31 de outubro de 2015

Quarenta

Estou no quarto de trás, inclinada sobre o livro quando Jude chega, surpreso ao ver que ainda estou aqui.
— Eu vi seu carro estacionado atrás e queria me assegurar de que está bem. — Faz uma pausa na porta, com os olhos entreabertos, me vendo, antes de cair sobre a cadeira, justo em frente à mesa onde estou estudando. Olho o livro, com os olhos nublados assim como olho o relógio, surpreendida ao ver o tarde que é, e que estive aqui muito tempo.
— Suponho que fui pega. — Digo, encolhendo os ombros. — É muita tinta a que há aqui. Fecho o livro e o empurro a um lado enquanto acrescento: — E a maior parte é inútil.
— Não tem porque lê-lo tudo em uma noite, você sabe. Pode levá-lo para casa se quiser. — Penso em casa sobre a mensagem de Sabine onde me informava de seus planos de cozinhar o jantar para Muñoz, fazendo de casa o último lugar aonde quero estar neste momento.
— Não, obrigado. — Sacudo a cabeça. — Já terminei.
Me dando conta de que significa que pode ser possível. Para um livro com tal promessa, tudo o que tenho lido até agora explica a localização de certo lugar, feitiços de amor, e uma parte para as verrugas com duvidosos resultados pouco concludentes. Nada sobre como reverter os efeitos de um elixir poluído com sangue ou como obter um, nada que me sirva para o que preciso saber. Nada disso tem importância para mim.
— Posso te ajudar? — Pergunta, lendo a derrota em meu olhar.
Começo a mover a cabeça, sabendo que não pode. Mas então penso melhor. Talvez possa.
— Está aqui? — Pergunto-lhe aguentando a respiração. — Riley está por aí?
Olha a minha direita, continuando e move a cabeça.
— Sinto muito. — Encolhe os ombros. — Não a vi desde…
Mas apesar da sua voz se apagar, nós dois sabemos como termina. Ele não a viu desde ontem, pouco antes que Damen nos surpreendesse abraçados na praia, um momento que prefiro esquecer.
— Então, como é exatamente isso de ensinar a alguém a... já sabe, ver os espíritos?
Me olha por um momento, esfregando o queixo, como que estudando meus olhos.
— Não necessariamente se pode ensinar a alguém a vê-los. — Ele se recosta em seu assento, apoiando seu pé descalço em seu joelho. — Todo mundo é diferente, com diferentes dons e habilidades. Alguns são naturalmente clarividentes, capazes de ver, ou clariouvintes, capazes de escutar, ou clarisensíveis.
— Capazes de sentir. — Aceno com a cabeça, já sabendo onde vai chegar, a parte que me interessa. — Então qual…
— Os três. Ah, e capaz de sentir os aromas também. — Sorri, com um sorriso fácil e rápido que virtualmente ilumina a habitação e faz que meu estômago se sinta estranho de novo.
— É provável que também as tenha. É o que trato de explicar. Ou é o truque para conseguir uma vibração o suficientemente alta, então estou seguro… — Me olha, sabendo que me tinha feito perder a vibração e adiciona: — Tudo é energia, já sabe, verdade?
As palavras me levam de novo a aquela noite na praia, a só umas semanas atrás, quando Damen, disse a mesma coisa, a respeito da energia, as vibrações, tudo é o mesmo. Lembro como me senti então, tinha tanto medo de confiar no que tinha feito. A ingenuidade de pensar que era o pior de meus problemas, que não podia ser pior.
Olho Jude, com a boca ainda movendo-se, ele segue e segue, explicando a energia, a vibração, e a capacidade da alma para viver. Mas tudo o que posso pensar é em nós três, Damen, eu, e ele, me perguntando como encaixamos realmente.
— O que pensa das vidas passadas? — Eu lhe digo, interrompendo-o. — Você sabe, a reencarnação. Crê nessas coisas? Crê que às pessoas realmente sobra o carma que necessitam para melhorarem, uma e outra vez até que o façam de forma correta?
Contenho o fôlego, me perguntando como vai responder, se não tem nenhuma lembrança de nós, pelo que fomos uma vez.
— Por que não? — Encolhe os ombros. — King Carma o fazia. Além disso, não foi Eleanor Roosevelt, que disse que não acreditava que se aparecesse em outra vida, fosse ser mais estranha do que já é agora? Crê que vou esmagar Leonor? — Ri.
Sinto-me de novo, estudando-o, desejando saber sobre nosso enredado passado. E se por nenhuma outra razão, que não seja conseguir que tudo fosse revelado, pô-lo aí na mesa, para que Damen soubesse e lhe demonstrar que tudo se acabou. E talvez pensando que é meu trabalho, tomo uma profunda respiração para depois dizer:
— Já ouviu falar de alguém chamado Bastiaan do Kool? — Ele me olha, com os olhos entreabertos. — Era holandês, um artista, um pintor, essas coisas. — Sacudo a cabeça e olho para outro lado, me sentindo uma tola. Quero dizer, bom, para que saiba, Bastiaan foi você, várias centenas de anos atrás e a pessoa a qual você pintou era eu!
Vejo-o sentado diante de mim, arqueando os lábios e levantando os ombros, claramente consciente do que estou conseguindo. Posso escoltá-lo até Summerland e recriar a galeria ou, posso não fazê-lo e me apegar ao plano original, não, não há modo de que continue, devo esperar, pelo menos outros três meses.
Movo a cabeça, decidida a esquecer isso, e continuar com meu trabalho. Olhando-o e limpando minha garganta para dizer:
— Então, como se faz exatamente para elevar a vibração?
Neste momento, não estou mais perto de falar com os mortos do que o estava antes de começar. Ao menos não com a pessoa morta na qual me encontro realmente interessada, embora haja muitas teorias, mas eu basicamente as tenho boqueado todas.
— Precisa-se praticar. — Fecha a porta e me leva a meu carro. — Sentei-me em um círculo espiritual por semanas durante anos antes que meus poderes retornassem por completo.
— Acreditava que nasceu com eles — eu entrecerro os olhos.
— Assim era. — Ele assente. — Mas depois de bloqueá-los durante tanto tempo, tive que trabalhar para desenvolvê-los de novo.
Suspiro, vejo-me incapaz de me unir a um grupo de sessão e desejando que houvesse uma maneira mais fácil.
— Ela te visita em seus sonhos, sabe.
Ponho os olhos, recordando um sonho louco, e sabendo que de maneira nenhuma era ela. Mas ele só me olha, assentindo com a cabeça quando ele diz:
— É obvio que sim. Sempre o faz. É a forma mais fácil de passar.
Olho-o, apoiado na porta de meu carro, com a chave em sua mão, com os olhos perdidos nas lembranças, sabendo que devo dizer boa noite, mas devo ir a casa. Mas por alguma estranha razão não posso me mover.
— A mente, o subconsciente se faz cargo da noite, libera-nos de todas as restrições habituais que pomos a nós mesmos, todas as coisas que nos bloqueiam, nos dizendo que não podem ocorrer, que as coisas não são realmente místicas e possíveis, quando a verdade é que o universo é mágico e misterioso, e muito maior do que parece, com apenas o mais fino véu de energia, separando-nos deles. Sei que é confusa a forma como se comunicam nos símbolos e para ser sincero, não estou seguro de quanto é isso, e de nossa maneira de organizar a informação, e as restrições sobre quanto lhes permite compartilhar conosco.
Pausa profunda, todo meu corpo treme embora não faça frio. Assustada se parece mais como me sinto. Assustada por suas palavras, sua presença, a forma com me faz sentir. Mas não sinto frio. De fato, não o sinto.
Riley deve estar perguntando-se o que poderia ter significado a prisão de cristal, a forma em que podia ver Damen, mas ele não podia vê-la. Tratando de vê-lo como se fora uma missão para a disciplina de Inglês, como o simbolismo em um livro, e se isso significa que Damen está equivocado e não pode ver o que está diante dele? E se for assim, o que significa isso?
— Só porque não pode ver algo não significa que não existe — diz, sua voz é o único som nesta ainda, tranquila noite.
Aceno com a cabeça, sentindo que deve saber melhor que ninguém que Jude está diante de mim, falando das dimensões, de outra vida, e como o tempo é só um confeccionado conceito que não existe realmente, e não posso me comportar como um menino ao qual lhe dão uma guloseima. Somente tomo minha mão, fecho os olhos, e me levo a Summerland para me mostrar quão profundo era tudo, sobretudo o futuro. Meu olhar se enfoca em sua escura e lisa pele, os rastros de ouro, a junção da cicatriz na frente, até chegar finalmente a reunião de olhos verdes-mar, tão profundos, por isso conheço rapidamente o olhar.
— Ever — grita, a voz baixa e grossa, que se aproxima de mim. — Ever – eu
Mas termino por sacudir a cabeça e as costas, subindo a meu carro e saindo desse lugar.
Olho em meu espelho retrovisor para encontrá-lo ainda ali de pé, sem deixar de olhar para trás de mim, seu desejo se mostra em seu olhar. Sacudo a cabeça de novo na estrada, me dizendo que o passado em particular, e as coisas que uma vez senti, não têm nada a ver com meu futuro.

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