18 de outubro de 2015

Quarenta e um - Blitz faz um mau negócio

EU TINHA QUE tirar o chapéu para Nabbi. Ele servia nachos pré-morte deliciosos.
Estava na metade do meu prato de gostosura potencializada por guacamole quando Júnior apareceu. Ao bater os olhos nele, me perguntei se não seria mais rápido só beber tudo que havia na Bum Papai e explodir logo, porque não gostei das nossas chances de negociar com o velho anão.
Júnior parecia ter duzentos anos. Tufos de cabelo grisalho se projetavam da cabeça cheia de manchas. A barba ilustrava perfeitamente a palavra desgrenhada. Os olhos castanhos maliciosos disparavam pelo bar como se ele estivesse pensando? Odeio isso. Odeio aquilo. E odeio muito aquilo lá. Ele não era fisicamente intimidante, tinha um passo arrastado apoiado em um andador dourado, mas estava escoltado por uma dupla de guarda-costas anões tão corpulentos que poderiam ser jogadores de futebol americano.
Os outros clientes se levantaram e saíram em silêncio, como em uma cena de filme de faroeste.
Blitzen e eu ficamos de pé.
— Júnior. — Blitzen fez uma reverência. — Obrigado por vir se encontrar conosco.
— Quanta coragem! — vociferou Júnior.
— Quer meu banco? — ofereceu Blitzen. — É Lar de Retaguarda, feito por...
— Não, obrigado. Vou ficar de pé, tenham a honra de conhecer meu andador, Arrastador de Vovó, famoso entre produtos geriátricos, feito pela enfermeira Bambi, minha assistente particular.
Mordi o lábio. Acho que gargalhar não seria um gesto diplomático.
— Este é Magnus, filho de Natalie — apresentou Blitzen.
O velho anão olhou para mim de cara feia.
— Sei quem ele é. Encontrou a Espada do Verão. Não dava para esperar até eu morrer? Estou velho demais para essa bobagem de Ragnarök.
— Foi mal — falei. — Eu devia ter consultado você antes de ser atacado por Surt e enviado para Valhala.
Blitzen tossiu. Os guarda-costas me avaliaram como se eu tivesse acabado de tornar o dia deles mais interessante.
Júnior riu.
— Gostei de você. É grosseiro. Vamos ver essa espada, então.
Mostrei a ele o truque do pingente mágico. Nas luzes fracas de néon do bar, as runas da lâmina brilharam em laranja e verde.
O velho anão estalou a língua.
— É mesmo a espada de Frey. Má notícia.
— Então você está disposto a nos ajudar? — perguntou Blitzen.
— Ajudar vocês? — Júnior ofegou. — Seu pai era meu nêmesis! Você denegriu minha reputação. E agora quer minha ajuda. Você tem entranhas de ferro, Blitzen, tenho que admitir.
Os tendões no pescoço de Blitz pareciam prestes a explodir na gola engomada.
— A questão aqui não é nossa desavença pessoal, Júnior. A questão é a corda. É prender Fenrir.
— Ah, claro — Júnior olhou de cara feia para os guarda-costas. — O fato de meu pai, Eitri Sênior, ter sido o único anão talentoso o bastante para fazer Gleipnir e seu pai, Bilì, ter passado a vida questionando a qualidade da corda... não tem nada a ver com a história!
Blitzen apertou a algibeira de lágrimas de ouro vermelho. Eu estava com medo de que ele tacasse o saquinho na cabeça de Júnior.
— A Espada do Verão está bem aqui. Surt está planejando libertar o Lobo em seis noites midgardianas. Vamos fazer o que estiver ao nosso alcance para impedi-lo. Mas você sabe que a corda Gleipnir passou da validade. Precisamos de informações sobre as amarras do Lobo. Mais importante, precisamos de uma corda substituta por garantia. Só você tem o talento para fazer isso.
Júnior colocou a mão em concha ao redor do ouvido.
— Diga essa última parte de novo.
— Você é talentoso, seu velho cascudo... — Blitz hesitou. — É o único que tem a habilidade para fazer uma nova corda.
— Verdade — Júnior deu um sorrisinho debochado. — Acontece que já tenho uma corda substituta pronta. Não por causa de problemas com Gleipnir, fique sabendo, nem por causa das acusações escandalosas da sua família sobre a qualidade dela, mas só porque gosto de estar preparado. Ao contrário do seu pai, devo acrescentar, que foi sozinho como um idiota dar uma olhada no lobo Fenrir e acabou morto.
Tive que entrar na frente de Blitzen para impedir que ele atacasse o velho anão.
— Tudo bem, então — falei. — Rapazes, não é hora para isso. Júnior, se você tem uma corda nova, ótimo. Vamos falar sobre o preço. E, hã, também vamos precisar de um belo par de brincos.
— Ah. — Júnior limpou a boca. — Não me diga. Para a mãe de Blitzen, sem dúvida. O que oferecem como pagamento?
— Blitzen, mostre para ele.
Blitz ainda estava com um olhar selvagem de fúria, mas abriu a algibeira e virou algumas lágrimas de ouro vermelho na palma da mão.
— Hã! — exclamou Júnior. — Um preço aceitável... ou seria, se não fosse Blitzen. Vou vender o que você quer por essa bolsinha de lágrimas, mas a honra da minha família vem primeiro. Já está mais do que na hora de acertarmos essa briga. O que você diz, filho de Freya? Uma competição, você e eu. As regras tradicionais, a aposta tradicional.
Blitzen recuou até o bar. Contorceu-se tanto que quase consegui enxergar a herança dos ancestrais vermes. (APAGAR. Não me sabote, memória de longo prazo. APAGAR!)
— Júnior — disse ele — você sabe que eu não... Eu não poderia...
— Devemos marcar amanhã, ao esmusguear? — perguntou Júnior. — O painel de jurados pode ser comandado por uma pessoa neutra. Talvez Nabbi, que certamente está escutando atrás do bar neste instante.
Alguma coisa bateu na plataforma. Atrás do balcão, a voz abafada de Nabbi disse:
— Seria uma honra.
— Aí está! — Júnior sorriu. — E então, Blitzen? Desafiei você de acordo com nossos antigos costumes. Você vai defender a honra da sua família?
— Eu... — Blitzen abaixou a cabeça, desanimado. — Onde vamos nos encontrar?
— Nas forjas na praça Kenning — disse Júnior. — Ah, vai ser divertido. Vamos, rapazes. Tenho que contar para a enfermeira Bambi!
O velho anão foi embora, seguido pelos guarda-costas. Assim que eles saíram, Blitzen desabou no Lar de Retaguarda e bebeu tudo o que havia na Vasilha Dourada.
Nabbi apareceu atrás da bancada. As sobrancelhas de taturana se contraíam de preocupação enquanto ele enchia a taça de Blitz.
— Este é por conta da casa, Blitzen. Foi um prazer conhecer você.
Ele voltou para a cozinha e me deixou sozinho com Blitz e Taylor Swift cantando “I Know Places”. A letra ganhou um novo significado em um mundo anão subterrâneo.
— Você vai explicar o que acabou de acontecer? — perguntei. — O que é essa disputa ao esmusguear? Aliás, o que é o esmusguear?
— Esmusguear... — Blitzen olhou para o copo. — A versão anã do amanhecer. Quando o musgo começa a brilhar. Quanto à disputa... — Engoliu em seco. — Não é nada. Tenho certeza de que você vai conseguir prosseguir na missão sem mim.
Nesse momento, a porta do bar se abriu. Sam e Hearthstone entraram cambaleando, como se tivessem sido empurrados de um carro em movimento.
— Eles estão vivos! — Eu me levantei com um pulo. — Blitz, olhe!
Hearthstone estava tão empolgado que não conseguia nem gesticular. Correu e quase derrubou Blitzen do banco.
— Oi, amigão. — Blitz bateu nas costas dele de forma distraída. — É, também estou feliz em ver você.
Sam não me abraçou, mas conseguiu dar um sorriso. Estava arranhada e coberta de folhas e galhos, mas não parecia muito machucada.
— Magnus, estou feliz por você ainda não ter morrido. Quero estar presente quando isso acontecer.
— Obrigado, al-Abbas. O que houve com vocês?
Ela deu de ombros.
— Ficamos escondidos embaixo do hijab pelo tempo que conseguimos.
Com todas as outras coisas que estavam acontecendo, eu tinha me esquecido disso.
— É, e qual é a do lenço? Você tem um hijab da invisibilidade?
— Não me torna invisível. É apenas camuflagem. Todas as valquírias ganham capas de cisne, que nos ajudam a nos esconder quando necessário. Eu transformei a minha em um hijab.
— Mas você não virou cisne. Virou musgo de árvore.
— A capa pode fazer coisas diferentes. De qualquer modo, esperamos o esquilo ir embora. O latido me deixou abalada, mas felizmente Hearth não foi afetado. Subimos pela Yggdrasill e ficamos lá por um tempo...
Um alce tentou nos comer, sinalizou Hearth.
— Como é? — perguntei. — Um alce?
Hearth grunhiu de exasperação. Ele soletrou: C-E-R-V-O. O gesto é o mesmo para os dois.
— Ah, bem melhor — comentei. — Um cervo tentou comer vocês.
— É — concordou Sam. — Dvalinn ou talvez Duneyrr, um dos cervos que vivem na Árvore do Mundo. Nós fugimos, pegamos uma entrada errada para Álfaheim...
Hearthstone estremeceu e fez um sinal: Ódio.
— E aqui estamos nós. — Sam olhou para Blitzen, ainda inexpressivo de choque. — E então... o que está acontecendo?
Contei sobre nosso encontro com Freya, depois sobre a conversa com Júnior. Hearthstone se apoiou no bar e soletrou com uma das mãos: c-o-n-f-e-c-ç-ã-o? Depois balançou a cabeça com veemência.
— O que você quer dizer com confecção? — perguntei.
— É a competição anã que testa a capacidade de forjar coisas — murmurou Blitzen, com a boca no cálice.
Sam tamborilou no machado.
— A julgar pela sua expressão, suponho que você não confie nas suas habilidades.
— Sou péssimo em forjar coisas.
Não é verdade, protestou Hearth.
— Hearthstone — disse Blitzen — mesmo que eu fosse excelente em forjar, Júnior é o anão mais habilidoso que existe. Ele vai me destruir.
— Pare com isso — falei. — Você vai se sair bem. E, se perder, vamos encontrar outro jeito de pegar aquela corda.
Blitzen olhou para mim com tristeza.
— É pior do que isso, garoto. Se eu perder, tenho que pagar o preço tradicional: minha cabeça.

31 comentários:

  1. porque não pode ser combate armado até a morte? porque? ._. isso é muito injusto

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    1. Pois é se fosse eu adoraria lutar até a morte num combate armado... Se bem q tbm é "divertido" competir com um anão. ..

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    2. É mitologia nórdica
      Tudo é resolvido mais ou menos assim

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    3. É uma lenda nórdica de como Loki consegue as armas dos deuses, eu acho.
      Dois grupos de anões competindo para ver quem faz as melhores armas. O Mjonir, a lança de Odin, Gungnir, os cabelos de Sif...
      E a cabeça é por quê os anões queriam cortar fora a cabeça de Loki. Apesar de que não era ele que estava trabalhando na forja.

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  2. Nada pode se resolver com um par ou impar?

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  3. Gente, não da pr visitar um bar sem correr risco de perder a cabeça na mitologia nórdica?

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  4. Pq tem sempre que ser a cabeça? pq não pode ser um dente ou um dedo?

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  5. Ainda acho que esse povo tem que sonhar pequeno e pedir só um dedo. Talvez as roupas se quiserem humilhar kkk.

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    1. Kkkkkkkk
      Se fossem só as roupas, estava ótimo!
      E certamente o Blitz ia ficar muito mal por ter que entregar suas roupas estilosas. Kkkkkkkkkk

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  6. Meu santo Zeus/Jupiter/Rá/Odin, porque sempre são as cabeças? Não podia ser uma aposta no par ou ímpar, quem perdesse pagava um mico e ficava tachado de idiota?

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  7. Na minha opnião (mt singela eh claro) esse povo nórdico so pensa em decaptaçao. Tao parecendo a rainha de copas "CORTEM AS CABEÇAS!!!!! " kkkkkk

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  8. "Blitzen recuou até o bar. Contorceu-se tanto que quase consegui enxergar a herança dos ancestrais vermes. (APAGAR. Não me sabote, memória de longo prazo. APAGAR!)"
    Kkkkkkkkkk

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  9. — Ajudar vocês? — Júnior ofegou. — Seu pai era meu nêmesis!
    Socorro,lembrei de Nêmesis a deusa grega da vingança,tipo..mua-hahaha

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  10. O nome da sam se pronúncia al Abbas ou alAbbas?

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    1. No caso seria au-abas ou alabas? Acho q é alabas

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  11. Algo me diz q o Rick é fã da Taylor Swift! Kkkk <3

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    1. Kkkkk tb acho. E algo me diz que ele não gosta muito do Justin Bieber. (Percy ñ gosta). Nem eu

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  12. a CABEÇA serio clichê de decapidação
    pelo menos não foi a alma

    ~coruja

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    1. Alma é com os deuses, cabeça com mortais... ok, vou ali me matar e já volt... bem, acho q n é uma idéia brilhante.

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  13. Descobri que os nórdicos gostam mt de decepar cabeças, e eu aqui achando os romanos radicas...

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  14. Gente pede uma unha. Cabeça não 😪😪

    - ems

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  15. Depois falam que os romanos que são rigorosos..... :-|

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    1. Os gregos são os mais bonzinhos! Nórdicos eram bem cruéis mesmo. Ouvi uma história de um viking que viajou e colocou um cinto de castidade na esposa( se não me engano era esse o nome). Mas o irmão dele tirou e fez 'coisas' com ela. Como o marido voltou mais cedo, ele pegou a mulher sem o cinto e fez ela contar tudo. Ele simplesmente amarrou o irmão, pegou uma faca e fez um rasgo nas costas dele, depois puxou os pulmões pra fora. Resumindo, o irmão morreu e se não me engano de novo, a mulher foi morta pelos outros homens da aldeia.

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  16. Primeiro a alma, agora a cabeça, povo sem humildade, poderia ser um fio de cabelo, ou um pedaço de unha.

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    1. Bem na verdade isso seria pior leria. Existem veiticeiros aí certo, ou ao menos gente q mexe com magia. Se eu aprendi alguma coisa com livros é: nunca deixe cabelo ou unha muito menos sangue com um feiticeiro.

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  17. tenham a honra de conhecer meu andador, Arrastador de Vovó, famoso entre produtos geriátricos, feito pela enfermeira Bambi, minha assistente particular.
    Kkkkkk Magnus se controla muito bem. Eu ouvindo uma coisa dessas ria pacas. Pera Júnior, deixar eu terminar de..kkkkk vou tomar meu remédio.

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  18. Mogami Kyoko-chan27 de maio de 2016 01:05

    — Magnus, estou feliz por você ainda não ter morrido. Quero estar presente quando isso acontecer.
    Rsrsrs morri com essa

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  19. "Hearthstone estava tão empolgado que não conseguia nem gesticular. Correu e quase derrubou Blitzen do banco.
    — Oi, amigão. — Blitz bateu nas costas dele de forma distraída. — É, também estou."

    SHIPPO

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