29 de outubro de 2015

Trinta e oito

Devo ter desmaiado, mas só por um instante, pois quando abro os olhos novamente Drina ainda está em cima de mim, o rosto e as mãos salpicados de sangue, sussurrando palavras com sua voz doce, tentando me convencer a entregar os pontos de uma vez por todas, a aceitar a morte e acabar logo com isso.
A proposta até que não era de todo ruim alguns minutos atrás, mas agora, não. A cachorra matou minha família e vai ter de pagar pelo que fez.
Fecho os olhos, determinada a voltar àquele mesmo lugar de felicidade: nós todos no carro, rindo, felizes, tomados de amor. A imagem logo me vem à cabeça, muito mais nítida do que antes, sem a interferência da culpa.
E assim que recupero minhas forças dou um vigoroso empurrão em Drina, arremessando-a para o outro lado da cozinha. Observo-a bater de costas contra a parede, os braços estatelados num ângulo bizarro, e escorregar para o chão.
Fica ali por alguns segundos, olhando estupefata para mim, depois fica de pé, limpa a sujeira da roupa e dá uma risada antes de se arremessar outra vez. Mas assim que me alcança dou outro empurrão, e mal acredito em meus próprios olhos quando a vejo alçando voo, atravessando a porta da cozinha e batendo contra a vidraça das portas do escritório, provocando uma explosão de cacos por todos os lados.
— Se você queria uma “cena do crime” — diz, retirando estilhaços do rosto, dos braços e das pernas, os cortes sumindo logo a seguir —, ficou ótimo! Mal posso esperar para ler as manchetes nos jornais de amanhã! — E de um segundo a outro, já sem qualquer arranhão no corpo, abre um sorriso e avança em minha direção, determinada a dar cabo de sua missão. —Você não pode contra mim, Ever — ela sussurra. — Aliás, essa sua patética demonstração de força está começando a me irritar. Francamente, garota, que espécie de anfitriã é você? É assim que costuma receber seus convidados? Agora entendo por que não tem nenhum amigo.
Desvencilho-me dela, disposta a arremessá-la contra todas as vidraças da casa se preciso for. No entanto, mal completo o pensamento quando sou invadida por uma dor de tal modo lancinante que me deixa paralisada, sem forças para fazer outra coisa senão observar Drina voltando em minha direção com um sorriso malicioso estampado no rosto.
— O velho truque da cabeça no torno de garras serradas — ela diz e dá uma gargalhada. — É infalível! Mas, justiça seja feita, Ever, eu avisei. Foi você que não quis me dar ouvidos. Por outro lado, a escolha ainda é sua. Posso apertar o torno um pouquinho mais... — Ela estreita os olhos quando me dobro em duas e vou ao chão, enquanto meu estômago se embrulha de náusea. — Ou você pode... jogar a toalha e acabar logo com esta agonia. É você quem decide. Simples assim.
Tento manter o foco ao perceber que ela se aproxima, mas a visão está embaralhada, sem falar em meus braços e pernas, que estão moles e fracos feito borracha, e ela é muito rápida para que eu possa lidar com isso. Então fecho os olhos e penso: Não vou deixá-la sair vitoriosa. Não vou entregar os pontos desta vez. Não depois do que ela fez à minha família.
E quando cerro o punho para lhe dar um soco, estou tão fraca, atrapalhada e destruída que fico perplexa ao constatar que acerto Drina na altura do peito, de raspão, e meu braço despenca. Dou alguns passos cambaleantes para trás, completamente sem fôlego, sabendo que meu esforço foi em vão, que um soquinho desses não valeu de nada contra a poderosa Drina.
Fecho os olhos e me preparo para o fim, que agora é inevitável. Que pelo menos seja rápido. Mas quando minha cabeça e meu estômago se acalmam, abro os olhos novamente e vejo Drina recuando trôpega em direção à parede, apertando o peito e olhando de um jeito acusador para mim.
— Damen! — ela suplica, olhando um pouco atrás de mim. — Não deixe que ela faça isso comigo, conosco...
E quando viro o rosto deparo com Damen bem a meu lado, encarando Drina e balançando a cabeça, em tom de reprovação.
— Tarde demais — ele responde, e entrelaça os dedos nos meus. — Chegou a hora de sua partida, Poverina.
— Não me chame assim! — ela ruge, os olhos antes verdes e lindos agora estriados de vermelho. — Você sabe que detesto esse nome!
— Sim, eu sei — ele devolve.
Ele aperta minha mão quando Drina começa a tremer e a envelhecer, até que finalmente some no ar, deixando apenas o vestido de seda preta e os sapatos caros como provas de sua existência.
— Como foi que... — Olho para Damen em busca de alguma explicação.
Mas ele apenas sorri e diz:
— Acabou, Ever. Absolutamente, completamente, eternamente. — Depois me puxa para um abraço e me cobre de beijos quentinhos enquanto promete: — Nunca mais seremos importunados por ela.
— Eu... matei a Drina? — pergunto. Apesar de tudo que ela fez à minha família, e das tantas vezes que supostamente me matou, não sei ao certo como me sentir em relação a isso.
Damen faz que sim com a cabeça.
— Mas... como? Quer dizer, se ela é imortal, eu não deveria ter cortado fora a cabeça dela?
— Que espécie de livros você anda lendo, hem? — ele retruca rindo. Depois, novamente sério, diz: — Não é assim que funciona. Nada de decapitações, estacas de madeira ou balas de prata. Tudo se resume ao simples fato de que o rancor enfraquece e o amor fortalece. De algum modo você conseguiu acertar Drina justo no ponto mais vulnerável do corpo dela.
Aperto os olhos, meio que sem entender.
— Mas eu mal toquei na garota! — digo, lembrando-me do murrinho que desferi há pouco.
— Você mirou no quarto chacra dela. E acertou na mosca.
Hem?
— O corpo possui sete chacras. O quarto deles, ou o chacra do coração, como às vezes é chamado, é o centro do amor incondicional, da compaixão, do eu superior, de tudo aquilo que faltava a Drina. E isso a enfraqueceu, fez com que ela ficasse completamente vulnerável. Ever, foi a falta de amor que matou Drina.
— Mas se tinha esse ponto fraco... por que ela não tentou se proteger de alguma forma?
— Porque foi pega de surpresa. Porque era uma pessoa egocêntrica. Porque se deixou levar pelo próprio ego. Drina não se dava conta de quanto havia se tornado amarga, rancorosa, possessiva...
— E se você já sabia disso tudo, por que não me disse antes?
Ele dá de ombros.
— Era só uma teoria minha. Como nunca matei um imortal, não sabia se funcionaria ou não. Até agora.
— Quer dizer que há outros imortais andando por aí? Drina não era a única?
Ele abre a boca para dizer algo, mas logo muda de ideia e permanece calado. Percebo uma expressão nos olhos dele... culpa? Remorso? Mas em poucos segundos ele volta ao normal.
— Ela contou umas histórias aí sobre você e seu passado...
— Ever — intervém Damen. — Ever, olhe para mim! — E ergue meu queixo até que eu obedeça. — Faz tempo que estou na estrada e...
— Eu sei, seiscentos anos!
— Mais ou menos isso. O fato é que... bem, já vi muitas coisas e fiz outras tantas. Minha vida nem sempre foi tão correta ou tão pura quanto eu gostaria. Aliás, muito pelo contrário. — Ele me puxa de volta quando, preocupada com o que estou prestes a ouvir, ameaço recuar. — Confie em mim, Ever. Você está preocupada à toa! Não sou um assassino, muito menos uma pessoa do mal! O problema é que... houve épocas em que cedi às tentações da boa vida. Mas mesmo assim, sempre que a encontrava, abria mão de tudo só para ficar ao seu lado.
Recuo novamente e desta vez consigo me desvencilhar.
Meu Deus, só pode ser isso!, penso. Um caso clássico do garoto que perde a garota! E no caso dele... uma vez, dez vezes, cem vezes, ao longo de séculos, sempre abandonado antes de conseguir o que quer! Só por isso está tão interessado! Só por isso ele não vai embora de vez. Por minha causa. Para ele, sou uma espécie de fruto proibido que respira, vive! Será que vou ter de continuar virgem por toda a eternidade? Sumir por alguns anos, só para alimentar o desejo dele? Afinal, agora que estamos presos um ao outro para sempre, assim que ele conseguir o que deseja, será só uma questão de tempo até ele se fartar de minha companhia, até não conseguir mais olhar para minha cara e, então, voltar para a “boa vida” de que realmente gosta.
— Presos um ao outro? É assim que você nos vê? Acha que está encalhada comigo para o restante da eternidade? — E olha para mim de um jeito que me deixa na dúvida: não sei se está ofendido ou brincando.
Por um instante, esqueci que meus pensamentos não são apenas meus quando ele está por perto. Portanto, sentindo o rosto queimar de vergonha, tento me explicar:
— Não, não é isso! É que... bem, achei que era assim que você se sentia a meu respeito. Quer dizer, a gente está cansado de ver isso em histórias de amor! E em nosso caso mais ainda, já que tantas vezes nos perdemos um do outro. Não é à toa que você sempre volta a me procurar. Não porque goste de mim, mas porque faz seiscentos anos que está tentando entrar nas minhas calcinhas!
— Nas anáguas, nas pantalonas... Acredite em mim, as calcinhas só entraram na moda muito, mas muito tempo depois — ele retruca. Mas quando vê que não estou rindo, puxa-me para perto e diz: — Ever, eu gosto de você sim, mas não por este motivo. E se me permite um conselho, sei por experiência própria que a melhor maneira de lidar com a eternidade é vivendo um dia de cada vez.
Depois me dá um beijo, mas logo toma a iniciativa de se afastar. Então pego sua mão e o puxo de volta para dizer:
— Não vá embora. — Fico encarando Damen. — Nunca mais saia do meu lado, por favor.
— Nem para buscar um copo d'água para você? — ele brinca.
— Nem pra isso — respondo, as mãos explorando o rosto inacreditavelmente perfeito que tenho à minha frente. — Damen, eu... — As palavras param na garganta.
— Você o quê? Fala. — Ele sorri.
— Senti muito sua falta — finalmente consigo falar.
— Também senti a sua — ele devolve. Depois se aproxima para beijar minha testa, mas subitamente recua.
— Que foi? — pergunto, observando a maneira como ele me olha, o sorriso largo entre os lábios, a expressão de carinho no rosto. Então passo os dedos sob a franja e levo um baita susto ao perceber que a cicatriz não está mais lá.
— O perdão cura — ele diz sorrindo. — Sobretudo quando perdoamos a nós mesmos.
Olho fundo nos olhos dele, sabendo que deveria dizer alguma coisa, mas sem saber se encontrarei as palavras certas. Portanto, apenas fecho os olhos e dou vazão aos pensamentos para que eles sejam lidos.
Mas Damen ri e diz:
— É sempre melhor quando é dito.
— Mas eu já disse. Foi por isso que você voltou, não foi? Achei que fosse vir mais cedo. Tipo assim, eu até estava precisando de sua ajuda.
— Ouvi quando você chamou, claro. E teria vindo antes, mas precisava ter certeza de que você estava realmente pronta, não apenas se sentindo sozinha depois que Riley se foi.
— Você sabia disso também?
Ele assente com a cabeça.
— Você agiu certo.
— Então... você quase me deixou morrer naquela cozinha só porque queria ter uma certeza?
Damen faz que não.
— Jamais deixaria você morrer, Ever. Não desta vez.
— E Drina?
— Subestimei o ódio dela. Não imaginava que ela fosse capaz.
— Vocês não liam os pensamentos um do outro?
— Faz tempo que aprendemos a blindar nossos pensamentos — ele responde olhando para mim, acariciando meu rosto com o polegar.
— Você vai me ensinar a blindar os meus também?
Damen sorri e diz:
— Com o tempo vou lhe ensinar tudo, prometo. Mas, Ever, você precisa ter consciência do que tudo isso implica. Se optar pela eternidade, nunca mais verá sua família outra vez. Não vai atravessar aquela ponte. Você precisa saber onde está se metendo. — Ele ergue meu queixo e olha fundo em meus olhos.
— Mas eu posso, tipo... cair fora quando quiser, não posso? Foi você mesmo quem disse.
— Quanto mais o tempo passa, mais difícil fica.
Sei que o preço da eternidade é alto, mas sei também que as coisas podem se arranjar. Riley prometeu mandar algum tipo de sinal; depois disso vejo o que faço. E se a eternidade começa hoje, é assim que vou vivê-la: até o fim do dia, e só. Sabendo que Damen estará sempre ao meu lado. Tipo assim, sempre, certo?
Ele busca meu olhar, esperando uma resposta.
— Eu amo você — digo baixinho.
— Também amo você — ele devolve, os lábios pedindo os meus. — Sempre amei. E sempre vou amar.

13 comentários:

  1. Fernanda Boaventura4 de novembro de 2015 21:01

    "— Também amo você — ele devolve, os lábios pedindo os meus. — Sempre amei. E sempre vou amar."
    Ai que lindo!

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    1. bixa to morrida :v kkkkkk


      Raih

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  2. Já acabou?! Poxa vida, tava tão bacana, vamos para o próximo livro! Obrigada Karina.
    Ass:Bina.

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  3. Foi bom❤💖 eu rir horrores na parte de entrar nas calcinhas pantalonas e anaguas😂😂😂 Gostei.do livros👏👏

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  4. A-M-E-I
    mas que livro pequeno, em 3 noites terminei, Academia de Vampiros levei um tempo, e bem o D de lá é D de Dimitri, que na minha opinião é melhor que D de Damen, eu rachei de rir nessa parte:
    " Não porque goste de mim, mas porque faz seiscentos anos que está tentando entrar nas minhas calcinhas!
    — Nas anáguas, nas pantalonas... Acredite em mim, as calcinhas só entraram na moda muito, mas muito tempo depois " kkkkkkkkk ainda to rindo "— Que espécie de livros você anda lendo, hem?" kkkkkk

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  5. tipo
    😍😍😍😍😍😍😍😍
    q amor lindo
    partiu próximo

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  6. FINALMENTE ACABOU ESSA PERSEGUIÇÃO CHATA DA DRINA!!!!

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  7. 600 anos depois eu encontrei esse livro online, amei! Apesar de odiar a lerdeza da Ever.

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  8. simplesmente ameiiiiii

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  9. Finalmente!!! Amei o primeiro livro... verei se o sentimento continuará o mesmo nos próximos.

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