31 de outubro de 2015

Quarenta e três

Embora Jude tenha se oferecido para me seguir até em casa e me ajudar a arrumar as coisas, não queria que soubesse que daria o livro às gêmeas. Assim, inventei uma falsa desculpa sobre comprar copos de plástico e lhe pedi que fosse à loja a conseguisse alguns, preferivelmente vermelhos, brancos ou verdes. Logo rompi todos os limites de velocidade no caminho a casa aonde deixei a mercadoria.
― Primeiro, algumas regras do jogo — disse, sustentando o livro apesar dos dois pares de mãos que clamam por ele. ― Não posso simplesmente lhes dar isto, pois nem sequer me pertence. E não o podem levar a casa, pois Damen se horrorizaria. Assim, a única maneira é estudarem-no aqui.
Olham-se uma a outra, obviamente não lhes agradando a ideia, mas sem mais opções.
― Tem o lido? — Romy pergunta.
Encolho os ombros.
― Tentei intui-lo, mas não obtive muito sucesso. É mais um diário que qualquer outra coisa.
Rayne rola os olhos e se estira por ele de novo, enquanto sua irmã diz:
― Precisa ver profundidade, ler entre as linhas.
Olho entre elas, sem compreender.
― Está roçando a superfνcie. O livro não só está escrito no código Theban, as próprias palavras são um código.
― É um código dentro de um código — diz Rayne. ― Protegido por um feitiço. Jude não lhe disse isso?
Congelo-me, olhando entre elas, pensando que certamente ele não o fez.
― Vamos te mostrar — diz Romy, sua gêmea sustenta o livro enquanto vamos direto às escadas. — Te daremos uma lição.
Deixo as gêmeas estudando, as duas inclinando-se sobre o livro, enquanto me dirijo ao closet e me estiro para alcançar a caixa sobre a plataforma. Pego meu conjunto de cristais e velas, azeite e ervas, todo o material que sobrou dos elixires que fiz justo antes da lua azul, e manifestando o que fica na lista, que resulta ser o incenso de sândalo, e uma adaga, uma faca de fio duplo com uma jóia incrustada como a adaga que Damen fez.
Consigo dispor tudo e organizá-lo antes de tirar minha roupa e remover o amuleto. Colocando-o em uma prateleira ao lado da carteira metálica que Sabine me deu um par de meses atrás, sabendo que o profundo decote em V do vestido que decidir usar não oferece lugar para esconder o sortido de pedras. Além disso, depois do ritual que decidi fazer, não necessitarei mais dele.
Não necessitarei de nada mais.
Graças a Romy e Rayne, que me entregaram a chave que por tanto tempo procurei. E tudo o que eu precisava era uma espécie de contra-senha. As três formando um círculo ao redor do livro, com as mãos juntas, com os olhos fechados, cada uma de nós repetindo um verso que dizia:

“Dentro do mundo da magia
reside este livro
Para o qual somos as escolhidas
retornando a nosso lar
No âmbito de quão mística agora reside
Permite vislumbrar neste livro
e ver o que dentro está”

Ambas estão junto a mim enquanto aperto a palma em frente dele, assustada e fascinada quando o livro se abre em uma série de páginas até que descansa na página correta.
Ajoelho-me em frente dele, sem dar crédito a meus olhos. O que uma vez foi uma série de complicados e difíceis códigos, converteu-se em uma singela receita, indicando o que necessito para fazer o trabalho.
Tiro a roupa suja do cesto e me estiro para alcançar a bata de seda branca que raramente uso, mas que será perfeita para o ritual. Levando-a ao banheiro onde encho a banheira para um comprido e bom banho, o que, de acordo com o livro, é o primeiro passo importante em qualquer ritual. Não só para limpar o corpo e relaxar a mente de qualquer pensamento ou distração negativa, mas também para permitir o tempo para refletir sobre a intenção do feitiço, o resultado que se deseja ver.
Inundo-me na água, salpicando um pouco de sálvia e artemisa, e acrescentando uma clara pedra de cristal de quartzo para me ajudar na busca e centrar minha visão, fechando os olhos enquanto canto:

“Limpa e recupere meu corpo
Para que minha magia possa adequadamente unir-se
Meu espírito renasce, agora preparado para voar
Permitindo a minha magia sustentar-se esta noite”

Todo o tempo visualizo Roman na minha frente, alto, moreno, cabelo dourado, e profundos olhos azuis me olhando, enquanto ele se desculpa pelo terrível inconveniente que causou, pedindo perdão e oferecendo ajuda, voluntariamente me entregando o antídoto para o antídoto, de repente iluminado pelo engano que cometeu.
Repito a visão uma e outra vez até que minha pele esteja como uma uva-passa e já é tempo de seguir adiante. Saio do banho com minha túnica limpa, limpa e desencardida e pronta para proceder enquanto monto minhas ferramentas e acendo o incenso, passando a faca através da fumaça três vezes, quando digo:

“Chamo o Ar para que saque as energias escuras desta adaga
Permitindo somente à luz permanecer
Chamo o Fogo para que faça arder toda a negatividade desta adaga
Permitindo somente ao Bom permanecer”

Repito o verso para o resto dos elementos, chamando a Água e a Terra, para que tirem toda a Escuridão e deixem somente a Luz, concluindo a consagração, orvalhando sal sobre a faca e exortando aos mais altos poderes mágicos para ver o que fazer.
Limpo e consagro a casa enquanto caminho três vezes ao redor dela, agitando o incenso enquanto digo:

“Caminho ao redor deste círculo três vezes
Para consagrar esta terra
Evocando seu poder e amparo
Desenhando seus poderes mágicos para ti”

Formo um círculo mágico orvalhando sal no chão, não muito diferente ao que Rayne fez com Damen só faz umas semanas. Tomo meu lugar no centro e visualizo um cone de poder a meu redor enquanto disponho meus cristais, acendo as velas, e unjo a mim mesma com azeite, chamando os elementos de Fogo e Ar para que me ajudem em meu feitiço. Logo fecho meus olhos até que um cordão de seda branca e uma réplica de Roman manifestam-se em minha frente.

“Aonde vá meu feitiço te seguirá
Onde te esconda meu feitiço te encontrará
Onde descanse meu feitiço em ti pousará
Com este cordão cessam suas ações
Com meu sangue se libera teu conhecimento
Com este feitiço te uno a mim.”

Levanto a adaga e a deslizo através de minha palma, riscando a curva de minha linha da vida enquanto uma rajada de vento sopra através do círculo e um burburinho de aplausos se eleva. Minha cabeça é açoitada quando entrecerro os olhos contra os redemoinhos de vento. Meu sangue se estende pelo cordão até que está empapado e vermelho. Apresso-me para pendurá-lo ao redor do pescoço de Roman, meu olhar fixo no seu, dispondo-o a me oferecer o que procuro, antes de desterrá-lo como se nunca tivesse aparecido.
Levanto-me, com o corpo tremendo, suando, entusiasmada ao saber que terminou e está feito. É questão de tempo que ele me dê o antídoto para o antídoto. Então Damen e eu nos uniremos como um só.
O vento começa a diminuir enquanto o crepitar da eletricidade se dispersa também, e estou recolhendo as pedras e apagando as velas quando Romy e Rayne aparecem na porta, boquiabertas, com os olhos bem abertos, enquanto param ali me olhando surpresas.
― O que fez? — Pergunta Rayne, com o olhar indo desde meu círculo mágico de sal, a minha coleção de ferramentas, e logo a minha adaga coberta de sangue.
Observo-as, com um olhar firme e seguro, e digo:
― Relaxem. Terminou. Arrumei. E agora é só uma questão de tempo para que as coisas retornem à normalidade.
Estou a ponto de sair do círculo quando Romy grita:
― Espere! — A mão sustentada a frente, com os olhos chamejantes enquanto sua irmã acrescenta:
― Não se mova. Por favor, somente confie em nós desta vez e faça o que lhe dissermos.
Detenho-me, olhando entre elas, me perguntando que poderia ser aquilo tão importante que têm que me dizer. O feitiço funcionou. Posso sentir sua energia até zumbindo dentro de mim, e agora é somente questão de tempo antes que Roman apareça.
― Realmente o fez desta vez — diz Rayne, sacudindo a cabeça. ― Não sabe que a Lua está escura? Não se supõe que se faça magia quando a lua está escura, nunca. Nunca! É um tempo para pensar e meditar, mas nunca, jamais, praticar, a menos que esteja praticando magia negra.
Olho entre elas, me perguntando se ela fala a sério, e se for assim, que diferença poderia haver. Se o feitiço funcionou, funcionou. O resto são só detalhes. Certo?
Sua gêmea responde para acrescentar:
― A quem recorreu para que te ajudasse?
Penso em minha rima, da que estava orgulhosa por ter feito, lembrando a linha:
Evocando seu poder e amparo, e a repito a ela.
― Genial — diz Rayne, fechando os olhos e sacudindo a cabeça.
Romy está de pé junto a ela, e franzindo a sobrancelha quando diz:
― Durante a Lua Escura, a deusa está ausente, enquanto que a rainha do submundo se faz dominar. Em outras palavras, em lugar de chamar luz em seu feitiço, pediu à escuridão que te ajudasse.
E que Roman se unisse a mim! Olho boquiaberta, com os olhos abertos como pratos, olhando para elas duas, me perguntando se há uma forma de dar marcha à ré, rápida e facilmente, antes de que seja muito tarde!
― É muito tarde — dizem elas, lendo minha expressão. ― Tudo o que pode fazer agora é esperar pela próxima fase da Lua e tratar de desfazê-lo. Se puder.
― Mas... — a palavra morre em meus lábios quando o enorme da situação faz estragos em mim.
Lembro da advertência que antes me fez Damen, como às vezes quando as pessoas se envolvem com bruxaria e a mete na cabeça tomando um caminho muito mais escuro...
Olho-as incapaz de falar. Vejo Rayne sacudir a cabeça furiosamente enquanto sua irmã me olha e diz:
― Tudo o que pode fazer agora é se limpar e às ferramentas, queimar sua adaga, e esperar pelo melhor. E logo, se tiver sorte, deixaremos você sair do circulo para que toda a má energia que conjurou possa escapar.
― Se tiver sorte? — Olho-as, meu estomago se retorce. — Fala a sério? É realmente tão mau?
Meu olhar se entreabre entre elas quando Romy diz:
― Não o force. Não tem ideia do que acaba de iniciar.

8 comentários:

  1. Caramba! Quer fazer tudo sozinha. Por que não pediu ajuda pra gêmeas?
    Ansiosa pra saber como termina.
    Amando a saga. Obrigada Karina!

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  2. Merda... ela só faz merda...

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  3. Poxa Ever! Que chato, quer dizer agora que ela se uniu ao Roman, era só o que faltava!
    Ass: Bina.

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  4. Idiota! Burra! Precipitada! Só sabe agir por impulso e faz tudo errado!

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  5. Que raiva me deu da Ever agora! Vive fazendo burrices e nunca aprende com os erros. Não consegue nem mesmo escutar os conselhos do seu amor, Damen? Precipitada deveria ser o seu nome!

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  6. Mano, que vontade de espancar essa tonta! Meu Deus, cara! Ela por acaso iria morrer se pedisse ajuda pras gêmeas? Que eu saiba, não! Burra! Idiota!

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  7. aff as gémeas só tem 13 anos e tem mais mentalidade que a ever... Acho que já está bom dela amadurecer

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