ombros, ao vê-lo inclinando sua cabeça e observando ao meu lado, como se houvesse alguém ali.
― Há alguém que quer te quer dizer olá. — Diz, com o olhar fixo nesse ponto. ― Apesar de que me advertiu de que é desconfiada, por isso terei que trabalhar muito duro para te convencer.
Eu olho para ele, sem piscar nem respirar. Pensando que, se isto for uma brincadeira, se me estiver enganando de algum jeito, então ele…
― O nome Riley significa algo para você?
Engulo em seco, incapaz de falar. Minha mente acelerando para trás, procurando todas as conversas que já tivemos, procurando o momento em que eu poderia ter revelado isso.
Ele me olha, paciente, esperando. Mas acaba inclinando a cabeça, disposto a oferecer algo mais.
― Ela diz que é sua irmã, sua irmã mais nova. — E não me dá tempo de responder antes que acrescente: ― Oh, e trouxe para alguém com ela, ou, melhor dizendo… ― Sorri afastando os cachos para ver melhor. ― É um cão, um cão amarelo.
― Labrador. — Eu digo, quase involuntariamente. ― Nosso cão.
― Butterball. — Assente.
― Cup. Buttercup. — Estreito meus olhos, me perguntando como tinha chegado a vê-la se Riley estava verdadeiramente de pé junto a ele. Mas só assente com a cabeça, dizendo:
― Ela diz que não pode ficar muito tempo já que está mantendo-se bastante ocupada estes dias, mas quer que saiba que está contigo, muito mais do que pensa.
― Sério? — Dobro meus braços, me inclino contra meu assento. ― Então, por que ela não se mostra? — Eu franzi a testa, abandonando meu voto de ficar em silêncio e tolerar minha frustração com ela. ― Por que não faz algo para que eu veja?
Jude me dá um meio sorriso, os lábios no mais mínimo capricho quando diz:
― Ela está me mostra uma bandeja de... — faz uma pausa, entrecerrando os olhos enquanto continua. ― Brownies? Ela quer saber se você gostou deles.
Congelo, me lembrando dos brownies que Sabine fez algumas semanas e como o menor foi marcado com minhas iniciais, o maior com as de Riley, como ela acostumava fazer com os da minha mãe.
Olho para Jude, com a garganta tão fechada que nenhuma palavra pode passar. Luto para me recompor enquanto ele diz:
― Também quer saber se você gostou do filme que te mostrou em…
Summerland. Eu fecho meus olhos, lutando contra lágrimas, perguntando se a minha irmã bocuda vai conta-lo sobre isso, mas ele simplesmente encolhe os ombros e termina aí.
― Diga a ela… ― Comecei, a voz tão rouca e áspera que me vejo obrigada a limpar minha garganta e recomeço. ― Diga sim a tudo. E diga a ela que... que eu a amo e sinto falta dela... e por favor, diga oi para mamãe e papai, e que ela realmente precisa me ajudar a encontrar uma maneira para eu poder falar com ela novamente - porque eu preciso ...
― É aí que eu entro. — Ele diz tranquilo, com voz tênue, seus olhos procurando os meus. ― Ela quer que eu seja seu intermediário, já que não pode falar diretamente contigo, ao menos não fora de seus sonhos. Embora queira que saiba que sempre te ouve.
Eu olho para ele, ceticismo assumindo novamente. Nosso intermediário? Será que Riley realmente quer isso? Isso significa que ela confia nele? E se sim, por quê? Ela sabe sobre o nosso passado? E o que é isso sobre nossos sonhos?  Da última vez que ela apareceu no meu sonho era mais como um pesadelo. Um pesadelo enigmático que não fazia sentido.
Observo Jude de novo, me perguntando se posso confiar nele, se ele está de algum modo inventando isso. Talvez, as gêmeas tenham lhe contado e ele tenha procurado no Google o acidente e…
― Ela está indo. — Ele diz, enquanto sorri assentindo com a cabeça e lhe diz adeus com a mão a minha irmã, supostamente invisível. ― Você gostaria de dizer algo antes de que se vá?
Agarro os lados de meu assento, olhando para a mesa enquanto luto para respirar. De repente, sinto cãibras, como se o teto estivesse caindo à medida que as paredes se curvam. Sem ter ideia se posso confiar nele, se Riley está aqui, se algo disto é real.
Tudo o que sei é que tenho que sair daqui e tomar um pouco de ar.
Sua voz me chamando atrás de mim, enquanto eu salto e saio pela porta, sem ter ideia de onde estou indo, mas com a esperança de que vou a um lugar aberto, vasto, longe dele.

2 comentários:

  1. Jude aparece , roman desaparece , tem alguma coisa errada ai ,
    Mds kk

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Boa leitura! E SEM SPOILER!