31 de outubro de 2015

Trinta e nove

No dia seguinte vou ao trabalho como se nada tivesse acontecido, determinada a superar aquele momento incômodo da praia, sem mencionar um passado compartilhado que Jude não se recorda e nunca chegou a dar frutos por uma razão.
Uma razão chamada Damen.
Mesmo eu me apressando, Miles e Haven conseguiram me alcançar se ambos apoiavam no balcão, flertando com Jude.
― O que estão fazendo? ― Eu pergunto, lutando para manter o pânico no mínimo enquanto olho para os três... uma triunfante Haven, um Miles com olhos brilhando, e mais que um pouco divertido Jude.
― Contando seus segredos, exagerando seus defeitos, oh, e convidando Jude para minha festa de despedida, sabe, no caso de você ter esquecido. ― Miles ri.
Olho para Jude, com as bochechas ruborizadas, insegura do que dizer. Ainda o olhando quando Haven adiciona:
― E para nossa sorte, ele estará livre nesse dia!
Eu caminho ao redor do balcão como se tudo estivesse perfeitamente bem, como se não pudesse me importar que o homem com que eu aparentemente passei os últimos séculos, o mesmo que minha alma gêmea está convencido de que eu tenho assuntos pendentes, estará festejando na minha sala em apenas alguns dias.
Haven pega o folheto de publicidade de Jude da turma de desenvolvimento psíquico e o põe na frente de meu rosto.
― E como você nunca mencionou isso? ― Ela franze o cenho. ― Estes tipos de coisas me interessam muitíssimo. Você sabe como eu estou totalmente metida nestas coisas. ― Ela se volta para sorrir para Jude.
― Sinto muito, mas eu de verdade não tive a intenção. ― Encolho os ombros, deixando cair minha bolsa debaixo do balcão e agarrando o banco, que está junto a Jude. Me recusando a estar de acordo com algo que não é nem remotamente certo, e me pergunto o quão rápido eu posso convencê-los a sair.
― Bem, eu estou. Estive por um tempo. ― Ela levanta sua sobrancelha, me olhando de maneira desafiadora, mas me nego a morder a isca. ― Felizmente, Jude disse me matricularia no curso. ― Ela adiciona com uma piscada.
Eu o fuzilei com os olhos, vendo que ele somente encolheu seus ombros e deu um passo para trás, retornando um momento depois com sua prancha debaixo do braço, nos dando adeus enquanto vai para fora.
― Não posso acreditar que o tenha mantido em segredo! ― Miles diz, no segundo que Jude se foi. ― Esse é o pior tipo de egoísmo! Especialmente quando já se tem um bonitão para si!
― Não posso acreditar que tenha mantido isto em segredo ― Haven diz, ainda elevando o folheto. ― Tem sorte que ele tenha me deixado entrar!
― Eu tenho sorte? ― Eu sacudo minha cabeça. A última coisa que preciso é Haven desenvolvendo qualquer habilidade psíquica escondida quando ela já intui muito, ou ao menos quando Damen e eu estávamos preocupados. ― No mais, as aulas já começaram, por isso ele disse que tentaria te colocar. ― Sabendo que eu farei o que for necessário para convencê-la a voltar atrás. ― E quanto ao trabalho? Não interferirá?
Ela sacudiu sua cabeça, virando-se para mim, mais determinada do que nunca.
― Não, eles são bons com o horário, não será um problema.
― Eles? ― Eu olhei para ela brevemente, antes de voltar para o livro de compromissos com a intenção de parecer desinteressada, sem compromissos, quando a verdade é, que me pus em alerta máximo.
― Os poderosos. ― Ela ri, me olhando. ― Meus chefes, ou o que quer que seja.
― Roman é um de seus chefes? ― Eu a olho, brevemente, antes de voltar à página.
― Chefe? Ele estuda lá no colégio, lembra-se? ― Ela sacode sua cabeça e olha para Miles, os dois trocando olhares que prefiro não ler.
― Eu passei lá ontem. ― Eu a estudo atentamente, espiando sua aura, sua energia, parando apenas tímido de espreitar em sua cabeça. ― Roman disse que você não estava lá.
― Ele me disse. Acho que nos desencontramos. ― Ela encolhe os ombros. ― Mas se você pensa que mudamos de assunto, está enganada. Então me diga, o que há com você e esse curso? ― Ela estica o folheto com sua unha pintada de roxo, com seu olhar no meu. ― Por que não quer que eu frequente? É porque você gosta de Jude?
― Não! ― Eu olho para os dois, sabendo que o disse muito rápido, muito forte, e só levantei suas suspeitas. ― Eu ainda estou com o Damen. ― Eu adiciono, sabendo que não é realmente verdade. Mas como posso admitir a eles quando não posso admitir isso eu a mim mesma. ― Só porque nunca está na escola não significa. — Eu me detenho e sacudo minha cabeça, sabendo que é melhor parar por aqui. ― Mas para que saiba, Honor se inscreveu, e eu supus que vocês não quisessem estar na mesma classe que ela.
Eu a fito, com a esperança de que com isso baste.
― Verdade? ― Ela e Miles boquiabertos, quatro olhos marrons acreditando em mim.
― E a Stacia? E Craig? ― Haven pergunta para saber se a equipe completa está dentro.
E inclusive, embora esteja tentada a mentir, eu nego com minha cabeça e digo:
― Não, somente ela. Estranho, hum?
A aura de Haven pisca e cresce, medindo os prós e contra de desenvolver suas habilidades psíquicas para fazer-se de valentona como Honor. Olhando ao redor da loja ela diz:
― Então, o que exatamente você faz aqui? Você dá consultas, estas coisas?
― Eu? Não! ― Eu pressiono meus lábios juntos e alcanço a caixa e os recibos, olhando-os só para evitar seu olhar penetrante.
― Então quem é esta garota Avalon? É boa?
Congelo-me, com os olhos oscilando entre eles, incapaz de falar.
― Ei, olá? Terra chamando Ever! O sinal, logo atrás de você, aquele que diz: RESERVE SUA LEITURA COM AVALON HOJE! ― Ela balança a cabeça e diz, ― Caramba, você realmente só está aqui pela sua boa aparência, não é?
― Me reserve. ― Miles diz. ― Eu vou amar consultar-me com Avalon. Talvez ela possa me dizer onde estarão todos os homens bonitos em Florença. ― Ele ri.
― Reserve-me também. ― Haven assente. ― Eu sempre quis uma leitura, e eu de verdade poderia ter uma agora. Ela está aqui? ― Ela olha ao redor.
Eu respiro fundo. Eu deveria saber que isso chegaria a isso. Damen me advertiu sobre isso.
― Ei, olá? ― Haven faz gestos, troca um olhar com Miles. ― Pode nos reservar uma leitura, por favor? Quero dizer, se você trabalha aqui, não?
Eu me estiro sob o balcão, agarrando o livro, folheando tão rapidamente as datas e os nomes são um borrão de letras pretas em branco. Fechando-o e guardando-o de novo quando digo:
― Ela está com todos os horários reservados.
―Tudo bem. ― Haven estreita seu olhar, totalmente sobre mim agora. ― E amanhã?
Eu sacudo minha cabeça
― Depois de amanhã.
― Sinto muito, tudo reservado.
― A próxima semana.
― Sinto muito.
― O próximo ano.
Encolho os ombros.
― Qual é seu problema? ― Ela olha de lado.
Eu me contive, vendo como os dois me olhavam, convencidos de que estou escondendo algo, eu a perdi completamente, ou os dois. Sabendo que preciso fazer algo para convencê-los quando digo:
― Eu só acredito que não deveriam desperdiçar seu dinheiro. Ela não é tão genial. Nós tivemos algumas queixas.
Miles sacode a cabeça. Me olhando quando diz:
― Que maneira de fechar um trato, Ever.
Mas Haven não se moveu, com o olhar fixo em mim, com sua cabeça assentindo lentamente enquanto ela adiciona:
― Bom, tenho certeza de que este não é o único lugar onde posso ter uma consulta. E por alguma razão, por alguma estranha e desconhecida razão, agora estou mais determinada que nunca. ― Deslizando sua bolsa em seu ombro e agarrando a mão de Miles, puxando-o enquanto se dirige à porta dizendo. ― Eu não sei o que há contigo, mas você tem agido de forma muito estranha. Mais estranho que o habitual.
Olhando sobre ombro e me lançando um olhar carregado que prefiro não interpretar.
― De verdade, Ever, se está com o Jude, então só me diga. Embora, quem sabe, queira dizer primeiro a Damen. Ele merece satisfação, não acha?
― Eu não estou com o Jude. ― Encolho os ombros, tentando parecer calma, mas falhando miseravelmente. Além disso não é como se importasse, eles já estão convencidos, todos estão convencidos. Todos menos eu. ― E confie em mim, não está acontecendo nada exceto nos finais de semana, planejando a festa de Miles, e todas as coisas usuais. ― Minha voz diminui, sabendo que nenhum de nós está acreditando.
― Então, onde está Damen? Por que já não o vemos aqui? ― Haven pergunta, enquanto Miles se junta a ela e assente. Me permitindo uns poucos segundos para responder antes de acrescentar. ―Sabe, amizades são supostamente para trabalhar em ambos os sentidos. Dando e recebendo confiança. Mas por alguma razão, você acha que tem que agir perfeitamente todo o tempo. Como se nada andasse mal em sua perfeita e bela vida. Como se nada te incomodasse ou te baixasse o ânimo. E eu estou aqui para te dizer que acredite ou não, Miles e eu lhe amaremos, mesmo se você tiver um momento ruim. Diabos, inclusive se tiver um dia ruim, nós ainda nos sentaremos contigo no almoço e lhe escreveremos bilhetes na aula. Porque confie em nós, Ever, não é como se estivéssemos comprando seu ato perfeito de qualquer forma.
Eu respirei fundo e assenti. É tudo o que posso fazer. Minha garganta está tão quente e apertada que não há maneira que possa falar. Sabendo que estão esperando, ambos, parados na porta, dispostos a ficarem assim até que eu diga a palavra de valor para confiar neles, me abrir e desabafar minhas mágoas para variar.
Mas não posso. Quem sabe como podem reagir, e já tenho problemas suficientes para resolver. Assim somente sorrio e me despeço, prometendo me pôr em dia com eles depois. Tentando não estremecer enquanto eles rolam os olhos e saem.

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