30 de outubro de 2015

Trinta e quatro

Eu congelo. Duas garrafas de cerveja intocadas penduradas no meio do caminho entre a geladeira e eu. Percebendo que eu estava tão preocupada pensando em Damen que eu esqueci de entrar em sintonia e sentir se ele estivesse por perto.
A boca de Ava escancarada, o rosto exibindo os mesmos olhos-arregalados, boca aberta em uma máscara de puro pânico que eu estou tentando esconder.
Então eu olho para Damen e limpo a garganta antes de dizer:
— Isso não é o que você pensa!
Desejando que a lamentação seja muito bonita, a coisa mais ridícula que eu poderia ter dito uma vez que isso é exatamente o que ele pensa.
Ava e eu invadimos sua casa para que pudéssemos mexer em sua comida abastecida. Puro e simples. Ele deixa cair sua bolsa e se move em direção a mim, seus olhos focados nos meus.
— Você não tem ideia do que estou pensando.
Ah, mas eu faço. Encolhendo-me com os horríveis pensamentos rolando em sua cabeça, sua acusação mental de: Perseguidora! Aberração! E coisas muito piores do que isso.
— E como diabos você entrou aqui? — Ele pergunta, olhando entre nós.
— Hum, Sheila me deixou entrar — eu digo, não completamente com  certeza do que fazer com frasco eu ainda tenho em minhas mãos.
Uma veia pulsa em sua testa quando ele balança a cabeça e cerra os punhos, e eu percebo que eu nunca vi ele estar com raiva antes, nem sabia que ele era capaz disso, e me sinto muito desagradável de saber que eu inspirei isso.
— Eu me resolvo com Sheila — diz ele, seu mau temperamento em exame. — O que eu quis dizer foi, o que você está fazendo aqui? Na minha casa? Bagunçando a minha geladeira — Seus olhos estreitos. — Que diabos você pensa que está fazendo?
Eu olho para Ava, envergonhada de ter seu testemunho de meu verdadeiro amor falar comigo dessa maneira.
— E o há com ela? — Ele aponta para Ava. — Você traz a vidente da sua festa para lançar algum tipo de feitiço ao redor?
— Você se lembra disso? — Eu abaixo a garrafa ao meu lado.
Eu estava imaginando o que ele poderia ter retido do nosso passado, e apesar de ser idiota, o fato de que os membros conheciam Ava me enche de esperança.
— Você se lembra da noite de Halloween? — Eu sussurro, recordando a primeira vez que nos beijamos, à beira da piscina, ambos vestidos com trajes que combinavam perfeitamente de Maria Antonieta e seu amante, o Conde Fersen, sem ter planejado isso.
— Sim, eu me lembro. — Ele balança a cabeça. — E eu odeio quebrar isso para você, mas foi um momento de fraqueza que nunca vai acontecer de novo. Um que você levou muito a sério. E acredite em mim, se eu soubesse o tipo de aberração que você se tornaria, eu não teria me incomodado. Não valia a pena.
Engulo duro e pisca as lágrimas de volta. Sensação de vazio, buraco por dentro, meu interior escavado e jogado de lado, como qualquer chance de recuperar o nosso amor – a única coisa que faz com que esta vida particular valha a pena viver – desliza para fora do alcance. E mesmo que eu me lembre que essas não são palavras de Roman e não dele – que o Damen real não é capaz de tratar qualquer um assim – não faz doer menos.
— Damen, por favor — eu finalmente domino. — Eu sei que isso parece ruim. Realmente, eu sei. Mas eu posso explicar. Você vê, nós estamos apenas tentando te ajudar.
Ele olha para mim, o seu olhar tão ridículo que me enche de vergonha. Mas eu me esforço para continuar, sabendo que pelo menos tenho que tentar.
— Alguém está tentando te envenenar. — Eu engulo, encontrando seus olhos. — Alguém que você conhece.
Ele balança a cabeça, não comprando uma palavra. Convencida que eu estou decididamente furiosa mentalmente e deveria ser presa imediatamente.
— E essa pessoa responsável por me envenenar, esta pessoa que eu conheço, poderia ser, por acaso, você? — Ele dá mais um passo na minha direção. — Porque você é a única quebrando minha casa. Você é a única pegando tudo a receber na minha geladeira e brincando com minhas bebidas. Acho que as evidências falam por si.
Eu agito minha cabeça, falando após o forte calor na garganta e digo:
— Eu sei que parece, mas você tem que acreditar em mim! É tudo verdade, eu não estou inventando! — Ele toma mais um passo, avançando em mim de uma forma tão intencional, de forma lenta e deliberada, é como se ele estivesse perseguindo sua presa. Então eu decido ir apenas para ele, deixar tudo para fora. Quero dizer, eu não tenho nada a perder de qualquer maneira.
— É Roman, tudo bem? — Eu sugo a na minha respiração, observando a sua mudança de acusador para a expressão indignada.
— Seu novo amigo Roman é — eu olho Ava, sabendo que não posso dizer o que Roman realmente é – um imortal desonesto com atitude de matar Damen, por algum motivo que eu ainda não determinei. Mas não é como se importasse de qualquer maneira. Damen não tem memória de Drina ou ser imortal, ele está tão longe que ele nunca iria entender.
— Saia — ele diz, o olhar em seus olhos tão frio que me arrepia mais do que o ar que flui de sua geladeira. — Dê o fora antes que eu chame a polícia. — Eu espreito para Ava, vendo-a derramar o conteúdo alterado pelo ralo no segundo em que ele faz a ameaça. Então eu olho para Damen, segurando o telefone, o dedo indicador já pressionando o nove, seguido do um, e depois –
Eu tenho que detê-lo. Não há nenhuma maneira que eu posso lhe permitir concluir a chamada. De jeito nenhum eu posso correr o risco de a polícia ficar envolvida. Então eu olho em seus olhos, mesmo que ele se recuse a olhar para mim. Eu apenas concentro toda a minha energia para ele, meus pensamentos chegando a ele, na tentativa de fundir e influenciar. Regando-o com a mais compassiva luz amorosamente branca junto com um buquê de tulipas vermelhas telepáticas. Todo o tempo, sussurrando.
— Não há necessidade de problema. — Eu lentamente me afasto. — Você não precisa chamar ninguém, estamos saindo agora. — Segurando minha respiração quando ele olha para o telefone, sem entender por que ele parece não conseguir pressionar o último um.
Ele levanta o olhar, e durante o breve momento, apenas um lampejo de realidade, do retorno do velho Damen. Olhando para mim da maneira que ele costumava – enviando um delicioso formigamento quente por toda a minha pele. E mesmo que ela se foi, tão logo ela apareceu –
Eu vou alegremente resolver o que quer que eu tenha recebido. Ele joga o celular sobre o balcão e balança a cabeça. E sabendo que é melhor agir rápido antes que minha influência termine, eu pego minha mochila e vou para a porta. Virando assim que ele esvazia seu armário e geladeira de cada última garrafa de suco. Removendo suas tampas e derramando seu conteúdo direto pelo ralo, convencido de que não é seguro para consumo, agora que os adulterei.

4 comentários:

  1. Ai meu Pai! Tudo isso estar me matando!
    Ass: Bina.

    ResponderExcluir
  2. Talvez eu esteja sendo um pouco "egoista" mas já pensou,quando a Ever for para a escola e todo mundo estiver sabendo dessa invasão....

    ResponderExcluir
  3. Não gosto desse novo Damen! TUDO CULPA DE ROMAN!!

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!