30 de outubro de 2015

Quatro

Quando finalmente soa a campainha do quarto período, me levanto da minha mesa e me aproximo do Sr. Muñoz.
— Você tem certeza que terminou? — Ele pergunta, levantando a cabeça e me olhando através da pilha de papéis na frente dele. — Não tem problema se você precisar de mais tempo.
Eu olho pra minha prova e digo que não com a cabeça, perguntando-me o que ele faria se alguma vez soubesse que terminei o exame em aproximadamente 45 segundos depois que ele me entregou e que então passei os 50 minutos restantes fingindo que fazia.
— Estou bem — lhe digo, sabendo que é verdade. Uma das coisas com que tenho que lidar sendo psíquica, é que não tenho que estudar porque já sei todas as respostas, e embora as vezes seja tentador demonstrar e passar em todos os meus testes com um percentual perfeito, geralmente tento evitar isso cometendo de propósito alguns erros porque é importante não exagerar. Pelo menos é o que Damen diz. Ele sempre está me lembrando a importância que é não sobressair muito porque assim, pelo menos, da uma aparência normal – embora isso seja o mínimo que somos.
A primeira vez que ele me disse isso, não pude evitar recordar das vezes que ele manifestou as tulipas quando nos conhecemos, mas ele disse que teve que fazer algumas exceções porque de alguma forma tinha que chamar minha atenção e teve que repetir mais do que o necessário porque eu não entendi o significado das flores – amor eterno – até o último momento.
Entreguei a prova ao Sr. Muñoz, estremecendo quando a ponta dos nossos dedos fez contato. Apesar de ter sido um simples toque, foi suficiente para me mostrar mais do que jamais precisava saber.
Permitindo-me uma visão detalhada de como foi sua manhã, tudo sobre seu apartamento incrivelmente bagunçado, a mesa da cozinha que está coberta de vasilhas e múltiplas versões do manuscrito no qual ele está trabalhando durante os últimos sete anos, ele cantando “Born to Run” a todo pulmão enquanto tenta conseguir uma camisa limpa para então ir a Starbucks onde tropeçou em uma loira, que derramou seu café latte gelado nele – resultando em uma fria, úmida, irritante mancha que um flash de seu belo sorriso fez apagar.
Um glorioso sorriso que ele não pôde esquecer – um glorioso sorriso que – pertence a minha tia!
— Quer esperar enquanto eu corrijo?
Eu digo que sim com um movimento de cabeça, praticamente hiper ventilando quando, enquanto observo sua caneta de tinta vermelha, repito em minha mente a cena e novamente chego à mesma terrível conclusão - Meu professor de história está entusiasmado com Sabine.
Não posso permitir que isso aconteça. Não posso deixar que ela volte a esse lugar. Quero dizer, só porque eles são inteligentes, bonitinhos e solteiros não significa que eles precisem de um encontro.
Fico ali parada e incapaz de respirar, enquanto tento bloquear os pensamentos em sua cabeça concentrando-me na ponta da sua caneta. Observando enquanto ele deixa um rastro de pequenas manchas vermelhas que se transformam em marcações nos números dezessete e vinte e cinco – justamente como planejei.
— Só dois erros! Muito bem! — Ele sorri, passando os dedos na mancha de sua camisa, enquanto se alguma vez voltará a vê-la. — Quer as respostas corretas?
Uh, na verdade não, eu penso ansiosa para sair o mais rápido possível para chegar a mesa do almoço. Não só porque quero ver Damen, mas também porque não quero estar aqui no caso de suas fantasias começarem a aparecer me forçando a sair.
Mas o normal seria pelo menos mostrar interesse, respiro profundamente, sorrio e digo que sim com a cabeça, como se ver as respostas era o que eu mais desejava.
Quando ele me entrega a folha de respostas, apenas continuo com a encenação, dizendo “Oh, olhe isso, eu errei a data!” e “Claro! Como eu não sabia isso? Duh!”.
Mas ele só assente porque está outra vez pensando na loira – conhecida como: a única mulher em todo o universo que está absolutamente proibida para namorar!
Pensando se ela estará lá amanhã, na mesma hora e no mesmo lugar e mesmo que a ideia de luxúria dos professores me pareça muito grosseiro no senso geral, este professor em particular deseja a uma pessoa que é praticamente como uma mãe pra mim – simplesmente isso não acontecerá.
Então me lembro que faz só alguns meses que tive uma visão de Sabine se encontrando com um cara bonitinho no edifício onde trabalha. Desde que Muñoz trabalha aqui, e Sabine trabalha lá, suponho que na verdade não exista nenhuma ameaça de que meus dois mundos se colidam.
Mas só no caso de estar errada, me controlo e digo:
— Um, isso foi casualidade.
Ele me olha, testa fundida, tentando decifrar minhas palavras, e embora saiba que estou indo longe demais e sei que estou prestes a dizer algo completamente fora do comum, à verdade é que eu sinto que não tenho escolha. Eu não posso deixar que meu professor de história saia com minha tia. Não posso tolerar isso. Simplesmente não posso.
Assim, aponto para a mancha em sua camisa e digo:
— Você sabe, ela, a Srta. Latte Gelado. — Confirmo com a cabeça, vendo o alarme em seu rosto. — Eu duvido que ela volte lá. Ela não vai realmente lá frequentemente.
Então antes que eu possa dizer qualquer outra coisa que destrua não só seus sonhos, mas também confirme a extensão do meu dom esquisito. Coloco minha bolsa sobre meu ombro e corro até a porta, me contraindo com os últimos rastros da energia do Sr. Muñoz enquanto me dirijo a mesa onde Damen está me esperando – estou ansiosa para estar com ele novamente depois de ter estado muitas horas separados.
Mas quando chego, não recebo as boas-vindas que esperava. Há um novo garoto sentado ao lado dele, justamente no lugar que eu costumo sentar, e está absorvendo tanta atenção, que Damen quase nem me nota.
Reclino-me contra a borda da mesa, observando como todos se desmancham em risadas por algo que o garoto novo disse. Não quero interromper nem parecer grosseira, então me sento em frente a Damen, ao invés de me sentar ao seu lado como normalmente faço.
— Oh Meu Deus, você é tão engraçado! — Disse Haven, inclinando-se, tocando brevemente a mão do garoto novo e sorrindo de uma maneira que deixa perfeitamente claro que seu novo namorado, Josh, a quem ela mesma proclamou com sua alma gêmea, temporariamente esquecido. — Que pena que você perdeu Ever. Ele é tão engraçado que fez Miles se esquecer de ficar obsessivo com sua espinha.
— Obrigado por me lembrar — Miles olhou de cara feia, seus dedos no lugar onde estava a espinha, mas ela já não estava mais lá.
Seus olhos ficaram enormes, olhando a todos, buscando uma confirmação de que sua enorme espinha, a causa de sua desgraça, foi realmente. E não pude evitar me perguntar se eu fiz a espinha desaparecer quando a toquei esta manhã no estacionamento, porque então isso significaria que tenho habilidades curativas.
Mas então, enquanto estou pensando, o garoto novo disse:
— Eu disse que iria funcionar. Essa coisa é brilhante. Fique com o resto, no caso de voltar a aparecer. — Eu o encaro com os olhos entrecerrados, me perguntando como é que ele pode ter tempo suficiente para lidar com os complexos de Miles, quando é a primeira vez que o vejo.
— Eu lhe dei uma pomada — ele diz, virando-se pra mim. — Miles e eu estamos na mesma sala. Eu sou Roman, a propósito.
Olho pra ele e me concentro em sua aura amarela brilhante que envolve ele, suas bordas entendidas como se estivesse dando um amistoso abraço grupal.
Mas quando me concentro em seus profundos olhos azuis escuros, em sua pele bronzeada, em seu cabelo loiro e despenteado e sua roupa casual com a quantidade certa de hipster chique – apesar da sua boa aparência, minha primeira reação é me afastar dele.
Mesmo quando ele me envia um daqueles tipos de sorriso indiferente, fácil, que faz-seu-coração-parar, fico tão na defensiva, eu não consigo devolver o sorriso.
— E você deve ser Ever. — Ele disse. Recolhendo sua mão, a única coisa que eu ainda não percebido que estava estendida e esperando ser agitada até ele puxá-la.
Olhei de relance para Haven que claramente estava horrorizada pela minha falta de educação. Então para Miles que estava muito ocupado olhando fixamente para o espelho para notar minha gafe. Mas quando Damen chega por baixo da mesa e aperta meu joelho, limpo minha garganta. Olho para Roman e digo.
— Um, sim, sou Ever. — E embora ele me mostre esse sorriso de novo, porém não funciona, simplesmente faz com que meu estômago fique todo nervoso e enjoado.
— Parece que temos muito em comum. — Ele disse. Embora não possa imaginar o que possivelmente poderia ser. — Eu sento a duas filas atrás de você em história. E pela forma que você estava se esforçando, eu não podia ajudar, mas pensei, bem aí está uma garota que odeia história quase tanto quanto eu.
— Não odeio história. — Disse, só que saiu muito rápido, muito na defensiva, minha voz contendo uma aguda irritação abrasiva que fez com que todos olhassem pra mim. Então olho de relance para Damen, procurando por confirmação, com certeza não posso ser a única que sente uma corrente instável de energia que começa com Roman e flui direto pra mim.
Mas ele dá de ombros e toma um gole de sua bebida vermelha como se tudo fosse perfeitamente normal e ele não tinha notado grande coisa.
Então me volto novamente para Roman e investigo em sua mente, escutando furtivamente um fluxo constante de inofensivos pensamentos que são ligeiramente juvenis, a propósito, são basicamente inadequados. O que muito significa que o problema é meu.
— Verdade? — Roman levanta suas sobrancelhas e se inclina para perto de mim. — Tudo isso de investigar o passado, explorar todos aqueles lugares e datas antigas, examinando a vida de pessoas que viveram há séculos atrás e que não tem absolutamente nenhuma relevância agora – isso não te aborrece? Ou te aborrece a morte?
Só quando aquelas pessoas, lugares, e datas envolvem meu namorado e sua permanência na Terra por seiscentos anos festejando!
Mas eu só penso. Não falo. Em vez disso, eu só dou de ombros e digo:
— Eu fui bem. Na verdade, era fácil. Quase perfeito.
Ele assente, seus olhos sobre mim, sem perder uma polegada.
— É bom saber. — Ele sorri. — Munõz só me deu o fim de semana para acompanhar, talvez você possa me instruir.
Olho de relance para Haven, observando como seus olhos tornam-se escuros e sua aura se tornando um verde vômito de inveja. Então olho para Miles que abandonou sua ferida e agora está trocando textos com Holt, e então olho para Damen que está alheio a nós dois, seu olhar distante, focado em algo que não posso ver. E apesar de saber que estou sendo ridícula, que todo mundo parece gostar dele e que eu deveria fazer o que pudesse para ajudá-lo, eu simplesmente dou de ombros quando digo:
— Ah, tenho certeza que não é necessário. Você não precisa de mim.
Incapaz de ignorar as picadas de minha pele e o som no meu estômago quando seus olhos se encontram com os meus – revelando um conjunto de dentes brancos quando disse:
— Legal de você me dar o beneficio da dúvida, Ever. Embora eu não tenha certeza que você deveria.

16 comentários:

  1. Fernanda Boaventura4 de novembro de 2015 22:39

    Não. Confio. Nele.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Concordo!
      Derrepente o cara aparece do nada

      Excluir
  2. Fernanda Boaventura5 de novembro de 2015 11:37

    NÃO. CONFIO. NELE.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Apoiadas manas totalmente

      Excluir
  3. Esse cara parece suspeito!
    Ass: Bina.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A questão eh: Quem não eh suspeito aí? Kkkk

      Excluir
  4. Ja nao gostei dele, ele é o (a) segundo (a) Drina??

    ResponderExcluir
  5. Não confio tambem , caramba o cara fala como se soubesse do que ela está falando Não confio!!!

    ResponderExcluir
  6. Nossa!! Esse livro é muito show cheio de misterios quando a gente pensa que sabe o que vai acontecer tudo mudo!!!!

    ResponderExcluir
  7. "Só quando aquelas pessoas, lugares, e datas envolvem meu namorado e sua permanência na Terra por seiscentos anos festejando!" kkkkk \o/

    Só eu acho q ele tem algo estranho? kk mas eu gosto e n gosto dele, eu acho q ele é meio estranho, meu conceito é:
    os bonzinhos chegam arrebentando, os malvados com amiguinhos e os sem mt importancia, tanto arrebentando a cara de alguém, quanto caminhando na rua

    ResponderExcluir
  8. Uou, quê que foi isso? De onde surgiu esse ser estranho, e por que o Damen parece não se importar?? E por que a Ever acha que sabe o que é melhor pra Sabine??! Deixa a mulher viver!!

    ResponderExcluir
  9. Ela NÃO tem o direito de decidir o que é melhor pra Sabine.
    Não gostei desse garoto... suspeito.

    ResponderExcluir
  10. Esse novato deve ser ma pessoa.
    Nao confio nele!!

    ResponderExcluir
  11. PROVAVELMENTE tem a ver com Drina!! kkk e realmente quando acho que estou prevendo o que vai acontecer o livro muda tudo kk muito bom sempre o inesperado.

    assinado: synthia

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!