29 de outubro de 2015

Trinta e dois

— Então, o que aconteceu afinal? Procuramos por você em toda parte, mas não achamos. Pensei que você estivesse a caminho.
Rolo na cama, dando as costas para a janela e xingando a mim mesma por não ter inventado uma desculpa com antecedência, o que agora me coloca na terrível tarefa de improvisação.
— Eu estava, mas... Bom, de repente comecei a sentir umas cólicas e...
— Parou, parou — interrompe Miles. — Sério, não quero ouvir mais nada.
— Perdi alguma coisa? — pergunto e fecho os olhos para ler os pensamentos dele, as palavras rolando à minha frente como um letreiro de telejornal: Eca! Que nojo! Por que elas insistem em falar desses assuntos?
— Fora o fato de que Drina não apareceu? Não, nadica de nada. Passei a primeira parte da noite catando ela com Haven, e a segunda, tentando convencê-la de que a festa seria muito melhor sem ela. Olhe, juro por Deus, parece até que aquelas duas estão namorando. Nunca vi uma amizade tão sinistra assim. É verdade, Ever — ele diz sério, depois cai na gargalhada. Miles adora fazer piada com meu nome.
Arrastando o corpo, desço da cama e me dou conta de que este é o primeiro dia depois de uma semana que acordo sem ressaca. E mesmo sabendo que essa é uma ótima notícia, isso não muda o fato de que nunca me senti tão mal assim.
— Então, que tal a gente dar uma passada rápida no shopping e fazer umas comprinhas de Natal?
— Não vai dar — digo. — Ainda estou de castigo. — Vasculhando minha gaveta, encontro o moletom que ganhei de Damen na Disney e relembro aqueles dias que antecederam a grande virada, antes que minha vida passasse de muito estranha a definitivamente bizarra.
— Até quando vai esse castigo?
— Sei lá. — Jogo o celular sobre a cômoda e visto um moletom verde-limão, sabendo que tanto faz até quando vai meu castigo. Se quiser sair, saio, e daí? Basta chegar em casa antes de Sabine. Afinal de contas, não é lá muito fácil controlar alguém com meus poderes mediúnicos. Por outro lado, o castigo imposto por minha tia é a desculpa perfeita para que eu fique quietinha em casa, longe da energia caótica das multidões, e é basicamente por isso que tenho andado na linha.
Pego o telefone de volta a tempo de ouvir Miles dizer:
— Tudo bem. Então me liga quando estiver liberada de novo.
Visto os jeans e vou para a escrivaninha. Apesar da cabeça latejante, das mãos trêmulas e dos olhos que ardem, estou determinada a passar o dia longe do álcool, de Damen e das viagenzinhas ilícitas para o plano astral. Deveria ter sido mais insistente e exigido que ele me mostrasse como me proteger das intempéries da mediunidade. Quer dizer, por que a solução sempre acaba voltando para Ava?
Depois de um tempo, Sabine bate de leve na porta e viro quando ela entra no quarto, abatida e triste, os olhos vermelhos, a aura cinzenta com pontinhos escuros. Logo me dou conta de que tudo isso tem a ver com Jeff e com o fato de que ela finalmente descobriu a montanha de mentiras do picareta. Mentiras que eu poderia ter desmascarado desde o início, poupando minha tia de todo esse sofrimento, se não tivesse pensado primeiro em mim mesma.
— Ever — ela diz, parando ao lado de minha cama. — Andei pensando e... bem, não estou à vontade com essa história de castigo, e você já é quase uma adulta, merece ser tratada como tal, então decidi que...
Que já é hora de acabar com essa bobagem, penso, terminando a frase em minha cabeça. Mas quando percebo que a Sabine ainda atribui meu comportamento às perdas que tive, fico roxa de vergonha.
—... que já é hora de acabar com essa bobagem. — Ela sorri, um gesto de paz que não mereço. — Mas quem sabe você não mudou de ideia quanto à possibilidade de conversar com alguém, porque conheço um terapeuta que...
Faço que não com a cabeça antes que ela possa terminar, mesmo sabendo que suas intenções são as melhores possíveis. Não quero ouvir falar de terapia. E quando Sabine se vira para sair, de repente me vejo dizendo:
— Tia, que tal a gente jantar fora hoje?
Ela hesita diante da porta, claramente surpresa com a proposta.
— Por minha conta. — Abro um sorriso para encorajá-la, já me perguntando o que vou fazer para tolerar uma noite inteira num restaurante apinhado de gente. Quanto à conta, tudo bem, posso recorrer à grana que ganhei no hipódromo.
— Acho uma ótima ideia — ela diz, tamborilando os nós dos dedos na parede antes de sair para o corredor. — Chego em casa por volta das sete.
Assim que a porta bate lá embaixo, Riley cutuca minhas costas e berra:
— Ever! Ever! Você pode me ver?
— Caramba, Riley, você quase me mata de susto! E por que está berrando desse jeito? — Nem sei por que a recebo com todo esse mau humor, já que é uma grande felicidade ver minha irmã outra vez.
Ela balança a cabeça e joga-se na cama.
— Pra sua informação, faz dias que estou tentando falar com você. Achei até que você não podia mais me ver, já estava começando a pirar!
— Eu perdi minha capacidade. Mas só porque comecei a beber, acredita? E muito. Fui suspensa da escola e tudo mais. Uma confusão. — Balanço a cabeça em reprovação.
— Eu sei — ela assente com a cabeça, as sobrancelhas franzidas de preocupação. — Estava acompanhando tudo, muitas vezes pulando à sua frente, gritando, assobiando e batendo palma, fazendo qualquer coisa pra chamar sua atenção, mas você estava chapada demais pra me ver ou ouvir. Lembra aquela vez, quando a garrafa voou de suas mãos? — Riley sorri e dobra-se numa reverência. — Pois é, fui eu. Aliás, sorte sua eu não ter quebrado a porcaria da garrafa bem na sua cabeça. Que diabos aconteceu com você, garota?
Dou de ombros e baixo os olhos para o chão. Sei que devo uma explicação à minha irmã, qualquer uma que a deixe mais tranquila, mas não sei por onde começar.
— Sabe o que é? Essa energia toda a meu redor começou a me sufocar, eu não estava mais aguentando. E quando descobri que o álcool aliviava isso tudo, acho que quis prolongar a paz que estava sentindo, sabe? Não queria voltar pra confusão de antes.
— E agora?
— E agora... — Hesito, olhando para ela. — Agora voltei pra confusão de antes! Sóbria e miserável outra vez! — digo às gargalhadas.
— Ever... — Riley evita me encarar, até que consegue e diz: — Por favor, não fique brava comigo, mas acho que você deveria procurar Ava. — E antes que eu possa ter um ataque, ela ergue a mão e suplica: — Escute o que eu tenho a dizer, certo? Realmente acho que ela pode ajudá-la. Na verdade, sei que ela pode. Ela tem tentado, mas você não deixa. Mas agora... bem, é óbvio que você está ficando sem opções. Quer dizer, ou você volta a beber, ou passa o restante da vida trancada neste quarto, ou vai falar com a Ava. Ninguém precisa ser um gênio pra saber qual é a melhor opção, né?
Apesar da enxaqueca, balanço a cabeça, olho para ela e digo:
— Olha, sei que você está encantada com essa mulher e tal. Tudo bem, é uma escolha sua. Mas essa Ava não tem nada pra me oferecer, então... me poupe, vai. Não quero mais ouvir o nome dela.
Riley balança a cabeça, impaciente:
— Você está enganada, Ever. Porque Ava pode ajudá-la, sim. Além do mais, o que é que custa dar uma ligada pra ela?
Fico ali, chutando a beirada da cama e encarando o chão, remoendo o fato de que minha vida só fez piorar depois que a tal Ava apareceu. E quando finalmente levanto o rosto, percebo que a Riley não só trocou as fantasias de Halloween pelas roupas normais de uma garota de doze anos (jeans, camiseta e um par de All Star), mas também ficou mais embaçada, difusa, quase transparente.
— Que foi que aconteceu naquele dia em que você foi até a casa do Damen? — ela pergunta. — Vocês ainda estão juntos?
Mas não quero falar de Damen, nem saberia por onde começar. Além disso, sei que ela está tentando desviar o assunto, evitar qualquer comentário sobre seu novo aspecto.
— O que está acontecendo com você? — pergunto, a voz aguda e frenética. — Por que está desbotando assim?
Mas ela apenas sacode os ombros e diz:
— Não tenho muito tempo.
— Como assim,”não tem muito tempo”? Você vai voltar, né? — digo, quase gritando.
E sinto um frio na espinha quando ela se despede e vai embora, deixando em seu lugar um cartãozinho amassado com o telefone de Ava.

6 comentários:

  1. Aiin, vou sentir falta de Riley, mas acho que Ever deve deixar ela ir.... (Karina minha opinião eh um só ler? Kkk ) Ever liga logo para a Ava, acho que uma médium pode ajudar a outra (msm a Ever não sendo médium neh rsrs)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hum, não entendi o que vc quis dizer com "Karina minha opinião eh um só ler? " :P

      Excluir
  2. AWN a Ever n quer perder a irmã, mas a irmã dela tem q ir, eu acho q tbm ficaria mt triste se isso acontecesse cmg, mas sei lá né

    ResponderExcluir
  3. Amo esse livro... tem ele na wattpad tb <3 *-*
    ass: vanessa

    ResponderExcluir
  4. Essa enroleira quanto a ligar ou não pra Ava tá me irritando. Por que os personagens sempre são teimosos?

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!