18 de outubro de 2015

Três - Não aceite carona de parentes estranhos

BEM, FELIZ ANIVERSÁRIO para mim!
Já era dia 13 de janeiro? Sinceramente, eu não fazia ideia. O tempo voa quando se dorme debaixo de pontes e se come o que consegue encontrar no lixo.
Então eu tinha dezesseis anos. O meu presente foi ser encurralado pelo tio Bizarro, que anunciou que eu estava marcado para morrer.
— Quem... — comecei a perguntar. — Quer saber? Deixa pra lá. Foi bom ver você, Randolph. Vou embora agora.
Randolph ficou parado na frente da porta, bloqueando minha passagem. Ele apontou a bengala para mim. Juro que consegui sentir a ponta de ferro cutucando meu peito do outro lado da sala.
— Magnus, precisamos conversar. Não quero que eles peguem você. Não depois do que aconteceu com sua mãe...
Um soco na cara teria sido menos doloroso.
Lembranças daquela noite surgiram em minha mente como um caleidoscópio doentio: nosso prédio estremecendo, um grito vindo do andar de baixo, minha mãe, que naquele dia estava tensa e paranoica, me arrastando para a escada de incêndio, me mandando fugir. A porta arrebentada e caída. Do corredor, dois animais surgiram, com pelagem da cor de neve suja, olhos azuis brilhando. Meus dedos escorregaram no corrimão da escada de incêndio e eu caí em uma pilha de sacos de lixo no beco abaixo. Momentos depois, as janelas do nosso apartamento explodiram em labaredas.
Minha mãe me mandou fugir. Eu fugi. Ela prometeu que me encontraria. Mas nunca me encontrou.
Mais tarde, no noticiário, eu soube que o corpo dela fora encontrado nos escombros do incêndio. A polícia estava me procurando. Eles tinham perguntas: sinais de incêndio criminoso, meu registro de problemas disciplinares na escola, os relatos dos vizinhos de gritos e um estrondo alto vindo do nosso apartamento logo antes da explosão, o fato de eu ter fugido do local. Nenhum dos relatos mencionava lobos com olhos brilhantes.
Desde aquela noite, eu me escondo, vivo incógnito, ocupado demais em sobreviver para ficar de luto pela minha mãe, me perguntando se imaginei aqueles lobos... mas eu sabia que não. Agora, depois de tanto tempo, tio Randolph queria me ajudar.
Segurei a pedrinha de dominó com tanta força que machuquei a palma da minha mão.
— Você não sabe o que aconteceu com a minha mãe. Nunca ligou para a gente.
Randolph baixou a bengala. Apoiou-se pesadamente nela e olhou para o tapete. Quase consegui acreditar que eu tinha magoado os sentimentos dele.
— Eu implorei à sua mãe — disse ele. — Queria que ela trouxesse você para cá, para ficar onde eu pudesse protegê-lo. Ela se recusou. Depois que ela morreu... — Ele balançou a cabeça. — Magnus, você não faz ideia de há quanto tempo eu estou procurando por você e nem do tamanho do perigo que o cerca.
— Eu estou ótimo — falei com rispidez, apesar de meu coração estar martelando contra minhas costelas. — Consegui me virar muito bem sozinho todos esses anos.
— Talvez, mas esses dias acabaram. — A certeza na voz de Randolph me fez sentir um arrepio. — Você tem dezesseis anos agora, já é um homem. Escapou deles uma vez, na noite em que sua mãe morreu. Eles não vão deixar você escapar de novo. Essa é nossa última chance. Se não me deixar ajudá-lo, você não sobreviverá até o fim do dia.
A luz fraca de inverno se deslocou pelo vitral acima da janela e banhou o rosto de Randolph com diversas cores, como um camaleão.
Eu não devia ter ido lá. Idiota, idiota, idiota. Repetidamente, minha mãe me passou uma mensagem clara: Fique longe de Randolph. Mas lá estava eu.
Quanto mais o ouvia, mais apavorado ficava, e mais desesperadamente queria ouvir o que ele tinha a dizer.
— Não preciso da sua ajuda. — Coloquei a pecinha estranha de dominó na mesa. — Não quero...
— Eu sei sobre os lobos.
Isso me fez parar.
— Sei o que você viu — prosseguiu ele. — Sei quem mandou as criaturas. Independentemente do que a polícia possa pensar, sei como sua mãe realmente morreu.
— Como...
— Magnus, tem tanta coisa que preciso contar para você sobre seus pais, sobre seu legado...
Sobre seu pai.
Um arrepio gelado desceu pela minha espinha.
— Você conheceu meu pai?
Eu não queria dar nenhuma vantagem a Randolph. Viver na rua me ensinou o quanto qualquer vantagem podia ser perigosa. Mas ele me fisgou. Eu precisava ouvir sobre aquilo. E a julgar pelo brilho que vi nos olhos dele, ele já sabia.
— Conheci, Magnus. Sei a identidade do seu pai, sei sobre o assassinato de sua mãe, sei o motivo de ela ter recusado minha ajuda... está tudo ligado. — Ele indicou a vitrine de artigos vikings. — Durante toda a minha vida, venho trabalhando com um único objetivo. Estou tentando solucionar um mistério histórico. Até pouco tempo atrás, eu não via como tudo se conectava. Agora, vejo. Tudo levava a este dia, seu décimo sexto aniversário.
Recuei alguns passos, até minhas costas baterem na janela, o mais longe que consegui ficar de tio Randolph.
— Olhe, não entendo noventa por cento do que você está falando, mas se você pode me contar sobre meu pai...
A casa tremeu, como se uma série de canhões tivesse sido disparada ao longe; foi um ribombar tão grave que senti nos dentes.
— Eles vão chegar aqui logo — avisou Randolph. — Estamos ficando sem tempo.
— Quem são eles?
Randolph se aproximou mancando, se apoiando na bengala. O joelho direito não parecia dobrar.
— Sei que estou pedindo muito, Magnus. Você não tem motivo para confiar em mim. Mas precisa vir comigo agora. Sei onde está sua herança. — Ele apontou para os velhos mapas na mesa. — Juntos, podemos recuperar o que é seu por direito. É a única coisa que pode proteger você.
Olhei por cima do ombro, pela janela. No Commonwealth Mall, Hearth havia desaparecido. Eu devia ter feito o mesmo. Encarei tio Randolph e tentei ver alguma semelhança com minha mãe, qualquer coisa que pudesse me inspirar a confiar nele. Não encontrei nada. A estatura imponente, os olhos escuros intensos, o rosto sério e o jeito rígido... ele era o exato oposto de minha mãe.
— Meu carro está estacionado lá atrás — disse ele.
— T-Talvez devêssemos esperar Annabeth e tio Frederick.
Randolph fez uma careta.
— Eles não acreditam em mim. Nunca acreditaram. Por desespero, como último recurso, eu os trouxe a Boston para me ajudarem a procurar você, mas agora que você está aqui...
A mansão tremeu de novo. Desta vez, a origem do tremor pareceu estar mais perto e mais forte. Eu queria acreditar que era de uma construção ou de uma cerimônia militar, ou de qualquer coisa facilmente explicável. Mas meus instintos me diziam outra coisa. O barulho parecia o pisar de um pé gigantesco, como o estrondo que sacudiu nosso apartamento dois anos antes.
— Por favor, Magnus. — A voz de Randolph tremeu. — Eu perdi a minha família para esses monstros. Perdi minha esposa, minhas filhas.
— Você... você tinha família? Minha mãe nunca disse nada...
— Não, ela nunca diria. Mas sua mãe... Natalie era minha única irmã. Eu a amava. Odiei perdê-la. Não posso perder você também. Venha comigo. Seu pai deixou uma coisa para você, algo que vai mudar o destino dos mundos.
Perguntas demais surgiram em meu cérebro. Não gostei do brilho de loucura nos olhos de Randolph. Não gostei da forma como meu tio disse mundos, no plural. E não acreditei que ele estava tentando me encontrar desde que minha mãe morreu. Eu tinha ficado de olho. Se Randolph estivesse perguntando por mim, um dos meus amigos da rua teria me avisado, como Blitz fez naquela manhã com Annabeth e Frederick.
Alguma coisa tinha acontecido, algo que fez Randolph decidir que valia a pena me procurar.
— E se eu fugir? — perguntei. — Você vai tentar me impedir?
— Se você fugir, eles vão encontrar você. Vão matar você.
Minha garganta parecia cheia de bolas de algodão. Eu não confiava em Randolph. Infelizmente, acreditava que ele estava sendo sincero quanto a haver gente querendo me matar. A voz dele parecia sincera.
— Muito bem, então — concordei — vamos dar uma volta.

37 comentários:

  1. não acreditaram nele? ou ficaram com medo do que ele poderia descobrir se dissessem que acreditam? uuuhhhh dúvidas, dúvidas :v

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    1. Toda maldita vez que a Annabeth se acostuma com um universo, aparece outro. Ela disse isso :/

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    2. Magnus chase se passa depois de HDO? Eu so li ate Marca de Atena. Se ele se passar antes de HDO, eu nao vejo motivo pra Annaneth esconder dos Gregos por tanto tempo.

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    3. Magnus chase se passa depois de HDO? Eu so li ate Marca de Atena. Se ele se passar antes de HDO, eu nao vejo motivo pra Annaneth esconder dos Gregos por tanto tempo.

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    4. duvidas muitas duvidas

      ~coruja

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    5. Né! Coitada da garota. Gregos, romanos, egípcios, nórdicos... todos os deuses existem, de todas as mitologias?

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    6. Acho que o Rick Riordan aos escrever livros de mitologia achou interessante fazer elas terem contato

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    7. Nossa, será??!
      Acho que se eles se juntarem, se matam antes das apresentações!

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    8. Ótimo. Agora o Rick nos deve um crossover das 3 mitologias juntas. Coitados da Annabeth e do Carter se juntassem: Percy, Sadie e Magnus <3

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    9. O tio Rick podia fazer uma série de mitólogia indiana

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    10. Percy Sadie e Magnus e..Leo (supondo que ele esteja vivo e tenha voltado pro acampamento) escreveriam um livro de comédia kakakaka coitados,Gregos,Romanos,Egípcios, e agora Nórdicos,falta oque agora? Os deuses Indianos?? -q

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    11. Deomorxy to com VC a sena si passa antes ,depois ou durante onls heróis do olimpo ???

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    12. Acho q se passa antes do Percy desaparecer. Se ela e o Maguns tiverem a mesma idade ela teria q ter 16 anos.Deve ser mais ou menos entre a batalha do labirinto e o herói perdido, mas não mto perto da batalha contra Cronos.

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    13. No livro 5 de HDO, Annabeth fala que tem um tio e um primo em Boston e que não se dam bem coom o pai dela. Acho q é depois de HDO.

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    14. Tio Rick, Mitologia indiana Please,nunca te pedi nada ...Partiu twitter pra fazer um apelo

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    15. Passa depois, a ordem de lançamento é + ou - a ordem dos acontecimentos

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    16. Deomorxsy e Lery isso acontece depois de HDO e durante TOA 😉

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  2. Meus Deuses! Legados? Herança? Minha impressão ou ele é um Garde? kkk

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    1. Pois é, também lembrei disso! kkkkk ainda mais que tinha acabado de ler O Destino dos Dez..

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    2. É um garde filho de um deus nórdico?kkkkk

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    3. kkkkkkkkkk Qualquer um pode desenvolver legados, devem tê-lo confundido kkk

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    4. Kkk, estava pensando na mesma coisa

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  3. Recapitulando.. Temos um mendigo louco q some do nd.. Lobos.. Um assassinato suspeito.. Um "pai'' e "mae" suspeitos.. Uma veterana de tds os livros do tio Rick i um tio louco q ira enganar o sobrinho pela heranca... Um possivel garde nordico?? kkkkk Pontas soltas i mts duvidas...
    #PartiuProximoCapitulo..

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  4. Daqui a pouco o rick ta fazendo serie de mitologia norte ameticana, sul americana , mitologia inca mitologia indiana e por ultimo mas não menos importante a mitologia chinesa kkkk

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    1. Faltou a japonesa, essa é essencial pra abrir caminho pros intraterrenos e extraterrestres. :P

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  5. 13 de Janeiro *------*
    É o msm dia do meu aniversário! Primeiro personagem q encontro essa coincidência de niver!
    Enfim, Mds, to achando essa narrativa tão lenta! Fico querendo saber oq acontece logo! São tantas perguntas!!! E o primeiro capítulo a dizia q ele morre? To esperando até agora essa hora chegar. N deviam ter falado aquilo, deixar como surpresa seria melhor, eu acho

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    1. O meu tbm!!!!! É o primeiro que eu vejo.. achei mtoooo demais isso.. fiquei pulando aqui na sala... sozinha.. mas feliz.. :D!!!!!!!!!!!!

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  6. Esse livro se passa antes ou depois dos contos do Percy e dos Kane? Pq se foi antes é plausível que a Annie não acredite em Randolph (mesmo a mitologia grega estando na vida dela pra provar que coisas estranhas acontecem)... Mas, se foi depois, não vejo como a Annabeth possa não acreditar, ou acreditar e não ajudar o primo. Simplesmente não é a cara dela. Ela não rastejou pelo Tártaro pra salvar o mundo? Então, pq não enfrentar os nórdicos pra salvar do Magnus..?..

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    1. Acho que Annie, justamente por saber que as mitologias grega e romana na verdade são reais, não teria grande dificuldade em acreditar na nórdica, mesmo não conhecendo a egípcia. Mas não sei o que veio antes, Sadie e Carter ou Magnus ehauehauehau

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    2. Isso acontece depois de derrotarem Gaia... em as provações de Apolo o Percy dá uma meia explicada desse negócio envolvendo a annabeth 😊😉

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  7. Omg,Magnus faz aniversário no mesmo dia que eu *-*

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  8. Só eu acho que o Rick devia escrever uma saga de mitologia japonesa?

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  9. Usando a lógica esse livro se passa depois dos HDO e antes de Annie encontrar com Sadie, até porque Percy diz que ela tá resolvendo problemas familiares na narrativa que ele faz no encontro com Carter em O Filho de Sobek, que antecede A Coroa de Ptolomeu. Tio Rick sempre arrasa nos livros porém essa narrativa tá mesmo meio que lerda.

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  10. gente e depois de hdo depois e durante os acontecimentos de o livro as provações de apolo porque o percy menciona que annabeth esta resolvendo problemas familiares em boston

    ~Isaque

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