18 de outubro de 2015

Trinta e seis - Patos!

PODEM ME CHAMAR de maluco.
Eu esperava que a Árvore do Mundo fosse uma árvore. Não uma fileira de patos de bronze.
— Aqui está! — disse Blitzen. — O eixo do universo!
Hearthstone se ajoelhou com reverência.
Olhei para Sam, que tinha se juntado a nós após uma fuga ousada da aula de física. Ela não estava rindo.
— Então... — falei. — Vou fazer apenas um comentário: essa é a estátua Abra caminho para os patos.
— Você acha que é coincidência? — perguntou Blitzen. — Nove mundos? Nove patos? O simbolismo grita portal! Este ponto é o crucial da criação, o centro da árvore, o lugar mais fácil de se pular de um pato, quer dizer, de um mundo para o outro.
— Se você diz.
Eu já tinha passado pelos patinhos de bronze mil vezes. Nunca achei que eram um eixo. Não li o livro infantil que deu origem a essa história, mas imaginei que fosse sobre uma mamãe pata e os bebês atravessando uma rua de Boston, então colocaram uma escultura no Public Garden.
No verão, os pais tiravam fotos das criancinhas sentadas na Sra. Mallard. No Natal, os patos ganhavam gorrinhos de Papai Noel. No momento, estavam nus e sozinhos, enterrados até o pescoço com neve recém-caída.
Hearthstone passou as mãos pelas estátuas como se estivesse verificando calor na boca de um fogão.
Ele olhou para Blitz e balançou a cabeça.
— Como eu temia — disse Blitz. — Hearth e eu estamos viajando muito. Não vamos conseguir ativar os patos. Magnus, vamos precisar de você.
Esperei uma explicação, mas Blitz só estudou as esculturas. Ele estava experimentando um chapéu novo esta manhã, um chapéu de safári com uma rede escura que cobria até os ombros. De acordo com Blitz, o tecido da rede era criação dele. Bloqueava noventa e oito por cento da luz do sol, permitindo que víssemos seu rosto e, de tabela, suas roupas elegantes. Fazia com que ele parecesse um criador de abelhas de luto.
— Tudo bem, deixa comigo — falei. — Como faço para ativar os patos?
Sam observou os arredores. Ela parecia não ter dormido muito. Os olhos estavam inchados. As mãos estavam machucadas e cheias de bolhas por causa da nossa expedição de pesca. Ela tinha colocado um sobretudo preto, mas de resto vestia o mesmo que no dia anterior: o hijab verde, o machado, o escudo, uma calça jeans, botas de inverno e todos os apetrechos de uma ex-valquíria na moda.
— Não importa o que for fazer — disse ela — seja rápido. Não gosto do quanto estamos perto dos portões de Valhala.
— Mas não sei como — protestei. — Vocês não pulam entre mundos o tempo todo?
Hearth disse: Até demais.
— Garoto — disse Blitz — quanto mais você viaja entre mundos, mais difícil fica. É meio como superaquecer um motor. Em determinado ponto, você tem que parar e deixar o motor esfriar. Além do mais, pular aleatoriamente de um mundo para o outro é uma coisa. Viajar em uma missão... é diferente. Não temos certeza de onde exatamente precisamos ir.
Eu me virei para Sam.
— E você?
— Quando eu era valquíria, não teria sido problema. Mas agora? — Ela balançou a cabeça. — Você é filho de Frey. Seu pai é o deus da colheita e da fertilidade. Você devia conseguir atrair os galhos da Yggdrasill para perto o bastante para pularmos. Além do mais, a missão é sua. Você tem as melhores chances de navegar. Concentre-se nas esculturas. Encontre o caminho mais rápido para nós.
Ela teria se saído melhor explicando cálculo para mim.
Eu me senti um idiota, mas me ajoelhei ao lado da escultura. Toquei no pato no fim da fila. Uma sensação fria subiu pelo meu braço, como gelo, névoa e escuridão, alguma coisa desagradável e nada acolhedora.
— Este — concluí — é o caminho mais curto para Niflheim.
— Excelente — disse Blitz. — Não vamos por aí.
Eu estava esticando a mão para o pato seguinte quando alguém gritou:
— MAGNUS CHASE!
A duzentos metros, do outro lado da rua Charles, a capitã Gunilla estava flanqueada por duas outras valquírias. Atrás dela havia uma fila de einherjar. Não consegui identificar as expressões deles, mas o corpo cinza enorme de X, o meio troll, era inconfundível. Gunilla tinha escalado meus próprios amigos para me capturar.
Meus dedos tremeram de raiva. Eu queria pegar um gancho de carne e fazer a Gunilla de isca.
Segurei o pingente.
— Magnus, não — disse Sam. — Concentre-se nos patos. Temos que ir para outro mundo agora.
Dos dois lados de Gunilla, as valquírias tiraram lanças cintilantes das costas. Gritaram para os einherjar prepararem as armas. Gunilla sacou dois martelos e os atirou em nossa direção. Sam rebateu um com o escudo. Acertou o outro com o machado, desviando o martelo para o salgueiro mais próximo, onde ele se cravou até o cabo. Do outro lado da rua, as três valquírias levantaram voo.
— Não posso lutar contra todas — avisou Sam. — Temos que ir agora ou seremos capturados.
Minha raiva virou pânico. Olhei para a fileira de patos de bronze, mas minha concentração estava em frangalhos.
— Eu... eu preciso de mais tempo.
— Não temos tempo!
Sam afastou outro martelo. A força do golpe rachou o escudo dela no meio.
— Hearth — Blitzen cutucou o braço do elfo. — Agora seria um bom momento.
Surgiu uma ruga nos cantos da boca de Hearthstone. Ele enfiou a mão na bolsa e pegou uma runa. Escondeu-a nas mãos e murmurou silenciosamente para ela, como se falando com um pássaro capturado. Jogou a pedra no ar.
A pedra explodiu acima de nós, criando uma runa de luz dourada chamejante.


Entre a equipe de caça de Gunilla e nós, a distância pareceu aumentar. As valquírias voaram em nossa direção a toda velocidade; meus colegas einherjar ergueram as armas e atacaram; mas não fizeram progresso.
A situação me lembrou aqueles desenhos baratos dos anos 1970 em que um personagem corre, mas o cenário atrás dele continua o mesmo. A rua Charles espiralou ao redor dos nossos perseguidores como uma gigantesca rodinha de hamster. Pela primeira vez, entendi o que Sam me disse sobre as runas serem capazes de alterar a realidade.
Raidho — disse Blitzen com admiração. — Significa roda, a viagem. Hearthstone ganhou tempo para você.
Só alguns segundos, gesticulou Hearth. Se apresse.
Ele desabou na mesma hora nos braços de Sam.
Passei as mãos rapidamente pelos patos de bronze. No quarto, parei. Senti calor, segurança... uma sensação boa.
— Este.
— Então abra! — gritou Blitzen.
Eu me levantei. Sem saber direito o que estava fazendo, puxei o pingente da corrente. A Espada do Verão ganhou forma na minha mão. A lâmina ronronava como um gato feliz. Bati com ela no pato de bronze e fiz um corte para cima.
O ar se abriu como uma cortina. À minha frente, em vez de uma calçada, havia uma área de galhos de árvore. O mais próximo, tão largo quanto a rua Beacon, corria diretamente abaixo de nós, talvez a um metro, suspenso sobre o grande abismo. Infelizmente, o corte que fiz no tecido de Midgard já estava se fechando.
— Andem! — falei. — Pulem!
Blitzen não hesitou. Pulou na abertura.
Na rua Charles, Gunilla gritou de fúria. Ela e as valquírias ainda estavam voando a toda pela rodinha de hamster de desenho animado, os einherjar cambaleando atrás.
— Você está condenado, Magnus Chase! — gritou Gunilla. — Vamos perseguir você até o fim dos...
Com um POP alto, o feitiço de Hearth parou de funcionar. Os einherjar caíram de cara no chão. As três valquírias dispararam para cima de nós. A julgar pelo som de vidro se quebrando, deviam ter batido em um prédio na rua Arlington.
Não esperei meus velhos colegas de corredor recuperarem os sentidos.
Peguei o braço esquerdo de Hearth enquanto Sam pegava o direito. Juntos, pulamos na Árvore do Mundo.

24 comentários:

  1. Seria tão lgl, se fosse o mundo errado.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Acho q vai ser tipo, o mundo dos elfos... Aí eles vão tá ferrados

      Excluir
  2. Deuses, o que esses autores tem com os patos? HUAHUAHUAHUA

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Né! Pensei o mesmo!! Kkkkkkk

      Excluir
    2. Uma pequena homenagem a tia Cassie, considerando que o livro foi dedicado a ela...

      Excluir
    3. Herondale<3 Patos kkkkk

      Excluir
    4. nunca confie em um pato!

      Herondales para o mundo (ou mundos, nesse caso)

      Excluir
  3. "Patos" lembrei do Will haushaush, mals pelo anônimo

    ass: Sophia

    ResponderExcluir
  4. Qual o problema do Tio Rick com Patos?? Qual o problema de todos os autores com Patos??

    ResponderExcluir
  5. aposto 10 moedas de ouro vermelho que é o mundo errado e eles vão se ferrar

    ~coruja

    P.s.: coloquem suas apostas abaixo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. ou para os gregos 10 dracmas

      ~coruja

      Excluir
    2. Coruja, não seja boba o dracma esta em alta,
      10 moedas de ouro vermelho = 20 dracmas

      - Catarina

      Excluir
    3. certo então...

      ~coruja

      Excluir
    4. Aposto 20 moedas de prata, uma moeda de prata vale o que 75% do dracma?

      Excluir
    5. 50 dracmas e o meu acento no concelho da Clave de que vai dar muita merda

      Excluir
    6. 55 denários de prata que é o mundo certo mas o lugar ou situação errada.

      Excluir
    7. Do 20 dracmas no palpite de Killer.

      Excluir
  6. Melhor frase: Concentre-se nos patos.Uma lição de vida.

    ResponderExcluir
  7. Os autores devem ter sofrido Bullying de patos :):):)

    ResponderExcluir
  8. "Eu esperava que a Árvore do Mundo fosse uma árvore. Não uma fileira de patos de bronze." Que idiota! Árvore do Mundo uma árvore? Pfv q absurdo!

    ResponderExcluir
  9. "Abra o portal"
    "Divida o rio"
    "Passe o sal"
    Coisas do cotidiano, certo?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Coisas totalmente diárias pelo menos para os einherjar, os heróis e os magos isso é tipo super normal.

      Excluir
  10. Patos.O que autores tem com patos?Eles são seres malignos e eu não tô sabendo?Por acaso querem dominar o mundo?Muitas perguntas,poucas respostas.
    ~Filha de Hermes

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!