31 de outubro de 2015

Seis

— Estou surpreso pelo progresso que tem feito. — Sorri Damen. — Aprendeu tudo isto por sua conta?
Aceno com a cabeça, olhando ao redor da sala grande e vazia, contente comigo mesma pela primeira vez em semanas.
No momento em que Damen mencionou que queria liberar o lugar de todo o mobiliário excessivamente chamativo que tinha durante o reinado de terror de Roman, eu já estava nisso. Aproveitando a oportunidade de me desfazer da série de poltronas reclináveis de couro negro, os televisores de tela plana, o feltro vermelho da mesa de bilhar e o bar coberto de cromo – todos eles símbolos, manifestações físicas, da fase mais sombria de nossa relação até agora. Apontando cada peça com um entusiasmo desenfreado de tal maneira que, bom, não estou nem sequer segura de onde foram parar todas as coisas. Tudo o que sei, é que já não estão aqui.
— Parece que já não necessita de minhas lições. — Sacode a cabeça.
— Não esteja tão seguro. — Digo enquanto giro sorrindo para ele e empurro seu cabelo ondulado e escuro de sua cara com minha mão novamente enluvada, com a esperança de que conseguiremos a cura do Roman logo, ou ao menos encontraremos outra alternativa. — Não tenho ideia sequer de onde foram parar todas as coisas, sem mencionar o fato de que não é possível que possa encher este espaço quando não tenho ideia de onde escondeu todas as coisas que estava acostumado a ter. — Estiro-me para tomar sua mão um segundo muito tarde, e franzo o cenho enquanto caminha para a janela.
― A mobília — ele olha a grama recém cortada, e sua voz é baixa e profunda — está de volta onde começou. Retornou a seu estado original de pura energia vibrante, com o potencial de converter-se em algo. E quanto ao resto… — encolhe os ombros, e vejo as fortes linhas de seus ombros elevando-se ligeiramente antes de acomodar-se de novo. ― Bom, o que importa, não? Não tenho nenhuma necessidade disso agora.
Olho fixamente para suas costas, me deleitando com sua magra figura, sua casual postura. Me perguntando como podia estar tão desinteressado por recuperar os preciosos artefatos de seu passado – Um Picasso dele vestindo um severo traje azul, ou o Velasquez dele montado em um branco semental de criação – por não mencionar todas as outras incríveis relíquias que datam de séculos atrás.
— Mas esses objetos são valiosíssimos! Tem que recuperá-los. Nunca poderão ser substituídos!
― Ever, relaxe, são só objetos. — Sua voz era firme, resignada, enquanto ele se girava de novo para mim. ― Nada disso tem significado real. A única coisa que significa algo em minha vida é você.
E embora o sentimentalismo seja inegavelmente doce e sincero, não me afeta na maneira que deveria. As únicas coisas que parecem lhe importar nestes dias são: reparar seu carma e eu. E enquanto eu estou perfeitamente bem ocupando os lugares número um e dois de sua lista, o problema é… que o resto da página está em branco.
― Mas, está errado. Não são só coisas. — Movo-me para ele, impulsionando minha voz com urgência e persuasão, com a esperança de chegar a ele e fazer que escute-me esta vez. ― Livros assinados pelo Shakespeare e as irmãs Bronte, abajures da Maria Antonieta e Luís isso XVI é algo ao que dificilmente chamaria coisas. É história, pelo amor de Deus! Não pode só as ignorar, enquanto pensa que não são nada mais que uma caixa de aborrecidos e velhos objetos que doa a caridade.
Ele me olha, com seu olhar suave enquanto desliza a ponta de seu dedo enluvado, desde minha têmpora até o queixo.
— Pensei que odiava isso em mim, “a sala velha e poeirenta”, como a chamou uma vez.
— As pessoas mudam. — Encolho os ombros. Desejando, pela primeira vez, que ele voltasse a ser o Damen que conhecia. — E falando de mudanças, por que está tão assustado pela viagem de Miles a Florença? — Notando a forma que se endurece só com a menção da palavra. — É por Drina e todas as coisas sobre o Roman? Pela conexão que não queria que ele soubesse?
Me olha por um momento, seus lábios se dividem para, falar, então se volta e murmura:
— Dificilmente me sinto com o que você chama assustado.
― Sabe o quê? Tem toda a razão. Para uma pessoa normal, isso era apenas o que chamaria incomodado. Mas para o menino que é sempre o mais genial e tranquilo, tudo o que se precisa é um ligeiro estreitamento de seus olhos e o mais diminuto apertão de seu queixo para saber que está alterado.
Sussurro, com seus olhos procurando os meus enquanto de novo se move para mim. — Você viu o que se passou em Florença. — Me olhando de lado. — Apesar de todas suas virtudes, é também um lugar de lembranças insuportáveis, que eu prefiro não explorar.
Engulo a seco, recordando as imagens que vi em Summerland de Damen escondido em um armário escuro e pequeno, observando como seus pais eram assassinados pela intenção de obter o elixir... depois, entrando em uma sala da igreja até que a Peste Negra se estendeu por Florença e estimulou Drina e ao resto dos órfãos a beberem do suco imortal, com a esperança de só curá-los, sem ter ideia de que lhes daria a vida eterna, e não posso evitar me sentir como a pior namorada do mundo por recordar-lhe disto.
— Eu prefiro me centrar no presente. — Ele assente, assinalando a sala grande e vazia. — E agora realmente necessito de sua ajuda para encher este espaço. De acordo com meu agente os compradores preferem um lugar agradável, limpo e contemporâneo ao construir seus lares. E embora eu estivesse pensando em deixá-lo vazio, para enfatizar o tamanho das habitações, suponho que deveríamos tratar...
— Agente? — Suspiro, quase me asfixiando com a palavra. — Por que precisaria de um agente imobiliário?
— Estou vendendo a casa — encolhe-se de ombros. — Pensei que entenderia.
Olho ao redor, desejando a poltrona de veludo antigo, com as almofadas diferentes, sabendo que me proporcionaria a aterrissagem perfeita para quando deitasse meu corpo e minha cabeça em silêncio. Mas fico aí parada, determinada a me manter inteira.
― Mas acabamos de estar de novo aqui, e decidimos seguir juntos. — Olho atônita meu namorado ridiculamente formoso há quatrocentos anos como se acabasse de conhecê-lo.
— Não fique incomodada. Nada mudou. É só uma casa. Uma casa muito grande. Além disso, eu nunca necessitei de todo este espaço de todas as formas. Nem sequer utilizei jamais a maioria desses cômodos.
— E exatamente com o que planeja substitui-la, então? Com uma loja de campanha?
— Só pensei em reduzir o tamanho, isso é tudo. — Seu olhar me está pedindo, suplicando que o entenda. — Nada absurdo, Ever. Não faço nada disto para te fazer infeliz.
— E esse agente imobiliário vai ajudar com isso também? Com a redução? — Estudei-o com atenção, me perguntando o que se passa, e onde terminará isto. — Quero dizer, Damen, se você está pensando seriamente em reduzir a casa, por que não só manifesta algo menor? Por que escolher este caminho tão convencional?
Girei meu olhar sobre ele, passando de sua gloriosa cabeça com cabelos brilhantes, escuros, bastante largo e perfeito até chegar a seus pés, recordando como não faz muito tempo, desejava voltar a ser normal, como todo mundo. Mas agora que estou me acostumando a meus poderes, não lembro de antes.
— Do que se trata, realmente? — Fecho meus olhos, me sentindo um pouco traída. — Quero dizer, você é que me trouxe aqui. Você é que me fez desta forma. E agora que estou gostando, decide abandonar tudo? Sério. Por que está fazendo isto?
Mas em lugar de responder, ele fecha os olhos. Projetando uma imagem de nós dois rindo e felizes, descansando em uma formosa praia de areia rosa. Mas sacudo minha cabeça e cruzo os braços com mais força, me negando a jogar até que ele responda a minhas perguntas.
Sussurrando e olhando pela janela, volta-se para mim quando diz:
— Eu já te disse que meu único recurso, e minha única maneira de sair deste inferno em que eu mesmo me coloquei, é atender a meu carma. E a única maneira de fazê-lo é renunciar às manifestações, a grande vida, aos grandes gastos, e todas as outras extravagâncias com as quais convivi nos últimos seiscentos anos. Assim posso viver a vida de um cidadão comum. Honestamente, trabalhando duro, e humildemente, com as mesmas lutas cotidianas como qualquer outra pessoa.
Fico olhando-o, repetindo suas palavras em minha cabeça, não acreditando no que acabo de escutar.
―E como exatamente planeja fazer isso? — Fecho os olhos. ― Sério. Em seus seis séculos de vida, há sequer tido um emprego real alguma vez?
Mas embora esteja mortalmente séria e não brinque absolutamente, ele joga para trás a cabeça e ri como se brincasse. Eventualmente se tranquiliza o suficiente para dizer:
― Honestamente pensa que ninguém me contratará? — Ele sacode a cabeça e ri inclusive mais forte. ― Ever, por favor. Não crê que percorri o mundo o suficiente como para ter aperfeiçoado umas quantas habilidades?
Começo a responder, querendo lhe explicar que, ainda quando é verdadeiramente admirável observá-lo pintar um Picasso melhor que o mesmo Picasso com uma mão enquanto simultaneamente supera a Van Gogh com a outra, realmente não acredito que isso o ajude a conseguir esse cobiçado posto de garçom no Starbucks da esquina.
Mas antes de que possa dizê-lo, ele está de pé a meu lado, movendo-se com semelhante velocidade e graça que tudo o que posso fazer é arrumar isso para dizer: ― Bom, para alguém que está dando as costas a seus dons, ainda se move muito rápido.
Consciente desse quente e maravilhoso estremecimento alagando minha pele enquanto ele desliza seus braços ao redor de minha cintura e me aproxima de seu peito, evitando cuidadosamente o contato pele a pele.
― E quanto à telepatia? — Murmuro. — Está planejando abandonar isso também?
Tão afetada por sua proximidade que logo que posso digo as palavras que estou pensando.
— Não tenho planos de abandonar nada que me ponha mais perto de ti — disse-me, com seu olhar no meu, constante e tranquila. — Quanto ao resto — ele dá de ombros, olhando ao redor ao espaço vazio antes de me encontrar outra vez. ― Me diga, o que importa mais, o tamanho de minha casa, ou o tamanho de meu coração?
Aperto os lábios e evito seu olhar, a verdade de suas palavras me deixa sentir pequena e envergonhada.
― Realmente importa se escolher o ônibus ao invés de um BMW, e o genérico por cima do Gucci? Porque o automóvel, o vestuário, o CEP, esses são só coisas, coisas que é divertido ter perto, seguro, mas ao final, não têm nada a  ver com o verdadeiro eu. Nada a ver com quem realmente sou.
Concentro-me, me pensando em algo menos nele. Não é que me importe com sua BMW ou suas imitações de castelos franceses, quer dizer, se eu quiser essas coisas, só as manifestarei por mim mesma. Mas embora não sejam importantes, se for ser honesta, então tenho que admitir que foram parte da atração inicial... acrescentado a seu elegante, brilhante, e misteriosa personalidade que me seduziu.
Mas quando finalmente o olho de novo, de pé em frente de mim, despido de todo o usual deslumbramento e resplendor, gentil na essência pura de quem realmente é, me dou conta de que ele segue sendo o mesmo, o quente e maravilhoso menino que foi desde o começo. O qual só prova seu ponto. Nenhuma dessas outras coisas importa. Nada disso tem algo a ver com sua alma.
Sorrio, recordando de repente o único lugar onde podemos estar juntos, seguros e protegidos de algum dano. Chego a sua mão enluvada, junto com a minha, dizendo:
— Vamos, quero te mostrar algo — e a tiro dele.

8 comentários:

  1. Damen e os seus carma! kkkkkkkkkk No que isso vai dai?!
    Ass: Bina.

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  2. Ela é noiva dele? Não seria namorada?

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  3. Ela esta se saindo uma grande egoista isso sim ! Nao quer q a tia encontre alguem simplismente pq é sua tia e tutora..nao pq o professor talvez possa lhe fazer mal algum,agr nao quer q Damen se dezfaca de suas coisas ? Sem contar no q fez escolhendo a familia,deixando Damen quase morto.tudo isso por puro egoismo ! É bem feito agr nao poder nem tocar nele

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  4. gente q enrolaçao desse autor....era p/ ter sido depois da peça mais.....ele nao fez isso!!

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  5. Tudo bem, tubo bom,mas ainda sinto que a Ever ainda vai cometer muitos erros que podem separá-la de Damen.

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