18 de outubro de 2015

Trinta e quatro - Minha espada quase vai parar no eBay

— EU ACHO QUE não — respondi.
Ran fez um barulho retumbante, como uma baleia com azia.
— Você, o neto daquele intrometido, Njord, vem aqui pedindo para negociar, perturba a Serpente do Mundo, interrompe minha busca e não aceita uma proposta razoável? A Espada do Verão é o artefato mais valioso que veio parar na minha rede nos últimos séculos. Sua alma é um preço pequeno a se pagar em troca!
— Lady Ran — Sam pegou o machado de volta e desceu da cadeira de pesca. — Magnus já foi reivindicado por Odin. Ele é um einherji. Isso não pode mudar.
— Além do mais — acrescentei — você não quer minha alma. É muito pequena. Não a uso tanto assim. Duvido que ainda funcione.
A saia aquosa da deusa rodopiou. As almas presas tentaram chegar à superfície. Sacos plásticos estouraram como plástico bolha. O cheiro de peixe podre quase me fez sentir saudade da cabeça do touro.
— O que me oferece pela espada, então? — perguntou Ran. — O que poderia valer mais do que ela?
Boa pergunta, pensei.
Olhei para a rede da deusa e uma ideia começou a se formar.
— Você disse que estava procurando alguma coisa — relembrei. — O quê?
A expressão da deusa se suavizou. Os olhos dela brilharam em um tom de verde mais ganancioso.
— Muitas coisas. Moedas. Almas. Qualquer item de valor, na verdade. Pouco antes de você despertar a serpente, eu estava de olho na calota de um Chevy Malibu que devia valer quarenta dólares fácil. Estava lá, no fundo do mar, perto do porto. Mas agora — ela levantou as mãos — já era.
— Você coleciona lixo. — Eu me corrigi: — Quer dizer... tesouros.
Sam semicerrou os olhos para mim, se perguntando se eu tinha perdido a cabeça, mas estava começando a entender o que chamava a atenção de Ran, aquilo de que ela mais gostava.
A deusa esticou a mão na direção do horizonte.
— Você já ouviu falar da mancha de lixo do oceano Pacífico?
— Eu já, lady Ran — respondeu Sam. — É um acúmulo flutuante de lixo do tamanho do Texas. Parece horrível.
— É maravilhoso! — exclamou Ran. — Na primeira vez que vi, fiquei sem palavras! Deixava minha coleção no chinelo. Durante séculos, todos os naufrágios dos mares do norte pertenciam a mim. Qualquer coisa perdida nas profundezas vinha para mim. Mas, quando vi as maravilhas da mancha de lixo, percebi o quanto meus esforços foram insignificantes. Desde então, passo todo o meu tempo procurando no fundo do mar para ver se encontro mais tesouros para a minha rede. Jamais teria encontrado sua espada se não fosse tão rápida!
Assenti em solidariedade. Agora eu conseguia encaixar essa deusa nórdica na visão de mundo de Magnus Chase. Ran era uma acumuladora. Eu sabia lidar com acumuladores.
Espiei o lixo flutuando no mar. Uma colher de prata se equilibrava em um pedaço de isopor. Uma roda de bicicleta passou girando, explodindo a cabeça fantasmagórica de uma alma perdida.
— Lady Ran — falei — seu marido, Aegir, é o deus do mar, certo? Você mora com ele em um palácio dourado no fundo do oceano?
A deusa pareceu ficar intrigada.
— Onde você quer chegar?
— Bem... o que seu marido acha da sua coleção?
— Aegir! — disparou a deusa com desprezo. — O grande criador de tempestades marinhas! Atualmente, a única coisa que ele quer é fermentar a cerveja dele. Ele sempre gostou disso, mas agora está beirando o ridículo. Passa o tempo todo em lojas de lúpulo ou fazendo visitações a pequenos produtores com os amigos. Isso sem falar da camisa de flanela, da calça jeans skinny com a barra dobrada, dos óculos e da forma como ele apara a barba. Ele está sempre falando de cervejarias artesanais. Tem um caldeirão com quase um quilômetro de diâmetro! Como isso pode ser artesanal?
— Certo, deve ser bem irritante. Ele não aprecia a importância dos seus tesouros.
— Ele tem o hobby dele — disse Ran. — E eu tenho o meu!
Sam pareceu perplexa, mas tudo isso fazia sentido para mim. Eu conhecia uma acumuladora em Charlestown que herdou uma mansão de seis milhões de dólares do marido em Beacon Hill, mas ficar sentada lá sozinha a deixava solitária e infeliz. Então ela vivia nas ruas, empurrando o carrinho de compras, colecionando objetos decorativos de plástico de jardim e latas de alumínio. Isso a fazia se sentir completa.
Ran franziu a testa.
— De que estávamos falando mesmo?
— Da Espada do Verão — respondi. — E do que eu poderia oferecer em troca.
— Sim!
— Eis minha oferta: eu deixo você ficar com a sua coleção.
Gelo se espalhou pelos fios da rede. O tom de Ran ficou perigoso.
— Você está me ameaçando?
— Ah, não. Eu jamais faria isso. Entendo o quanto suas coisas são valiosas...
— Sabe este enfeite de plástico de girassol? Não é mais fabricado! Vale uns dez dólares.
— Certo. Mas, se você não me der a Espada do Verão, Surt e os gigantes do fogo virão atrás dela. E eles não vão demonstrar tanto respeito.
Ran deu uma risada com deboche.
— Os filhos de Muspell não podem tocar em mim. Meu reino é mortal para eles.
— Mas Surt tem muitos aliados — comentou Sam, entendendo meu plano. — Eles incomodariam você, atrapalhariam você, tirariam seus... tesouros. Eles farão qualquer coisa para pegar a espada. Quando estiverem com ela, vão causar o Ragnarök. Aí, não vai haver mais buscas. Os oceanos vão evaporar. Sua coleção será destruída.
— Não! — berrou a deusa.
— Sim — falei. — Mas, se você nos der a espada, Surt não vai ter motivo para incomodá-la. Vai ficar em segurança.
Ran olhou de cara feia para as redes, observando os padrões de lixo cintilante.
— E como, filho de Frey, a espada vai estar mais segura com você do que comigo? Você não pode devolvê-la para seu pai. Frey abriu mão dela quando a deu de presente para Skírnir.
Pela milionésima vez, tive vontade de encontrar meu pai, o deus do verão saltitante, e dar um soco nele. Por que ele abriu mão da espada? Por amor? Os deuses não deviam ser inteligentes? Mas, pensando bem, Ran colecionava calotas e Aegir gostava de fazer cerveja artesanal.
— Eu mesmo vou brandi-la — falei. — Ou vou levá-la para Valhala e protegê-la.
— Em outras palavras, você não sabe. — A deusa arqueou as sobrancelhas cheias de algas para Sam. — E você, filha de Loki, por que está do lado dos deuses de Asgard? Seu pai não é aliado deles, não mais.
— Eu não sou meu pai — respondeu Sam. — Eu sou... era uma valquíria.
— Ah, sim. A garota que sonhava em voar. Mas os lordes de Valhala a expulsaram. Por que você ainda tenta conquistar a confiança deles? Você não precisa deles para voar. Sabe muito bem que, devido ao sangue do seu pai...
— Nos dê a espada, lady Ran. — A voz de Sam ficou mais firme. — É o único jeito de adiar o Ragnarök.
A deusa deu um sorriso afetado.
— Você até fala como Loki. Ele era um orador muito persuasivo, em um momento lisonjeiro, no outro, ameaçador. Uma vez, até me convenceu a emprestar minha rede para ele! Isso criou todo tipo de problema. Loki descobriu os segredos de como trançar redes. Os deuses aprenderam e, depois, os humanos. Em pouco tempo, todo mundo tinha redes. Minha marca registrada! Não vou me deixar convencer com tanta facilidade de novo. Vou ficar com a espada e tentar a sorte com Surt.
Eu me soltei da cadeira de pesca. Segui até a proa e olhei nos olhos da deusa. Não costumava extorquir acumuladoras, mas precisava fazer Ran me levar a sério. Arranquei a corrente do cinto. Os elos de prata brilharam sob a luz do entardecer.
— Esta corrente é uma espada — expliquei. — Uma lâmina autêntica de Valhala. Quantas dessas você tem na sua rede?
Ran esticou a mão para a corrente, mas se controlou.
— Sim... consigo ver a espada pelo glamour. Mas por que eu trocaria...
— Uma espada nova por uma velha? Esta espada é mais lustrosa, só foi usada uma vez em combate. Dá para conseguir vinte pratas por ela, moleza. A Espada do Verão, no entanto, não tem valor comercial.
— Hum, verdade, mas...
— A outra opção é eu pegar a Espada do Verão. Ela me pertence.
Ran rosnou. As unhas cresceram e ficaram pontudas como dentes de tubarão.
— Como ousa me ameaçar, mortal?
— Só estou falando a verdade — continuei, tentando parecer calmo. — Consigo sentir a espada na sua rede. — (Pura mentira.) — Já a tirei das profundezas uma vez. Posso fazer de novo. A espada é a arma mais afiada dos nove mundos. Você a quer mesmo cortando sua rede, espalhando suas coisas e libertando as almas presas? Se elas fugissem, você acha que lutariam por você ou contra você?
O olhar dela vacilou.
— Você não ousaria.
— Uma espada por uma espada — concluí. — Inclua uma das maçãs de Idun e fechamos negócio.
Ran sibilou.
— Você não falou nada sobre maçã nenhuma!
— Não é um pedido absurdo. Sei que você tem uma maçã da imortalidade extra por aí em algum lugar. Aí, nós vamos embora em paz. Impedimos o Ragnarök e deixamos você voltar às suas buscas. Senão — dei de ombros — você vai descobrir o que o filho de Frey pode fazer com a espada do pai.
Eu tinha certeza de que a deusa riria da minha cara, viraria o barco e acrescentaria nossas almas afogadas à coleção dela. Mas a encarei com intensidade, como se não tivesse nada a perder.
Depois de contar até vinte, tempo suficiente para uma gota de suor escorrer pelo meu pescoço e congelar na gola, Ran soltou outro rosnado:
— Muito bem.
Ela balançou a mão. A Espada do Verão saiu voando da água e pousou na minha mão. Na mesma hora começou a zumbir, agitando todas as moléculas do meu corpo.
Joguei minha corrente no mar.
— Agora, a maçã.
Uma fruta disparou da rede. Teria acertado Sam na testa se não fossem os reflexos rápidos dela. A maçã não parecia nada de mais, era até meio murcha, mas Sam a segurou com cuidado, como se fosse radioativa. Colocou-a no casaco.
— Agora vá, como prometeu — ordenou Ran. — Mas guarde minhas palavras, filho de Frey: sua barganha vai lhe custar caro. Você fez de Ran sua inimiga. Meu marido, Aegir, lorde das ondas, também vai saber disso, se eu conseguir tirá-lo da loja de lúpulo. Pelo seu bem, espero que não esteja planejando viagens pelo mar. Da próxima vez, sua ligação com Njord não vai salvá-lo. Se atravessar minhas águas de novo, vou arrastar sua alma até o fundo pessoalmente.
— Bem — falei — mal posso esperar.
Ran nos deu às costas. A forma dela se dissolveu em uma nuvem de névoa em forma de funil, as redes a envolvendo como espaguete. Ela afundou nas profundezas e sumiu.
Sam estremeceu.
— Isso foi interessante.
Atrás de nós, a madeira estalou. A cabeça de Harald apareceu, vinda do interior do barco.
— Interessante? — exclamou ele. — Você disse que foi interessante?
O gigante saiu com expressão de raiva, os punhos fechados, a barba azul gelada pingando.
— Pescar a Serpente do Mundo é uma coisa. Mas antagonizar Ran? Eu jamais teria aceitado vocês a bordo se soubesse, independentemente do que Big Boy disse! Eu ganho a vida no oceano! Deveria jogar vocês ao mar e...
— Eu dobro seu pagamento — disse Sam. — Dez moedas de ouro vermelho. Só para nos levar de volta ao píer.
Harald piscou.
— Combinado.
O gigante do gelo seguiu para o leme.
Observei a Espada do Verão. Agora que eu estava com ela, não sabia bem o que fazer. O aço brilhava como se tivesse luz própria, com runas prateadas cobrindo a parte achatada da lâmina. A espada irradiava calor e aquecia o ar ao meu redor, derretendo o gelo na amurada e me enchendo da mesma sensação de poder que eu sentia quando curava alguém. Não era como segurar uma arma... era mais como segurar um portal para uma época diferente, caminhando com minha mãe em Blue Hills, sentindo o sol no rosto.
Sam esticou a mão. Ainda com as luvas de couro enormes, ela secou uma lágrima da minha bochecha.
Eu não tinha percebido que estava chorando.
— Desculpe — disse com voz rouca.
Sam me observou, preocupada.
— Você poderia mesmo ter atraído a espada da rede de Ran?
— Não sei.
— Então você é louco. Mas estou impressionada.
Baixei a espada. Ela continuou zumbindo, como se estivesse tentando me dizer alguma coisa.
— O que Ran queria dizer? — perguntei. — Ela falou que você não precisava ser valquíria para voar. Algo a ver com o sangue do seu pai.
A expressão de Sam se fechou mais depressa do que as redes da deusa.
— Não é nada.
— Tem certeza?
Ela prendeu o machado no cinto. Olhou para todos os lugares, menos para os meus olhos.
— Tanta certeza quanto você de conseguir atrair a espada.
Os motores rugiram. O barco começou a dar meia-volta.
— Estarei no leme com Harald — disse Sam, aparentemente ansiosa para se afastar de mim. — Vou cuidar para que ele nos leve de volta para Boston, e não para Jötunheim.

31 comentários:

  1. eu shippo os dois. pq ela tem q ter um noivo? ._.

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  2. O que que Rick Riordan tem com essas maldicoes que deuses dao? Da primeira, foi com o Percy, depois, Sadie, e agora, Magnus...

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    1. aparentemente, até em mitos antigos, deuses adoram uma maldiçãozinha de leves, como o cara cego, Fineu, eu acho, Medusa, Hercules, etc etc

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  3. Esse garoto me faz lembrar a coragem e a ousadia do Percy

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  4. Foda-se esse noivo, quero ela com Magnus. Realmente acho que ela é lgl, pq fazer uma filha de Loki ser vilã, é mto óbvio.

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    1. Realmente acho que seria incrível esses dois como um casal. Talvez teriam mais problemas que o casal Percy e Annabeth

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    2. Você se esqueceu da maldição que a Nice colocou no Leo

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    3. que maldição??? Esqueci droga!

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  5. Não quero que ela fique com o Magnus, sla, quero que ela fique com o noivo dela msm

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    1. SIIIIIIIM! Seria muito menos clichê, pelo menos.

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    2. EXATAMENTE! ~Apesar deu já saber o que vai rolar~

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  6. Consigo sentir a espada na sua rede. — (Pura mentira.)

    Hahaha ri muito nessa parte

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    1. Eu tb ri litros
      Falam que ele parece o Percy só que não senti raiva dele até agr!

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  7. Eles são interessantes juntos, não é como o Percy que precisa da Annie, o Magnus é mais independente e esperto. Na verdade, parece que é a Sam que precisa de alguém com mais atitude na vida dela.

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  8. Desconfio q Sam ira morrer.. So nao sei pq..

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  9. "Njord não vai salvá-lo. Se atravessar minhas águas de novo, vou arrastar sua alma até o fundo pessoalmente."
    Percy não pode viajar pelo ar.
    Magnus não pode viajar por água.
    Interessante...

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  10. Tive uma visão repentina de Sam sentada na aula de inglês e o celular começando a vibrar. A tela pisca: LIGAÇÃO DE ODIN. Ela corre para o banheiro, veste seu traje de Supervalquíria e sai voando pela janela mais próxima. Kakakakakakakakakakakkakakakaka

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  11. da pingando.
    — Pescar a Serpente do Mundo é uma coisa. Mas antagonizar Ran? Eu jamais teria aceitado vocês a bordo se soubesse, independentemente do que Big Boy disse! Eu ganho a vida no oceano! Deveria jogar vocês ao mar e...
    — Eu dobro seu pagamento — disse Sam. — Dez moedas de ouro vermelho. Só para nos levar de volta ao píer.
    Harald piscou.
    — Combinado.
    Eu na vida.

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  12. essa Ran gostaria muito do tiete

    Percy não viaja pelo ar e Magnus não viaja pela agua ...interessante

    ~coruja

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    1. só eu reparei que essa senhoria adora um ctrl C ctrl V ?
      o.o

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  13. Alguem lembra da maldição q a nice colocou no Leo?

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  14. Ram me lembra em parte Hades, e a "conversa amigável" dela com o Magnus parece os encontros de Percy e Ares. E Aegir é tipo um Dionísio kkkk só q com cerveja e ñ vinho

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  15. É provável q lá fique com o magnus. Mas gunnila é outro nível.

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  16. — Agora vá, como prometeu — ordenou Ran. — Mas guarde minhas palavras, filho de Frey: sua barganha vai lhe custar caro. Você fez de Ran sua inimiga. Meu marido, Aegir, lorde das ondas, também vai saber disso, se eu conseguir tirá-lo da loja de lúpulo. Pelo seu bem, espero que não esteja planejando viagens pelo mar. Da próxima vez, sua ligação com Njord não vai salvá-lo. Se atravessar minhas águas de novo, vou arrastar sua alma até o fundo pessoalmente.

    agora eu pensei em algum crossover em que o Magnus encontra o Percy e eles precisam viajar pelo mar e o Magnus falando "não dá, tenho alguns problemas com deuses marinhos"

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  17. Esses personagens do Rick viu... Percy Jackson não voa e Magnus Chase agora não navega.kkkk
    -Sinead

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  18. Gente,já ficou chato vocês ficarem comparando as história do titio Rick (Não falo quem está achando referências,e sim comparando),parem.

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