18 de outubro de 2015

Sessenta e oito - Não seja um mané, cara

ELE PARECIA UM viking de Hollywood. Parecia mais o Thor dos filmes do que o próprio Thor.
O cabelo louro batia nos ombros. O rosto bronzeado, os olhos azuis, o nariz adunco e a barba curta teriam combinado igualmente bem no tapete vermelho ou nas praias de Malibu. Ele estava sentado em um trono feito de galhos de árvore, com o assento coberto de pele de cervo. No colo havia uma espécie de cetro, um chifre de cervo enrolado em tiras de couro.
Quando sorriu, vi meu sorrisinho tímido, meu queixo. Ele até tinha o mesmo redemoinho acima da orelha direita.
Entendi por que minha mãe se apaixonou por ele. Não foi só porque era bonito, nem porque a calça jeans surrada, a camisa de flanela e as botas de caminhada eram bem o estilo dela. Ele irradiava calor e tranquilidade. Cada vez que curei alguém, cada vez que invoquei o poder de Frey, eu capturei um fragmento da aura dele.
— Pai — falei.
— Magnus. — O deus se levantou. Seus olhos brilharam, mas ele não pareceu saber direito o que fazer com os braços. — Estou tão feliz de finalmente poder conhecê-lo. Eu... eu daria um grande abraço em você, mas imagino que não seria bem-vindo. Entendo que precise de mais tempo...
Corri até Frey e dei um abraço de urso nele.
Isso não era o tipo de coisa que eu fazia, principalmente com estranhos.
Mas ele não era um estranho. Eu o conhecia tão bem quanto conhecia minha mãe. Pela primeira vez, entendi por que ela insistiu tanto em me levar para caminhar no meio do mato e acampar. Cada vez que estávamos na floresta em um dia de verão, cada vez que o sol aparecia atrás das nuvens, Frey esteve presente.
Talvez eu devesse me ressentir dele, mas não o fiz. Depois de perder minha mãe, eu não tinha tempo para ressentimentos. Meus anos nas ruas me ensinaram que não adiantava choramingar e remoer o que se poderia ter tido, o que eu merecia, o que era justo. Só estava feliz de ter aquele momento.
Ele aninhou a mão com delicadeza na minha nuca. O cheiro dele era de fumaça de acampamento, agulhas de pinheiro e marshmallows torrados. Será que havia marshmallows em Vanaheim? Pensei de repente no motivo de eu estar ali. Eu estava morto. Ou, pelo menos, morrendo.
Então eu me afastei.
— Meus amigos...
— Estão bem. Você ficou à beira da morte tentando curar um berserker, mas ele vai sobreviver. E você também. Você se saiu bem, Magnus.
O elogio de Frey me deixou desconfortável.
— Três valquírias morreram. Eu quase perdi todos os meus amigos. Tudo que fiz foi amarrar o Lobo com uma corda nova e enviar Surt de volta a Muspellheim, e Jacques cuidou de todo o trabalho pesado. Nada mudou de verdade.
Frey riu.
— Magnus, você mudou tudo. Você, o portador da espada, está moldando o destino dos nove mundos. Quanto às mortes das valquírias... foi um sacrifício que elas estavam dispostas a fazer. Não as desonre sentindo culpa. Você não pode impedir todas as mortes, tanto quanto eu não posso impedir que o verão vire outono... tanto quanto não posso impedir o meu destino no Ragnarök.
— Seu destino... — Segurei a runa, agora de volta à corrente. — Estou com sua espada. Você não...?
Frey balançou a cabeça.
— Não, filho. Como sua tia Freya falou, eu nunca mais poderei empunhar a Espada do Verão. Pergunte à própria espada se quiser ter certeza.
Puxei o pingente. Jacques ganhou vida e começou a destilar uma série de insultos que não posso repetir aqui.
— E mais! — gritou ele. — Me entregar para se casar com uma giganta! Cara, o que você estava pensando? Espadas primeiro, gatas depois, sabe como é?
Frey sorriu com tristeza.
— Oi, velho amigo.
— Ah, agora somos amigos de novo? — questionou a espada. — Não. Hã-hã. A gente terminou — Jacques fez uma pausa. — Mas seu filho é legal. Gosto dele. Desde que não esteja planejando me trocar para se casar com uma giganta.
— Isso não está na minha lista de coisas a fazer — prometi.
— Então estamos bem. Mas, quanto a esse seu pai lamentável, esse mané traidor...
Fiz a espada voltar à forma de pingente.
— Mané?
Frey deu de ombros.
— Eu fiz minha escolha há muito tempo. Entreguei a espada por amor.
— Mas, no Ragnarök, você vai morrer porque não vai estar com ela.
Ele levantou o chifre de cervo.
— Vou lutar com isto.
— Um chifre?
— Saber seu destino é uma coisa. Aceitar é bem diferente. Vou fazer o que tiver que fazer. Com este chifre, vou matar muitos gigantes, até Beli, um dos grandes generais. Mas você está certo. Não vai ser o suficiente para derrotar Surt. No final, vou morrer.
— Como pode falar isso com tanta calma?
— Magnus... nem os deuses podem viver para sempre. Não gasto energia tentando lutar contra a mudança das estações. Eu me contento em cuidar para que os dias que tenho, a estação que supervisiono, sejam os mais alegres, intensos e abundantes possível. — Ele tocou meu rosto. — Mas você já entende isso. Nenhum filho de Thor ou Odin ou mesmo do nobre Tyr poderia ter resistido às promessas de Hel. As palavras adocicadas de Loki. Você resistiu. Só um filho de Frey, com a Espada do Verão, poderia escolher se desprender do passado como você fez.
— Me desprender... Minha mãe...
— É. — Frey pegou uma coisa no trono, um jarro selado de cerâmica do tamanho de um coração. Ele o colocou em minhas mãos. — Sabe o que ela ia querer?
Eu não conseguia falar. Assenti, torcendo para que minha expressão deixasse claro o quanto estava agradecido.
— Você, meu filho, vai trazer esperança para os nove mundos. Já ouviu o termo veranico? Você vai ser nossa última estação assim, uma chance de calor, luz e crescimento antes do longo inverno do Ragnarök.
— Mas... — Eu pigarreei. — Mas sem pressão.
Frey mostrou um sorriso de dentes brancos brilhantes.
— Exatamente. Muita coisa precisa ser feita. Os aesires e vanires estão espalhados. Loki está ficando mais poderoso. Mesmo preso, ele nos jogou uns contra os outros, nos distraiu, nos fez perder o foco. Sou culpado também. Por tempo demais, fiquei afastado do mundo dos homens. Só sua mãe conseguiu... — Ele se concentrou no jarro nas minhas mãos. — Bem, depois de todo o meu discurso sobre não se prender ao passado... — Ele deu um sorriso pesaroso. — Ela era uma alma vibrante. Teria muito orgulho de você.
— Pai... — Eu não tinha mais o que dizer. Talvez só quisesse experimentar a palavra de novo. Nunca tive muita experiência em usá-la. — Não sei se sou capaz de fazer tudo isso.
Do bolso da camisa de flanela, ele tirou um pedaço de papel amassado, o panfleto que dizia DESAPARECIDO que Annabeth e o pai distribuíram no dia que eu morri. Frey o entregou para mim.
— Você não estará sozinho. Agora, descanse, meu filho. Prometo que não vai demorar mais dezesseis anos para nos encontrarmos de novo. Enquanto isso, você devia ligar para a sua prima. Deviam conversar. Você vai precisar da ajuda dela antes de tudo isso acabar.
Esse final pareceu um pouco ameaçador, mas não tive chance de perguntar nada. Pisquei, e Frey tinha sumido. Eu estava sentado no drácar de novo, segurando o panfleto e o jarro de cerâmica. Ao meu lado estava Mestiço Gunderson, tomando uma caneca de hidromel.
— Ah. — Ele me deu um sorriso sangrento. A maior parte das feridas dele já havia cicatrizado. — Devo minha vida a você. Que tal eu pagar o jantar?
Pisquei e olhei ao redor. Nosso navio tinha atracado em Valhala, em um dos rios que atravessavam o saguão. Eu não fazia ideia de como chegamos lá. Meus amigos estavam no píer, falando com Helgi, o gerente do hotel, com expressões sombrias, enquanto observavam desembarcarem os corpos das três valquírias mortas.
— O que está acontecendo?
Mestiço esvaziou a caneca.
— Fomos chamados ao Salão de Banquete para nos explicarmos perante os lordes e o restante dos einherjar. Espero que nos deixem comer antes de nos matarem de novo. Estou morrendo de fome.

22 comentários:

  1. Eita, Frey disse, ahá ele vai precisar da ajuda de Annabeth. viva!! Teremos mais dela aki *_________*

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  2. uhuuuulll Annabeth vai aparecer mais 0.0

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  3. Gregos, romanos, egípcios, nórdicos. Será que o Rick vai msm fazer isso? <3

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    1. Tomara... isso seria a maior lucura no mundo dos livros.

      ezequiel

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    2. loucura ,loucura ,loucura

      ~coruja

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    3. Se vc parar para pensar de 2007 para frente teve uns 3 fins do mundo evitados então eu acho que tem alguma coisa perturbando o universo, porque sinceramente não tem como tanta desgraça acontecer na mesma época e em mitologias diferentes.
      O tio Rick podia fazer um serie juntando os melhores heróis de cada mitologia para lutar com essa coisa.


      - Catarina

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    4. Tipo assim acho que esse lance de fim do mundo esta interligado da mesma forma que as personalidade dos deuses, diferentes mas ainda sim a mesma entidade. Acho que e a era que fala em um dos livros que ela meio que desapareceu sem ter uma representação em alguma cultura que não lembro qual mas basicamente os deuses de todos os povos são os mesmo só que adaptados aos tempos em que foram venerados para as entidades maleficas deve funcionar da mesma forma

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  4. Imagina que louco todos os deuses, de todos os panteões, incluindo celtas, astecas e maias, se juntando e tretando no Ragnarök?

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    1. altas tretas
      adorei a ideia

      ~coruja

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  5. Lá em "O Ladrão de Raios"
    Poseidon: - Fico feliz em te ver.
    Percy: - Não fiz isso por você, fiz pela minha mãe.
    (Le jogada de cabelo e beijinho no ombro do Percy pro pai)

    Aqui n"A Espada do Verão"
    Frey: - Sei que deve estar zangado comigo e tal...
    Magnus: (Le abraço de urso que arranca owns)

    É, tio Rick e suas referências...
    Kkkkkkkkkkk

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    1. Minha parte preferida nesse livro awt :3

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    2. Ha maior reverencia do livro é o capitolo q o nome é Hearth dormiu mais que Jason Grace, embora eu não sabia quem é esse cara

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  6. Pq tudo sempre acaba em um navio? Kkkmm

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  7. "Mas você já entende isso. Nenhum filho de Thor ou Odin ou mesmo do nobre Tyr poderia ter resistido às promessas de Hel. As palavras adocicadas de Loki. Você resistiu. Só um filho de Frey, com a Espada do Verão, poderia escolher se desprender do passado como você fez."
    Odeio quando o autor faz isso. "Nenhum, ninguém, blá-blá-blá conseguiria fazer como você", ou algo assim. Francamente, faz Magnus parecer ohhhh, especial, mas ele é apenas... Magnus. Ninguém é melhor que ninguém (essa frase tá certa? kkkk), sendo semideus, sendo einherjar(?), sendo mortal...

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    1. Você disse mesmo qua a Annabeth é melhor que a Annabeth?
      Você disse que ninguém é melhor que ninguém e a Annabeth é ninguém (mar de monstros)!
      Mas eu entendi o que você quis dizer, é só zoeira mesmo!

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    2. Concordo contigo Madallyn, toda vez q tem uma cena dessa eu falto olhar meu próprio cérebro, de tanto que eu rolo os olhos, essas coisas de alguém super especial cansa, tipo, o elfo lá se sairia mt bem tb nessas situações, mas nãããooo, o Magnus que é o MAIS especial de TODO o mundo, QUANTO poder esse POBRE garoto tem, oooohhh

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    3. a questão é que em outros livros, os personagens são simplesmente pessoas normais, mas eles mudam com o tempo, e isso que é importante. Aqui, parece que os personagens já nascem especiais... de certa forma, sim, mas são as escolhas que deveriam defini-los. Os livros do Tio Rick são legais... mas não muito reais, entende? Suas escolhas, "ser do bem", "ser do mal" parecem já ser definidas...

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  8. O próprio Frey falou!! Ligar para a Annie! Sabe o que o Tio Rick poderia fazer, deixar essa série apenas nórdica, depois fazer uma série, sei la...asteca e colocar um primo do Leo, por exemplo. Só pra aumentar a história e minha ansiedade. Hehehe. Nunca quis tanto estar errada.

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  9. Era o Frey mesmo... Estou tão orgulhosa dos meus dons de oráculo....
    Kkkkkk espero q nos deixem comer antes de nos matar de novo. Estou morrendo de fome. Eu quando faço algo errado antes do almoço...

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  10. Cara, que lindo...

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  11. "Puxei o pingente. Jacques ganhou vida e começou a destilar uma série de insultos que não posso repetir aqui.
    — E mais! — gritou ele. — Me entregar para se casar com uma giganta! Cara, o que você estava pensando? Espadas primeiro, gatas depois, sabe como é?
    Frey sorriu com tristeza.
    — Oi, velho amigo.
    — Ah, agora somos amigos de novo? — questionou a espada. — Não. Hã-hã. A gente terminou — Jacques fez uma pausa. — Mas seu filho é legal. Gosto dele. Desde que não esteja planejando me trocar para se casar com uma giganta."

    Só eu que vou rir até o Juízo Final com a frase "Não. Hã-hã. A gente terminou" ??

    Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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