18 de outubro de 2015

Sete - Você fica ótimo sem nariz, sério mesmo

UAU, MAGNUS, VOCÊS devem estar pensando. Isso foi... burrice!
Obrigado. Tenho meus momentos.
Não costumo sair andando em direção a paredes de fogo. Mas daquela vez tive a sensação de que não ia me machucar. Sei que parece estranho, mas até o momento eu não tinha desmaiado. O calor não era assim tão ruim, apesar de o asfalto estar virando lama sob meus pés.
Temperaturas extremas nunca me incomodaram. Não sei por quê. Algumas pessoas são hiperflexíveis. Outras conseguem mexer as orelhas. Eu consigo dormir ao ar livre no inverno sem morrer congelado e passar a mão por cima de fósforos sem me queimar. Isso já me fez ganhar algumas apostas nos abrigos, mas nunca pensei na minha tolerância como algo especial tipo... magia. Eu nunca tinha testado os limites.
Atravessei a cortina de fogo e acertei a cabeça de Surt com minha espada enferrujada. Porque, vocês sabem, sempre tento cumprir minhas promessas.
A lâmina não pareceu machucá-lo, mas as chamas sumiram. Surt me olhou por um milissegundo, chocado, e me deu um soco na barriga.
Eu já tinha levado socos antes, mas não de um cara peso-pesado flamejante conhecido como “o Negro”.
Eu me contraí como uma cadeira dobrável. Vi tudo embaçado e triplicado. Quando recuperei o fôlego, estava de joelhos, olhando para uma poça de leite regurgitado misturado com peito de peru e torradas fumegando no asfalto.
Surt poderia ter arrancado minha cabeça com sua espada flamejante, mas deve ter achado que não valia a pena. Ficou andando na minha frente, estalando a língua.
— Franzino — disse ele. — Você é muito mole. Me entregue a espada por vontade própria, cria de vanir. Prometo uma morte rápida.
Cria de vanir?
Eu conhecia muitos insultos bons, mas nunca tinha ouvido esse.
A espada corroída ainda estava na minha mão. Senti minha pulsação no metal como se a própria espada tivesse desenvolvido batimentos. Ressoando pela lâmina até meus ouvidos havia um zumbido leve, como um motor de carro girando.
Você pode renová-la!, dissera Randolph.
Eu estava quase convencido de que aquela arma velha estava pulsando, acordando. Mas não daria tempo. Surt me chutou nas costelas e me jogou longe.
Caí de costas e fiquei olhando para o céu enfumaçado de inverno. Acho que Surt me chutou com bastante força, porque comecei a ter alucinações. Trinta metros acima, vi uma garota feita de névoa; ela usava uma armadura e estava montada em um cavalo, sobrevoando a batalha como um abutre. Segurava uma lança feita de pura luz. A cota de malha brilhava como vidro espelhado. Ela usava um elmo cônico de aço por cima de uma espécie de capuz verde, como um cavaleiro medieval. O rosto era bonito e severo. Nossos olhares se encontraram por uma fração de segundo.
Se você é real, pensei, me ajude.
Ela se dissolveu.
— A espada — ordenou Surt, o rosto de obsidiana aparecendo acima de mim. — Ela valerá mais se for entregue por vontade própria, mas, se for preciso, arranco dos seus dedos mortos.
Ao longe, sirenes soaram. Eu me perguntei por que as equipes de emergência ainda não tinham aparecido, mas então me lembrei das outras duas explosões gigantescas em Boston. Foram obras de Surt também? Ou ele havia levado alguns amigos flamejantes para ajudar?
Na extremidade da ponte, Hearth levantou-se, cambaleante. Alguns pedestres inconscientes tinham começado a se mexer. Eu não conseguia ver nem Randolph nem Blitz em lugar algum. Com sorte, estariam fora de perigo àquela altura.
Se pudesse distrair o Homem em Chamas, talvez o resto das pessoas também tivesse tempo de fugir.
De alguma forma, consegui me levantar.
Olhei para a espada e... é, aquilo era mesmo uma alucinação.
Em vez de um pedaço de lixo corroído, eu estava segurando uma arma de verdade. O punho, revestido de couro, era quente e confortável. A empunhadura, em formato oval simples de aço polido, ajudava a equilibrar a lâmina de setenta e cinco centímetros, que tinha fio duplo e ponta arredondada: era mais para cortar do que para perfurar. No centro da lâmina, um sulco largo exibia um entalhe de runas vikings, do mesmo tipo que vi no escritório de Randolph. Brilhavam em um tom mais claro de prateado, como se tivessem sido incrustados quando a espada estava sendo forjada.
Naquele momento, a espada estava mesmo zumbindo, quase como um cantor tentando encontrar o tom certo.
Surt recuou. Os olhos de lava brilharam, nervosos.
— Você não sabe o que tem nas mãos, garoto. E não vai viver para descobrir.
Ele brandiu a espada flamejante.
Eu não tinha experiência com espadas, a menos que ter visto A Princesa Prometida vinte e seis vezes quando criança contasse. Surt teria me cortado ao meio, mas minha arma tinha outros planos.
Vocês já colocaram um pião na ponta do dedo? Dá para senti-lo rodando por conta própria, tombando em todas as direções. A espada era assim. Moveu-se para bloquear a lâmina de Surt. Em seguida, descreveu um arco, levando meu braço, e acertou a perna direita do gigante. Ele gritou. O ferimento na coxa fumegou, incendiando sua calça. O sangue dele chiou e brilhou como a lava de um vulcão. A lâmina flamejante se dissipou.
Antes que ele pudesse se recuperar, minha espada saltou e cortou seu rosto. Com um grito, Surt cambaleou para trás com as mãos no nariz.
À minha esquerda, alguém gritou. Foi a mulher com os bebês.
Hearth estava tentando ajudá-la a tirar as crianças do carrinho, que soltava fumaça, prestes a entrar em combustão.
— Hearth! — gritei, antes de lembrar que não adiantaria.
Com Surt ainda distraído, manquei até Hearth e apontei para o fim da ponte.
— Vai logo! Tira as crianças daqui!
Ele conseguia ler lábios bem, mas não gostou do que eu disse. Balançou a cabeça com determinação e pegou uma das crianças.
A mãe estava aninhando a outra.
— Saiam agora — falei para ela. — Meu amigo vai ajudar você.
A mãe não hesitou. Hearth me lançou um último olhar: Isso não é uma boa ideia. Em seguida, foi atrás dela, a criancinha se contorcendo nos braços dele chorando sem parar.
Ainda havia vítimas na ponte: motoristas presos nos carros, pedestres atordoados caminhando a esmo, as roupas fumegando e a pele vermelha como a de lagostas. As sirenes estavam mais perto agora, mas eu não sabia como a polícia e os paramédicos poderiam ajudar com Surt ainda por ali, em chamas e tal.
— Garoto! — O Negro falava como se estivesse gargarejando com xarope.
Tirou as mãos do rosto, e eu entendi por quê. Minha espada independente havia cortado o nariz dele. Sangue derretido escorria pelas suas bochechas e respingava sobre o asfalto em gotas escaldantes. A calça do gigante estava queimada, deixando-o apenas com uma cueca vermelha com estampa de chamas alaranjadas. Considerando isso e o nariz recém-decepado, ele parecia uma versão diabólica do Gaguinho.
— Já tolerei você por tempo demais — gargarejou.
— Eu estava pensando o mesmo em relação a você. — Levantei a espada. — Você quer isto? Venha pegar.
Em retrospecto, foi uma coisa bem burra de se dizer.
Acima de mim, tive um vislumbre da esquisita aparição cinza, uma garota a cavalo, rondando como um abutre, observando.
Em vez de atacar, Surt se inclinou e pegou asfalto do chão com as mãos nuas. Amassou até formar uma esfera quente de gosma fumegante e a arremessou em mim como uma bola de beisebol.
Caramba, eu odeio beisebol. Sou péssimo. Girei a espada, torcendo para rebater o projétil. Errei.
A bola de asfalto bateu direto na minha barriga... queimando, ardendo, destruindo.
Eu não conseguia respirar. A dor foi tão intensa que senti cada célula do corpo explodindo em uma reação em cadeia.
Apesar disso, uma calma estranha tomou conta de mim: eu estava morrendo. Não escaparia dessa. Parte de mim pensou: Tudo bem. Faça isso valer a pena.
Minha visão ficou turva. A espada zumbiu e puxou minha mão, mas eu mal conseguia sentir meus braços.
Surt me observou com um sorriso no rosto destruído.
Ele quer a espada, disse para mim mesmo. Mas não vai conseguir pegá-la. Se vou morrer, vou levá-lo comigo.
Apesar de estar muito fraco, levantei a mão livre. Fiz um gesto para ele que não era preciso saber a linguagem de sinais para entender.
Ele rugiu e atacou.
Quando me alcançou, minha espada saltou e o perfurou. Resisti com o que restava das minhas forças, e sua investida acabou nos jogando pela amurada.
— Não! — Ele lutou para se soltar, explodindo em chamas, chutando e tentando se segurar enquanto caíamos no rio Charles, mas eu não cedi, minha espada ainda cravada na barriga dele, meus próprios órgãos queimando por causa do piche derretido. O céu piscou e sumiu. Tive um vislumbre da aparição enevoada: a garota no cavalo galopava em minha direção, a mão esticada.
SPLASH!, bati na água.
Então morri. Fim.

38 comentários:

  1. E morreu...
    A propósito eu amo baseball obrigado

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  2. sério, a morte me deu um tapa na cara agora '-'

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  3. Einh???

    To boiando geral agora, como q ele pode morrer nos primeiros capitulos???

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    1. Mas tipo, na sinopse fala que é a história da "nova vida" dele depois que morre, não?

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    2. Tem sim como ele morrer nos primeiros capítulos e se esse livro estiver de acordo com a mitologia Nórdica se ele é morto em batalha ele vai para o palácio de Odin festejar

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  4. Primeiro capitulo? Eu pensei que era o sétimo....hehehehe

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  5. *-* ele realmente morreu! que bom, estava preocupada pensando que o tio Rick fosse mudar muitas coisas da mitologia nórdica! Agora é oficial esse cara vai participar do crepúsculo dos deuses 8D! (u ago assim o.o')

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  6. Como se a morte fosse o fim nos livros do Rick.

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    1. Concordo! acho que nesse caso tá mas para "o fim é apenas um começo"

      Tio Rick adorei

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    2. OK Fairy wind isso foi muito Ever After High... porém essa frase combina muito com os livros de Tio Rick.

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  7. Isso só aconteceu pq eles não esperaram a Annabeth!

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    1. Se formos voltando, chegamos à conclusão q se a vaca do início do mundo não tivesse surgido do nada, isso n teria acontecido. As porra tudo que acontecer vai ser culpa de uma vaca.

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  8. "Então morri. Fim."
    Simples assim.

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  9. Desde quando ao morrermos dizemos e morri fim..?? Fala serio.. Como ele disse no inicio as vezes e necessario morrer pra comecar uma nova vida.. EEE TEMOS UM VENCENDOR Ele e uma cria de Vanir.. Ou seja.. Na mitologia nórdica,Vanir são um grupo de deuses associados com sabedoria,a fertilidade e a capacidade de ver o futuro.... Veremos a continuacao..

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  10. Uma morte agonizante...
    Que merda de morte, nem para se despedir de seus leitores kkk

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  11. Serio um chase dando uma de Levasque que umilhação cara kkk

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  12. Daí ele fez um gesto pro monstro gaguinha diabólico que ele não precisava saber linguagens de sinal para entender.tipo djdhdhshahajsjss.

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  13. "UAU, MAGNUS, VOCÊS devem estar pensando. Isso foi... burrice!

    Obrigado. Tenho meus momentos". kkk

    ta eu ri mas... MORREU!!!!!!!

    ~coruja

    "ele parecia uma versão diabólica do Gaguinho" kkk

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  14. No céu tem pão? E morreu

    "Se você é real, pensei, me ajude.
    Ela se dissolveu." Best parte 😂😂😂😂

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  15. magnus deve ser br pq o menino é muito zueiro

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    1. tbm pensei nisso, depois o Tio Rick adora o Brasil então ,várias possibilidades e teorias

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  16. No céu tem fanifel? E morreu.

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  17. Não vou nem comentar .
    Vcs zuaram tanto com o cara q EU(hahaha) boi manter o respeito ...( oi?d onde veio esse discurso ???)

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  18. UAU MAGNUS, vocês devem estar pensando. Isso foi.... burrice.
    Obrigado, tenho meus momentos
    Kkkkkk cara, Magnus Chase é o Percy versão nerd kkkk

    Mas Magnus, que coisa feia, fazendo esses gestos pro Negro! Não te ensinaram que é feio isso? Kkkkk isso é uma coisa que a Sadie Kane faria...

    Ah que coisinha fofa, um Chase morrendo como uma Levesque... É oficial, agora pra mim o Magnus é uma mistura de Percy, Leo, Nico (pq n gosta de ser tocado e é nerd) e Hazel! Nossa, Tio Rick, não sei mais o que esperar de vc...

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  19. "Então morri. Fim." Kkkkkkkkkkkkkkk cara, não aguento.

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  20. Rata de Biblioteca23 de agosto de 2016 15:22

    Antes de morrer ele perguntou:
    "Mamãe, no céu tem zueira?"
    Mas a mãe dele respondeu:
    "Filho, tem brasileiros"
    E morreu
    Kkkkjkjkjkjkjkjjjjjjk
    Mar num é pussivi ele morreu
    Bem q ele falou q era uma morte agonizante

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  21. Eu não queria ler esse livro agora pois ainda ta muito cedo pra sair o próximo, mas mesmo assim não consigo parar de lêr *-* oi karina ^^

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    1. Olá, Matheus! Mês que vem sai o livro, não vai ter que esperar m muito! Haha

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