18 de outubro de 2015

Quatorze - Quatro milhões de canais e não tem nada passando além da Visão das Valquírias

PELO MENOS EU era o último.
Fiquei aliviado quando as apresentações começaram com um einherji do outro lado da mesa... até eu ver o que os outros novatos fizeram para irem parar em Valhala.
Helgi exclamou:
— Lars Ahlstrom!
Um cara louro e parrudo se levantou com sua valquíria. Lars estava tão nervoso que derrubou o cálice e derramou hidromel mágico por toda a calça. Uma onda de gargalhadas se espalhou pelo salão.
Helgi sorriu.
— Como muitos já sabem, a capitã Gunilla anda testando novos equipamentos nos últimos meses. Ela colocou câmeras nas armaduras das valquírias para tomar conta de tudo... e, com sorte, nos distrair!
Os guerreiros gritaram e bateram os cálices nas mesas, afogando o som de Sam xingando ao meu lado.
Helgi ergueu o próprio cálice.
— Apresento a vocês a Visão das Valquírias!
Ao redor do tronco da árvore, um anel de telas holográficas gigantescas ganhou vida, flutuando no ar. O vídeo estava picotando, provavelmente por ter sido gravado por uma câmera no ombro da valquíria. Estávamos no alto, circulando acima da cena de uma balsa afundando em um mar cinzento. Muitos dos botes salva-vidas estavam pendurados pelos cabos, inúteis. Passageiros saltavam ao mar, alguns com coletes. A valquíria se aproximou. O foco do vídeo melhorou um pouco.
Lars Ahlstrom andou com dificuldade pelo convés inclinado segurando um extintor de incêndio. A porta para a área interna da balsa estava bloqueada por um contêiner grande de metal. O garoto tentou movê-lo, mas era pesado demais. Lá dentro, pelo menos umas dez pessoas estavam presas e batiam desesperadamente nas janelas.
Lars gritou alguma coisa para elas em... sueco? Norueguês? Mas o significado era claro: PARA TRÁS!
Assim que as pessoas recuaram, Lars bateu com o extintor na janela. Na terceira tentativa, o vidro se estilhaçou. Apesar do frio, o garoto tirou o casaco e o colocou em cima do vidro quebrado. Lars ficou ao lado da janela até os últimos passageiros saírem em segurança. Eles correram para os botes salva-vidas que restaram. Lars pegou o extintor de incêndio de novo e foi atrás, mas o navio tremeu violentamente. Ele bateu com a cabeça na parede e deslizou, inconsciente.
O corpo dele começou a brilhar. O braço esticado da valquíria apareceu no vídeo. Uma aparição dourada cintilante saiu do corpo de Lars, a alma dele, eu imaginei. O Lars Dourado segurou a mão da valquíria, e a tela do vídeo ficou escura.
Por todo o salão de banquete, guerreiros festejaram.
Na mesa principal, os lordes entraram em debate. Eu estava perto o bastante para ouvir parte da discussão. Um cara (lorde Nelson?) questionou se um extintor de incêndio podia contar como arma.
Eu me inclinei na direção de Sam.
— Por que isso tem importância?
Ela cortou o pão em pedaços cada vez menores.
— Para entrar em Valhala, um guerreiro precisa morrer em batalha portando uma arma. É o único jeito.
— Então se qualquer um pegar uma espada e morrer vai acabar em Valhala?
Ela deu uma risada debochada.
— Claro que não. Não queremos que crianças peguem armas e morram de propósito. Não há nada de heroico no suicídio. O sacrifício, a bravura, não devem ser planejados, mas sim uma verdadeira reação heroica a uma crise. Tem que vir do coração, sem qualquer pensamento por recompensa.
— Então... e se os lordes decidirem que um novato não deveria ter sido escolhido? Ele volta a ficar vivo? — Tentei não ficar muito esperançoso.
Sam não olhou nos meus olhos.
— Quando alguém se torna um einherji, é para sempre. Talvez pegue os piores trabalhos. Talvez tenha dificuldade em conquistar respeito. Mas fica em Valhala. Se os lordes decidirem que a morte não foi valorosa... bem, a valquíria é punida.
— Ah.
De repente, entendi por que todas as valquírias na mesa pareciam meio tensas.
Os lordes fizeram uma votação. Todos concordaram com unanimidade que o extintor de incêndio podia contar como arma e que a morte de Lars podia ser vista como o desfecho de um combate.
— Não há inimigo pior do que o mar — afirmou Helgi. — Decidimos que Lars Ahlstrom é digno de Valhala!
Mais aplausos. Lars quase desmaiou. A valquíria dele o segurou enquanto sorria e acenava para a multidão.
Quando o barulho cessou, Helgi prosseguiu:
— Lars Ahlstrom, você sabe quem são seus pais?
— Eu... — A voz do novato falhou. — Eu não conheci meu pai.
Helgi assentiu.
— Isso é bem comum. Vamos consultar as runas, a não ser que o Pai de Todos deseje interceder.
Todo mundo se virou para o trono desocupado. Os corvos inflaram as penas e grasnaram. O trono permaneceu vazio.
Helgi não pareceu surpreso, mas os ombros penderam em decepção. Ele fez sinal na direção do forno de terra. Do meio de serventes e cozinheiros, uma mulher usando uma veste verde com capuz se adiantou. O rosto estava escondido pelo capuz, mas, a julgar pela postura e pelas mãos retorcidas, ela devia ser bem velha.
— Quem é a Bruxa Malvada? — murmurei para Sam.
— Uma völva. Uma vidente. Ela é capaz de fazer feitiços, ver o futuro e... outras coisas.
A völva se aproximou da nossa mesa. Parou na frente de Lars Ahlstrom e puxou uma bolsinha de couro das dobras da veste. Tirou de lá um punhado de runas como as que vi no escritório de tio Randolph.
— E as runas? — perguntei para Sam. — Para que servem?
— São o velho alfabeto viking — respondeu ela —, mas cada letra também simboliza um poder: um deus, um tipo de magia, uma força da natureza. São como o código genético do universo. A volva é capaz de interpretar as runas para ver seu destino. Os grandes feiticeiros, como Odin, nem precisam usar runas. Eles conseguem manipular a realidade só dizendo o nome da runa.
Nota mental: evitar Odin. Eu não precisava que minha realidade fosse ainda mais manipulada.
Em frente à nossa mesa, a völva disse alguma coisa baixinho e jogou as runas aos próprios pés. Elas caíram no chão de terra batida, algumas viradas para cima, algumas viradas para baixo. Uma runa em particular pareceu chamar a atenção de todo mundo. As telas holográficas projetavam a imagem para o salão.



A marca não significava nada para mim, mas centenas de guerreiros gritaram em aprovação.
— Thor! — gritaram eles. E começaram a cantarolar: — THOR, THOR, THOR!
Sam grunhiu.
— Como se precisássemos de outro filho de Thor.
— Por quê? Qual é o problema dos filhos de Thor?
— Nada. Eles são ótimos. A Gunilla... é filha de Thor.
— Ah.
A capitã das valquírias estava sorrindo, o que era ainda mais assustador do que sua expressão de desprezo.
Quando a gritaria diminuiu, a völva ergueu os braços enrugados.
— Lars, filho de Thor, regozije-se! As runas mostram que você lutará bem no Ragnarök. E amanhã, em seu primeiro combate, provará seu valor e será decapitado!
A audiência comemorou e riu. Lars ficou muito pálido de repente. Isso só fez os guerreiros rirem mais, como se decapitação fosse um ritual de passagem no mesmo nível do cuecão. A völva reuniu as runas e se afastou enquanto a valquíria de Lars o ajudava a se sentar novamente.
A cerimônia prosseguiu. A próxima foi uma novata chamada Dede. Ela tinha salvado um grupo de crianças na escola de seu vilarejo quando os soldados de uma milícia tentaram sequestrá-las. Ela flertou com um dos soldados, o enganou para que deixasse que ela segurasse o rifle dele e atirou contra os homens da milícia. Acabou sendo morta, mas o sacrifício altruísta deu tempo para as crianças fugirem. O vídeo era bem violento. Os vikings adoraram. Dede foi aplaudida de pé.
A völva leu as runas. Confirmou que os pais de Dede eram mortais comuns, mas ninguém pareceu se importar. De acordo com as runas, ela lutaria com dedicação no Ragnarök. Na semana seguinte, perderia os braços várias vezes em combate. Em cem anos, sentaria à mesa dos lordes.
— Ooooooh! — murmurou a multidão com apreciação.
Os outros quatro novatos eram igualmente impressionantes. Todos haviam salvado pessoas. Tinham sacrificado as vidas com bravura. Dois eram mortais. Um era filho de Odin, o que causou uma pequena comoção.
Sam se inclinou na minha direção.
— Como falei, Odin não é visto há algum tempo. Recebemos com alegria qualquer sinal de que ele ainda transita entre os mortais.
A última novata era uma filha de Heimdall. Eu não sabia quem era esse cara, mas os vikings pareceram impressionados.
Minha cabeça estava rodando com tanta informação. Meus sentidos estavam em chamas por causa do hidromel. Só percebi que tinha chegado a minha vez quando Helgi chamou meu nome.
— Magnus Chase! — gritou ele. — Levante-se e nos impressione com sua coragem!

16 comentários:

  1. Isso vai dar ruim. Percy foi bem recebido no Acampamento Meio Sangue. Sei que não tem nada a ver, mas tbm é mitologia. Sei la, seria estranho se o Riordan repetisse isso, Magnus vai agitar mto as coisas, eu espero.

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    1. Percy foi bem recebido por causa da professia acho que com o magnus vai ser o oposto

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  2. "mortenão foi valorosa... "
    Não seria "morte não"?

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  3. Minhas mao estao suando por ele.. sim claro percy foi bem recebido sim.. principalmente pela clarissa .. mt bem recebido..

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    1. né! a maioria dos campistas só achava que ele trazia problemas

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  4. Eu acho que o Magnus pode ser filho de um deus do Sol ou da natureza porque, quando ele estava no parque com a mãe dele, ela falou algo como: "Ele está ao nosso redor". E ao redor deles tinha Sol e natureza.

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  5. Nervosa...muito...entrando em colapso..tendo um míni heart attack

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  6. TOMA SAM
    agora como Philipis ,a batata enfrente seu destino

    ~coruja

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  7. Mano, a morte dele foi Honrada pra mim... geral com armas e extintores ele morreu em uma batalha clássica, com espadas e muita DOR! Isso sim e ser um Nórdico GO MAGNUSSSS!

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