30 de outubro de 2015

Quarenta e sete

— Ever você está pronta? Precisamos ir logo! Não queremos pegar tráfego!
— Eu já vou! — Grito, mesmo pensando que não. Só continuo parada ali, bem no meio do meu quarto olhando um pedaço de papel amassado que eu tinha encontrado no bolso dianteiro do meu jeans. E apesar de estar escrito com a minha letra, não tenho ideia de como chegou ali, muito menos o que significa. Leio:

1. Não voltar pelo agasalho.
2. Não confiar em Drina!
3. Não voltar pelo agasalho de maneira nenhuma.
4. Damen.

E pela quinta vez que leio, eu ainda estou tão confusa quanto na primeira. Quero dizer, qual agasalho? E por que se suponha que não devo voltar por ele? Sem mencionar, eu inclusive conheço alguma Drina? E quem diabos é Damen, e porque tem um coração em seu nome? Quero dizer, por que escrevi uma coisa como essa? Quando alguma vez eu escrevi uma coisa com essa? E o que pode significar?
E quando meu pai me chama outra vez, seguido do som de seus passos na escada, eu jogo o papel de lado, vendo-o pousar na minha mesa antes de cair no chão, propondo averiguá-lo quando voltarmos.
Como supunha, o fim de semana foi bom pra mim. É bom para me afastar da escola. É bom ficar afastada de meus amigos (e namorado). É bom para passar tempo com minha família de um modo que não fazemos há muito tempo. De fato, me sinto muito melhor agora, logo que chegarmos de volta à civilização, de volta a onde meu celular alcança sinal, vou mandar uma mensagem a Brandon. Eu não quero deixar as coisas como estão. E realmente acredito que qualquer coisa estranha que eu estava passando agora é passado.
Pego minha mochila e coloco no ombro, pronta para sair. Mas enquanto olho ao redor do nosso parque de campismo uma última vez, não consigo evitar a sensação de que deixei algo pra trás. Mesmo quando minha mochila está pronta e tudo parece está limpo, continuo parada ali, minha mãe me chamando uma e outra vez, até que se rende e finalmente manda Riley.
— Ei — ela diz, puxando fortemente minha manga. — Vamos, todo mundo está esperando.
— Em um minuto — murmuro. — Só tenho que...
— Tem o quê? — Ela sorri. — Tem que ficar parada ai por mais uma hora ou duas? Sério Ever, qual é o seu problema?
Só dou de ombros, brincando com o fecho da minha pulseira, sem ter ideia de qual é meu problema, mas sem poder afastar o sentimento de que algo está errado. Bem, não exatamente errado, mas como perdido ou incompleto. Como algo que eu deveria estar fazendo e que não estou. E simplesmente não posso dizer o que é.
— Sério. Mamãe quer que você se apresse, papai está preocupado porque não quer pegar tráfego, inclusive Buttercup quer que você se apresse para poder colocar a cabeça pela janela e desfrutar da brisa. Oh, e eu quero voltar pra casa antes que os programas bons terminem. Então, o que você diz de nos movermos, ok?
Mas como não me movo, como não faço nada, ela suspira e diz:
— Você esqueceu algo? É isso? — Avaliando-me cuidadosamente antes de olhar sobre seu ombro para nossos pais.
— Talvez. — Sacudo a cabeça. — Não tenho certeza.
— Tem a mochila?
Eu confirmo.
— Está levando seu celular?
Bato na minha bolsa.
— Está levando seu cérebro?
Eu rio, sabendo que estou agindo estranha e ridiculamente como o diabo, mas depois dos últimos dias pensei que devia ter me acostumado.
— Tem seu agasalho azul-celeste do acampamento de líderes de torcida do lago Pinecone — ela sorri.
— É isso! — Eu digo, meu coração batendo muito rápido. — Deixei à beira do lago! Diga a mamãe e papai que já volto!
Mas enquanto me viro, Riley larga minha manga e me puxa.
— Tranquila — ela sorri. — Papai a encontrou e deixou no banco traseiro. Verdade. Então podemos ir?
Eu olho para o parque de campismo uma última vez, depois sigo Riley até o carro. Sento-me atrás enquanto meu pai pega o caminho e um som abafado vem do meu celular. E mesmo quando acabo de tirá-lo da mochila, não tenho tempo de ler a mensagem, Riley já está tentando lê-la sobre meu ombro.
Obrigando-me a virar-me rapidamente, Buttercup se move, lançando-me um olhar que me faz saber que não está contente. Mas mesmo depois de tudo isso, Riley continua tentando ver a mensagem. Então reviro meus olhos e faço o de sempre, me queixo:
— Mãe!
Observando como muda a página de sua revista sem perder nada, automaticamente dizendo:
— Parem com isso vocês duas.
— Mas você nem está vendo! — digo. — Não estou fazendo nada! Riley não me deixa em paz.
— Isso é porque ela ama você — disse meu pai, buscando meus olhos pelo retrovisor — ela ama muito de você e quer está perto de você o tempo todo, simplesmente não se cansa de você.
As palavras enviam imediatamente a Riley para o outro lado do banco, apertando-se contra a porta e dizendo “Piada!” balançando sua perna tão forte quanto pode, irritando o pobre da Buttercup mais uma vez. Estremecendo-se dramaticamente, como se o pensamento fosse muito desagradável de suportar, enquanto meu pai encontra meu olhar e ambos rimos.
Abro meu celular, lendo a mensagem de Brandon que diz: desculpe, foi mal, me ligue à noite. E imediatamente respondo com um sorriso em meu rosto, esperando que essa sensação continue até que eu possa trabalhar emoção suficiente para enviar algo mais.
E justo quando inclino a cabeça contra a janela e começo a fechar os olhos Riley se vira e diz:
— Você não pode voltar Ever. Você não pode mudar o passado. Simplesmente é assim. — Olho para ela sem ter ideia do que ela está falando. Mas assim que começo a perguntar, ela move sua cabeça e diz, — Este é o nosso destino. Não o seu. Alguma vez parou para pensar que talvez você devesse sobreviver? Que talvez, não foi só Damen quem te salvou?
Olho para ela, minha boca aberta, tentando dar sentido as suas palavras. E quando olho ao redor do carro me perguntando se meus pais também escutaram, e vejo que tudo ficou congelado. As mãos do meu pai estão presas o volante, seus olhos arregalados olhando para frente, enquanto que as páginas da revista de minha mãe estão paradas na metade do caminho, e a cauda de Buttercup está capturada a meia altura. E mesmo quando olho pela janela, percebo que todos os pássaros estão congelados a meio voo, enquanto que os outros motoristas estão parados ao nosso redor. E quando olho para Riley outra vez, seu olhar intenso sobre o meu, enquanto se inclina até mim está claro que somos as únicas em movimento.
— Você tem que voltar — ela diz, sua voz em tom confiante, firme. — Tem que encontrar Damen antes que seja tarde demais.
— Tarde demais pra que? — eu grito, me inclino até ela, desesperada por entender. — E quem diabos é Damen? Por que você está me dizendo esse nome? O que isso significa...
Mas antes que eu pudesse terminar, ela já está revirando seus olhos e afastando-se como se nada tivesse acontecido.
— Cristo, espreitou muito? — Ela balança a cabeça. — Quero dizer, sério, Ever, tem limites! Porque independente do que ele pense — ela aponta para papai, — Não tenho absolutamente nenhum interesse em você.
Ela revira seus olhos e se afasta, cantando junto com seu Ipod, sua voz rouca, desafinada, cantando uma canção de Kelly Clarkson numa versão que nunca inventou. Alheia a minha mãe que sorri golpeando ligeiramente seus joelhos, alheia a meu papai, que me vê pelo retrovisor, nossos sorrisos se encontrando ao mesmo tempo, compartilhando uma piada que só nós dois compreendemos. Ainda mantenho o sorriso, quando um enorme caminhão passa em nossa frente batendo na lateral do nosso carro, fazendo o mundo inteiro ficar preto.

10 comentários:

  1. Tá vendo! Tá vendo! Não adiantou de NADA!

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  2. E AGORA DAMEN ESTÁ MORRENDO! FOI PERÇA DE TEMPO!

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  3. Isso Ever, vai acontecer tudo de novo ...

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  4. Noss q idiota ela tinha q ter ficado com Damen e cuidar dele, agora com tanta burrice ela só perdeu tempo, era pra ela ter escutado as gêmeas

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  5. Viu! Mesmo ela tendo voltado no tempo, e não ter esquecido o agasalho, o acidente aconteceu do mesmo jeito! NÃO tem como evitar o inevitável!!

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  6. Kkkkkkk...Me Divirto Tanto Lendo O Livro Quanto Lendo Os Comentarios...kkkkkkkkkkk!

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  7. Ela só conseguiu mudar a forma do acidente...

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  8. kkkk...Ja disse que tenhoa impressão que as gemeas são uma unica pessoa... eu acho que descobri.. sera... mega ansiosa pra saber se meu palpite esta certo...

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  9. se ela tivesse visto a bola de cristal até o fim saberia que o destino da familia dela sempre foi a morte!! dãrrrr
    assinado: synthia

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