30 de outubro de 2015

Três

Mesmo dormindo até tarde, ainda sou capaz de sair pela porta e chegar a Miles a tempo. Acho que é porque não me leva tanto tempo ficar pronta agora que Riley não está por aqui para me distrair. E mesmo quando me incomodava a maneira com que ela costumava se empoleirar no meu armário com seu traje de Halloween enquanto me interrogava sobre namorados e criticando minha roupa, desde que eu a convenci a seguir em frente, de cruzar a ponte até onde nossos pais e nosso cachorro Buttercup esperavam, não podia vê-la.
O que quero dizer é que ela estava certa. Só posso ver os espíritos que ficaram para trás, não aqueles que atravessaram.
E sempre que penso em Riley, minha garganta se contrai e meus olhos começam a coçar, e me pergunto se alguma vez vou me acostumar com o fato dela ter ido. Quero dizer, ido de forma permanente e irreversível. Mas suponho que já deveria saber o suficiente sobre perdidos para perceber que você nunca deixa de surpreender as pessoas – aprender a viver através do enorme vazio de sua ausência.
Enxugo meus olhos e paro esperando por Miles, recordando a promessa de Riley, de que me enviaria um sinal, algo para mostrar que está bem. E mesmo estando atenta ao juramento, me mantendo alerta, atenta a qualquer indício de sua presença – até agora não consegui nada.
Miles abre a porta e justo quando vou dizer Oi, ele levanta sua mão e diz:
— Não fale. Apenas olhe meu rosto e me diga o que vê. Qual é a primeira coisa que percebe? E não minta.
— Seus lindos olhos castanhos — digo, escutando os pensamentos em sua cabeça e desejando, não pela primeira vez, poder mostrar a meus amigos como proteger seus pensamentos e mantê-los privados. Mas isso seria divulgar meu poder de ler mentes, sentir auras, psiquicamente conhecer segredos, e não posso fazer isso.
Miles balança a cabeça e entra no carro, aproximando-se do espelho retrovisor e examinando seu queixo.
— Você é uma droga de mentirosa. Olhe, está bem aqui! Como um farol brilhante e vermelho, você não pode ignorar, por isso nem tente fingir que não vê.
Olho de relance pra ele enquanto saio da entrada da sua casa, vendo a espinha que se atreveu a aparecer em seu rosto, embora sejam as unhas pintadas de rosa que me chama a atenção.
— Lindas unhas. — Eu rio.
— É pra minha peça. — Ele sorri, ainda olhando seu queixo. — Não posso acreditar nisso! É como se eu estivesse caindo totalmente justo quando tudo estava caminhando perfeitamente. Os ensaios estão ficando ótimos, eu sei todas as minhas falas assim como de todos os outros... Eu achava que estava totalmente preparado, e agora isto! — Ele aponta para seu rosto.
— São só os nervos. — Digo, olhando pra ele justo quando o sinal fica verde.
— Exatamente — ele assente. — O que prova que eu sou um amador. Para os profissionais, os profissionais de verdade, não ficam nervosos. Basta entrar na zona criativa e... Criar. Talvez eu não esteja pronto pra isso. — Ele me olha, seu rosto tenso de preocupação. — Talvez tenha tido sorte de ganhar o papel principal.
Eu olho de relance pra ele, recordando como Drina disse que tinha entrado na cabeça do diretor para que elegesse Miles. Mas mesmo que isso seja verdade, não quer dizer que ele não consiga lidar com isso. Isso não significa que ele não seja o melhor.
— Isso é ridículo. — Balanço a cabeça. — Muitos atores ficam nervosos, sofrem de medo do palco ou o que seja. Realmente. Você não vai acreditar na quantidade de histórias que Riley conhecia... Eu paro, os olhos enormes, a boca aberta, sabendo que não posso terminar essa frase. Que não posso divulgar as histórias que minha irmãzinha morta me contou espionando as estrelas de Hollywood. — De qualquer forma, você não usa, tipo, uma tonelada de maquiagem?
Ele me olha.
— Sim. Então. Qual é o ponto? A peça é na sexta-feira, no qual, para sua informação, é amanhã. Isso nunca vai desaparecer até lá.
— Talvez. — Eu dou de ombros. — Mas o que eu quis dizer é que você pode usar maquiagem para cobri-la.
Miles revira os olhos e protesta.
— Oh, assim eu posso ostentar um enorme farol cor de carne ao invés disso? Você já olhou pra essa coisa? Não tem como disfarçar isso. Isso tem DNA próprio! Está fazendo sombra!
Eu estaciono na escola, no lugar que geralmente uso, ao lado da lustrosa BMW de Damen. E quando olho para Miles novamente me sinto atraída a tocar seu rosto. Como se meu dedo indicador estivesse inexplicavelmente atraído para a ferida em seu queixo.
— O que você está fazendo? — Ele pergunta, se afastando.
— Só... Só estava parada. — Sussurro, sem ter ideia do que estou fazendo, ou por que ainda estou fazendo. A única coisa que sei é que meu dedo tem um destino em mente.
— Bem não – toque nisso! — Ele grita, no exato momento que eu faço contato. — Genial, isso é genial. Agora isso provavelmente tem o dobro do tamanho. — Ele balança a cabeça e sai do carro, e eu não posso evitar sentir-me desapontada ao ver que a espinha ainda continua lá.
Suponho que estava esperando ter desenvolvido algum tipo de habilidade curativa. Desde que Damen me disse, logo após eu decidir aceitar meu destino e começar a beber o suco imortal, que eu poderia esperar algumas mudanças, qualquer coisa ligada a minhas habilidades psíquicas super-elevadas (o que não estava esperando com ansiedade), habilidades físicas super-elevadas (algumas poderiam certamente ter alguns benefícios) ou alguma outra coisa (como a habilidade de curar os outros, o que tem meu voto já que seria muito legal), eu tenho estado à espera de algo extraordinário. Mas até agora, a única mudança são alguns centímetros a mais, o que realmente não faz muito por mim a não ser me obrigar a comprar jeans novos. E isso provavelmente aconteceria de uma forma ou de outra eventualmente.
Peguei minha mochila e desci do carro, meus lábios encontrando-se com os de Damen no momento em que ele apareceu ao meu lado.
— Ok, sério. Quanto tempo mais isso vai durar?
Ambos nos separamos e olhamos para Miles.
— Sim, estou falando com vocês. — Ele balança os dedos. — Todos esses beijos, e abraços, e não vamos esquecer dos sussurros constantes. — Ele entrecerra os olhos.
— Realmente. Pensei que já haviam superado isso agora. Quero dizer, não me interpretem mal, estamos todos muito felizes que Damen voltou para a escola, de que vocês tenham se encontrado novamente, e que seguramente vão viver felizes para sempre. Mas de verdade, não acham que já é tempo de talvez tentar e diminuir um pouquinho? Porque alguns de nós não somos tão felizes como vocês. Alguns de nós somos um pouco privados do amor.
— Você está privado do amor? — Eu rio, um pouco ofendida pelo o que acaba de dizer, sabendo que tem mais a ver com sua ansiedade com a peça do que com Damen e eu. — O que aconteceu com Holt?
— Holt? — Ele balança a cabeça. — Nem sequer me fale sobre Holt! Nem sequer vá por esse caminho, Ever! — Ele balança a cabeça e se vira, dirigindo-se até Haven que está na porta esperando.
— Qual é o problema dele? — Damen pergunta, pegando minha mão e entrelaçando nossos dedos, me olhando com os olhos cheios de amor, apesar do que aconteceu ontem.
— Amanhã é a noite de abertura — dou de ombros — então ele está assustado, tem uma espinha no queixo, e naturalmente, decidiu nos fazer responsáveis. — Digo, olhando enquanto Miles pega Haven pelo braço e se dirige para a classe.
— Não vamos falar com eles. — Ele disse, olhando por sobre os ombros para nós. — Estamos em greve até que parem de agir tão apaixonados, ou até que essa espinha desapareça, qualquer um que vier primeiro. — Ele confirma, só meio brincando.
Haven sorriu e foi com ele, enquanto Damen e eu caminhamos para a Aula de Inglês. Passando justamente em frente de Stacia Miller que sorri pra ele e tenta me fazer tropeçar.
Mas no momento em que ela está colocando sua mochila no meu caminho, esperando me humilhar quando eu cair, a vejo levantar, e eu sinto chocar-se – direto no joelho dela. E mesmo que eu sinta a dor também, eu ainda estou contente de ter feito isso.
— Owww! — Ela protesta, esfregando seu joelho e me olhando, mesmo quando não tem nenhuma evidência de que eu seja de alguma forma a responsável.
Mas eu só a ignoro e me sento em meu lugar. Teria sido melhor ignorá-la. Desde que ela fez com que me suspendesse por beber no colégio, tenho feito o possível para ficar fora de seu caminho... Às vezes não posso comigo mesma.
— Você não deveria fazer isso — sussurra Damen, tentando um olhar severo enquanto se inclina pra mim.
— Por favor. É você que quer que eu pratique manifestação — Dou de ombros. — Parece que as lições estão dando resultados.
Ele me olha balançando a cabeça e disse:
— Veja só, é pior do que eu imaginava, porque para sua informação o que você fez foi psicocinese e não uma manifestação, viu como aquelas lições estão finalmente começando a dar resultados?
— Psico... O quê? — Eu envesgo os olhos, sem saber o que o termo significa, embora tenha sido realmente divertido.
Ele pega a minha mão, um sorriso no canto dos lábios enquanto diz:
— Eu estava pensando...
Olho para o relógio, vendo que já passaram 5 minutos desde as nove e sabendo que o Sr. Robins está deixando a sala dos professores.
— Sexta à noite. O que você me diz de ir a algum lugar... Especial? — Ele sorri.
— Como Summerland? — Olho para Damen, meus olhos enormes e brilhantes enquanto meu pulso se acelera. Tenho estado querendo voltar a esse lugar mágico e místico. A dimensão entre dimensões, onde posso manifestar oceanos, elefantes, e posso mover as coisas maiores do que projetar bolsas Prada – só preciso de Damen para chegar lá.
Mas ele apenas sorri e balança a cabeça.
— Não. Não Summerland. Embora nós retornaremos lá, eu prometo. Estava pensando em algo mais assim como o Montage, ou o Ritz, talvez? — ele levanta as sobrancelhas.
— Mas a peça de Miles é na sexta e eu prometi que estaria lá — digo, me dando conta como convenientemente havia esquecido a peça quando pensei que se tratava de Summerland. Mas agora que Damen quer ir a um dos hotéis mais caros – minha memória voltou de imediato.
— Ok, então, que tal depois da peça? — ele ofereceu. Mas enquanto me olha, quando vê como hesito, como pressiono meus lábios procurando uma forma educada de dizer que não, ele acrescenta. — Ou não. Só foi uma ideia.
Olho pra ele de relance, sabendo que preciso aceitar, que quero aceitar. Escutando a voz em minha cabeça que diz: Diga sim! Diga sim! Você prometeu que iria dar o passo adiante, sem olhar pra trás, essa é sua chance – só vá em frente e faça isso! Apenas! Diga! Sim!
Mas mesmo sabendo que é tempo de seguir adiante, mesmo amando Damen com todo meu coração, e estou determinada a deixar seu passado pra trás e dar o próximo passo, o que sai da minha boca é totalmente diferente.
— Nós veremos — digo, evitando seu olhar e concentrando-me na porta, justo quando o Sr. Robins entra.

14 comentários:

  1. Fernanda Boaventura4 de novembro de 2015 22:03

    Já tô até vendo, a Ever vai começar a me irritar!

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  2. Poxa! Ela tem um gato como o Damen e não aproveita? Se não quer dar ele para mim!
    Ass: Bina.

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    1. Concordo,e a mesma coisa de ter um carro de luxo e não usar

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  3. Se fosse eu ja tinha dado pra ele kkkkkkkkkkk! O cara espera seisentos anos e agora nem isso ele pode ter!
    Ass: lia

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  4. Li a sinopse e já estou com dó dele... ainda mais com a Ever "recuando" dele. Já está me deixando incomodada com essa história
    -Camila

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  5. Awn, Ever, vc faz a gente sofrer! pq não dá pra ele? transem, pfv! q saco Alyson, esses altores! fazem livros tão bons, mas os protaonistas (claro, mulheres) não transam! ou por causa do homem ou por causa da mulher, nos livros de ACADEMIA DE VAMPIROS, ela queria, mas claro, n confessava, e agr aki, é ela q n quer e ele da na cara dela que ta louco pra tirar a bendita virgindade dela, 600 anos, sempre tentando tirar essa virgindade, e ela sempre recua, TRANSEM POR FAVOR!

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  6. Não sei não..., fico triste por ela ainda não ter feito, porém é melhor não fazer se não estiver preparada!!

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  7. Aii que menina chata , pelo Anjo !!! já está começando a me irritar !!

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  8. A Ever ja esta me deixando com raiva

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  9. Pelo visto não sou a única a começar a ter raiva da Ever.

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  10. Porque será que todos os livros bons tem umas partes que os personagens irritam a gente... Mas não conseguimos parar de ler?

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  11. Tosca D+.... Ela Ta Começandp A Me Anciar Jaah 😣😂 Ela Ta Boba D+... Td O Tempo do Mundo, Mas Nem Tanto Nean...

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