31 de outubro de 2015

Trinta e quatro

— Hey, é domingo, não abrimos até as onze. — Jude apóia sua prancha de surfe contra a parede e me olha de lado. Aceno com a cabeça, ainda sem poder lhe olhar, algo carente de sentido.
— Precisa de ajuda? — Joga a toalha sobre uma cadeira e se move ao redor da mesa até que se coloca atrás de mim.
— Se se tratar deste tradutor de códigos excelente que me fez — digo, tocando a folha de papel que há a meu lado — ou inclusive um pouco parecido a sua grande lista de petições — continuo — não, obrigado, já tive o suficiente. Mas se finalmente vai me dizer como ler isto, sem assumir sua posição, enquanto imagina feixes de luz branca ou me faz pensar muito em raízes crescendo, brotando das plantas de seus pés e estendendo-se profundamente sobre a terra, então sim, de toda maneira, continuarei tentando. — Deslizo o livro para ele, procurando tocar somente a beirada, capturando uma fugaz visão de sua cara divertida, com seu olhar exótico, a fronte lisa, antes de olhar para o outro lado.
Ele põe sua mão sobre a mesa e se inclina para o livro, seus dedos abertos sobre a madeira envelhecida, seu corpo tão perto que posso sentir como se funde o impulso de sua energia em meu espaço.
— Há outra coisa que pode funcionar. Bom, para alguém com seus dons, de toda a maneira. Mas a forma como dirige esse dom, só tocando as bordas, mantendo a distância… bom, está bastante claro que tem medo.
Sua voz cai sobre mim relaxante e tranquila. Convenço-me a fechar os olhos por um momento e me permito senti-lo, senti-lo de verdade, sem tentar impedi-lo ou afastá-lo. Ansiosa por demonstrar o quão equivocado estava Damen. Dou-lhe uma única oportunidade, e não consigo encontrar nem um só rastro de formigamento ou calor, apesar de Jude me querer da mesma forma que eu quero Damen e Damen a mim. Por isso vi na visão a respeito dele que não havia nem a mais mínima reciprocidade por mim. A única coisa que estou fazendo é diminuir o estresse e a ansiedade. Esta serenidade tão lânguida, tão relaxada, acalma meus nervos. Jude toca o meu ombro acordando-me de meu sonho e gesticula para que me sente com ele num pequeno sofá situado no canto, onde está sentado com o livro nos joelhos. Me obrigando a colocar minha mão na página. Fecho os olhos, esvazio minha mente, e intuo a mensagem em meu interior.
A princípio não acontece nada, mas isso é porque estou cheia de força. Ainda sinto os últimos golpes de energia que virtualmente esfriam meu interior e me deixam cansada e esgotada pelo resto da tarde. Mas na segunda tentativa, deixo-me levar, e sem perder a confiança no processo, permito que o zumbido flua através de mim, superando uma descarga de energia surpreendente de forma embaraçosa.
— Como qualquer coisa? — Pergunta baixando a voz, seu olhar em mim.
Encolho os ombros, me dirigindo a ele quando respondo:
— É como… é como ler o diário de alguém. Ou ao menos isso é o que estou fazendo contigo.
Ele assente.
— É mesmo.
— Mas pensei que seria mais bem… não sei, como um livro de feitiços… já sabe, algo diferente em cada página.
— Ah, refere-se a um grimorio. — Sorri, mostrando duas covinhas surpreendentes encantadores e branquísimos dentes.
Franzo o cenho. Não me lembro dessa palavra.
Adivinhando meu pensamento acrescenta:
— É como um livro de receitas para os feitiços, que contém dados muito específicos, datas, horas, rituais, resultados do ritual, esse tipo de coisas. Estritamente de negócios, nada mais.
— E isto? — Toco a outra página.
— Mais como um diário, como disse. Uma descrição muito pessoal dos progressos de uma bruxa. O que fez, por que o fez, como se sentia, os resultados, etcétera. É por isso que frequentemente são escritas em códigos, ou como no Tebas… como este.
Meus ombros se inclinam com uma careta em meus lábios. Pergunto-me por que com cada progresso pequeno que estou a ponto de fazer realidade sempre termina dando dois passos gigantes para trás.
― Está procurando algo mais concreto? Um feitiço de amor talvez? — Olho-o, entreabrindo meus olhos, me perguntando por que acaba de dizer isso.
— Sinto muito. — Encolhe os ombros, seus olhos deslizando-se por meu rosto, detendo-se em meus lábios durante uns segundos muito compridos. — Parece que há problemas no paraíso, pela forma com que Damen e você estão se evitando estes dias.
Fecho os olhos por um momento, obrigando esse formigamento que sinto ao estar com Jude cesse. Foi há uma semana. Uma semana sem Damen, sem suas doces mensagens telepáticas, sem seu quente e amoroso abraço. A única pista que tenho de que ele ainda existe é o pequeno fornecimento de elixir que encontrei em minha geladeira. Um elixir que deve ter deixado ali enquanto eu dormia, tomando todas as precauções possíveis para fazer o trabalho antes de que pudesse despertar. Cada hora que passa, cada minuto é tão doloroso, tão atroz… Pensar que vou passar todo o verão sem ele me queima por dentro.
Nesse momento, a energia de Jude muda, sua aura, atirando para trás como uma sombra sensível de brilhos azuis nas bordas.
— Bom, o que anda procurando — diz, de volta ao negócio de novo. — Encontrará aqui.
Ele golpeia a página com o polegar.
— Só tem que lhe dar um pouco de tempo para voltar e lê-lo de novo. É muito detalhado, e o conteúdo é muito profundo.
— Onde o encontrou? — Minha pergunta o agarra de surpresa. Posso vê-lo no franzir de seus lábios. — Quanto tempo o tem? — Acrescento rapidamente, urgida pela necessidade de saber.
Encolhe os ombros, evitando meu olhar.
— Achei-o em algum lugar, propriedade de um tipo que conheci uma vez. — Sacode a cabeça. — Faz muito tempo.
— Faz muito? — Sorrio, uma espécie de meia risada que ele não devolveu. — Sério. Só tem dezenove anos. Quanto tempo poderia ter sido?
Estudei-lhe com atenção, recordando a vez em que perguntei o mesmo ao Damen antes de que soubesse o que ele era. Um repentino calafrio cravando minha pele quando o agarro, os dentes torcidos, a cicatriz marcando sua fronte, seus cabelos caindo sobre seus familiares olhos verdes, me assegurando que, simplesmente, é alguém que conheci em meu passado, que não é em nada como eu.
― Suponho que não sou tão grande para te seguir no tempo. — Diz, o sorriso comprometido, forçado. ― Tento viver o momento, o agora. De todo o modo, faz já quatro anos, talvez cinco, que comecei a trabalhar aqui.
― E Lina te encontrou? É por isso que te esconde?
Ele sacode sua cabeça, seu rosto ruborizando-se quando diz:
― É muito embaraçoso para admiti-lo, ela veio por uma boneca que havia feito e perdeu por completo os papéis. Pensou que era uma boneca vodu. Interpretou mal tudo.
― Boneca? — Meu olhar fixo nele, sem ter nem ideia do que era.
― Um tipo de boneca mágica. — E encolhe os ombros, envergonhando-se ao encontrar-se com meu olhar. ― Era um menino, o que podia dizer? Estava o suficientemente equivocado para pensar que podia convencer a certa garota para que gostasse de mim.
― E o fez? — Contenho meu fôlego, lhe estudando com cuidado, me maravilhando por que essas simples palavras me causam um comichão no estômago.
― Lina a destruiu antes de que pudesse funcionar. — Encolhe os ombros. ― Acontece que ela era problemática.
― Seu tipo habitual. — As palavras saíram de minha boca antes que eu pudesse detê-las.
Me olha, seus olhos brilhando.
― Os maus hábitos dificilmente morrem.
Sentamo-nos, os olhos fechados, fôlegos detidos, o momento crescendo, até que, finalmente, rompi-o e voltei para o livro.
― Eu gostaria de te ajudar — diz, com voz baixa e profunda. ― Mas tenho a sensação de que sua viagem é muito privada para mim.
Dou-me a volta para falar quando ele acrescenta:
― Não se preocupe. Eu entendo. Mas se quer lançar um feitiço, há umas coisas que deve saber. — Seu olhar se encontra com o meu, lhe assegurando que ele tem toda minha atenção antes de continuar. ― Um: é o último recurso. Só o deve empregar quando todos os outros caminhos estiverem esgotados. E dois, os códigos são verdadeiramente receitas para trocar, para conseguir o que você quer, ou qualquer outra situação que você necessite, trocando-a. Mas para que funcione, suas metas têm que estar claras, precisa visualizar o resultado que deseja e dirigir toda sua energia para ele.
― Como se estivesse manifestando. — Digo, desejando não havê-lo dito quando vejo seu olhar mudar.
― A manifestação leva muito tempo. A magia é mais imediata, ou ao menos pode sê-lo.
Aperto meus lábios, conhecendo como explicar que a manifestação pode ser instantânea uma vez que se entenda como funciona o universo. Mas, não se pode manifestar o que não se sabe, fazer um antídoto, entre outras coisas, está estritamente fora dos limites.
― Pense nisto como um livro gigante de cozinha. — Dá um golpezinho à página com sua unha. ― Um com outras notas. — Sorri. ― Mas nada nele é fixo, você pode alterar as receitas conforme convenha às suas necessidades, e escolher seu próprio conjunto de ingredientes.
― Ingredientes? — Olhei-o.
― Cristais, ervas, elementos, velas, as fases da lua… esse tipo de coisas.
Lembro dos elixires que fiz, antes que voltasse atrás no tempo, pensando nisso mais como alquimia que como magia, embora suponha que, de alguma forma, é muito mais bonito.
― Isto também ajuda se você lançar seu feitiço em verso.
― Como um poema? — Olhei-o, surpresa. Talvez isto não funcione, depois de tudo.
Absorvo muito deste tipo de coisas.
― Não tem que ser Keats, basta que rime e que tenha algum tipo de significado para o que quer fazer.
Franzo o cenho, me sentindo desmotivada antes de começar.
― E, Ever...
Olhei-o.
― Se está esperando lançar um feitiço em uma pessoa, pode querer mudá-lo. Lina estava correta. Se não pode convencer a alguém a ver as coisas como você, ou a cooperar contigo, é uma boa ocasião para ver que não pode ser.
Aceno com a cabeça e olho para o outro lado, sabendo que pode ser bom para algumas situações, mas não para a minha.
A minha é bem diferente.

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