30 de outubro de 2015

Quarenta

Eu acordei cedo. Supondo que esse é o último dia da minha vida, ou pelo menos o último dia da vida que eu construí aqui, estou ansiosa para aproveitar ao máximo. E mesmo que eu tenha certeza que vou ser recebida por um completo coro de Spaz! Perdedora! E o mais recente Bruxa! Sabendo que essa é a última vez em que serei submetida a essa tortura então não faz diferença.
Na Hill Crest High (a escola na qual eu estou retornando), eu tenho toneladas de amigos. O que faz parecer de segunda a sexta-feira muito mais atraente, senão divertido. E eu não me lembro de nenhuma vez ser tentada a sair (como eu faço o tempo todo aqui), nem de está deprimida por não me encaixar.
E para ser honesta, eu acho que é por isso que estou tão ansiosa para retornar. Porque além da óbvia emoção de estar com minha família, ter um bom grupo de amigos que eu tanto amo e que me aceitam, e com quem eu posso ser eu mesma, faz a decisão ser muito mais fácil. Uma decisão que eu não teria sequer pensado duas vezes se não fosse por Damen.
Mas mesmo que eu não me convença sobre o fato de que eu nunca mais vou vê-lo novamente, nunca mais vou saber como é o toque da sua pele, o calor do seu olhar, ou a sensação de lábios sobre os meus, eu ainda estou disposta a deixar tudo.
Se isso significa a recuperação do meu velho eu e a volta da minha família, então não há realmente nenhuma escolha. Quero dizer, Drina me matou para que ela pudesse ter Damen para si mesma. E Damen me trouxe de volta para que ele pudesse me ter para si mesmo. E por mais que eu o ame, tanto que o meu coração dói com o pensamento de nunca mais vê-lo novamente, agora eu sei que no momento que ele me trouxe de volta a vida, ele mexeu com a ordem natural das coisas. Transformando-me em algo que eu nunca fui concebida para ser.
E agora é meu trabalho colocar tudo de volta.
Eu estou parada diante de meu armário e pegando o meu novo jeans, um suéter preto e minhas novas sapatilhas de balé, assim como eu usava na visão. Então eu passo a mão em meus cabelos, passo brilho labial, colocando os minúsculos brincos de diamantes que meus pais me compraram para o meu aniversário de dezesseis anos (desde que eles definitivamente perceberiam se eu os perdesse), juntamente com a pulseira de ferradura de cristal que Damen me deu quando não havia vida para eu que eu retornasse, mas não há nenhuma maneira que eu possa removê-la.
Então eu pego minha bolsa, olho em volta do meu quarto ridiculamente grande uma última vez, e ponho a cabeça para fora da porta. Ansiosa para dar uma ultima olhadinha na vida que eu nunca apreciei e que eu gostaria de nunca lembrar, mas ainda existe a necessidade de dizer algumas despedidas e definir algumas coisas antes de ir embora para sempre.
No segundo em que eu entro no estacionamento da escola, eu começo a procurar Damen. Procurando por ele, seu carro, qualquer coisa, qualquer pequena informação, qualquer coisa onde eu possa começar. Querendo ver tanto dele quanto eu posso, enquanto eu posso. E o sentimento decepcionado quando eu não o encontro. Eu estaciono o meu carro e vou para a aula, me protegendo contra o pânico, saltando para as conclusões, e depois reagindo apenas porque ele ainda não está aqui, porque mesmo que ele esteja se tornando cada vez mais normal quando o veneno o afasta lentamente de centenas de anos, a partir da maneira que ele parecia ontem – ainda lindo, ainda sexy, e não começando a ter idade como todos – eu estou prevendo o fundo do poço ao longo dos dias.
Além disso, eu sei que ele vai aparecer eventualmente. Quero dizer, por que não? Ele é a estrela indiscutível desta escola. O melhor, o mais rico, o único que dá as festas mais incríveis ou pelo menos é o que eu ouço. Ele praticamente ganha uma aclamação publica apenas por aparecer. Então me diga, quem poderia resistir a isso? Eu me ando entre os alunos, olhando todas as pessoas com quem eu nunca sequer falei, e que falaram mal de mim ou gritaram algo ruim. E mesmo que eu tenha certeza que não vão sentir minha falta, eu não posso deixar de me perguntar se eles sequer notariam que eu fui embora. Ou, se tudo isso vai ficar como eu penso, eu volto, eles voltam, e o tempo que passei aqui equivale a menos de um pontinho em sua tela. Eu respirei fundo e segui para aula de Inglês, me preparando para ver Damen com Stacia, mas a encontrando sentada sozinha em seu lugar. Quer dizer, ela está fofocando com Honor e Craig como de costume, mas Damen não está em nenhum lugar a vista. E quando eu passo no caminho dela para o meu lugar, pronta para praticamente qualquer coisa que ela poderia atirar no meu caminho, eu encontro apenas o silêncio, a recusa impassível de me reconhecer e tentar me fazer tropeçar, o que me enche de medo e inquietação.
Depois de me sentar em meu lugar e permanecer ali, eu passo os próximos cinquenta minutos olhando entre o relógio e a porta, minha ansiedade crescendo a cada momento que passa. Imaginando todos os tipos de cenários horríveis até que, finalmente, a campainha toca e eu disparo para o corredor. E no quarto período quando ele ainda não apareceu, estou quase num ataque de pânico em desenvolvimento quando eu ando para a sala de história e encontro Roman indo também.
— Ever. — o Sr. Munoz diz, quando eu permaneço ao lado dele, boquiaberta para a cadeira vazia de Roman quando o meu estômago se enche de pavor. — Você tem um monte de recuperação para o que fazer. — Eu olho para ele, sabendo que ele quer discutir a minha participação, minhas atribuições não atendidas, e os tópicos irrelevantes que eu não preciso ouvir. Então eu corro para a porta, correndo através do pátio e para a direita depois das mesas do refeitório antes de eu parar na calçada, ofegante em alívio quando o vejo. Ou não é ele, mas sim o seu carro. O BMW preto lustroso que ele tanto aprecia, que agora é revestido por uma espessa camada de poeira e sujeira e um pouco desajeitadamente estacionado na zona onde estacionar é proibido.
Ainda assim, apesar do seu estado imundo, eu olho para ele como se fosse a coisa mais linda que eu já vi. Sabendo que, se seu carro está aqui, então ele está aqui. E tudo está bem. E assim que eu estou pensando que eu deveria tentar retirá-lo dali para que ele não seja rebocado, quando alguém pigarreia por trás de mim e uma voz profunda diz:
— Com licença, mas você não devia estar na sala de aula?
Eu me viro, quando fito o diretor Buckley, então eu digo:
— Hum, sim, mas primeiro eu tenho que... — eu me dirigindo ao mal estacionado Beemer (referencia ao BMW) de Damen como se eu estivesse fazendo um favor não apenas para o meu amigo, mas por uma questão da escola também.
Mas Buckley está menos preocupado com as violações de estacionamento e mais preocupado com os repetitivos infratores de vadiagem como eu. E ainda sofrendo com o nosso último encontro infeliz quando declarou a Sabine meu caso de expulsão de suspensão, ele pisca os olhos enquanto ele me olha e diz:
— Você tem duas escolhas. Eu posso chamar sua tia e pedir para ela sair do trabalho para que ela possa vir aqui, ou... — Ele faz uma pausa, tentando me matar com o suspense, que mesmo que você não precise ser vidente para saber onde isso vai dar. — Ou eu posso escoltar você de volta para a aula. Qual você prefere?
Por um momento, me sinto tentada a escolher a opção um só para ver o que ele faria. Mas no final, eu o sigo de volta à minha classe. Seus sapatos batendo no cimento quando ele me conduz através da porta do Sr. Muñoz, onde meu olhar pousa em Roman que não está apenas ocupando o seu lugar, mas balançando a cabeça e rindo quando eu vou de volta para o meu lugar.
E mesmo que Muñoz esteja acostumado com meu comportamento errático até agora, ele ainda faz questão de me chamar. Pedindo-me para responder a todos os tipos de perguntas sobre fatos históricos, incluindo os que não estudamos. E a minha mente esta tão preocupada com Roman e Damen e meus planos futuros que acabo respondendo roboticamente, vendo as respostas que ele tem em sua cabeça e repetindo-as praticamente na íntegra.
Então, quando ele diz:
— Então me diga, Ever, o que eu tinha para jantar na noite passada?
Eu automaticamente digo:
— Dois pedaços de pizza e um copo e meio de Chiante.
Minha mente está tão inconsciente nos meus próprios dramas pessoais que é um momento antes de eu perceber que sua boca esta escancarada.
Na verdade, todo mundo está escancarado. Bem, todo mundo, mas Roman só balança a cabeça e ri ainda mais. E, assim quando a campainha toca e eu escapulir pela porta, passos Muñoz caminha até mim e diz:
— Como você faz isso?
Eu pressiono meus lábios e dou de ombros, como se eu não tivesse nenhuma ideia do que ele está falando. Embora seja claro que ele não está a ponto de deixar isso pra lá, ele está se perguntando por semanas.
— Como você sabe essas coisas? — Diz ele, seus olhos se estreitando nos meus. — Sobre fatos históricos aleatórios que nunca estudou ou sobre mim?
Eu olho para o chão e respiro profundamente, imaginando se jogar nele um osso iria machucá-lo. Quero dizer, eu estou saindo esta noite, e as chances são de que ele nunca vai se lembrar disso de maneira nenhuma, de modo que mal podia fazer lhe dizer a verdade?
— Eu não sei. — Eu dou de ombros. — Não é como se eu fizesse nada. Imagens e informações apenas aparecem na minha cabeça.
Ele olha para mim, esforçando-se sobre acreditar ou não. E não tendo tempo ou vontade para tentar convencê-lo, mas ainda querendo deixá-lo com algo agradável, eu digo:
— Por exemplo, eu sei que você não deve desistir de seu livro, porque vai ser publicado um dia.
Sua boca se abre, os olhos arregalados, sua expressão oscilando entre a selvagem esperança e completa descrença. E mesmo que ele me mate por acrescentar isso, embora a ideia me dá vontade de vomitar, eu sei que há algo mais que precisa ser dito, é a coisa certa a fazer. Além disso, o que poderia machucá-lo? Quer dizer, eu estou saindo de qualquer forma, e Sabine merece sair e se divertir um pouco. E exceto pela sua inclinação para os boxeadores da Rolling Stones, as canções do Bruce Springsteen, e sua obsessão com os tempos do Renascimento – ele parece inofensivo. Para não falar como ele não vai passar de qualquer maneira em qualquer lugar desde que eu a vi especificamente se casando com um cara que trabalha em seu edifício.
— O nome dela é Sabine. — digo, antes que eu tenha uma chance de pensar sobre isso e mudar minha mente. Então, vendo a confusão em seus olhos, eu acrescento: — Você sabe, a delicada loira na Starbucks? A que derramou todo o café com leite em sua camisa? A que você não consegue parar de pensar?
E quando ele olha para mim, fica claro que ele está sem fala. E, preferindo deixá-lo assim, eu recolho minhas coisas e vou em direção a porta, olhando por cima do meu ombro quando digo:
— E você não deve ter medo de falar com ela. Sério. Apenas engula isso e se aproxime dela já. Você vai descobrir que ela é realmente agradável.

4 comentários:

  1. HAHHAHHAKKKKKRSRRSRRSRSR Sabia que isso ia acontecer!
    " — Então me diga, Ever, o que eu tinha para jantar na noite passada?
    Eu automaticamente digo:
    — Dois pedaços de pizza e um copo e meio de Chiante."
    kkkkkkkkk

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  2. "— O nome dela é Sabine — digo, antes que eu tenha uma chance de pensar sobre isso e mudar minha mente. Então, vendo a confusão em seus olhos, eu acrescento: — Você sabe, a delicada loira na Starbucks? A que derramou todo o café com leite em sua camisa? A que você não consegue parar de pensar?
    E quando ele olha para mim, fica claro que ele esta sem fala. E, preferindo deixá-lo assim, eu recolho minhas coisas e vou em direção a porta, olhando por cima do meu ombro quando digo:
    — E você não deve ter medo de falar com ela. Sério. Apenas engula isso e se aproxime dela já. Você vai descobrir que ela é realmente agradável."

    Lembrei muito de quando a Ava falou que a Sabine iria se casar... ♡♡♡

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  3. Gente... Não parece que esse menino do mau ai é a encarnação da Drina?!! Lendo demais pra chegar no final do livro...

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!