18 de outubro de 2015

Sessenta e dois - O lobinho mau

EU ME LEMBRO da primeira vez que vi a rocha de Plymouth.
Minha reação foi: “É só isso?”
O mesmo aconteceu com o Liberty Bell na Filadélfia e com o Empire State em Nova York: de perto, pareciam menores do que imaginei e nem um pouco dignos da fama.
Foi o que senti quando avistei Fenrir.
Eu tinha ouvido tantas histórias terríveis sobre ele: os deuses morriam de medo de alimentá-lo; ele era capaz de arrebentar as correntes mais fortes; havia comido a mão de Tyr; engoliria o sol no Juízo Final, devoraria Odin de uma vez só. Eu esperava um lobo maior do que o King Kong com bafo de lança-chamas, laser disparando raios pelos olhos e pelas narinas.
O que vi na verdade foi um Lobo do tamanho de um lobo.
Paramos na beirada da cratera e olhamos para o vale, onde Fenrir estava sentado, calmo. Ele era maior do que um labrador comum, mas definitivamente não maior do que eu. As pernas eram longas e musculosas, feitas para correr. O pelo cinzento desgrenhado era cheio de tufos pretos. Ninguém o chamaria de fofo, não com aquelas presas brancas cintilantes e nem com os ossos que cobriam o chão ao redor das patas dele, mas era um belo animal.
Eu estava torcendo para encontrar o Lobo deitado, amarrado como um porco e preso ao chão com pregos, grampos, fita adesiva e supercola. Mas a Gleipnir o prendia mais como algemas de pé usadas para transportar criminosos. A corda cintilante estava amarrada ao redor das juntas das quatro patas, permitindo mobilidade suficiente para o Lobo se arrastar. Parecia que parte da corda já estivera amarrada ao redor do focinho, como uma focinheira, mas naquele momento estava caída no peito dele em um aro frouxo. A corda sequer parecia presa ao chão. Eu não sabia o que impedia Fenrir de fugir da ilha, a não ser que houvesse uma cerca invisível para cachorros na região.
No fim das contas, se eu fosse o deus Tyr e minha mão tivesse sido arrancada com uma mordida para os outros deuses terem tempo de amarrar o Lobo, eu teria ficado bem irritado com esse trabalho desleixado. Os aesires não tinham um deus dos nós decente?
Olhei para os meus amigos.
— Onde está o verdadeiro Fenrir? Isso só pode ser uma armadilha, não é?
— Não. — Sam apertou com tanta força o punho do machado que os nós dos seus dedos ficaram brancos. — É ele. Consigo sentir.
O Lobo se virou na nossa direção, atraído pelas vozes. Os olhos brilharam com uma luz azul familiar que gerou uma sensação de baqueta de xilofone descendo pela minha caixa torácica.
— Bem. — A voz dele era grave e vibrante. Os lábios negros se repuxaram em uma expressão de desprezo bem humana. — O que temos aqui? Os deuses me mandaram um lanche?
Repensei minha impressão do Lobo. Talvez o tamanho fosse comum. Talvez ele não espirrasse raios laser. Mas os olhos eram mais frios e mais inteligentes do que os de qualquer predador que já encontrei, animal ou humano. O focinho tremia como se ele conseguisse sentir o medo no meu hálito.
E a voz... a voz escorreu por mim como melado, perigosamente suave e doce. Eu me lembrei do meu primeiro banquete em Valhala, quando os lordes não quiseram que Sam se pronunciasse porque temiam a lábia dos filhos de Loki. Agora entendia.
A última coisa que eu queria era me aproximar do Lobo. Mas o tom dele dizia: Venham. Somos todos amigos aqui.
A caldeira devia ter cem metros de largura, o que significava que o Lobo estava bem mais perto do que eu gostaria. O chão era levemente inclinado, mas as urzes sob meus pés eram escorregadias. Eu estava morrendo de medo de perder o equilíbrio e deslizar até as patas da fera.
— Sou Magnus Chase. — Minha voz não era suave como melado. Eu me forcei a olhar nos olhos de Fenrir. — Temos um compromisso.
O Lobo mostrou os dentes.
— Temos mesmo, filho de Frey. As crias de vanir têm um aroma tão interessante. Normalmente, eu só devoro os filhos de Thor, Odin ou meu velho amigo Tyr.
— Lamento decepcionar você.
— Ah, você não me decepciona. — O Lobo andou, a corda brilhando entre as patas, reduzindo o ritmo dos passos. — Estou um tanto satisfeito. Espero por isso há muito tempo.
À minha esquerda, Hearthstone bateu duas vezes com o cajado de carvalho branco nas pedras. As plantas de urze ficaram mais claras, uma névoa fina e prateada se erguendo como um sistema de irrigação de gramado. Com a mão livre, Hearth gesticulou: As flores o mantém cativo. Fiquem perto.
O lobo Fenrir soltou uma gargalhada.
— O elfo é sábio. Não é poderoso o bastante, não chega nem perto de ser páreo para mim, mas está certo sobre as urzes. Não consigo suportar esse negócio. Mas é engraçado... quantos bravos mortais preferem abandonar a segurança das urzes e se aproximar. Eles querem testar sua habilidade contra mim, ou talvez só queiram ter certeza de que ainda estou amarrado. — O Lobo lançou um olhar maldoso para Blitzen. — Seu pai foi um desses. Um anão nobre com a melhor das intenções. Ele se aproximou de mim. E morreu. Os ossos estão em algum lugar por aqui.
Blitzen soltou um grito gutural. Sam e eu tivemos que segurá-lo para impedir que partisse para cima do Lobo com o novo arpão.
— Bem triste, na verdade — refletiu Fenrir. — Bilì era o nome dele, não era? Ele estava certo, claro. Essa corda ridícula está se enfraquecendo há séculos. Houve uma época em que eu não conseguia andar. Depois de alguns séculos, consegui mancar um pouco. Ainda não consigo atravessar as urzes. Quanto mais me afasto do centro da ilha, mais a corda aperta e mais dor eu sinto. Mas é um progresso! A grande mudança aconteceu... ah, faz pouco mais de dois anos, quando finalmente consegui me livrar daquela maldita focinheira!
Sam hesitou.
— Dois anos...
O Lobo inclinou a cabeça.
— Isso mesmo, irmãzinha. Claro que você sabia. Comecei a sussurrar nos sonhos de Odin: que boa ideia seria fazer você, a filha de Loki, uma valquíria! Que ótimo jeito de transformar uma inimiga em potencial em uma valiosa aliada.
— Não — retrucou Sam. — Odin jamais ouviria você.
— Será que não? — O Lobo rosnou de prazer. — Essa é a coisa maravilhosa nas ditas pessoas boas. Elas ouvem aquilo em que desejam acreditar. Acham que é a consciência que está sussurrando quando, na verdade, é o Lobo. Ah, você agiu muito bem, irmãzinha, ao trazer Magnus para mim...
— Eu não trouxe Magnus para você! — gritou Sam. — E também não sou sua irmãzinha!
— Não? Sinto cheiro de sangue de traidora correndo nas suas veias. Você poderia ser poderosa. Poderia dar muito orgulho ao nosso pai. Por que luta contra isso?
Os dentes do Lobo continuavam afiados como sempre, a expressão maliciosa, também, mas a voz se encheu de solidariedade, decepção e melancolia. O tom dele dizia: Posso ajudar você. Sou seu irmão.
Sam deu um passo à frente. Eu segurei o braço dela.
— Fenrir — falei — você mandou aqueles lobos... na noite que minha mãe morreu.
— Claro.
— Você queria me matar...
— Por que eu iria querer isso? — Os olhos azuis eram piores do que espelhos. Pareciam refletir todos os meus fracassos: minha covardia, minha fraqueza, meu egoísmo ao fugir quando minha mãe mais precisava de mim. — Você foi valioso para mim, Magnus. Mas precisava... de tempero. As dificuldades são maravilhosas para cultivar o poder. E olhe! Você teve sucesso, foi o primeiro filho de Frey forte o bastante para encontrar a Espada do Verão. Você me trouxe a forma de escapar dessas amarras, finalmente.
Fiquei sem chão. Senti como se estivesse de volta em Stanley, o cavalo, despencando sem rédeas, sem sela, sem controle. Durante todo esse tempo, achei que Fenrir quisesse me ver morto. Que havia sido por isso que os lobos dele atacaram nosso apartamento. Mas o verdadeiro alvo era minha mãe. Ele a matou para me atingir. Essa ideia era ainda pior do que acreditar que ela havia morrido para me proteger. Minha mãe morreu para que esse monstro pudesse me transformar no arauto dele, um semideus capaz de obter a Espada do Verão.
Eu estava tomado de uma fúria tão intensa que não consegui me concentrar.
Na minha mão, a espada começou a zumbir. Percebi por quanto tempo Jacques havia ficado em silêncio. Ela puxou meu braço, me levando para a frente.
— Jacques — murmurei. — Jacques, o que você...?
O Lobo riu.
— Está vendo? A Espada do Verão está destinada a cortar estas amarras. Você não pode impedir. Os filhos de Frey nunca foram guerreiros, Magnus Chase. Você não pode querer controlar a espada e menos ainda lutar contra ela. Sua utilidade está quase no fim. Surt vai chegar em breve. A espada vai voar para a mão dele.
— Erro... — murmurou Jacques, lutando para se soltar da minha mão. — Foi um erro me trazer aqui.
— Sim — disse o Lobo com voz doce. — Sim, foi mesmo, bela espada. Surt acha que isso tudo foi ideia dele, sabe. Ele é uma ferramenta imperfeita. Como a maioria dos gigantes do fogo, é muito inflamado, tem mais pose do que cérebro, mas vai servir ao propósito. Vai ficar bem feliz de pegar você.
— Jacques, você é minha espada agora — falei, embora quase não conseguisse segurá-lo com ambas as mãos.
— Cortar a corda... — murmurou Jacques com insistência. — Cortar a corda.
— Ande, Magnus Chase — disse Fenrir. — Por que esperar Surt? Me solte por vontade própria e serei grato. Talvez até poupe você e seus amigos.
Blitzen rosnou mais alto do que o Lobo. Da mochila, tirou a nova corda, Andskoti.
— Eu estava pronto para prender esse vira-lata. Agora, acho que vou estrangulá-lo.
— Concordo — disse Samirah. — Ele morre.
Eu queria mais do que qualquer coisa me juntar a eles. Queria atacar a fera e cortá-la ao meio. A Espada do Verão supostamente tinha a lâmina mais afiada dos nove mundos. Claro que seria capaz de cortar pele de lobo.
Acho que eu teria feito exatamente isso, mas Hearthstone passou o cajado na frente de nós. A runa perthro brilhou com luz dourada.
Olhem. A ordem foi mais um tremor do que um som. Eu me virei e fiquei olhando surpreso para Hearthstone. Os ossos.
Ele não usou linguagem de sinais. Não falou. O pensamento simplesmente estava , limpando minha mente como vento soprando névoa.
Olhei de novo para os esqueletos cobrindo o chão. Todos foram heróis: filhos de Odin, Thor ou Tyr. Anões, humanos, elfos. Todos foram enganados, enfurecidos e encantados por Fenrir. Todos morreram.
Hearthstone era o único de nós que não conseguia ouvir a voz do Lobo. Era o único que estava pensando com clareza.
De repente, a espada ficou fácil de controlar. Não parou de lutar contra mim, mas senti o equilíbrio mudar um pouco a meu favor.
— Não vou soltar você — falei para o Lobo. — E não preciso lutar com você. Vamos esperar Surt. Vamos impedi-lo.
O Lobo farejou o ar.
— Ah... tarde demais para isso. Você não precisa lutar comigo? Pobre mortal... Eu também não preciso lutar com você. Há outros para fazerem isso por mim. Como disse, as pessoas boas são tão fáceis de manipular, estão tão prontas a fazerem o trabalho por mim. Aqui estão algumas delas!
Do outro lado da ilha, uma voz gritou:
— PAREM!
No lado oposto da crista estava nossa velha amiga Gunilla com uma valquíria de cada lado. À esquerda e à direita dela estavam meus antigos colegas de corredor: T.J., Mestiço, Mallory e X, o meio troll.
— Pego no ato de ajudar o inimigo — disse Gunilla. — Vocês assinaram suas sentenças de morte!

28 comentários:

  1. Vai existir um momento apropriado pra essa ai aparecer?

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  2. Por que os deuses são tão faceis de ser manipulados pelos inimigos

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  3. Só acha o empire state pequeno por não conhecer todos seus andares...

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    1. Kkkkk pensei a mesma coisa!
      ~Nath

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  4. A Magnus achou pequeno pq nao tinha o cartaozinho do elevador kkkkkkk

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  5. Essa Gunilla eh filha do cão. Ja disse. Q garota incoviniente :-|

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  6. Magnus achou o Empire States pequeno porque não sabia que tinha 600 andares,e porque não viu o monte Olimpo,
    O que vi na verdade foi um Lobo do tamanho de um lobo.
    Me decepcionei,achei que seria que nem a cobra de CDK, Apofis,Enorme ..Poderosa..Querendo matar qualquer um sem diálogo nenhum..tudo que tinha era um lobo qualquer com uma inteligencia e malvadesa.E tinha um tamanho normal,me surpreendi com isso

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    1. Eu gostei do Lobo justamente por não ser o que eu esperava. Acho que dá um ar ainda mais maquiavélico o fato de ele não ser grande e poderoso logo de cara.

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    2. Um lobo qualquer com inteligência e malvadeza. E que sabe falar. O LOBO SABE FALAR MANO CORRE QUE EU PEGO O AUTÓGRAFO E DEPOIS CORRO!!!!

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  7. Gunilla a rainha das aparições em momentos convenientes

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  8. Eu tive que ler 62 capítulos pra perceber, com o meu raciocínio "super rápido", que o Magnus não gosta de azul por causa da cor dos olhos dos lobos que atacaram a mãe dele. E eu só pensei nisso por causa desse trecho "Os olhos azuis eram piores do que espelhos."

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    1. E mesmo lendo 62 capítulos, eu só fui fazer essa conexão porque você falou. Rsrs, tô me sentindo um bosta agora.

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    2. Eu só percebi isso por causa do seu comentário
      Estou me sentindo boba agora kkkk

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  9. Gorila eternamente uma filha de hera

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  10. Empire State pequeno?
    Deixa só o Percy escutar isso...

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    1. Nem é o percy é a anabeth ele reconstruio o Olimpo.
      Ele ta ferrado !

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  11. eu tenho um presentimento sobre como vai acabar o livro: o Surt vai roubar a espada e libertar o lobo mais eles vão recuperar a espada e amarar o lobo d novo

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  12. Matem essa Gunilla pfvr. Garota chata.

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  13. Pelos deuses, esse Lobo é assustador!
    #PartiuComprarUmBuquêDeUrzes
    ~Filha de Atena

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  14. Minha reação foi: “É só isso?”

    O mesmo aconteceu com o Liberty Bell na Filadélfia e com o Empire State em Nova York: de perto, pareciam menores do que imaginei e nem um pouco dignos da fama.

    Foi o que senti quando avistei Fenrir.

    Eu tinha ouvido tantas histórias terríveis sobre ele: os deuses morriam de medo de alimentá-lo; ele era capaz de arrebentar as correntes mais fortes; havia comido a mão de Tyr; engoliria o sol no Juízo Final, devoraria Odin de uma vez só. Eu esperava um lobo maior do que o King Kong com bafo de lança-chamas, laser disparando raios pelos olhos e pelas narinas.
    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
    ODEIO GUNILLA, NÃO COMSIGO NEM RIR DIREITO MAS QUE DROGA!
    Filha de Fenrir

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  15. Acha o Empire State pequeno pq não conhece o andar 600. Depois de tantas referências cruéis, Rick Riordan não pode nem sonhar em não fazer uma série grega/romana/egípcia/nórdica. Ella não está lembrando profecia pra nada, acho bom ele já ter começado a escrever e não morra tragicamente antes de terminar. O dia que essa série for lançada, vai ser muita emoção pra mim. Imagino os personagens como meus melhores amigos, que moram em lugares diferentes e finalmente se encontram!! Vai ser tanta emoção, já pareço meio perturbada, louca por livros, mas nem ligo. Quem precisa de vida social quando tem os livros do Riordan? Eu não.

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    1. Pois é, vida social? Quem liga? ehaueaheuheue livros são vida <3

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  16. Eu gostei de fenrir ele me lembra um pouco Cronos com a inteligencia ma de apofis

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  17. Eu tinha ouvido tantas histórias terríveis sobre ele: os deuses morriam de medo de alimentá-lo; ele era capaz de arrebentar as correntes mais fortes; havia comido a mão de Tyr; engoliria o sol no Juízo Final, devoraria Odin de uma vez só. Eu esperava um lobo maior do que o King Kong com bafo de lança-chamas, laser disparando raios pelos olhos e pelas narinas.
    O que vi na verdade foi um Lobo do tamanho de um lobo.

    Poxa, eu esperava exatamente o mesmo que o Magnus, ou até mesmo coisa pior! Mas acho que o Fenrir assim pequeno dá muito mais medo. Ele é como o Cronos, com uma lábia perfeita, sabendo induzir vc a fazer o que ele quer! Só ñ me conformo em como os deuses se deixam levar pelas palavras dos inimigos!!!

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  18. Fala isso do Empire State pq não o VIU, só olhou... Agora entendo o porquê deese lobo ser temido. Palavras são mais poderosas que a força.

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