18 de outubro de 2015

Quarenta e sete - Dou uma de terapeuta para um bode

COMO LOKI PROMETEU, acordei com um bode na cara.
Vou confessar: minha única experiência anterior com beijos foi com Jackie Molotov no sétimo ano, atrás da arquibancada, em um baile da escola. Sim, sei que é meio ridículo, considerando que agora eu tinha dezesseis anos. Mas, nos últimos tempos, andei meio ocupado, morando nas ruas e tal. De qualquer modo, peço desculpas para Jackie, mas receber respiração boca a boca de um bode me lembrou nosso beijo.
Virei o rosto e vomitei no rio convenientemente localizado ao meu lado. Meus ossos pareciam ter se quebrado e sido remendados com fita adesiva. Minha boca estava com gosto de grama mastigada e moedas velhas.
— Ah, você está vivo — disse o bode.
O animal pareceu ficar um pouco decepcionado.
Eu me sentei e grunhi. Os chifres do bode se curvavam para fora, como a metade de cima de uma ampulheta. Havia carrapichos por todo o pelo marrom desgrenhado.
Muitas perguntas surgiram na minha cabeça: Onde estou? Por que você fala? Por que seu bafo é tão ruim? Você andou comendo moedas?
Mas a primeira pergunta que saiu foi:
— Onde estão meus amigos?
— O elfo e a garota? — perguntou o bode. — Ah, morreram.
Meu coração ameaçou escapar pela garganta.
— O quê? Não!
O bode fez um gesto com os chifres. Alguns metros à minha direita, Hearthstone e Sam estavam caídos na praia rochosa.
Fui até lá. Coloquei as mãos nos pescoços deles e quase desmaiei de novo, dessa vez de alívio.
— Eles não estão mortos — falei para o bode. — Os dois têm pulsação.
— Ah. — O bode suspirou. — Bem, daqui a algumas horas eles provavelmente morrerão.
— Qual é o seu problema?
— Tenho muitos. Minha vida toda é um grande...
— Deixa pra lá — interrompi. — Só fique quieto.
O bode baliu.
— Claro, eu entendo. Você não quer saber dos meus problemas. Ninguém quer. Vou ficar ali, chorando, sei lá. É só me ignorar.
Com as mãos nas artérias carótidas de Sam e Hearthstone, mandei calor pelas pontas dos dedos para o sistema circulatório deles.
Sam foi fácil de curar. O coração dela era forte. Ela reagiu quase imediatamente, abrindo os olhos e ofegando para encher os pulmões de ar. Virou-se para o lado e começou a vomitar, o que encarei como um bom sinal.
Mas Hearthstone... havia alguma coisa errada além da água nos pulmões e o frio nos membros. Bem no centro dele, um nó denso de emoções sombrias sugava sua vontade de viver. A dor era tão intensa que me fez lembrar a noite da morte da minha mãe. Eu me lembrei das minhas mãos escorregando na saída de emergência, das janelas do nosso apartamento explodindo em chamas acima de mim.
A dor de Hearthstone era ainda pior. Eu não sabia exatamente pelo que ele tinha passado, mas seu desespero quase tomou conta de mim. Procurei uma lembrança feliz, da minha mãe e eu catando mirtilos selvagens em Hancock Hill, com ar tão limpo que consegui ver a baía Quincy cintilando no horizonte. Enviei uma onda de calor para o peito do elfo.
Os olhos dele se abriram.
Ele olhou para mim sem entender. Em seguida, apontou para o meu rosto e fez um gesto fraco, o sinal de luz.
— O que você quer dizer? — perguntei.
Sam grunhiu. Levantou-se apoiada em um braço e franziu a testa.
— Magnus... por que você está brilhando?
Olhei para as minhas mãos. Parecia mesmo que eu tinha sido mergulhado na luz de Fólkvangr. A aura quente e amanteigada estava começando a sumir, mas consegui sentir o poder residual formigando nos pelos dos braços.
— Aparentemente, se eu curo muita coisa de uma vez, começo a brilhar.
Sam fez uma careta.
— Obrigada por nos curar. Mas tente não entrar em combustão espontânea. Como Hearth está?
Eu o ajudei a se sentar.
— Como você está se sentindo, amigão?
Ele fez um círculo com o polegar e o dedo do meio, depois virou a mão para cima, o sinal para péssimo.
Isso não me surpreendeu. Considerando a profundidade da dor que senti dentro dele, minha surpresa era por ele não viver gritando sem parar.
— Hearth... — comecei a dizer — quando curei você, eu...
Ele colocou as mãos em cima das minhas, uma versão da linguagem de sinais para shhh.
Talvez fosse alguma ligação residual da magia da cura, mas, quando olhei nos olhos do elfo, consegui saber o que ele estava pensando. A mensagem dele ficou bem clara na minha cabeça, como quando Jacques, a espada, começou a falar.
DepoisObrigado... irmão.
Fiquei surpreso demais para responder.
O bode se aproximou.
— Você devia cuidar melhor do seu elfo. Eles precisam de muito sol, não dessa luz fraca de Jötunheim. E não se pode encharcá-los de água afogando-os em rios.
Hearthstone franziu a testa. Ele sinalizou: O bode fala?
Tentei esvaziar a mente.
— Hã, é, fala.
— E também entendo linguagem de sinais — comentou o bode. — Meu nome é Tanngnjóstr, o que quer dizer Rangedor de Dentes, porque... Bem, é um hábito nervoso meu. Mas ninguém me chama de Tanngnjóstr. É um nome horrível. Podem me chamar de Otis.
Sam se esforçou para ficar de pé. O hijab tinha se soltado e agora caía em volta do pescoço como uma bandana de pistoleiro.
— Então, Otis, o que o traz aqui a este lugar que é... onde quer que estejamos?
O bode suspirou.
— Eu me perdi. Típico. Estava tentando encontrar o caminho do acampamento, mas encontrei vocês. Imagino que agora vão querer me matar e me comer no jantar.
Franzi a testa para Sam.
— Você estava planejando matar o bode?
— Não. E você?
Olhei para Otis.
— Não estávamos planejando matar você.
— Não tem problema — disse ele. — Estou acostumado. Meu dono me mata o tempo todo.
— Ele... mata? — perguntei.
— Ah, claro. Basicamente, sou uma refeição falante sobre quatro patas. Meu terapeuta diz que é por isso que vivo deprimido, mas não sei. Acho que começou quando eu era pequeno...
— Calma aí. Quem é seu dono?
Hearthstone soletrou: T-H-O-R. D-Ã.
— Isso mesmo — disse o bode. — Mas o sobrenome dele não é . Vocês o viram por aí?
— Não...
Pensei no sonho. Ainda conseguia sentir o cheiro de amêndoas do hálito de Loki. Os deuses nem fingem lidar com o bem e o mal, Magnus. Pense nisso quando conhecer Thor.
Júnior nos mandou procurar Thor. O rio nos levou para onde precisávamos ir. Só que agora eu não tinha certeza de que queria estar ali.
Sam ajustou o lenço.
— Não sou fã de Thor, mas, se ele puder nos mostrar o caminho para Lyngvi, temos que falar com ele.
— Mas o bode está perdido — falei. — Como vamos encontrar Thor?
Hearthstone apontou para meu pingente. Pergunte ao Jacques.
Segurei o pingente. A espada surgiu e começou a zumbir.
— Ei — disse Jacques, com as runas brilhando na lâmina — fico feliz em ver você bem! Ah, aquele é Otis? Thor deve estar por perto.
Otis baliu.
— Você tem uma espada falante? Nunca fui morto por uma espada falante. Tudo bem. Só peço que seja um corte rápido pela garganta...
— Otis! — exclamou Jacques. — Você não me reconhece? Sou a espada de Frey, Sumarbrander. Nós nos conhecemos naquela festa em Bilskírnir, aquela em que você brincou de cabo de guerra com Loki.
— Ah... — Otis balançou os chifres. — Sei. Aquilo foi constrangedor.
— Jacques — falei — estamos procurando Thor. Alguma chance de você nos indicar onde ele está?
— É mole como pudim. — A espada puxou meu braço. — Estou sentindo uma grande concentração de ar quente e trovão para aquele lado!
Sam e eu ajudamos Hearthstone a se levantar. Ele não parecia muito bem. Os lábios estavam verde-claros. O elfo oscilava como se tivesse acabado de sair de uma montanha-russa muito radical.
— Otis — chamou Sam — nosso amigo pode montar em você? Talvez seja mais rápido.
— Claro — disse o bode. — Monte em mim, me mate, tanto faz. Mas tenho que avisar que estamos em Jötunheim. Se formos para o lado errado, podemos dar de cara com gigantes. Aí, seremos mortos e colocados em uma panela de ensopado.
— Não vamos para o lado errado — prometi. — Não é, Jacques?
— Hã? — disse a espada. — Ah, não. Acho que não. Tipo, temos sessenta por cento de chance de vivermos.
— Jacques...
— Brincadeirinha — disse ele. — Caramba, você é tão sem graça.
Ele apontou rio acima e nos guiou pela manhã enevoada, com leves nevascas e quarenta por cento de chance de morte.

35 comentários:

  1. Respostas
    1. ela é meio exibida mas é foda

      ~coruja

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  2. Tem alguma chance de ter uma espada falando debaixo do meu travesseiro amanhã pai?

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  3. Porque todos dizem que o Hearthstone é do Magnus? Tipo "seu elfo" (:

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    1. Pq não deve ser comum um elfo acompanhar humanos por aí... então se o elfo o segue, seria o "seu elfo". Se fosse humano, seria "seu amigo" (já que ninguém se dá ao trabalho de aprender os nomes deles...)

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  4. essa espada me faz rir mto. séloko. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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    1. COMO UMA ESPADA PODE SER TAO ENGRAÇADA ??????

      ~coruja

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  5. a espada me lembra puxão e os outros cavalos de rangers

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  6. Eu gosto também, mas...Anaklusmos ♥
    Leitora.

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  7. Só eu to comparando esse elfo com um satiro

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  8. Qndo ele falou acampamento logo achei q fosse o Grover perdido de novo kkkkkkkkkkk

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    1. kkkkkkkkkkkk
      também achei isso
      imaginando o Grover beijando o Magnus *cara maliciosa

      ~coruja

      P.S. :só penso merda

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    2. Saudades de Rangers, de puxão, do Will, do povo todo.
      -Sinead

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  9. Pensei no Treinador Hedge beijando‘ o Kurt Cobain hauaheua Hilário

    Luana L.

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  10. só eu de repente lembrei do Nico em sangue do olimpo com essa cena do Hearth

    ~coruja

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  11. Ué, o Magnus é bi?gay? Pq se for seria muito legal

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    1. Magnus Bane sim... Magnus Chase não sei :P

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    2. Eu tb não entendi essa parte! Pois Jackie não é nome de menino? Será?

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    3. Jackie serve para os dois...

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  12. O Heart me lembra o Dobby :s
    Tadinho do Otis, o bode na bad :(
    Algo me diz que vai dar merda a Sam com o Thor...

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  13. — Qual é o seu problema?

    — Tenho muitos. Minha vida toda é um grande...

    — Deixa pra lá — interrompi. — Só fique quieto.

    O bode baliu.

    — Claro, eu entendo. Você não quer saber dos meus problemas. Ninguém quer. Vou ficar ali, chorando, sei lá. É só me ignorar.

    Kkkkk esse bode sou eu!

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  14. Mogami Kyoko-chan28 de maio de 2016 00:59

    Adorei o bode gente — Claro — disse o bode. — Monte em mim, me mate, tanto faz kkkkkkkkkk
    E amei Sumarbrander ou Jacques ❤

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  15. Esse bode me lembrou aquele robô de Guia do mochleiro da Galáxia jasgkjasasf

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  16. Um bode deprimido e uma espada falante.Aonde esse livro está chegando?
    ~Filha de Hermes

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