31 de outubro de 2015

Quinze

Jude tranca a porta e me leva por um corredor curto. Entramos em um pequeno quarto à direita. Eu o sigo com meus punhos fechados, olhando o símbolo da paz em sua camiseta e me pensando que se ele fizer algo assustador eu posso facilmente derrubá-lo e fazê-lo se arrepender do dia em que decidiu mexer comigo.
Ele se dirige para uma cadeira dobrável acolchoada de frente para uma mesa quadrada coberta por um tecido azul brilhante, sentando-se em uma cadeira a minha frente e apoiando seu pé descalço em seu joelho enquanto me diz:
— Então, qual é sua especialidade?
Eu fito-o, com as mãos dobradas, me concentrando em respirar calmamente enquanto tento não me contorcer.
— Cartas do Tarô? Runas? I Ching? Psicometria? Qual delas?
Eu olho para a porta, sabendo que poderia alcançá-la em uma fração de segundos, o que poderia causar uma agitação, mas o quê?
— Você vai me dar uma leitura, certo? — Seu olhar nivela o meu. — Você percebe que isso é o que eu quis dizer com entrevista, não é? — ele ri, mostrando as covinhas enquanto se balança pelos ombros e ri um pouco mais.
Eu olho a toalha, seguindo os buracos da seda com meus dedos, com o calor subindo por minhas bochechas enquanto recordo as últimas palavras do Damen, como ele pode me sentir sempre, e esperando que ele pudesse me sentir agora.
— Eu não preciso de nada. — Murmuro, sem querer olhá-lo. — Tudo o que preciso é um rápido toque de sua mão e pronto.
— Quiromancia — diz. — Não era o que esperava, mas está bem. — Inclina-se para mim, com as mãos abertas, suas palmas para cima, prontas.
Eu engulo em seco, vendo as linhas profundamente marcadas, mas é ali que vive a história, ao menos não para mim.
— Na verdade, eu não leio mãos. — digo, com a voz traindo os meus nervos, enquanto me armo de forças para tocá-lo. — É mais como, a energia, eu somente me sintonizo com ela. É nela que tenho toda a informação.
Ele retira suas mãos, me estudando tão estreitamente que não consigo fitá-los nos olhos. Sabendo que só preciso tocá-lo, acabando com isso de uma vez. E preciso fazê-lo agora.
— É só a mão, ou...? — diz flexionando os dedos, com os calos revestindo sua palma, subindo e baixando de novo.
Limpo minha garganta, me perguntando porque estou tão nervosa, porque sinto como se estivesse traindo Damen, quando o que estou fazendo é conseguir um trabalho que fará feliz a minha tia.
— Não, pode ser em qualquer parte do corpo. Sua orelha, seu nariz, inclusive o dedão do seu pé, não importa, tudo lê da mesma forma. A mão é mais acessível, sabe.
— Mais acessível que o dedão do pé? — Ele sorri, os olhos verde mar procurando os meus.
Faço uma pausa profunda, pensando nas tão grossas e ásperas parecem suas mãos, especialmente comparadas com as de Damen que são quase mais suaves que as minhas. E de alguma forma, inclusive só de pensar nisso me sinto fora de órbita. Agora que nosso toque é proibido, somente o fato de estar com outros meninos me parece sórdido, ilícito, equivocado.
Inclino-me para ele, com os olhos fechados, me lembrando de que é somente uma entrevista de trabalho, que realmente não há nenhuma razão pela que não possa conseguir isto de maneira rápida e indolor. Pressiono meu dedo no centro de sua palma e sinto o suave e doce toque de sua carne. Permito que seu fluxo de energia flua através por mim, tão tranquilo, sereno, é como estar no mais tranquilo dos mares. Tão diferente do formigamento e calor aos quais me acostumei com Damen, ao menos até que me choque com a história da vida de Jude.
Retiro minha mão como se me tivessem picado, procurando o amuleto, debaixo de minha blusa, notando o alarme em seu rosto enquanto me apresso a explicar.
— Sinto muito. — Sacudo a cabeça, zangada comigo mesma por exagerar. — Normalmente eu não faria isso. Normalmente sou muito mais discreta. Só estava um pouco, surpresa, só isso. Não esperava ver nada tão… — me detenho, sabendo que meu estúpido balbucio só piora mais. — Normalmente, quando faço leituras, escondo minhas reações muito melhor que isso. — Viro-me, me forçando a fita-lo, sabendo que o que digo não vai esconder o fato de que me afogava como o pior tipo de aficionada. — Sério. — Eu sorrio, os lábios estreitando-se de uma forma que não pode ser convincente. — Eu tenho uma espécie de rosto de pôquer.
Olhando para ele de novo e vendo que não está funcionando. Um rosto de pôquer que também está cheio de empatia e compaixão, gagueira, incapaz de deter este trem desbocado. Quer dizer, sério, estou, cheia disso… me estremeço, sacudindo minha cabeça enquanto recolho minhas coisas. Não há forma de que ele vá contratar-me agora.
Ele desliza pela beirada de sua cadeira, apoiando-se tão perto que luto para respirar.
— Então me diga, que foi que viu exatamente?
Engulo a seco, fechando os olhos por um momento e reproduzindo o filme que acabo de ver em minha cabeça. As imagens são tão claras, dançando diante de mim, quando digo.
— Você diferente. — Olho-o, seu corpo imóvel, o olhar constante, permitindo nenhuma pista quanto a se estou realmente certa. — Mas você sempre foi diferente. Desde que era um menino os via.
Engulo em seco e evito seu olhar, a imagem dele em seu berço, sorrindo para a avó, que havia morrido anos antes de seu nascimento, agora estava gravada em minha memória, e quando… faço uma pausa, sem querer dizê-lo, mas sabendo que se quiser o trabalho, então será melhor que o faça.
— Mas quando seu pai se matou, quando tinha dez anos, você pensou que era o culpado. Convencido de sua insistência em ver sua mãe que havia morrido um ano antes, de algum jeito estourou o limite dele. Levou anos para que você aceitasse a verdade, que seu pai se sentia sozinho, deprimido e ansioso para estar com sua mãe de novo. Mas ainda assim, às vezes você duvida.
Olho-o notando como ele quase não se estremeceu, mas algo nesses escuros olhos verdes sugere a verdade.
— Ele tentou de visitá-lo algumas vezes. Querendo desculpar-se pelo que fez, mas embora o sentisse, você o bloqueou. Farto de ser objeto de brincadeira de seus colegas e repreendido pelas freiras, para não mencionar seus pais adotivos também. — Eu sacudo minha cabeça, sem querer continuar, mas sabendo que devo fazê-lo.
— Você só queria ser normal. — Murmuro. — Ser tratado como os outros. — Corro meus dedos sobre a toalha, com a garganta começando a apertar, sabendo exatamente como sente-se ao querer se encaixar, embora na realidade nunca possa. — Mas depois que fugiu e conheceu Lina, que, a próposito, não é sua verdadeira avó, seus verdadeiros avós estão mortos.
Eu olho-o, me perguntando se ele está surpreso de que eu o soubesse, mas não dá nenhuma pista.
— De qualquer forma, ela o acolheu, alimentou-o, deu-lhe o que vestir, ela…
— Ela salvou minha vida. — Sussurra, recostando em sua cadeira, os largos dedos morenos esfregando-se contra seus olhos. — De várias maneiras. Eu estava tão perdido e ela…
— O aceitou como você realmente é. — Eu aceno, vendo toda a história diante de mim, como se eu estivesse bem ali.
— E quem é esse? — Pergunta ele, as mãos desdobradas em seus joelhos, me observando. — Quem sou realmente?
Olho-o, sem sequer pausar quando digo:
— Uma pessoa tão inteligente que terminou a escola secundária no décimo ano de idade. Um cara com habilidades mediúnicas tão incríveis que você ajudou centenas de pessoas e pediu muito pouco em troca. E ainda assim, apesar de tudo isso, você também é um cara que é tão ... — Eu olho para ele, lábios levantando nos cantos. — Bem, eu ia dizer preguiçoso, mas já que realmente quero este trabalho eu digo descontraído em vez disso. — Rio, aliviada quando ele faz o mesmo. — E, dada a escolha, você nunca mais trabalharia em outro dia. Você passaria o resto da eternidade apenas procurando aquela onda perfeita.
— É uma metáfora? — Pergunta, com um sorriso torcido em seu rosto.
— Não no seu caso. — Eu encolho meus ombros. — Em no caso, é um fato.
Ele assente com a cabeça, recostando-se na cadeira, olhando para mim de uma maneira que faz meu estômago dançar. Deixando cair de novo para a frente, os pés no chão quando ele diz.
— Culpado — seus olhos nostálgicos, procurando os meus. — E agora que não há mais segredos, desde que olhou direto no fundo de minha alma... eu tenho que perguntar, alguma ideia de meu futuro? Talvez uma loira?
Me remexo em meu lugar, preparada para falar quando ele me interrompe:
— E falo do futuro imediato, como a noite desta sexta-feira. Stacia finalmente decidirá sair comigo?
— Stacia? — Minha voz se quebra enquanto meus olhos virtualmente saem de órbita. Demais para o rosto de pôquer que eu estava me gabando.
Observo enquanto ele fecha seus olhos e sacode a cabeça, esses compridos e dourados cabelos contrastando com sua maravilhosa pele escura.
— Anastasia Pappas, também conhecida como Stacia. — Ele diz, inconsciente de meu suspiro de alívio, feliz por saber que é alguma outra Stacia e não a que eu conheço.
Entrego-me à energia e menciono seu nome sabendo que não acontecerá, ao menos não em da forma que ele pensa.
— Você quer mesmo saber? — Pergunto, sabendo que poderia lhe economizar o esforço perdido lhe dizendo agora, mas duvidando de que ele queira saber a verdade tanto como o aclama. — Quer dizer, não preferiria esperar e ver como acontecerão as coisas? —Olho-o, esperando que esteja de acordo.
— É isso o que diz a seus clientes? — Pergunta, de volta nos negócios. Sacudo a cabeça, olhando diretamente para ele.
— Bem, se eles forem tolos o bastante para perguntar, então serem tola o suficiente para responder. — Eu sorrio. — Então, suponho que a pergunta é, o quão tolo é você?
Ele se detém, duvida por um tempo e me preocupo de ter levado muito longe. Mas logo ele sorri, com a mão direita estendida enquanto se levanta da cadeira.
— Sou Tolo o bastante para te contratar. Agora eu sei por que você não apertou minha mão na primeira vez. — Ele acena, apertando minha mão por alguns por um bom tempo. — Essa foi uma das leituras mais incríveis que já tive.
— Uma das melhores? — Levanto minha sobrancelha simulando estar ofendida enquanto alcanço minha bolsa e caminho ao lado dele.
Ele ri, indo direto à porta e me jogando uma olhada enquanto diz:
— Por que não vem amanhã de manhã, digamos, por volta das dez? — Detenho-me, sabendo que não há forma de que possa fazer isso. — O que? Prefere dormir até tarde? Una-se ao clube. — Encolhe os ombros. — Mas acredite, se eu posso fazê-lo, você também pode.
— Não é isso. — Detenho-me, me perguntando porque estou evitando lhe dizer. Quer dizer, agora que tenho o trabalho, o que me importa o que ele pense?
Ele me olha, esperando, com o olhar alguns segundos.
— É só que, tenho aula. — Eu dou de ombros, pensando em como a palavra aula soa muito mais velha que colégio, como se estivesse na Universidade ou um pouco parecido.
Me olha de novo.
— Onde?
— Hum, em Bay View. — Murmuro, tentando não fazer uma careta de dor quando o digo em voz alta.
— O colégio? — Seus olhos se estreitam lentamente
— Uau, você é psíquico? — Rio, sabendo que soo nervosa, estúpida, me esclarecendo quando digo. — Estou terminando meu primeiro ano.
Ele me olha por um momento, muito comprido, logo se vira e abre as portas.
— Você parece ser mais velha. — diz, as palavras soam tão abstratas que não sei se foram dirigidas a mim ou para ele. — Venha quando puder. Te mostrarei como usar a registradora e outras coisas por aqui.
— Quer que eu venda coisas? Pensei que só faria leituras. — surpresa de escutar a expansão de meu trabalho tão rapidamente.
— Quando não estiver fazendo leituras estará trabalhando na loja. Isso é um problema? — Sacudo a cabeça enquanto ele mantém abertas as portas.
— Só uma coisa a mais — mordo o lábio, insegura de como proceder. — Bom, duas coisas, de fato. Primeiro, você se importaria se eu usasse um nome diferente, sabe, para as leituras e essas coisas? Vivo com minha tia, e embora ela seja genial e tudo, não sabe sobre minhas habilidades exatamente, assim…
— Se é isso que quer. — Ele encolhe os ombros. — Não se preocupe. Mas desde que eu preciso para começar a marcar as consultas, quem quer ser?
Detenho-me, eu não havia pensado nisso até agora. Pergunto-me se deveria escolher o nome de Rachel que é o nome de minha melhor amiga no Oregón, ou um pouco mais comum como Anne ou Jenny ou algo assim. Mas sabendo como as pessoas sempre esperam que os psíquicos vão mais longe do normal, olho para a praia e digo a terceira coisa que vejo, sorteando a árvore e a quadra de esportes de basquete quando digo:
— Avalon. — Imediatamente eu gosto do som. — Já sabe, como o povo na Ilha Catalina?
Ele acena, me seguindo para fora enquanto diz:
— E a segunda coisa?
Eu me viro respirando fundo e esperando que ele ouça quando eu digo
— Pode ter algo melhor que Stacia.
Ele me olha, o olhar percorrendo o meu rosto, claramente resignado com a verdade, se não exatamente emocionado ao ouvir isso de mim.
— Você tem um sério histórico de se apaixonar pelas garotas erradas. — Eu aceno. — Você sabe disso, não sabe?
Espero por uma resposta, algum reconhecimento do que acabo de dizer, mas ele só dá de ombros e acena. Ele me observa enquanto vou direto ao meu carro, sem ter ideia de que posso escutá-lo quando pensa: Eu não sei.

6 comentários:

  1. Damen forever... <3 ;)
    Ass: Rosana

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  2. AHHH EU VO MATAR ELA
    "sinto como se tivesse traindo o Damen" Porque será?

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  3. La vem ela querendo tomar conta da vida dos outros.

    Que coisa ridícula.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!