18 de outubro de 2015

Treze - Phil, a batata, enfrenta seu destino

SOMOS PEGOS POR um tsunami de guerreiros famintos. Os einherjar surgiram de todos os lados, empurrando, fazendo piadas e rindo enquanto seguiam para seus lugares.
— Se segure — disse Sam.
Ela agarrou meu pulso e saímos voando, estilo Peter Pan.
Dei um grito.
— Que tal um aviso?
— Eu falei para você se segurar.
Nós voamos acima das cabeças dos guerreiros. Ninguém prestou muita atenção em nós, exceto um cara que chutei no rosto sem querer. Outras valquírias também voavam ao redor, algumas escoltando guerreiros, outras carregando travessas de comida e jarras.
Seguimos na direção do que era claramente a mesa principal, onde o time da casa se sentaria se estivéssemos em um jogo dos Celtics. Doze caras de aparência sinistra estavam sentados na frente de pratos dourados e cálices incrustados com pedras preciosas. No lugar de honra havia um trono de madeira vazio com dois corvos empoleirados, cuidando das penas. Sam aterrissou na mesa da esquerda. Mais doze pessoas se sentavam, duas garotas e quatro caras de roupas comuns, além de seis valquírias vestidas mais ou menos como Sam.
— Outros recém-chegados? — perguntei.
Sam assentiu, as sobrancelhas franzidas.
— Sete em uma única noite é muita coisa.
— Isso é bom ou ruim?
— Muitos heróis morrendo quer dizer que coisas ruins estão acontecendo no mundo. O que quer dizer... — Ela apertou os lábios. — Deixa pra lá. Vamos nos sentar.
Antes que tivéssemos a chance, uma valquíria entrou em nosso caminho.
— Samirah al-Abbas, o que você nos trouxe esta noite? Outro meio troll? Talvez um espião do seu pai?
A garota parecia ter uns dezoito anos. Era grande o bastante para ser jogadora de rugby, com cabelo louro quase branco preso em duas tranças caídas pelos ombros. Por cima do vestido verde, usava uma cartucheira cheia de martelos de bola, que me pareceram uma escolha estranha de arma. Talvez Valhala tivesse muitos pregos frouxos. Ao redor de seu pescoço havia um pingente dourado na forma de um martelo. Os olhos eram azul-claros e frios como um céu de inverno.
— Gunilla — a voz de Sam ficou tensa — este é Magnus Chase.
Eu estiquei a mão.
— Gorila? É um prazer conhecer você.
As narinas da garota se inflaram.
— É Gunilla, sou a capitã das valquírias. E você, recém-chegado...
A corneta que ouvi antes ecoou pelo salão. Desta vez, consegui ver de onde vinha. Perto da base da árvore, dois caras seguravam um chifre preto e branco do tamanho de uma canoa enquanto um terceiro cara soprava.
Milhares de guerreiros tomaram seus lugares. Gorila me olhou de cara feia uma última vez, deu meia-volta e se dirigiu à mesa principal.
— Tome cuidado — avisou Sam. — Gunilla é poderosa.
— Também é chata pra caramba.
O canto da boca de Sam tremeu.
— Isso também.
Ela parecia abalada, os nós dos dedos estavam esbranquiçados no cabo do machado. Eu me perguntei o que Gunilla quis dizer com espião do seu pai, mas como meu pescoço ainda estava doendo desde a última vez que irritei Sam, decidi não perguntar.
Eu me sentei na ponta da mesa junto com Sam, então não pude conversar com os outros novatos. Enquanto isso, centenas de valquírias voavam pelo salão, distribuindo comidas e bebidas. Sempre que a jarra de uma valquíria ficava vazia, ela voava até a tina dourada, agora borbulhando acima de uma fogueira, enchia a jarra com o hidromel feito do leite da cabra e continuava servindo. O prato principal saiu de um forno de terra do outro lado do salão. Girando em um espeto de uns trinta metros estava a carcaça de um animal. Eu não sabia bem o que era quando estava vivo, mas tinha o tamanho de uma baleia-azul.
Uma valquíria voou por nós e depositou um prato de comida e um cálice na minha frente. Não consegui identificar o que eram as fatias de carne, mas o cheiro estava delicioso: cobertas de molho, com batatas de guarnição e fatias grossas de pão com manteiga. Fazia um tempo que eu não comia uma refeição quente, mas hesitei mesmo assim.
— Que animal é esse?
Sam limpou a boca com as costas da mão.
— Se chama Saehrímir.
— Tudo bem, primeiro de tudo, que tipo de pessoa batiza o jantar? Não quero saber o nome do que estou comendo. Essa batata, por acaso ela se chama Steve?
Ela revirou os olhos.
— Não, seu burro. Ela se chama Phil. O pão é Steve.
Eu a encarei.
— Estou brincando — disse ela. — Saehrímir é o animal mágico de Valhala. Todos os dias ele é morto e assado para o jantar. Todas as manhãs, ressuscita vivo e bem.
— Isso deve ser um saco. Mas é uma vaca ou um porco ou...
— É o que você quiser que seja. Minha porção é de carne de vaca. Partes diferentes do animal são frango ou porco. Eu não como carne de porco, mas algumas pessoas daqui adoram.
— E se eu for vegetariano? E se quiser falafel?
Sam ficou tensa.
— Isso é uma piada?
— Por que seria piada? Eu gosto de falafel.
Seus ombros relaxaram.
— Se você quiser falafel, peça pela anca esquerda. Essa parte é de tofu. Dá para temperar para que fique com gosto de qualquer coisa.
— Vocês têm um animal mágico cuja anca esquerda é feita de tofu.
— Aqui é Valhala, paraíso dos guerreiros a serviço de Odin. A comida vai ser perfeita, seja lá qual for.
Meu estômago estava ficando impaciente, então mergulhei com tudo. A carne tinha a mistura certa de sabor apimentado e adocicado. O pão parecia uma nuvem quente com casca amanteigada. Até Phil, a batata, estava gostosa.
Como eu não era um grande fã de leite de cabra selvagem, fiquei relutante em experimentar o hidromel, mas o líquido no meu cálice parecia mais sidra gasosa.
Tomei um gole. Doce, mas não doce demais. Fria e leve, com sabores sutis que não consegui identificar. Era amora? Ou mel? Ou baunilha? Bebi tudo de uma vez.
De repente, meus sentidos estavam pegando fogo. Não era como álcool (e sim, eu já experimentei bebidas alcoólicas, vomitei, experimentei bebidas alcoólicas de novo, vomitei de novo). O hidromel não me deixou tonto, bêbado ou enjoado. Parecia mais um espresso gelado sem o sabor amargo. Fez com que eu despertasse e me encheu de uma sensação calorosa de confiança, mas sem o nervosismo e o coração disparado.
— Isso é bom — admiti.
Uma valquíria apareceu, encheu meu copo e saiu voando.
Olhei para Sam, que estava tirando farelos de pão do lenço.
— Você também trabalha servindo?
— É claro. Nós nos revezamos. É uma honra servir os einherjar. — Ela não pareceu falar com sarcasmo.
— Quantas valquírias existem?
— Milhares.
— Quantos einherjar?
Sam inflou as bochechas.
— Dezenas de milhares? Como falei antes, este é só o primeiro jantar. Há dois outros turnos para os guerreiros mais velhos. Valhala tem quinhentos e quarenta portões. Cada um é grande o suficiente para acomodar oitocentos guerreiros avançando para batalha ao mesmo tempo. Isso significaria quatrocentos e trinta e dois mil einherjar.
— É muito tofu.
Ela deu de ombros.
— Pessoalmente, acho o número exagerado, mas só Odin sabe ao certo. Vamos precisar de um bom exército quando o Ragnarök chegar.
— Ragnarök?
— O Dia do Juízo Final — disse Sam. — Quando os nove mundos serão destruídos em uma grande conflagração e os exércitos dos deuses e gigantes se encontrarão para lutar uma última vez.
— Ah. Esse Ragnarök.
Observei o mar de guerreiros adolescentes. Eu me lembrei do primeiro dia de aula do ensino médio na escola pública em Allston, alguns meses antes de minha mãe morrer e minha vida virar um inferno. A escola tinha uns dois mil alunos. Entre as aulas, os corredores eram puro caos. O refeitório parecia um tanque de piranhas. Mas não era nada em comparação a Valhala.
Apontei para a mesa principal.
— E aqueles caras cheios de frescura? A maioria parece mais velha.
— Eu não os chamaria de caras cheios de frescura — aconselhou Sam. — Eles são os lordes de Valhala. Cada um foi convidado pessoalmente por Odin para se sentar à mesa dele.
— Então o trono vazio...
— É para Odin. Sim. Ele... bem, faz um tempo que não aparece para o jantar, mas os corvos dele veem tudo e relatam para ele.
As aves me deixaram nervoso com aqueles olhos pretos brilhantes. Tive a sensação de que estavam particularmente interessadas em mim.
Sam apontou para as cadeiras à direita do trono.
— Ali está Erik Machado Sangrento. E aquele é Erik, o Vermelho.
— São muitos Eriks.
— Ali está Leif Erikson.
— Opa... mas ele não está de sutiã de metal!
— Vou ignorar esse comentário. Ali está Snorri. E nossa encantadora amiga Gunilla. E lorde Nelson e Davy Crockett.
— Davy... espere, é sério?
— Na ponta está Helgi, o gerente do hotel. Você já deve tê-lo conhecido.
Helgi parecia estar se divertindo, rindo com Davy Crockett e bebendo hidromel. Atrás da cadeira dele, o porteiro Hunding estava de pé, com expressão infeliz, descascando uvas com cuidado e as entregando uma por uma para Helgi.
— Qual é a história entre o gerente e Hunding?
Sam fez uma careta.
— Uma briga ancestral quando eles estavam vivos. Quando morreram, os dois vieram para Valhala, mas Odin homenageou mais Helgi. Ele o colocou como gerente do hotel. A primeira ordem de Helgi foi fazer de seu inimigo, Hunding, seu servo por toda a eternidade.
— Isso não me parece o paraíso para Hunding.
Sam hesitou. Em voz baixa, ela disse:
— Mesmo em Valhala, há uma hierarquia. Você não vai querer estar por baixo. Lembre-se, quando a cerimônia começar...
Na mesa principal, os lordes começaram a bater com os cálices na mesa ao mesmo tempo. Por todo o salão, os einherjar se juntaram a eles, até o Salão dos Mortos inteiro trovejar com o retinir do metal.
Helgi se levantou e ergueu o cálice. O barulho cessou.
— Guerreiros! — A voz do gerente se espalhou pelo salão. Ele parecia tão nobre que era difícil acreditar que era o mesmo cara que poucas horas antes tinha me oferecido um upgrade de quarto e a chave do frigobar. — Sete novos guerreiros se juntaram a nós hoje! Isso já seria motivo suficiente para comemoração, mas temos um presente especial para vocês. Graças à capitã das valquírias, Gunilla, hoje, pela primeira vez, não vamos apenas ouvir sobre os feitos valorosos dos recém-chegados, mas vamos poder vê-los!
Ao meu lado, Sam pareceu engasgar.
— Não — murmurou ela. — Não, não, não...
— Que a apresentação dos mortos comece! — exclamou Helgi.
Dez mil guerreiros se viraram e olharam na minha direção com expectativa.

23 comentários:

  1. — Que animal é esse?
    — Se chama Saehrímir.
    — Tudo bem, primeiro de tudo, que tipo de pessoa batiza o jantar? Não quero saber o nome do que estou comendo. Essa batata, por acaso ela se chama Steve?
    — Não, seu burro. Ela se chama Phil. O pão é Steve.
    — Saehrímir é o animal mágico de Valhala. Todos os dias ele é morto e assado para o jantar. Todas as manhãs, ressuscita vivo e bem.
    — E se eu for vegetariano? E se quiser falafel?
    — Se você quiser falafel, peça pela anca esquerda. Essa parte é de tofu. Dá para temperar para que fique com gosto de qualquer coisa.
    — Vocês têm um animal mágico cuja anca esquerda é feita de tofu.
    PORQUE NÃO?
    EU QUERO UM DE MORANGO COM LEITE CONDENSADO POR FAVOR
    VLW

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  2. ai meus deuses ... (seja de qual for a mitologia)

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    1. caçadora de Artermis5 de janeiro de 2016 17:57

      por Odim
      por Zeus
      por Jupiter e
      por Ra

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  3. Kkkkk E la se foi o padrasto de percy kkkkk Ou esse eo cara de crepusculo??? Esqueci mas oq importa eq ele morreu..

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  4. e do percy
    e do leo
    e de gregos em geral

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  5. — Que animal é esse?
    Sam limpou a boca com as costas da mão.
    — Se chama Saehrímir.
    — Tudo bem, primeiro de tudo, que tipo de pessoa batiza o jantar? Não quero saber o nome do que estou comendo. Essa batata, por acaso ela se chama Steve?
    Ela revirou os olhos.
    — Não, seu burro. Ela se chama Phil. O pão é Steve.
    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK MORTA X-X

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  6. Isso me lembra que o tio Rick precisa fazer um livro explicando o que acontecel com o leo :'(

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  7. Gostei muito da Sam <3
    Magnus é uma mistura de Leo e Percy. Sam é como a Annabeth e a Hazel <3

    Ale Puppet aqui. Karina, já leio pelo seu blog há anos, mas é meu primeiro comentário. Eternamente grata !

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    1. Hey, Ale! Bem-vinda aos comentadores então :)

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    2. Eu acho que a sam parece uma mistura da ababeth com a Rachel Anabeth pelo lado heroico e por acolher ele como a anabeth no ladrao de raios e Rachel por ser uma mortal comum que sabe dos deuses pa e não sei oq lá

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    3. SE isso for verdade pode ser considerado um spole, porém creio eu que Sam pode ser filha de Loke. Portanto ela é diferente de Rachel.

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  8. — Não, seu burro. Ela se chama Phil. O pão é Steve. Morta kakakakaka kakakakaka Annabeth saudade de vc,perae isso acontece durante a Batalha do labirinto certo ?Então Annabeth ta agora no labirinto,isso significa que ela não vai aparecer? Ele conhece o Jason em um capítulo,como se ele está morto? Tantas perguntas.

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    1. ????????????

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    2. Acho que é depois de HDO. Pense comigo; o Magnus diz que não vê a Annabeth há dez anos, e que a ultima vez que ele a viu, Annie disse que ia fugir de casa. Como a Sabidinha fugiu com 7, hj ela teria dezessete anos. Então não tem como ser na época da batalha do labirinto, até pq em um capitulo ele diz que o Heather desmaia mais que o Jason, e na Batalha do Labirinto, ninguém conhecia o Jason ainda.

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  9. O Magnus é exatamente como imaginei o filho da Anna e do Percy.

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  10. Água,chifres,cuspe de gigantes, vou ficar traumatizado o resto da vida...

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  11. MAAAAAAAAAAAAAAAANO eu gelei por ele kkkkk

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    1. eu sabia que isso ia acontecer,odeio quando isso acontece ,tenso

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  12. " A carne tinha a mistura certa de sabor apimentado e adocicado."
    Será que é só eu que tenho a impressão de que Tio Rick gosta desse tipo de carne? '-' ele menciona esse tipo de sabor (na realidade, ANNABETH menciona) no livro A Casa de Hades...

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  13. "hoje, pela primeira vez, não vamos apenas ouvir sobre os feitos valorosos dos recém-chegados, mas vamos poder vê-los!
    Ao meu lado, Sam pareceu engasgar.
    — Não — murmurou ela. — Não, não, não..."

    Isso num vai dar boa coisa.

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