18 de outubro de 2015

Trinta e oito - Caí em um Volkswagen

EU ESTAVA EM uma pradaria ensolarada, sem lembrança alguma de como tinha chegado ali.
Ao longe, flores campestres cobriam colinas verdes. A brisa tinha cheiro de alfazema. A luz era quente e intensa, como se o ar tivesse virado manteiga.
Meus pensamentos se arrastavam. Luz... a luz do sol era ruim para os anões. Eu tinha quase certeza de que estava viajando com um anão que me deu um tapa na cara e salvou minha vida.
— Blitz?
Ele estava à minha esquerda, segurando o chapéu ao lado do corpo.
— Blitz, seu chapéu!
Eu estava com medo de ele já ter sido petrificado.
Blitz se virou. Seus olhos estavam enevoados e distantes.
— Está tudo bem, garoto. Isso não é luz do sol comum. Não estamos mais em Midgard.
Ele parecia estar falando com papel de seda na boca. O latido do esquilo tinha deixado meus ouvidos zunindo e pensamentos corrosivos sacudindo minha mente.
— Ratatosk...
Não consegui terminar a frase. Só a menção ao nome dele me dava vontade de me encolher em posição fetal.
— É — disse Blitz. — Seu latido é mesmo pior do que sua mordida. Ele... — Blitz olhou para baixo e piscou rapidamente. — Ele é a criatura mais destrutiva da Árvore do Mundo. Passa o tempo todo correndo para cima e para baixo pelo tronco, levando insultos da águia que mora no alto até Nidhogg, o dragão que vive nas raízes.
Olhei para as colinas. Uma música baixinha parecia vir daquela direção, ou talvez fosse só  impressão.
— Por que um esquilo faria isso?
— Para perturbar a árvore — explicou Blitz. — Ratatosk mantém a águia e o dragão em estado de agitação. Conta mentiras, boatos, fofocas horríveis sobre os dois. As palavras dele são capazes... Bem, você sabe o que as palavras dele são capazes de fazer. O dragão Nidhogg está sempre mastigando as raízes da Árvore do Mundo, tentando matá-la. A águia bate as asas e cria tempestades que arrancam galhos e provocam destruição pelos nove mundos. Ratatosk cuida para que os dois monstros fiquem zangados e competindo um com o outro, para ver qual consegue destruir sua ponta da Yggdrasill mais rápido.
— Mas isso é... loucura. O esquilo mora na árvore.
Blitz fez uma careta.
— Todos nós moramos, garoto. As pessoas têm impulsos destrutivos. Alguns de nós querem ver o mundo queimar só por diversão... mesmo se formos destruídos no processo.
As palavras de Ratatosk ecoavam na minha cabeça. Você fracassou. Você não foi capaz de salvar sua mãe. O esquilo me deixou desesperado, mas consegui ver como o guincho dele poderia despertar outras emoções: ódio, amargura, autodepreciação.
— Como você não ficou louco? — perguntei a Blitz. — Quando o esquilo guinchou, o que você ouviu?
Blitzen passou os dedos gorduchos pela aba do chapéu e segurou a beirada do véu preto.
— Nada que eu não diga a mim mesmo o tempo todo, garoto. Nós temos que ir.
Ele saiu andando na direção da colina. Apesar do passo curto, precisei me esforçar para acompanhá-lo.
Atravessamos um riacho onde um sapinho pitoresco estava sentado em uma flor de lótus. Pombas e falcões sobrevoavam o lugar como se estivessem brincando de pique-pega. Eu estava esperando que um coral de animais fofinhos aparecesse no meio das flores e começasse a cantar uma música da Disney.
— Acho que não estamos em Nídavellir — falei, enquanto subíamos a colina.
Blitzen soltou um risinho debochado.
— Não. Muito pior.
— Álfaheim?
— Pior — Blitzen parou antes do cume e respirou fundo. — Venha. Vamos acabar logo com isso.
No alto da colina, parei.
— Nossa.
Do outro lado, campos verdes se estendiam até o horizonte. Campinas estavam cobertas de toalhas de piquenique. Multidões ocupavam o espaço: comendo, rindo, conversando, tocando música, soltando pipa, jogando bola. Era o maior e mais relaxado show ao ar livre do mundo, só que não havia show. Algumas pessoas estavam vestidas com tipos variados de armaduras. A maioria carregava armas, mas não parecia muito interessada em usá-las.
Na sombra de um carvalho, duas jovens lutavam com espadas, mas, depois de alguns golpes, elas se entediaram, largaram as armas e começaram a conversar. Outro cara estava acomodado em uma cadeira de praia, flertando com a garota à sua esquerda enquanto se defendia dos ataques de um cara à direita.
Blitz apontou para o topo da colina seguinte, a uns oitocentos metros de distância, onde um estranho palácio brilhava. Parecia uma Arca de Noé de cabeça para baixo feita de ouro e prata.
— Sessrúmnir — disse Blitzen. — O Salão dos Muitos Assentos. Se tivermos sorte, talvez ela não esteja em casa.
— Quem?
Em vez de responder, ele se encaminhou para o meio da multidão.
Não tínhamos andado nem seis metros quando um cara sentado em uma toalha de piquenique ali perto gritou:
— Oi, Blitzen! E aí, cara?
Blitzen trincou os dentes com tanta força que consegui ouvi-los estalando.
— Oi, Miles.
— Ah, estou bem!
Miles levantou a espada distraidamente quando outro cara de sunga e regata cavada o atacava com um machado.
O atacante gritou:
— MORRA! Ha, ha, brincadeirinha.
Depois saiu andando, comendo uma barra de chocolate.
— E então, Blitz — continuou Miles — o que traz você à Casa dos Incríveis?
— É bom ver você, Miles.
Blitzen segurou meu braço e saiu me puxando.
— Tudo bem! — gritou Miles. — Volte mais vezes!
— Quem era? — perguntei.
— Ninguém.
— De onde você o conhece?
— Não conheço.
Enquanto seguíamos na direção da mansão de arca virada de cabeça para baixo, mais pessoas pararam para dar oi para Blitzen. Alguns me cumprimentaram e elogiaram minha espada, meu cabelo ou meus sapatos. Uma garota disse: “Ah, belas orelhas!”, o que não fez o menor sentido.
— Todo mundo é tão...
— Idiota? — sugeriu Blitzen.
— Eu ia dizer tranquilo.
Ele grunhiu.
— Aqui é Fólkvangr, o Campo do Exército... Ou podemos também traduzir como o Campo de Batalha do Povo.
— Então aqui é Volkswagen.
Observei a multidão, me perguntando se veria minha mãe, mas não conseguia imaginá-la em um lugar como aquele. Havia descanso demais e pouca ação. Minha mãe teria obrigado esses guerreiros a se levantarem e partirem para uma caminhada de quinze quilômetros, e ainda teria insistido que montassem o próprio acampamento se quisessem jantar.
— Não parece um exército.
— Pois é — disse Blitz — esses mortos são tão poderosos quanto os einherjar, mas o comportamento deles é diferente. Este reino é uma pequena subseção de Vanaheim, tipo, a versão de Valhala dos deuses vanires.
Tentei me imaginar passando a eternidade aqui. Valhala tinha pontos fortes, mas até onde vi, não tinha piqueniques nem bolas, e eu não a descreveria como tranquila. Ainda assim... não sabia se gostava tanto de Fólkvangr.
— Então metade dos mortos honrados vem para cá — relembrei — e metade vai para Valhala. Como escolhem quem vai para onde? Par ou ímpar?
— Isso faria mais sentido, na verdade.
— Mas eu estava tentando ir para Nídavellir. Por que viemos parar aqui?
Blitzen olhou para a mansão no alto da colina.
— Você estava procurando o caminho que deveríamos seguir para nossa missão. Esse caminho nos levou por Fólkvangr. Infelizmente, acho que sei por quê. Vamos prestar nossas homenagens antes que eu perca a coragem.
Quando nos aproximamos do portão, percebi que Sessrúmnir não tinha sido apenas construída para parecer um navio de cabeça para baixo. Era mesmo um navio de cabeça para baixo. As fileiras de janelas altas eram buracos para remo. As paredes curvadas do casco eram feitas de tábuas douradas encaixadas e presas com pregos prateados. A entrada principal tinha um toldo comprido que serviria como prancha.
— Por que é um barco? — perguntei.
— O quê? — Blitzen mexeu no cravo com nervosismo. — Não é tão incomum. Muitas construções dos seus ancestrais nórdicos eram barcos virados de cabeça para baixo. No caso de Sessrúmnir, quando o Dia do Juízo Final chegar, eles vão virar o palácio e voilà, é uma embarcação grande o suficiente para todos os guerreiros de Fólkvangr navegarem nobremente para a morte. Mais ou menos como estamos fazendo agora.
Ele me levou para dentro.
Eu estava esperando um interior escuro como o interior de um navio, mas o Salão dos Muitos Assentos parecia mais uma catedral. O teto ia até a quilha. As janelas de buraco para remo enchiam o ar com feixes de luz. O espaço todo era aberto, sem divisão de cômodos, apenas amontoados de sofás, cadeiras confortáveis, almofadas e redes que não estavam presas a nada, a maioria ocupada por guerreiros roncando. Esperava que o meio milhão de habitantes de Fólkvangr gostassem de ficar juntos, porque não havia privacidade nenhuma. Eu, claro, logo me perguntei qual seria o tamanho do banheiro.
No centro do salão havia um corredor de tapetes persas, ladeados por braseiros com esferas brilhantes de luz dourada. Na extremidade, um trono erguia-se em uma plataforma.
Blitz marchou nessa direção, ignorando os guerreiros que o cumprimentavam com “Oi, cara!” e “E aí, anão!” e “Bem-vindo de volta!”.
Bem-vindo de volta?
Na frente da plataforma havia fogo aconchegante estalando na lareira. Pilhas de joias e pedras preciosas cintilavam em alguns cantos, como se alguém as tivesse varrido só para tirar do caminho.
Dos lados da escadinha havia dois gatos malhados do tamanho de um tigre-dentes-de-sabre. O trono era entalhado em uma madeira tão macia e amanteigada quanto a luz; tília, talvez. As costas estavam cobertas com uma capa de penas delicadas, como a barriga de um falcão. No trono estava a mulher mais bonita que já vi.
Ela parecia ter uns vinte anos e estava cercada por uma aura de esplendor dourado que me fez perceber o que Blitzen quis dizer mais cedo, quando falou que a luz do dia ali não era normal. O reino todo de Fólkvangr era quente e iluminado, não por causa do sol, mas porque estava envolvido pelo poder daquela mulher.
O cabelo louro dela caía pelo ombro em uma única trança. A blusa de alcinha branca mostrava os ombros bronzeados e a barriga chapada. A saia até os joelhos tinha um cinto dourado trançado com uma faca embainhada e um molho de chaves. Ao redor do pescoço havia uma joia impressionante, um colar rendado de ouro e pedras preciosas, como a rede de Ran em miniatura, só que com rubis e diamantes em vez de almas de marinheiros e calotas.
A deusa grudou os olhos azul-claros em mim. Quando sorriu, uma intensa onda de calor foi das pontas das minhas orelhas até os dedos dos pés. Eu teria feito qualquer coisa para que ela ficasse sorrindo para mim. Se a mulher me mandasse pular da Árvore do Mundo para o abismo, eu teria obedecido na mesma hora.
Lembrei da imagem dela no meu velho livro de mitologia e percebi como subestimavam ridiculamente sua beleza.
A deusa do amor era muito bonita! Ela tinha gatos!
Eu me ajoelhei diante da minha tia, a irmã gêmea do meu pai.
— Freya.
— Meu querido Magnus — disse ela — como é bom conhecê-lo pessoalmente!
Ela se virou para Blitzen, que encarava as próprias botas de cara emburrada.
— E como você está, Blitzen? — perguntou a deusa.
Blitzen suspirou.
— Estou bem, mãe.

31 comentários:

  1. Queria estar tomando suco pra cuspir tudo como nos filmes

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    1. Kkkkk. Essa foi boa kkk

      Ezequiel

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  2. Essa realmente me surpreendeu
    -Tayná

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  3. MORRAA hodge la de novo kkk Caracas eu quase cospi a merenda agora primos serio kkkkkkk

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  4. Deuses do Olimpo... MEUS DEUSES DE TODAS AS MITOLOGIAS, ALGM POR FAVOR JUNTE MEU QUEIXO Q TA TÃO :0000 Q CAIU NO TÁRTARO

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  5. Ela se virou para Blitzen, que encarava as próprias botas de cara emburrada.
    — E como você está, Blitzen? — perguntou a deusa.
    Blitzen suspirou.
    — Estou bem, mãe.
    Kkkkkkkkkkk, tio Rick com suas surpresinhas xD

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  6. Estou D-E-S-M-A-I-A-D-A!!!
    Cuméquié?
    ohmeusdeuses!!!

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  7. Juliana está desmaiada :O
    Comassim?
    WTF?

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  8. "Nada que não digo a mim mesmo" me indentifiquei com essa frade

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  9. tipo depois de ler essa frase "formigas não subam na minha boca ela tá no chão por outro motivo!"

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  10. Agora eu entendi porque ele se arrumava tanto

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  11. — Aqui é Fólkvangr, o Campo do Exército... Ou podemos também traduzir como o Campo de Batalha do Povo.
    — Então aqui é Volkswagen. kkkk morri

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  12. tio Rick e suas surpresas
    Blitzen e Magnus são primos
    : o

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  13. "Esferas brilhantes de luz dourada."
    Não sei pq mas oq me deixou bugado foi lembrar das esferas dos dragão 😂😂😂 kkkkkk

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  14. Nossa estou chocado, cho-ca-do

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  15. Mais uma deusa do amor

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  16. Mais uma deusa do amor

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  17. Pessoal falando que o Magnus tava com medo no capítulo anterior, sem saber que era o esquilo que fazia isso!

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    1. Normal ter medo. Vai me dizer que vc não tem? Se eu tivesse no lugar do Magnus teria me borrado ou feito o que ele disse: Me coberto com o lençol, enfiado os dedos no ouvido e la la la, não está acontecendo la la la la não morri, continuo sendo um mendigo la la la

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  18. - Ah, então aqui é Volkswagen. Kkkkkkkk.

    MAGNUS e BLITZEN são primos? Uau, agora ta explicado pq Blitz se arruma tanto! Quantos mais parentes de Magnus vão aparecer? Tios, Annabeth, Blitz, Freya...

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  19. 1. Perdi 55 denários, q porra!
    2.QUE COMO COMASSIM ME PERDI AQUI DESCULPA EXPLIQUE SAPORRA WHAT,?????????????????

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  20. E eu que apostei 50 dracmas no teu palpite ¬.¬
    E Tio Rick surpreendeu com essa, PRIMOS CHOKEI

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  21. "Tá de brincadeira né?"Essa foi minha reação.
    ~Filha de Hermes

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